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Acta Cirúrgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.16 n.3 São Paulo July/Aug./Sept. 2001

https://doi.org/10.1590/S0102-86502001000300010 

10 - RELATO de CASO

COLPOCLEISE: AINDA HÁ INDICAÇÕES? RELATO DE UM CASO1

 

Mario Cavagna2
João Carlos Mantese2
Alfredo C.S.D.Barros2
Daniela M. de Castro Rossi3
Tangely Arevalo3
Valeria Cristina Nassif3

 

 

Cavagna M, Mantese JC, Barros ACSD, Rossi DMC, Arevalo T, Nassif VC. Colpocleise: ainda há indicações? - Relato de um caso. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jul-Set;16(3). Disponível em: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: Os autores relatam um caso de paciente com prolapso genital completo e sem condições clínicas de ser submetida à anestesia geral ou de condução. A paciente, de 84 anos e sem vida sexual há muitos anos, foi submetida a colpocleise parcial (técnica de Le Fort) com infiltração anestésica local. Os autores concluem que a colpocleise, embora deva ser considerada como cirurgia paliativa e de exceção, ainda encontra indicações na prática ginecológica diária.
DESCRITORES: Colpocleise. Prolapso genital. Pacientes de alto risco.

 

 

INTRODUÇÃO

A colpocleise consiste no fechamento cirúrgico do canal vaginal, visando impedir a exteriorização do útero nos casos de prolapso genital completo. As primeiras descrições do procedimento são de Gerardin, em 1823, e de Neugebauer, de Varsóvia, em 1867; entretanto, a popularização do método se deve a Le Fort, que realizou operação baseada nas idéias de Gerardin, em 1876 1.

A colpocleise não pode ser considerada uma cirurgia para a correção do prolapso genital, uma vez que não o corrige, antes o oculta. Atualmente, torna-se difícil indicá-la, pois é cirurgia que inabilita a paciente para a vida sexual; é operação paliativa, que só se justifica, em casos especiais, quando o intuito é minimizar a má qualidade de vida da mulher em idade avançada e em condições clínicas que não permitam a anestesia e o procedimento curativo. O progresso obtido nos últimos tempos no campo da clínica médica e anestesiologia, contribuíram para reduzir ainda mais as eventuais indicações da colpocleise; entretanto, parece-nos que há situações, ainda que raras, nas quais essa intervenção ainda deva ser praticada.

 

RELATO do CASO

Paciente de 84 anos, branca, viúva, XVI gesta, com prolapso uterino de III grau (Fig. 1). Ao exame físico apresentava-se em mau estado geral, descorada ++, desidratada +++, com lesões eritêmato-bolhosas disseminadas em tórax e membros superiores.

 

 

Principais exames: Hb: 7,5 g/dL; Ht: 23 mL de eritrócitos/dL; Na: 138 mEq/L; K: 2,9 mEq/L; Albumina: 2,1 g/dL

Raio X de tórax: área cardíaca aumentada, presença de derrame pleural em base pulmonar.

A anestesia, geral ou de condução, foi contra-indicada pelo anestesista responsável, cuja avaliação, pela classificação da Sociedade Americana de Anestesiologistas, foi ASA IV, significando perigo de morte por falência de órgãos. Optou-se pela realização de cirurgia paliativa, realizando-se colpocleise com infiltração anestésica local com lidocaína a 2%. Utilizou-se, como abordagem cirúrgica, uma simplificação da técnica descrita por Le Fort 2.

Após a retirada de um retângulo de mucosa vaginal nas paredes anterior e posterior, as duas áreas cruentas foram aproximadas através da aplicação de 3 pontos com fios de poliglactina (Polivicryl) 0, efetuando-se os nós após a redução manual do prolapso. Desta maneira, obliterou-se a cavidade vaginal, mediante a união de suas paredes anterior e posterior, impedindo a exteriorização do útero através da fenda vulvar. Lateralmente, deixou-se mucosa em quantidade suficiente para formar canais de comunicação com o colo, permitindo a drenagem de eventuais secreções e sangramentos. Não foi realizada a colporrafia posterior, tendo sido apenas feita uma incisão na transição cutâneo mucosa da fúrcula vaginal com posterior aproximação com sutura com Polivicryl 2-0, para melhor fechamento do intróito vaginal (Fig. 2).

 

 

O intervento por nós praticado mostrou-se simples, rápido e de fácil execução, como já referido por outros autores 3,4,5 , sem envolver quaisquer riscos para a paciente, idosa e debilitada. É difícil falar em melhora de qualidade de vida em tais condições, mas a saída do útero pela fenda vulvar, provocando ulcerações e mau cheiro, é situação que acrescenta mal estar para a paciente que já se encontra em estado tão precário. Uma intervenção rápida e simples, que não requeira anestesia ou sedação e contorne o problema, ainda que sem corrigí-lo, parece ser importante no sentido de minimizar o desconforto da paciente.

 

DISCUSSÃO

Pelos motivos expostos, reafirmamos que a colpocleise é intervento de exceção, que é praticado raramente, com indicações limitadas e precisas. Além disso, há sempre a possibilidade de recidiva do prolapso, agravamento da incontinência urinária pela tração exercida sobre a parede vaginal anterior e, ainda que raramente, a formação de piométrio 6,7. Indicações para o procedimento, entretanto, ainda existem, como procuramos demonstrar com o relato deste caso, onde a cirurgia, sem dúvida alguma, trouxe efeitos benéficos para a paciente idosa e em condições de saúde debilitadas.

 

REFERÊNCIAS

1. Monteiro A. Cirurgia do prolapso genital. Rio de Janeiro: Editora Interamericana; 1980.         [ Links ]

2. Matingly RF. Ginecologia operatória te linde. Rio de Janeiro: Editora Guanabara-Koogan; 1979.         [ Links ]

3. Ardekany MS, Rafee R. A new modification of colpocleisis for treatment of total procidentia in old age. Int J Gynaecol Obstet 1978;15:358-60.        [ Links ]

4. Lammes FB. Treatment of genital prolapse in very old women. Ned Tijdschr Geneeskd 1997;141:2148-52.        [ Links ]

5. Pelosi MA. Transvaginal needle suspension with Le Fort colpocleisis for stress incontinence and advanced uterovaginal prolapse in a high-risk patient. J Am Assoc Gynecol Laparosc 1998;5:207-11.        [ Links ]

6. Ridley JH. Evaluation of the colpocleisis operation: a report of 58 cases. Am J Obstet Gynecol 1972;113:1114-7.        [ Links ]

7. Kholi N, Sze E, Karram M. Pyometra following Le Fort colpocleisis. Int Urogynecol J Pelvic Floor Dysfunct 1996;7:264-6.        [ Links ]

 

 

Cavagna M, Mantese JC, Barros ACSD, Rossi DMC, Arevalo T, Nassif VC. Colpocleisis: are there any indications? A case report. Acta Cir Bras [serial online] 2001 Jul-Sept;16(3). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT: The authors describe a case of an 84 years old high-risk patient, in whom general or spinal anesthesia was contraindicated and who showed a total uterine prolapse. The patient was widow and did not have sexual activity, and underwent a colpocleisis (Le Fort operation). The procedure was brief and could be performed using a local anesthetic. The authors conclude that colpocleisis is a surgery performed by the way of exception, but has a place in the armamentarium of the gynecologist treating isolated cases of genital total prolapse.
KEY WORDS: Colpocleisis. Uterine prolapse. High-risk patients.

 

 

 

Conflito de interesses: nenhum
Fontes de financiamento: nenhuma

Endereço para correspondência:
Mario Cavagna
Rua Viradouro, 58/111
São Paulo - SP
04538-110
e-mail: MarioCavagna@aol.com

Data do recebimento: 04/04/2001
Data da revisão: 28/04/2001
Data da aprovação: 24/05/2001

 

 

1 Trabalho realizado na Disciplina de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro - Hospital Geral do Grajaú.
2 Professor Titular.
3 Médico Residente.

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