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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.16 n.1 São Paulo Jan./Feb./Mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502001000100004 

4 - ORIGINAL ARTICLE

CONSEQÜÊNCIAS DA REMOÇÃO DO CÔNDILO MANDIBULAR NO CRESCIMENTO DA MAXILA E DA MANDÍBULA. ESTUDO EXPERIMENTAL EM RATOS1

 

Lucimar Rodrigues2
João Gualberto de Cerqueira Luz3

 

 

Rodrigues L, Luz JGC. Conseqüências da remoção do côndilo mandibular no crescimento da maxila e da mandíbula: estudo experimental em ratos. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jan-Mar;16(1).Available from: URL: http:/www.scielo.br/acb.

RESUMO: Alterações de crescimento mandibular decorrentes de traumas à articulação temporomandibular são freqüentes. Entretanto, seu mecanismo não é completamente esclarecido. Assim, mediante modelo experimental, analisou-se as conseqüências da remoção do côndilo mandibular no crescimento da maxila e da mandíbula. Foram utilizados 40 Rattus norvegicus , linhagem Wistar, com um mês de idade, distribuídos em três grupos: experimental, controle-operado e controle. Sob anestesia geral, no primeiro grupo foi removido o côndilo mandibular direito, no segundo foi feito acesso cirúrgico e no terceiro nenhum procedimento foi realizado. Os animais foram sacrificados aos três meses de idade e submetidos à incidências radiográficas axial e rostro-caudal do crânio fixado. A seguir, foi realizada dissecção, e obtidas a incidência radiográfica axial do crânio e lateral das hemi-mandíbulas. A partir destas, foram feitas mensurações cefalométricas por meio de um sistema de computador. A análise estatística mostrou diferença altamente significante a menor para o desvio da linha média mandibular e para o comprimento da mandíbula no grupo experimental, bem como diferença significante a menor na altura do ramo mandibular e no comprimento da maxila. Concluiu-se que a condilectomia na fase de crescimento levou a uma assimetria significante na mandíbula, havendo também alterações significantes no comprimento da maxila.
DESCRITORES: Côndilo mandibular. Remoção. Desenvolvimento maxilofacial.

 

 

INTRODUÇÃO

Pacientes com alterações mandibulares decorrentes de traumas que ocorrem durante o período de crescimento são freqüentes. Estas podem estar associadas a lesões da articulação temporomandibular (ATM) e dos músculos mastigatórios. Estes traumas são representados por lesões que resultam na destruição de componentes articulares como o côndilo e o disco articular. Sabe-se que é grande a freqüência de traumas à ATM, em especial as fraturas de côndilo. Também, procedimentos cirúrgicos diversos, que compreendem a excisão de tecido ósseo e muscular, podem ter resultados semelhantes1,2,3,4,5.

As conseqüências de lesões ao côndilo mandibular no crescimento facial são complexas e envolvem vários tipos de estudos. Estes incluem aspectos epidemiológicos, estudos clínicos e trabalhos experimentais. Entretanto, seu mecanismo não é completamente esclarecido.

Efeitos diversos no crescimento facial têm sido demonstrado experimentalmente diante de condilectomias uni ou bilaterais realizadas em macacos ou ratos. Assim, a ocorrência de assimetria, com menor altura do ramo mandibular, ângulo mandibular mais agudo, diminuição do comprimento mandibular, mordida aberta anterior, menor movimentação distal de molares, diminuição do comprimento facial, menor altura do processo alveolar e da maxila têm sido relatados diante destes procedimentos6,7,8,9,10,11,12,13.

A grande capacidade de reparação da ATM tem sido verificada experimentalmente diante de condilectomias, fraturas de côndilo, ostectomia do ramo mandibular, craniossinostose artificial e trauma à ATM10,11,14,15,16,17,18,19,20. Diante da

condilectomia tem sido observada neoformação óssea, com a formação de um novo côndilo10,11,14,15,16,18,19,21 . Neste caso, a relação oclusal é mantida por ação muscular compensatória ao crescimento da altura do corpo da mandíbula 15.

A proposta deste trabalho foi analisar as conseqüências da remoção do côndilo mandibular no crescimento da maxila e da mandíbula em ratos jovens.

 

MÉTODOS

Foram utilizados 40 Rattus norvegicus, linhagem Wistar, com idade de um mês e pesando em média 76g. Os animais foram divididos em três grupos, distribuídos da seguinte maneira: Grupo experimental – 20 animais submetidos ao procedimento cirúrgico de remoção do côndilo mandibular direito- condilectomia; Grupo controle-operado – 15 animais submetidos ao acesso cirúrgico ao côndilo mandibular direito, somente, sem lesões articulares; Grupo controle – 5 animais, como controle, não sofrendo portanto qualquer procedimento. Todos os animais foram pesados nos períodos inicial, com um mês de idade, e final, com três meses de idade.

O estudo foi realizado no Laboratório Experimental do Departamento de Cirurgia, Prótese e Traumatologia Maxilo-Faciais da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo- SP. Os animais receberam ração comercial granulada para roedores (Labina, Agribrands Purina) e água ad libitum. O manuseio dos animais foi de acordo com os princípios éticos propostos pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Para a intervenção cirúrgica foi utilizada quetamina (Ketalar, Parke-Davis) na dose de 25 mg/kg de peso corporal associada à xilazina (Rompum, Bayer) na dose de 10mg/kg de peso corporal, aplicados via intraperitoneal. Em seguida, foi realizada tricotomia, seguida de antissepsia com polivinilpirrolidona-iodo. O acesso cirúrgico ao côndilo foi obtido através de uma incisão horizontal com um centímetro de comprimento, localizada na região pré-auricular, acompanhando o arco zigomático, identificado através da palpação. A seguir, através de divulsão dos planos celular subcutâneo e muscular, foram afastadas as fibras posteriores do músculo masséter. No grupo experimental o côndilo foi seccionado na altura de seu colo por osteotomia linear, obtida com motor de baixa rotação e broca número 701 de carbide sob refrigeração com soro fisiológico, e removido (figura 1). O disco articular foi preservado. Concluindo o ato cirúrgico, sutura por planos, com fio de náilon monofilamento 5.0 agulhado. No grupo controle-operado, o ato cirúrgico foi concluído na exposição do côndilo mandibular após divulsão das fibras posteriores do músculo masséter, seguida de sutura.

 

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Nas duas primeiras semanas de pós-operatório os animais foram alimentados com ração fragmentada e, a seguir, na sua apresentação normal. Com três meses de idade, todos os animais foram sacrificados por dose letal de anestésico geral. A seguir, todas as cabeças removidas foram fixadas em formol a 10%, após a remoção da pele (figura 2).

 

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Mensurações cefalométricas por radiografias

Para a realização do exame radiográfico foi utilizado aparelho de raios X odontológico (Spectro II, Dabi-Atlante), no regime de 56 kV, 10 mA e 0,4 segundos, e filme radiográfico do tipo periapical. Durante a realização das incidências radiográficas tomou-se o cuidado de manter a cabeça dos animais em plano horizontal. As cabeças dos animais fixadas em formol foram submetidas às incidências axial e rostro-caudal. Na incidência axial do crânio fixado foi introduzida agulha para seringa tipo carpule (Agulhas descartáveis gengivais 27G longo, IBRAS – CBO - Indústrias Cirúrgicas e Ópticas S.A) para facilitar a identificação da linha média mandibular (figura 3). A seguir, as peças foram maceradas. Assim, foram removidos os tecidos moles, após a imersão em solução de borato de sódio a 30% com aquecimento à 100 ºC durante 90 minutos e mantidas em repouso durante 24 horas. Foi realizada dissecção, seguida da desarticulação da mandíbula e as hemi-mandíbulas separadas através da sínfise fibrosa. O crânio seco foi submetido à incidência axial e as hemi-mandíbulas à incidência lateral.

 

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Foi utilizado um sistema computadorizado para a obtenção das mensurações que foram feitas no Laboratório de Informática Dedicado à Odontologia (LIDO). A aquisição e processamento das imagens radiográficas foi obtida através da retina eletrônica do Fotovix II (Tamron Co., Japão) e transferidas para o microcomputador através da placa Iris 16 (Microimagem) e digitalizadas pelo programa (software) ImagemLab, calibrado em milímetros que permitiu a realização de mensurações lineares e angulares de pontos reproduzíveis.

Na incidência axial do crânio fixado (figura 3), foi traçada uma linha imediatamente anterior à bula timpânica nos lados direito e esquerdo, chamada de linha "L" e determinado o ponto mediano. A seguir, com base no ponto entre os incisivos inferiores, chamado ponto "i", e o ponto médio da linha "L" foi mensurado o ângulo formado, denominado ângulo "A", permitindo quantificar o desvio da linha média mandibular (figura 4). Na incidência rostro-caudal do crânio fixado (figura 5), foram mensuradas as alturas dos ramos da mandíbula direito e esquerdo, tendo como referência o ponto mais externo do arco zigomático e uma saliência presente na parte média da borda inferior versus linha de inserção do músculo masséter, correspondendo a vertente anterior da incisura antegônica (AZ–IA), e a distância entre o ponto mais externo do arco zigomático até o ponto da cortical externa do ramo da mandíbula (AZ-RM), referente ao posicionamento da mandíbula em relação às demais estruturas crânio-faciais (figura 6).

 

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Na incidência axial do crânio seco (figura 7), foram mensuradas a distância entre a bula timpânica e a raiz mesial do primeiro molar superior (BT-PM), a distância entre a bula timpânica e o forame infra-orbitário (BT-FI) e a distância entre o forame infra-orbitário e o ponto incisal (FI-PI) referentes ao comprimento da maxila (figura 8). Na incidência de norma lateral das hemi-mandíbulas (figura 9), para os lados direito e esquerdo foram utilizadas as seguintes mensurações: referentes à sua altura a distância entre a incisura antegônica e a intersecção da face distal do terceiro molar inferior com o ramo da mandíbula (IA-TM) e referentes ao seu comprimento a distância entre a inserção do incisivo no osso e o processo angular ( II-PA ) (figura 10).

 

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Os dados obtidos foram tabulados e receberam tratamento estatístico através do programa SPSS- ( Statistical Package for Social Science) versão 6.0 para Windows. Foram utilizados : o teste "t" de Student para dados pareados, para a comparação entre variáveis dos lados direito e esquerdo de cada grupo; o teste de Análise de Variância (ANOVA) para a comparação entre os valores dos grupos entre si; e o teste de Student-Newman-Keuls para a comparação entre grupos dois a dois, com a finalidade de verificar qual grupo seria o responsável pela diferença. Foi fixado o nível de significância de 5% (p£ 0,050) para todos os testes estatísticos.

 

RESULTADOS

Na análise macroscópica foi observada assimetria facial no grupo experimental e discreta assimetria no grupo controle-operado, com desvio da linha média mandibular para o lado operado. Foi verificado menor volume do músculo masséter do lado direito para o grupo experimental, discreto no grupo controle-operado e ausente no grupo controle. A seguir são descritas as mensurações obtidas e os significado das análises estatísticas aplicadas.

1 - Desvio da linha média mandibular

Os valores médios do ângulo "A" são observados na Tabela 1. Com a aplicação do teste ANOVA foi constatada diferença altamente significante, sendo p < 0,001. A seguir, com a aplicação do teste de Student-Newman-Keuls verificou-se que a média do grupo experimental é menor que as dos demais, sendo p < 0,050.

 

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2 - Distância arco zigomático - incisura antegônica

Os valores médios da distância entre o arco zigomático e a incisura antegônica para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 2. Com aplicação do teste "t" de Student foi constatada diferença significante no grupo experimental, com p =0,002 , não sendo significante para os grupos controle-operado, com p = 0,797 e controle ,com p = 0,337. Com a aplicação do teste ANOVA não houve diferença significante, sendo p = 0,0589 para o lado direito e p = 0,6383 para o lado esquerdo. Entretanto, com a aplicação do teste Student-Newman-Keuls foi encontrado para o lado direito uma tendência da média do grupo controle-operado ser maior que a média do lado direito do grupo experimental, com p<0,050 . Para o lado esquerdo não houve diferença significante.

 

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3 – Distância arco zigomático – ramo mandibular

Os valores médios da distância entre o arco zigomático e o ramo mandibular para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 2. Com a aplicação do teste "t" de Student não foi constatada diferença significante para todos os grupos, sendo o grupo experimental com p =0,667, o grupo controle-operado com p =0,279 e o controle, com p = 0,399. Com a aplicação do teste ANOVA não houve diferença significante , sendo p =0,1653 para o lado direito e p =0,3985 para o lado esquerdo. Com a aplicação do teste Student-Newman-Keuls não houve diferença significante tanto para o lado direito como para o esquerdo.

4 – Distância bula timpânica – raiz mesial do primeiro molar

Os valores médios da distância entre a bula timpânica e a raiz mesial do primeiro molar para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 3. Com a aplicação do teste "t" de Student foi constatada diferença significante no grupo experimental, com p= 0,004, e para o grupo controle-operado, com p= 0,009, não sendo significante para o grupo controle, com p= 0,337. Com a aplicação do teste ANOVA não houve diferença significante, sendo p= 0,0951 para o lado direito e p= 0,1006 para o lado esquerdo. Entretanto com a aplicação do teste Student-Newman-Keuls foi encontrada para o lado direito uma tendência da média para o grupo controle-operado ser maior que a média do grupo experimental, com p< 0,050. Para o lado esquerdo não houve diferença significante.

 

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5 – Distância bula timpânica - forame infra-orbitário

Os valores médios da distância entre a bula timpânica e o forame infra-orbitário para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 3. Com a aplicação do teste "t" de Student foi constatada diferença altamente significante no grupo experimental, com p< 0,001, não sendo significante para o grupo controle-operado, com p= 0,373, nem para o grupo controle, com p= 0,596. Com a aplicação do teste ANOVA houve diferença significante para o lado direito, com p= 0,0140 não havendo diferença significante para o lado esquerdo, com p= 0,1185. Com a aplicação do teste de Student-Newman-Keuls foi encontrado que para o lado direito a média do grupo controle – operado é maior que a média do grupo experimental, com p< 0,050. Para o lado esquerdo não houve diferença significante.

6 – Distância forame infra – orbitário – ponto incisal

Os valores médios da distância entre o forame infra – orbitário e o ponto incisal para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 3. Com a aplicação do teste "t" de Student foi constatada diferença significante no grupo controle–operado, com p= 0,001, não sendo significante para o grupo experimental, com p= 0,062, nem para o grupo controle, com p= 0,942. Com a aplicação do teste ANOVA houve diferença significante, sendo p= 0,0051 para o lado direito e p= 0,0074 para o lado esquerdo. Com a aplicação do teste de Student-Newman-Keuls foi encontrado que para o lado direito as médias do grupo controle–operado e do grupo controle são maiores que a média do grupo experimental, com p< 0,050. Também, para o lado esquerdo a média do grupo controle–operado é maior que a média do grupo experimental, com p< 0,050.

7 – Distância incisura antegônica – face distal do terceiro molar.

Os valores médios da distância entre a incisura antegônica e a face distal do terceiro molar para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 4. Com a aplicação do teste "t" de Student não foi constatada diferença significante para todos os grupos, sendo o grupo experimental com p= 0,140 , o grupo controle- operado, com p= 0,943 e o grupo controle, com p= 0,219. Com a aplicação do teste ANOVA não houve diferença significante, sendo p= 0,1016 para o lado direito e p= 0,1887 para o lado esquerdo. Com a aplicação do teste Student-Newman-Keuls não houve diferença significante tanto para o lado direito como para o esquerdo.

 

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8 – Distância inserção do incisivo – processo angular.

Os valores médios da distância entre a inserção do incisivo e do processo angular para os lados direito e esquerdo são observados na Tabela 4. Com a aplicação do teste "t" de Student foi constatada diferença altamente significante no grupo experimental, com p< 0,001 e diferença significante para o grupo controle–operado , com p= 0,005 , não sendo significante para o grupo controle, com p= 0,372. Com a aplicação do teste ANOVA houve diferença altamente significante para o lado direito, com p< 0,001, e houve diferença significante para o lado esquerdo, com p= 0,0368. Com a aplicação do teste Student–Newman–Keuls foi encontrado para o lado direito que as médias do grupo controle–operado e do grupo controle são maiores que a média do lado direito do grupo experimental, com p< 0,050. E, para o lado esquerdo, a média do grupo controle–operado é maior que a média do grupo experimental, com p< 0,050.

 

DISCUSSÃO

As conseqüências da remoção do côndilo mandibular no crescimento da maxila e da mandíbula foram analisadas em ratos jovens. Assim, quando os animais atingiram a fase adulta, foram obtidas incidências radiográficas diversas que serviram de base para mensurações cefalométricas que foram realizadas num sistema de computador. Desta maneira, com a aplicação de testes estatísticos, foi possível identificar as regiões da maxila e da mandíbula que sofreram alterações no seu crescimento em decorrência da condilectomia. Como procedimento cirúrgico, utilizamos a condilectomia unilateral. Sua indicação como modalidade de tratamento está restrita à hiperplasia do côndilo ativa, formas avançadas de artrite , neoplasias, seqüelas de trauma e anquilose fibrosa ou óssea 2, 5 .

A avaliação macroscópica revelou assimetria mandibular, bem como menor volume do músculo masséter do lado direito, mais intenso no grupo experimental. O menor volume muscular sugere uma conseqüência do procedimento cirúrgico realizado, pois foi mais acentuado no grupo experimental. Este dado está de acordo com um estudo que demonstrou não haver alterações significantes na musculatura mastigatória, apenas uma tendência da massa muscular ser menor no lado operado 16.

Neste estudo também foram observadas anomalias no crescimento dos incisivos superiores e inferiores. Houve um crescimento contínuo com alongamento extra-bucal, de forma anelar em alguns animais do grupo experimental, provavelmente pelo desvio da linha média mandibular e conseqüente falta de desgaste pelo uso normal. Alterações semelhantes foram relatadas diante de fratura de côndilo em ratos jovens 22.

Para mensurar as alterações no crescimento da maxila e da mandíbula, utilizamos o exame radiográfico. Realizamos inicialmente incidências axial e rostro-caudal do crânio fixado. Em seguida, as peças foram dissecadas e a mandíbula desarticulada, tendo sido feitas incidências axial do crânio seco e lateral das hemi-mandíbulas. Estas incidências já têm sido utilizadas em outras pesquisas 22, 23.

Constatou-se no presente estudo o desvio da linha média mandibular no grupo experimental que estaria associada à ocorrência de assimetria mandibular. A determinação deste desvio foi confirmada por mensuração angular, com o emprego de incidência axial do crânio fixado. Trabalhos experimentais têm verificado a ocorrência de assimetrias diante da condilectomia. A observação macroscópica de desvios mandibulares tem sido relatada, sendo representada por desvio ao lado operado10,13,16. Alguns autores, por meio de estudos cefalométricos, com base em radiografias, quantificaram as assimetrias7,12. A ocorrência de crescimento compensatório da mandíbula tem sido relatada mas, aparentemente, este é insuficiente para evitar assimetrias. Tem sido relatado que, diante de alterações na fossa mandibular, ocorre um crescimento compensatório do ramo e aumento no comprimento mandibular 18 .

Constatou-se também a diminuição da altura do ramo mandibular, no grupo experimental, havendo uma tendência desta entre os grupos, verificada por meio da incidência rostro-caudal do crânio fixado. Em estudos experimentais, o encurtamento do ramo mandibular foi descrito como conseqüência da condilectomia e como um fator que leva às assimetrias10,11,13,16. Pesquisas revelaram assimetria semelhante diante de fratura de côndilo ou de condilectomia, destacando a menor altura do ramo mandibular e de alterações funcionais 11.

No presente estudo tivemos indícios de não ter havido alterações no posicionamento da mandíbula em relação às demais estruturas crânio-faciais, considerando as mensurações obtidas em incidência rostro-caudal do crânio fixado. Porém, a ocorrência de alterações na forma, comprimento e posição ântero-posterior da mandíbula derivadas da condilectomia têm sido relatadas em diversos estudos 6,8,10,11,13. Contudo, não foram observadas alterações oclusais conforme demonstrado em outros trabalhos, o que significa que a função mastigatória foi preservada 7. Tendo em vista os achados deste trabalho, provavelmente uma ação muscular compensatória atuou na manutenção da função mastigatória.

Também foi verificada uma diminuição no comprimento da maxila, constatada por meio de todas as mensurações obtidas em incidência axial do crânio seco. A influência da condilectomia no crescimento da maxila, com diminuição da mesma, tem sido verificada por alguns autores 11,13,16. O papel da oclusão dental tem sido demonstrado no crescimento facial, promovendo uma associação no crescimento de maxila e de mandíbula24. Deste modo, interferências no crescimento mandibular provocariam diminuição no crescimento maxilar e vice e versa24. O crescimento do processo condilar também afeta o relacionamento maxilar vertical18.

O emprego de incidências laterais das hemi-mandíbulas permitiu verificar que houve alteração no comprimento mandibular mas não na altura de seu corpo. Tem sido demonstrado que, numa inter-relação entre os efeitos da condilectomia e o movimento dentário, a altura do corpo é compensada devido à continuidade do crescimento do osso alveolar, ocorrendo a distalização dos dentes molares em menor grau, mantendo assim, a função mastigatória9. Considerou-se importante achado neste trabalho a diferença altamente significante a menor para o comprimento da mandíbula no grupo experimental. A redução do comprimento da mandíbula como conseqüência da condilectomia tem sido relatada por meio de observações macroscópicas10,11,16. Alguns trabalhos demonstraram tais alterações através de mensurações7,8,13. De um modo geral, há uma tendência de persistência da assimetria mandibular durante o crescimento. Entretanto, existem relatos de resolução natural da assimetria3.

Embora o côndilo seja essencial para o crescimento normal da mandíbula, o mesmo não determina o seu crescimento. O crescimento mandibular é um produto de diferentes forças e dos agentes funcionais regionais de controle do crescimento25,26. O papel da cartilagem condilar como centro de crescimento tem sido revisto, considerando trabalhos experimentais realizados15. Assim, o crescimento da mandíbula é formado por partes relativamente independentes e de diferentes fatores. Portanto, diante da ausência do côndilo mandibular, apesar de haver deformidades na mandíbula, especialmente na porção posterior do ramo, a ação muscular ou outro tipo de força será responsável pela compensação do seu crescimento15.

O côndilo contribui particularmente no crescimento do ramo mandibular25 e acompanha o crescimento de todo o ramo, porém não o conduz26. Um estudo mostrou que houve redução do comprimento da mandíbula após condilectomia bilateral, porém a relação oclusal não foi alterada7. Isto seria explicado devido à intensa capacidade de adaptação, derivada de fatores mecânicos extrínsecos resultando em atividade funcional25.

A capacidade de a mandíbula crescer em resposta à estimulação funcional é destacada13. Entretanto, observa-se que o efeito alterado da função mastigatória pode causar assimetria no crescimento, podendo alterar a forma da mandíbula e da cavidade articular6. Um estudo mostrou que a função muscular é mais importante que o crescimento do côndilo na relação inter-maxilar17. Novos estudos, visando o papel da função muscular no crescimento de maxila e mandíbula, devem ser realizados.

 

CONCLUSÃO

A remoção do côndilo mandibular teve conseqüências no crescimento da maxila e da mandíbula. Houve desvio significante da linha média mandibular no grupo experimental. Este foi associado à menor altura do ramo da mandíbula, bem como do seu comprimento, no grupo experimental, pois não houve indícios de alterações no posicionamento da mandíbula em relação às demais estruturas crânio-faciais. Houve diferença significante para o comprimento da maxila a menor, nas várias mensurações.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)- Processo nº 95/7883-5 . Ao Prof. Dr. Moacir D. Novelli, pelo auxílio nas mensurações cefalométricas por sistema de computador.

 

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ABSTRACT: Mandibular growth disturbances due to trauma to the temporomandibular joint are frequent. However, their mechanism are not completely understood. Thus, through an experimental model, it was analyzed the consequences of removal of the mandibular condyle in the growth of the maxilla and mandible. In this study 40 one-month-old Rattus norvegicus, inbred Wistar, were utilized, distributed into three groups: experimental, sham-operated and control. Under general anesthesia, in the first group the right mandibular condyle was removed, in the second a surgical access was made, and in the third no procedure was made. The animals were sacrificed with three months of age, and submitted to axial and rostro-caudal radiographs of the fixed skulls. Thus, dissection was made, and axial projection of the dried skull and a lateral projection of the hemimandibles, were obtained. With these, cephalometric mensurations were made through a computer system. The statistical analyses showed a highly significant difference for the mandibular midline deviation and to the mandibular length in the experimental group, as well as significant difference for the mandibular ramus heigh and maxillary length. It was concluded that condylectomy in the growing period promoted a significant asymmetry in the mandible, also with significant alterations in the maxillary length.
SUBJECT HEADINGS: Mandibular condyle. Lifting. Maxillofacial development.

 

 

Endereço para correspondência:
Lucimar Rodrigues
Departamento de Cirurgia, Prótese e Traumatologia Buco-Maxilo-Faciais
Faculdade de Odontologia – Universidade de São Paulo
Av. Prof. Lineu Prestes, 2227
São Paulo – SP
05508-900

Data do recebimento: 23/10/2000
Data da revisão: 01/12/2000
Data da aprovação: 02/01/2001

 

 

1. Resumo da dissertação de mestrado realizada no Curso de Pós-graduação em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Faciais da Faculdade de Odontologia – Universidade de São Paulo (FOUSP).
2. Mestre em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Facial pelo Curso de Pós-graduação em Cirurgia e Traumatologia Buco Maxilo Faciais da FOUSP.
3. Professor Associado do Departamento de Cirurgia, Prótese e Traumatologia Buco Maxilo Faciais da FOUSP ( Professor Orientador ).

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