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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.16 n.1 São Paulo Jan./Feb./Mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502001000100008 

8 – ORIGINAL ARTICLE

EFEITO HISTOLÓGICO CAUSADO NA PAREDE POSTERIOR DA CAVIDADE ABDOMINAL PELA LAVAGEM COM SOLUÇÃO SALINA 0,9% AQUECIDA A DIFERENTES TEMPERATURAS: ESTUDO EXPERIMENTAL EM RATOS1

 

Alcino Lázaro da Silva2
Paulo Guilherme de Oliveira Salles3
Etienne Soares de Miranda4
Reginaldo Biet4
Sérgio Geraldo Veloso4
André Assis Lopes do Carmo4

 

 

Silva AL, Salles PGO, Miranda ES, Biet R, Veloso SG, Carmo AAL. Efeito histológico causado na parede posterior da cavidade abdominal pela lavagem com solução salina 0,9% aquecida a diferentes temperaturas: estudo experimental em ratos. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jan-Mar;16(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: A lavagem da cavidade abdominal com solução salina 0,9% aquecida é uma prática comum em cirurgia geral, mas, geralmente, não há um controle adequado da sua temperatura, sendo por vezes introduzida na cavidade abdominal a temperaturas elevadas, possivelmente causando lesões no nível celular. O objetivo do trabalho é estudar a célula da parede posterior da cavidade abdominal de ratos após o tratamento desta com solução salina 0,9% aquecida a graus diversos. Foram utilizados 28 ratos divididos em três grupos com 9 animais cada e um rato controle. O grupo A foi tratado com solução salina 0,9% a 37ºC, o grupo B a 45ºC e o grupo C a 60ºC. O rato controle não recebeu tratamento com solução salina 09,%. Em todos os grupos a solução salina 0,9% permaneceu na cavidade durante 1 minuto. Exame histopatológico revelou que no rato controle e nos grupos A e B as fibras musculares e as estriações celulares estavam intactas. No grupo C, no entanto, observaram-se princípios de degeneração celular. Como conclusão ressalta-se a importância de um controle efetivo da temperatura da solução salina 0,9% a ser introduzida na cavidade abdominal de ratos para prevenir um trauma térmico no nível celular.

DESCRITORES: Lavagem de cavidade. Degeneração celular. Tecido muscular. Serosa. Trauma térmico.

 

 

INTRODUÇÃO

A cavidade abdominal, vez por outra, é submetida a um procedimento terapêutico que se denomina lavagem e que não tem sido muito investigada.

Há uma rotina entre os cirurgiões de que todo o conteúdo anormal da cavidade deve ser lavado. Este conteúdo varia em composição, densidade, volume, resíduo e grau de infectividade. Por ser anormal e por impressionar ao cirurgião como elemento estranho, a maioria não vacila em lavar a cavidade para retirar, ao máximo, o conteúdo patológico.

Ao realizar esta lavagem, no entanto, ocorre um trauma físico e químico ao peritônio. Isso porque a solução salina 0,9% aí derramada tem temperaturas variadas e composição não isotônica em relação à célula mesotelial do peritônio.

Como essa célula possui uma função importante na absorção de líquidos da cavidade para o sistema circulatório, há que se imaginar um sofrimento quando agentes físico-químicos a agridem. Resulta desta agressão, edema e outras modificações estruturais, quando não ocorrem perdas importantes de tecido ou até mesmo a morte celular.

Como a temperatura normal é de 36,5ºC para o corpo e de 37ºC para a cavidade, uma temperatura muito baixa ou muito elevada poderá comprometer a estrutura celular.

A literatura, até onde pudemos alcançar, preocupa-se sempre com a indicação, o método e o resultado da lavagem da cavidade. Não há, ao que nos consta, trabalhos que respondem sobre o que aconteceu com a célula mesotelial submetida a graus variados de temperatura.

Nosso objetivo, pois, é estudar a parte interna da parede abdominal de ratos antes e após o tratamento da cavidade com solução salina 0,9% aquecida em graus diversos.

 

MÉTODOS

Vinte e oito ratos machos, com idade entre dois e três meses e peso variando entre 150 gramas e 315 gramas, foram divididos em três grupos (A, B e C) com nove animais cada e um rato como controle.

Para a lavagem da cavidade abdominal a solução salina 0,9% foi aquecida e mantida em temperatura constante por três aparelhos de banho-maria, um a 37ºC, outro a 45ºC e o outro a 60ºC, todos controlados por termostato do próprio aparelho e supervisionados por um outro termômetro, agora de mercúrio.

Os ratos foram submetidos à anestesia inalatória de éter sulfúrico e logo que cessavam os movimentos espontâneos, exceto os respiratórios, retirava-se o animal do balde e mantinha-o anestesiado, em decúbito dorsal, colocando sua cabeça parcialmente dentro de um BECKER contendo uma mecha de algodão umedecida com éter sulfúrico. Em nenhum animal foi realizada depilação ou tonsura.

Foi realizada, em todos os ratos, uma laparotomia mediana supra-umbilical de 2 cm de comprimento. Não foram manipuladas quaisquer vísceras. A parede abdominal foi elevada por pinças a fim de se obter uma conformação cilíndrica. A solução salina 0,9%, aquecida a 37ºC para o grupo A, 45ºC para o grupo B e 60ºC para o grupo C, foi introduzida na cavidade abdominal permanecendo nela durante um minuto, quando o conteúdo líquido foi deixado extravasar. O rato controle não recebeu tratamento com solução salina 0,9%, permanecendo com a cavidade abdominal aberta durante um minuto.

Laparorrafia com pontos contínuos de categute simples 3-0 e a pele suturada com pontos separados de náilon 3-0.

Decorridas 24 horas do término da operação, os ratos foram mortos com dose letal de éter sulfúrico inalatório e realizada relaparotomia nos mesmos moldes da anterior.

Após o inventário da cavidade abdominal, em todos os ratos, foram retirados 4 fragmentos, de 1 cm2 cada, do peritônio parietal e colocados em frascos contendo formol a 10% e devidamente identificados pelo grupo ao qual pertencia o rato.

Os fragmentos foram cortados longitudinalmente e processados segundo técnicas histológicas de rotina sendo corados pela hematoxilina-eosina (HE) para estudo ao microscópio de luz.

 

RESULTADOS

No final, para realização da biopsia, foram encontrados 6 ratos mortos, todos pertencentes ao grupo C. Os demais animais estavam com comportamento normal.

Durante a relaparotomia nenhuma alteração macroscópica foi notada, incluindo os órgãos, parede abdominal interna e o peritônio.

O exame microscópico dos fragmentos de parede posterior da cavidade abdominal do rato controle, assim como dos grupos A e B, não evidenciou diferença. As fibras musculares estavam sem alterações no arranjo e com estriações preservadas. (Figura 1)

 

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Figura 1 - Fibras musculares sem alterações histopatológicas

 

O grupo C revelou alterações sugestivas de degeneração celular tais como perda das estriações e vacuolização citoplasmática, tomando o tecido um aspecto mais homogêneo e amorfo. (Figura 2)

 

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Figura - Fibras musculares em degerenação

 

DISCUSSÃO

A lavagem peritoneal é um procedimento usual entre os cirurgiões quando operam peritonites supuradas, hemorrágicas, perfurativas, ou traumas que levam resíduos ou detritos para a cavidade. A urgência da operação, no entanto, impede uma termometria padronizada, e os líquidos utilizados apresentam temperaturas diferentes. Este fato é agravado pelo aumento do tempo de permanência da exposição do peritônio ao meio ambiente, assim como pela maior manipulação da cavidade.

O peritônio é uma serosa altamente diferenciada em proteção e absorção. Protege contra disseminação infecciosa, entre outras atividades protetoras, e absorve produtos úteis e inúteis ao organismo. Para que isso ocorra é necessário preservá-lo de traumas químicos e físicos.

Para investigar se haveria agressão do soro fisiológico à parte interna da parede abdominal, os ratos foram separados em grupos em que a temperatura da solução salina 0,9% variou entre 37ºC e 60ºC. Para que o experimento ficasse mais isento de outros agentes lesivos, não se manipulou o peritônio, deixando o trauma físico por conta só da solução salina 0,9% aquecida.

Como se viu em Resultados, a lesão a 60ºC foi evidente, caracterizando uma morfologia sugestiva de degeneração celular, a saber, perda das estriações, vacuolização citoplasmática e perda de sua cor característica.

No estudo histológico foi evidenciado o tecido adjacente ao peritônio, apesar de a biopsia dirigir-se ao peritônio parietal cavitário posterior, obviamente incluindo os tecidos da musculatura esquelética. O fato de não se encontrar o mesotélio no corte pode ser explicado por déficit na colheita do material, por perda no método de fixação (tecido mais delicado que o muscular) ou porque o processamento da peça permitiu à lâmina cortes a partir da face muscular.

Independentemente deste desacerto um fato é notório. Os óbitos ocorreram somente no grupo em que a temperatura foi a 60ºC. As lesões celulares de musculatura estriada parietal também apareceram somente nesse grupo. Essas lesões, nitidamente, são oriundas de coagulação ou lise protéica, no caso, decorrente da temperatura elevada da solução salina 0,9% introduzida na cavidade abdominal do rato.

Pode-se usar, portanto, a solução salina 0,9% para lavagem da cavidade abdominal, desde que a temperaturas mais brandas e, talvez, com menos traumas físicos e menos exposição da cavidade.

A experiência abre um caminho que pode ser útil à investigação sobre a fisiopatologia do peritônio. Como dissemos, é um setor muito nobre que necessita ser preservado para cumprir sua função de manter a homoestasia biológica.

O que vale mais: aspirar resíduos e detritos e deixar o peritônio fazer a sua própria defesa e higiene, ou aspirar e lavá-lo, exaustivamente, aumentando o trauma às suas células? O que vale mais: usar o soro à temperatura ambiente ou aquecê-lo, sem controle termométrico? Será que um estudo mais profundo, à microscopia eletrônica a 40ºC não haveria, também, alterações protéicas evidenciando maior sensibilidade das células aquecidas?

Sob o ponto de vista clínico, preferimos usar o que o peritônio nos oferece de bom, ou seja, a sua capacidade protetora e absortiva. Para aproveitá-la, no entanto, há que se evitar traumas e a lavagem é o seu grande representante. Se essa conduta é legítima cabe-nos aspirar secreções sem resíduos ou retirá-los após a lavagem. O resto fica por conta do peritônio que sabe mais de si que o cirurgião e o faz melhor.

 

CONCLUSÃO

Ressalta-se a importância de um controle efetivo da temperatura da solução salina 0,9% a ser introduzida na cavidade abdominal de ratos para prevenir um trauma térmico no nível celular.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecimentos in memorian pelas questões levantadas pelo Dr. Heine Pretti (Anestesiologista).

 

 

Silva AL, Salles PGO, Miranda ES, Biet R, Veloso SG, Carmo AAL. Experimental study in rats of the effect, on the posterior abdominal wall, of washing the abdominal cavity with 0,9% saline heated at different temperatures. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jan-Mar;16(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT: The washes of the abdominal cavity with 0,9% salt solution is a very common procedure in General Surgery. In general it doesn't exist an adequate temperature control, being sometimes introduced in the abdominal cavity the saline solution at high temperature, which may possibly cause cell injury. The aim of this work is to study the posterior wall abdominal cavity cell of mice, after it is treated with 0,9% salt solution heated at different degrees. We used 28 mice divided into 3 groups with 9 animals in each group and one as the control mouse. The group A was treated with 0,9% salt solution at 37ºC, the group B at 45ºC and group C at 60ºC. The control mouse wasn't treated with 0,9% salt solution. In all groups the 0,9% salt solution stayed in the abdominal cavity for 1 minute. Histopatologic exam revealed in the control mouse and group A and B the muscle fibers and cellular estriations was intact. In the group C, meanwhile observed principles of cellular degeneration. Concluding the importance of effective temperature control of 0,9% salt solution to be introduce in mice abdominal cavity must be emphasized to prevent thermal injury in cells.

SUBJECT HEADINGS: Abdominal cavity wash. Cellular degeneration. Muscular tissue. Serosa. Termic injury.

 

 

Endereço para correspondência:
Alcino Lázaro da Silva
Rua Guaratinga,151
Belo Horizonte – MG
30315-430
Tel: (31)273-0491

Data do recebimento: 25/11/2000
Data da revisão: 22/12/2000
Data da aprovação: 05/01/2001

 

1. Trabalho realizado no Laboratório da Pós-Graduação em Cirurgia e no Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.
2. Professor Titular de Cirurgia do Aparelho Digestivo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.
3. Especialista em Anatomia Patológica e Pós-Graduando em Anatomia Patológica pela Universidade Federal de Minas Gerais.
4. Acadêmicos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais.