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Acta Cirúrgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.16 n.3 São Paulo July/Aug./Sept. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502001000300006 

6 - ARTIGO ORIGINAL

EFEITO DO DICLOFENACO DE SÓDIO NA CICATRIZAÇÃO DA PAREDE ABDOMINAL DE RATOS. ESTUDO HISTOPATOLÓGICO, DA FORÇA DE RUPTURA E DO COLÁGENO TECIDUAL1

 

José Guilherme Minossi 2
Celso Vieira de Souza Leite 2
Luiz Eduardo Naresse 3
Maria Aparecida Marchesan Rodrigues 4
Aparecida Yoko Ono Angeleli 5
Shoiti Kobayasi 6

 

 

Minossi JG, Leite CVS, Naresse LE, Rodrigues MAM, Angeleli AYO, Kobayasi S. Efeito do diclofenaco de sódio na cicatrização da parede abdominal de ratos: Estudo histopatológico, da força de ruptura e do colágeno tecidual. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jul-Set;16(3). Disponível em: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: Com o objetivo de estudar os efeitos do diclofenaco sódico sobre a cicatrização da parede abdominal de ratos, foram utilizados 80 animais da linhagem Wistar divididos em dois grupos: Grupo 1: formado por 40 animais submetidos à laparotomia mediana e à injeção intramuscular de soro fisiológico durante quatro dias. Grupo 2: formado por 40 animais submetidos à laparotomia mediana e à injeção intramuscular de diclofenaco sódico durante quatro dias. Animais de ambos os grupos foram analisados no 5°, 7°, 14° e 21° dias de pós-operatório, correspondendo, respectivamente à M1, M2, M3 e M4. Em cada momento foram estudados 10 animais e os parâmetros analisados foram a evolução clínica, a força de ruptura, estudo histológico e o conteúdo de colágeno tecidual da parede abdominal. Os animais do grupo tratado apresentaram como complicações, deiscência e/ou hérnia incisional, perda ponderal e taxa de mortalidade, complicações estas não evidenciadas no grupo controle. Observamos também neste grupo, diminuição da força de ruptura no 7° e 14° dia de pós-operatório e diminuição da concentração de colágeno tecidual no 5°, 7° e 14° dia de pós-operatório. Ambos os parâmetros retornaram a valores normais no 21° dia de pós-operatório. Quanto ao estudo histológico, concluímos que a cicatriz da parede abdominal dos animais tratados com D.S. apresentam retardo do processo cicatricial em relação aos seus controles, caracterizado por uma menor fibrogênese, menor densidade de fibras colágenas, além de um número maior de complicações, como microabscessos, em torno dos fios de sutura.
DESCRITORES: Força de ruptura. Conteúdo de colágeno. Estudo anatomopatológico. Sutura abdominal.

 

 

INTRODUÇÃO

Os agentes antiinflamatórios não hormonais são fármacos de uso rotineiro em clínica, freqüentemente empregados no tratamento de doenças reumáticas, após traumatismos diversos ou no pós operatório, e, nesse caso, utilizados como agentes antiálgicos.

Estes agentes, embora possuam diferentes estruturas químicas, agem fundamentalmente por um mecanismo comum, ou seja, pela inibição da síntese de prostaglandinas, através da inibição da enzima ciclooxigenase 1,2,3. A enzima lipooxigenase também pode ser inibida por alguns agentes antiinflamatórios, e dentre esses, o diclofenaco sódico e a indometacina4.

No período pós operatório, os AINE têm sido administrados de forma preventiva (antes da incisão cirúrgica) ou terapêutica (após o término do efeito anestésico), com o objetivo de bloquear a liberação de substâncias que modificam o limiar de excitabilidade dos nociceptores periféricos e com isso a obtenção de analgesia. Como agentes isolados, são úteis nas dores de intensidade leve e moderada e, freqüentemente são associados aos opiáceos nas dores intensas5.

Os AINE são empregados no pós operatório por períodos curtos, 1 a 4 dias, sendo no início administrados preferencialmente por via parenteral e, as vezes, pela via oral ou retal 6,7.

Os efeitos negativos de vários agentes antiinflamatórios não hormonais sobre o processo cicatricial de feridas cutâneas já foram verificados em muitos trabalhos experimentais, tais como os verificados com aspirina, fenilbutazona, indometacina, ibuprofeno, flurbiprofeno, piroxicam8,9,10.

Takashima e col (1972), demonstraram experimentalmente que o diclofenaco sódico, administrado por via oral, em dose única diária de 4 mg/kg de peso corporal, inibe, efetivamente, a formação de granuloma ao redor de bolas de algodão implantados no subcutâneo de ratos. Este efeito foi semelhante ao observado com a indometacina, e, de maior intensidade que o observado quando da administração do ácido flufenâmico11.

Tsurumi e cols (1973), compararam os efeitos do diclofenaco sódico aos de outros agentes antiinflamatórios não hormonais sobre diversos modelos de inflamação subcrônica. Estes autores implantaram pequenas bolas de algodão no subcutâneo de ratos, que receberam a droga por via oral, em dose única diária de 2mg/kg de peso corporal, por 9 dias consecutivos, a partir do dia da operação. Observaram que este fármaco inibe a formação de granuloma em intensidade equivalente à da resposta observada com a indometacina e maior que a do efeito do ácido flufenâmico e fenilbutazona. A administração, também por via oral, em dose única diária de 5 mg/kg de peso corporal, reduziu significativamente a resistência tensil de feridas cutâneas de ratos no 6° dia pós-opertório, com resultado semelhante ao obtido com a indometacina e mais intenso do que com o ácido flufenâmico.12

Prandi Filho (1988), estudou os aspectos morfológicos e morfométricos do processo inflamatório provocado por fio de algodão no subcutâneo de ratos tratados com diclofenaco sódico, administrado por via intraperitoneal, em dose única diária de 10 mg/kg de peso corporal. A administração da droga foi iniciada após o término da operação e mantida até o momento do sacrifício dos animais, que ocorreu no 7o dia de pós-operatório. Observou atenuação do processo inflamatório em todas as fases estudadas, caracterizado por diminuição da proporção de leucócitos no 2° dia, de fibroblastos no 7° dia e da proporção de fibras colágenas13.

Fatureto e cols (1989), após implantarem fio de categute simples no subcutâneo de ratos que receberam diclofenaco sódico, também utilizando 10mg/kg de peso corporal, observaram redução do processo inflamatório no 3° e 7° dias e fibrose mais intensa no 15° dia nos animais tratados14.

Os efeitos deletérios das drogas antiinflamatórias não hormonais também tem sido demonstrados em trabalhos experimentais que analisam a cicatrização intestinal15,16,17,18,19.

Em relação à parede intestinal, Tognini e cols (1998)20, estudaram, em ratos, o efeito do diclofenaco de sódio na cicatrização do segmento músculo aponeurótico, utilizando o estudo histopatológico, observação qualitativa do processo cicatricial e análise quantitativa do colágeno. A droga foi utilizada na dose de 3mg/kg/dia, por via intramuscular, durante quatro dias consecutivos, em animais submetidos à laparotomia mediana. Concluíram que a cicatriz da parede abdominal apresentou menor quantidade de fibras colágenas no 7° e 14° dia de pós operatório, quando comparado ao animal do grupo controle.

Em experimentação posterior, Tognini (1999)21, utilizando outra classe de AINE (meloxican), na dosagem de 0,5 mg/kg por dia, por via intramuscular durante 4 dias consecutivos, também avaliando a cicatriz abdominal de ratos, concluiu que esta droga não exerceu efeitos deletérios na ferida operatória, quando analisada por métodos biomecânicos e morfológicos.

 

MÉTODOS

Foram utilizados 80 ratos da linhagem Wistar, pesando entre 180 e 200 g, fornecidos pelo Biotério Central do Campus de Botucatu-UNESP.

Os animais foram divididos por sorteio em dois grupos experimentais:

Grupo 1 - Controle (G1): Formado por 40 animais submetidos à laparotomia mediana e à injeção intramuscular (IM) de soro fisiológico (SF) durante quatro dias.

Grupo 2 - Tratado (G2): Formado por 40 animais submetidos à laparotomia mediana e à injeção intramuscular (IM) de diclofenaco de sódio (D.S.) durante quatro dias.

A análise dos parâmetros analisados em ambos grupos de animais foi realizada em 4 momentos experimentais, assim designados:

M1: 5° dia de pós-operatório.

M2: 7° dia de pós-operatório.

M3: 14° dia de pós-operatório.

M4: 21° dia de pós-operatório.

Os parâmetros analisados foram a evolução clínica, a força de ruptura, análise do aspecto macro e microscópico da cicatrização e o conteúdo de hidroxiprolina e proteína tecidual de um segmento da cicatriz abdominal, os quais foram avaliados em 10 animais de cada um dos momentos delineados anteriormente, em ambos os grupos.

Para o procedimento cirúrgico, os animais foram anestesiados com éter sulfúrico. Eram colocados em cubas de vidro com esteira de metal no fundo, sob a qual havia uma camada de algodão embebido em éter sulfúrico. Após estarem em plano anestésico, eram colocados em canaletas de madeira e a anestesia mantida por um cone nasal, contendo algodão embebido em éter.

Em seguida era realizado tricotomia da parede abdominal e antissepsia com álcool iodado a 2%. Realizava-se, à seguir, laparotomia mediana, iniciando-se a incisão no apêndice xifóide, tendo esta aproximadamente 5cm de comprimento em direção caudal.

O fechamento da parede era feito em dois planos de sutura, sendo o plano peritônio-músculo aponeurótico realizado com pontos separados de fio de nylon monofilamentar 6-0, equidistantes 2mm entre si e a pele era suturada com o mesmo fio em pontos separados, equidistantes 5mm entre si. Os fios cutâneos eram retirados nos 5° dia de pós-operatório.

O D.S. ou S.F. eram administrados por via I.M., na coxa posterior esquerda do animal, após prévia antissepsia com álcool iodado à 2%, utilizando-se seringa e agulha de insulina. Esta administração era realizada logo após o fechamento da parede abdominal, e posteriormente de 12/12 h durante 4 dias consecutivos. O D.S. foi injetado na dose de 10mg/kg/dia e o volume de S.F. era equivalente ao utilizado para administrar o D.S.

Os animais foram observados diariamente no pós-operatório, com relação à atividade física, alimentação, peso e cicatrização da incisão cirúrgica.

Nos momentos preconizados para o sacrifício, os animais foram novamente anestesiados com éter sulfúrico e, em seguida, submetidos à ressecção da cicatriz abdominal. O segmento retirado era retangular, com margens de 15mm da cicatriz, tendo este segmento englobado a pele, tecido músculo aponeurótico e peritônio.

Realizava-se exame macroscópico da cicatrização da parede logo após a retirada do fragmento e a anotava-se as alterações quando presentes.

O sacrifício dos animais era realizado com superdosagem de éter sulfúrico e complementado pela secção da aorta torácica.

Do fragmento retirado eram obtidos 3 segmentos perpendiculares à linha de sutura, tendo 10mm de largura cada um. O segmento superior era destinado ao estudo histopatológico, o segmento médio utilizado para o estudo da força de ruptura e no inferior era quantificado a proporção colágena

Para o estudo da força de ruptura do segmento abdominal, era desprezada a camada epidérmica deste, assim como eventuais fios de sutura. À seguir, a amostra era transferida para um recipiente contendo S.F. 0,9% à temperatura de 37o C por 30 minutos, e após, submetida ao estudo de força de ruptura em uma máquina de ensaios de acionamento eletrônico conectada à microcomputador (EMIC - modelo DL 10.000).

As dosagens bioquímicas foram realizadas no segmento inferior, o qual foi inicialmente separado da camada epidérmica, e à seguir, envolto em papel alumínio e armazenado à 20 graus centígrados negativos.

No momento das dosagens bioquímicas procedia-se o descongelamento das amostras, quantificando-se a proteína tecidual pela metodologia de Lowry et al (1952)22 e a Hidroxiprolina tecidual pela metodologia descrita por Bergman & Loxley (1971)23 adaptado ao tecido por Angeleli et al (1982)24. A relação hidroxiprolina/ proteína tecidual foi utilizada como referencial para a verificação da proporção colágena do componente protéico total do tecido.

O segmento superior, destinado à análise morfológica, foi inicialmente fixado em solução de formalina à 10%. Após fixação, foram imersos em parafina e, posteriormente obtidos cortes perpendiculares à linha de sutura que foram corados pela hematoxilina-eosina e tricrômicro de Masson.

A análise morfológica foi realizada em cinco animais de cada grupo experimental, sorteados segudo a tabela de números casuais (Dixon & Massey, 1969),25 com a realização de três cortes histológicos em cada segmento.

Os critérios adotados para estudo histológico do processo da cicatrização foram:

- Regeneração da serosa: parcial ou completa.

- Reação inflamatória: intensidade, localização e características do infiltrado inflamatório, se do tipo polimorfonuclear ou mononuclear.

- Tecido de granulação: características e intensidade de proliferação de pequenos vasos, fibroblastos e macrófagos.

- Colagenogênese: intensidade e característica da proliferação de fibras colágenas no peritônio, tecido músculo aponeurótico e pele, se do tipo fibrilar, frouxo ou denso, avaliados pelo tricrômicro de Masson.

Na análise estatística foi utilizada teste t entre dois grupos independentes para a comparação dos grupos em cada momento, com o cálculo das estatísticas t e p.

Utilizou-se análise de variância para a comparação dos momentos em cada grupo com o cálculo das estatísticas t e p. Contrastes entre pares de média pelo teste de Tukey com a igual a 0,05.

Nos casos em que p foi menor que 0,05 a estatística foi considerada significativa. Quando p situava-se entre 0,05 e 0,10 foi referido tendência à significância onde p é a probabilidade de erroneamente concluir pela significância, (Curi, 1997) 26.

 

RESULTADOS

1. Evolução clínica

Nos animais do grupo controle não foram observadas complicações infecciosas da parede abdominal. A mortalidade foi nula em todos os momentos estudados. Esses animais mostravam-se ativos após 6 horas da cirurgia e alimentavam-se normalmente.

Nos animais do grupo tratado observamos eriçamento dos pelos, apatia e menor ingestão alimentar quando comparado ao grupo controle, no 1° dia de pós-operatório. Observamos ainda dois animais com infecção de parede no 5° dia de pós-operatório, um com hérnia incisional por ocasião do sacrifício no 5° dia de pós-operatório e dois óbitos no 6° dia de pós-operatório pertencentes à M3, cuja causa não pode ser determinada, em virtude do canibalismo.

A alteração mais marcante foi a perda ponderal existente no grupo tratado. Dos 40 animais deste grupo, observamos redução do peso entre 8-9% do peso inicial em 23 (57,5%), em 15 animais (37,5%), o peso ao término do experimento era estatisticamente idêntico ao do início do experimento e em 2 animais (5%) observamos aumento ponderal.

No grupo controle, 33 dos 40 animais (82,5%) ganharam 10 - 11% de peso quando comparado ao do início do experimento e, nos 7 restantes (17,5%) não foi observado alteração ponderal.

2. Força de ruptura

A Tabela 1 apresenta os valores médios (x) e desvios-padrão (s) da força de ruptura das amostras da parede abdominal nos dois grupos, nos diferentes momentos estudados. A Figura 1 ilustra os valores médios dessa variável em cada momento estudado.

 

 

 

 

3. Proteína tecidual

A tabela 2 apresenta os valores médios (x) e desvios-padrão (s) da concentração de proteína tecidual das amostras da parede abdominal nos dois grupos, nos diferentes momentos estudados. A figura 2 ilustra os valores médios dessa variável em cada momento estudado.

 

 

 

 

4. Hidroxiprolina tecidual

A Tabela 3 apresenta os valores médios (x) e desvios-padrão (s) da concentração de hidroxiprolina tecidual das amostras da parede abdominal nos dois grupos nos diferentes momentos estudados. A Figura 3 ilustra os valores médios dessa variável em cada momento estudado.

 

 

 

 

5. Hidroxiprolina / Proteína tecidual

A Tabela 4 apresenta os valores médios (x) e desvios-padrão (s) da relação hidroxiprolina / proteína tecidual das amostras da parede abdominal nos dois grupos nos diferentes momentos estudados. A Figura 4 ilustra os valores médios dessa variável em cada momento estudado.

 

 

 

 

6. Exame histopatológico

Os resultados encontrados ao exame histopatológico, referentes à regeneração epitelial, reação inflamatória, tecido de granulação e colagenogênese foram variáveis em cada um dos momentos e são descritos abaixo.

Grupo Controle - 5° dia: Presença de infiltrado inflamatório polimorfonuclear em pequena quantidade, proliferação de vasos e tecido de granulação com pequena quantidade de fibras colágenas e fibroblastos. Bordas da ferida próximas, sem coaptação.

Grupo Tratado - 5° dia: Em relação ao grupo controle, observamos a presença de microabscessos ao redor dos fios de sutura em vários animais, que nestes casos exibia infiltrado neutrofílico mais exuberante. Observamos ainda menor concentração de fibras colágenas, com bordas da ferida mais afastados em relação ao controle.

Grupo Controle - 7° dia: Diminuição do processo exsudativo, com maior densidade de fibras colágenas, aproximando as bordas da ferida.

Grupo Tratado - 7° dia: Presença de microabscessos, com menor concentração de colágeno em relação ao grupo controle nesse dia de pós-operatório.

Grupo Controle - 14° dia: Observamos processo inflamatório polimorfonuclear restrito ao redor da implantação dos fios de sutura. Tecido conjuntivo denso com moderada quantidade de fibras colágenas, com coaptação total das bordas da ferida. Regeneração epidérmica completa.

Grupo Tratado - 14° dia: Persiste o achado de microabscessos em vários animais, com moderado processo inflamatório nesses locais. Menor concentração de fibras colágenas em relação ao controle. Bordas da ferida com coaptação total.

Grupo Controle - 21° dia: Mínima reação neutrofílica ao redor da implantação dos fios de sutura, com colágeno denso, fibras dispostas paralelamente em relação à linha de sutura.

Grupo Tratado - 21° dia: Presença de alguns animais com microabscessos. A concentração de fibras colágenas é semelhante ao grupo controle.

 

DISCUSSÃO

As complicações observadas no presente estudo, relacionadas à perda ponderal, mortalidade, infecção de parede e hérnia incisional, foram verificadas somente nos animais que receberam o diclofenaco sódico. Em estudo anterior, no qual utilizamos o D.S. e avaliamos a cicatrização intestinal, também observamos as mesmas complicações aqui relacionadas referente à parede abdominal daqueles animais18,19.

A utilização de D.S. em ratos ocasionou perfuração intestinal, principalmente no íleo terminal, com conseqüente peritonite secundária17. Embora esta possa ter sido a causa de morte dos dois animais pertencentes ao grupo tratado desse experimento, o canibalismo verificado impediu que pudéssemos esclarecer a real causa.

A anorexia e perda de peso foi um fato marcante nos animais tratados. É possível que isto deva-se as lesões gastrointestinais induzidas pelo antinflamatório. Em estudo pregresso18, observamos que animais tratados com DS apresentaram 15% de diarréia. Apesar desta complicação não ter sido verificado no presente trabalho, não descartamos a possibilidade de espoliação nutritiva pelo trato digestivo como possível fator para explicar estes achados.

Tognini e cols., (1999) em estudo semelhante, demostraram que ratos que receberam meloxicam tiveram ganho de peso e explicam este fato pela menor dor21. É possível que pelo fato deste medicamento inibir especificamente a COX2, com conseqüente menor lesão do trato digestivo, possa ser uma das razões responsáveis pelo aumento ponderal.

Um dos aspectos importantes em estudo de cicatrização é a força de ruptura, que diz respeito às propriedades mecânicas do tecido de reparação e permite avaliar a resistência de um tecido ou anastomose. A padronização minuciosa das amostras, principalmente a largura do segmento, influenciando a área do tecido, como foi realizado nesse experimento, contribuiu para minimizar os erros decorrentes da utilização desta variável.

Assim, observamos diminuição da força de ruptura nos animais tratados no 7° e 14° dias de pós-operatório. Por outro lado, a concentração de colágeno, avaliada pela relação hidroxiprolina/proteína foi menor que o controle no 5°, 7° e 14° dias de pós-operatório. Essa interferência na quantidade de colágeno, assim como possíveis alterações na estrutura das fibras colagênicas desencadeadas pelo diclofenaco de sódio, podem contribuir para a diminuição da força de ruptura observado nesses animais, influenciando a cinética da ferida cirúrgica.

A utilização da relação hidroxiprolina/proteína tem por objetivo abolir possíveis diluições do colágeno das amostras, oriundas de edema, tecido inflamatório e tecido gorduroso, o que também poderia ser verificado com a dosagem isolada da hidroxiprolina em tecido seco e desengordurado. No entanto, possíveis erros de peso decorrentes da secagem e retirada de gordura, também influenciariam a real quantidade de colágeno da amostra. Assim, a estimativa da quantidade de colágeno pode ser verificada em tecido fresco, com a utilização da relação hidroxiprolina/proteína, com menor probabilidade de erros de pesagens adicionais, sendo o colágeno estimado pela proporção protéica colagênica do componente protéico total do tecido.

No entanto, nas amostras da parede abdominal, os resultados da relação hidroxiprolina/proteína são equivalentes aos resultados da dosagem isolada da hidroxiprolina em cada um dos momentos estudados, à exceção de M3, onde os resultados da relação hidroxiprolina/proteína mostraram valores mais elevados de colágeno no grupo controle, sendo que os valores isolados da hidroxiprolina mostraram apenas tendência ao aumento do colágeno nos animais desse grupo.

Por outro lado, em amostras intestinais, os resultados avaliados somente pela hidroxiprolina são muito discrepantes daqueles verificados pela interpretação da relação hidroxiprolina/proteína, notadamente pelo grande edema verificado18,19 .

Assim, as alterações deletérias do DS fora do trato digestivo não são acompanhadas por alterações significativas de edema. De fato, a análise histológica não evidenciou edema significativo nas amostras estudadas nos vários momentos avaliados.

A concentração de colágeno nos animais do grupo tratado é menor do que nos animais do grupo controle no 5°, 7° e 14° dias, igualando-se à este apenas no 21° dia de pós-operatório. Neste dia, os valores da força de ruptura não diferem entre os 2 grupos. Assim, apesar do D.S. ter sido oferecido aos animais por apenas 4 dias, os efeitos deletérios do mesmo foram verificados até 17 dias após a suspensão do medicamento.

Os resultados observados na parede abdominal de ratos tratados com D.S. foram semelhantes aos resultados encontrados na alça intestinal desses animais quando submetidos à ação do D.S.18,19.

Nos momentos 1 e 2, a força de ruptura é baixa em ambos os grupos, e significativamente diminuída no grupo tratado. Por outro lado, verificamos aumento da concentração de colágeno de M1 para M2 em ambos os grupos. Estes fatos demonstram que nos primeiros dias de pós-operatório a integridade da ferida cirúrgica é mantida apenas pelos fios de sutura.

Ao exame histológico, verificamos retardo do processo cicatricial nos animais tratados em todos os momentos do estudo, caracterizados por menor fibrogênese, menor densidade das fibras colágenas e aumento do processo inflamatório, com formação de microabscessos ao redor da implantação dos fios de sutura. Esses achados assemelham-se aos de Tognini e col (1998)20, que evidenciaram menor quantidade de fibras colágenas no 7° e 14° dias de pós-operatório na cicatriz abdominal de ratos que receberam D.S.

A utilização de D.S. em ratos que receberam anastomoses intestinais também foi acompanhado por aumento do processo inflamatório polimorfonuclear na cicatriz18,19. Este achado foi interpretado como conseqüência indireta da droga utilizada, por aumentar a translocação bacteriana. É possível que este efeito também possa ter sido verificado na parede abdominal. No entanto, não descartamos a hipótese de contaminação externa da ferida cirúrgica, em virtude de retardo da cicatrização cutânea, com possibilidade de bactérias penetrarem pela própria pele, causando microabscessos, deiscência ou morte dos animais.

 

CONCLUSÃO

A cicatriz da parede abdominal dos animais tratados com diclofenaco de sódio apresentam retardo do processo cicatricial em relação aos seus controles, caracterizado por uma menor fibrogênese, menor densidade de fibras colágenas, além de um número maior de complicações, como microabscessos, em torno dos fios de sutura.

 

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Minossi JG, Leite CVS, Naresse LE, Rodrigues MAM, Angeleli AYO, Kobayasi S. Sodium diclofenac effect in abdominal wound healing in rats: histological, breaking strength e tissue collagen studies. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jul-Sept;16(3). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT: The influence of sodium diclofenac on abdominal wound healing was studied in rats. Eighty Wistar rats were randomly allocated to two experimental groups. Group 1: included 40 rats, submitted to abdominal suture and treated with saline, administered IM; Group 2: consisted of 40 rats, submitted to abdominal suture and treated with sodium diclofenac in a dose of 10 mg/kg of body weight per day during 4 days. Animals of both experimental groups were followed during 21 days after the suture, being killed on the 5th, 7th, 14th and 21th postoperative day, which corresponded to M1, M2, M3 and M4 moments. Ten animals from the both experimental groups were studied in each moment, with analysis of the following parameters: clinical state, breaking strength measurements, histology and tissue collagen content of abdominal scar. Several complications were observed in rats of the sodium diclofenac group, such as dehiscence, incisional rupture, weight loss, with a significant mortality rate when compared with control rats. In this group, there were no complications. Other alterations were also observed in the sodium diclofenac group, such as decreased of breaking strength on the 7th and 14th postoperative day and decreased of collagen content on the 5th, 7th and 14th postoperative day, which returns at normal values on the 21th postoperative day. In histology, animals of the sodium diclofenac group showed a delay in the healing process, such as a significant decreased of fibrogenesis, with decreased density of collagen fibers. Complications such as microabscess arounding the suture material were only observed in this group.
KEY WORDS: Breaking strength. Collagen content. Histology. Abdominal closure.

 

 

 

Conflito de interesses: nenhum
Fontes de financiamento: nenhuma

Endereço para correspondência:
José Guilherme Minossi
Praça Irmão Ferreira, 171
Cerqueira César - SP
18760-000

Data do recebimento: 28/03/2001
Data da revisão: 19/04/2001
Data da aprovação: 22/05/2001

 

 

1 Trabalho realizado no laboratório de técnica cirúrgica e cirurgia experimental do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
2 Professor Assistente Doutor do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
3 Professor Adjunto do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
4 Professor Adjunto do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
5 Professor Assistente Doutor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
6 Professor Titular do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.

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