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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.17 no.1 São Paulo Jan./Feb. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502002000100009 

9 – ARTIGO ORIGINAL

MODELO DE TUMOR EXPERIMENTAL EM RIM DE RATOS1

 

Lúcio Flávio Gonzaga Silva2
Felipe dos Santos Dias Soares3
José Nilson Nunes Anselmo3
Daniel Mota Moura Fé3
João Luiz Barbosa Gurgel Cavalcante3
Manoel Odorico de Moraes4
Paulo Roberto Leitão de Vasconcelos5

 

 

Silva LFG, Soares FSD, Anselmo JNN, Fé DMM, Cavalcante JLBG, Moraes MO, Vasconcelos PRL. Modelo de tumor experimental em rim de ratos. Acta Cir Bras [serial online] 2002 Jan-Fev;17(1). Disponível em: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: O carcinossarcoma 256 de Walker tem despertado o interesse de muitos pesquisadores como modelo experimental para estudo da biologia tumoral. OBJETIVO: estabelecer um modelo de tumor renal que possa ser usado para estudar in vivo e in vitro, as alterações impostas pelas neoplasias. MÉTODOS: utilizados vinte ratos Wistar, machos, adultos, pesando entre 250-300 g, oriundos do Laboratório de Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Ceará. Sob anestesia inalatória procedia-se uma pequena incisão supraumbilical, e com manobra delicada fazia-se a exposição do rim direito. Neste órgão eram inoculadas 3x105 células tumorais viáveis. Os animais então eram mantidos em gaiolas individuais com as mesmas condições ambientais e com água e dieta ad libitum. RESULTADOS: o Carcinossarcoma 256 de Walker, implantado no parênquima do rim direito de ratos Wistar apresentou índice de pega de 100%, e crescimento rápido, invadiu por contiguidade as estruturas vizinhas, porém sem apresentar metástases, no entanto, levando os animais a óbito no curso médio de 14 dias. CONCLUSÃO: o modelo de implante de tumor de Walker no parênquima do rim direito de ratos Wistar é eficiente, tem reprodutibilidade, apresentando um índice de pega de 100%, e permitindo seu uso em linhas de pesquisa.

DESCRITORES: Modelo tumoral. Carcinossarcoma de Walker. Tumor de rim. Câncer.

 

 

INTRODUÇÃO

A busca de modelos tumorais para a implementação de estudos experimentais no campo da oncologia é um anseio de quantos lidam na pesquisa básica em nosso meio.

Este estudo procura estabelecer um modelo de tumor renal que possa prontamente ser usado para estudar in vivo e in vitro, as alterações impostas pelas neoplasias. Para tal intento foi utilizado um modelo animal, o carcinossarcoma 256 de Walker, que tem elevado índice de pega e amplas possibilidades para uso em testes laboratoriais.

Entre os exemplos de modelos animais de carcinoma renal destacam-se os induzidos quimicamente - e.g. tumores causados por injeções intraperitoneais de dimetilnitrosaminas (1), os tumores induzidos por chumbo (2), os tumores produzidos por injeções intravenosas de estreptozotocina (3), tumores induzidos por estrógenos (4).

No entanto, há as neoplasias renais espontâneas exemplificadas aqui pelo adenocarcinoma primário de Eker (5), o adenocarcinoma de White (6) e os modelos originados a partir dos estudos de Claude, o MKT-CD1 de Soloway e o RAG tumor (7).

O Carcinossarcoma 256 de Walker foi descoberto em 1928, quando George Walker, em seu laboratório na Escola de Medicina da Universidade de Johns Hopkins, observou em glândula mamaria de uma rata albina prenha uma massa tumoral, que segundo descrição própria, regredia durante período de lactação e logo após, voltava a recrudescer. Mostrou-se adenocarcinoma à histopatologia, e sua transplantabilidade foi comprovada pelo próprio pesquisador (8).

Ele tem despertado o interesse de muitos, como modelo experimental ao estudo da biologia tumoral. Schrec 1935 (9), verificou que o crescimento e o tempo decorrido entre a inoculação e o aparecimento do tumor era diretamente proporcional ao número de células injetadas por via intramuscular. O tumor se desenvolve melhor em ratos machos, que nas fêmeas, fato este relacionado à influência hormonal (10).

Observações feitas por Moraes em 1980, mostraram que o índice de pega em ratos Wistar inoculados por via intramuscular com l06 células/ml, era de 100% (11)

Trabalho recente conduzido no Laboratório de Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Ceará demonstrou pega de 100% com inoculação de tumor de Walker em estômago de ratos Wistar (12).

 

MÉTODOS

Vinte ratos Wistar machos (250 – 300 g), oriundos do Laboratório de Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Ceará, foram utilizados no presente estudo.

O inoculo foi obtido de rato Wistar doador, portando carcinossarcoma de Walker na pata traseira direita, com aproximadamente 9 dias de evolução. Após retirados os tecidos necrosados, fragmentos tumorais foram colocados em um Erlenmeyer de 125 ml contendo uma solução 9 ml de Ringer lactato e 1 ml de cloranfenicol (concentração de 200mg/ml). Em seguida este Erlenmeyer com uma bala magnética em seu interior, era levado para um agitador magnético, por 10 minutos a 4 rps, em temperatura ambiente. Após este processo, 0,3 ml deste inoculo tumoral era utilizado no implante.

Por uma incisão mediana supraumbilical de 2 cm realizada no animal de experimentação, sob anestesia com éter etílico, o rim direito era visualizado, tracionado e cuidadosamente exposto, usando-se afastadores delicados. Então, 0,3 ml do inoculo (aproximadamente 3 x 105 células tumorais viáveis) injetado no parênquima renal, utilizando-se para este fim agulha B-D Microlance de polipropileno 13x3 - 30 G 1/2. As suturas cirúrgicas foram realizadas por planos anatômicos com fios de sutura delicados.

Os animais permaneciam então, em gaiolas individuais, em ambiente com ar refrigerado, à temperatura média de 25°C, umidade relativa do ar em torno de 50% e iluminação adequada, obedecendo ao ciclo dos dias e noites, e mantidos com dieta padrão do biotério ad libitum.

Todos os experimentos observaram as normas internacionais definidas para experimentação animal e estes receberam cuidados especiais conforme preceitua o guia de cuidados e utilização dos animais de laboratório do US Department of Health and Human Services (1985), seguidas as orientações do Animal Experimentation Ethics.

 

RESULTADOS

Carcinossarcoma 256 de Walker, implantado no parênquima do rim direito de ratos Wistar apresentou índice de pega de 100%, e crescimento rápido, invadiu por contiguidade as estruturas vizinhas, porém sem apresentar metástases (Figura 1).

 

 

O estudo histopatológico do rim direito de ratos Wistar, inoculados com tumor, está contemplado nas figuras abaixo, onde se vê intensa infiltração por células neoplásicas, com encarceramento e destruição de túbulos e glomérulos (Figuras 2 e 3).

 

 

 

Somente 50% dos animais estavam vivos no 14o dia pós-implante do tumor de Walker no rim direito, determinando uma mediana de sobrevida de 14 dias (Figura 4).

 

 

DISCUSSÃO

Não foi possível encontrar na revisão bibliográfica efetuada modelo tumoral idêntico com que se pudesse fazer uma comparação com o índice de pega e sobrevida observado neste estudo.

À época da descoberta da neoplasia de Walker o próprio autor comprovou a transplantabilidade em 16 ratos albinos, com índice de pega de 56% (8). Outros autores como Fonteles e Moraes em 1980 mostraram que o índice de pega em ratos Wistar inoculados por via intramuscular era de 100% (11).

Matos e Franco em 1980, estudando ratos Wistar inoculados intra-muscularmente com o carcinossarcoma 256 de Walker constataram envolvimento tumoral do tipo infiltrativo nos rins (53%), baço (50%), pulmões (46,5%), fígado (45%), adrenais (10,3%), medula óssea (44,8%). Sangue circulante (55,2%), e ocasionalmente no coração (5%) e língua (1,6) (13).

Trabalho conduzido com ratos Sprague-Dawley e inoculação subcutânea de tumor de Walker mostrou índice de pega de 95-100%, sem metástases, e sobrevida de 14 ± 1 dias.(14).

Recente estudo efetuado na Universidade Federal do Ceará demonstrou pega de 100% com o carcinossarcoma 256 de Walker inoculado em estômago de ratos Wistar (12).

O presente estudo demonstrou que o carcinossarcoma 256 de Walker implantado no rim direito de ratos Wistar apresentou índice de pega de 100%, invadiu estruturas vizinhas, porém não foram detectadas metástases. Os achados histopatológicos foram compatíveis com invasão tumoral difusa do parênquima renal com destruição das partes nobres do rim. A mediana de sobrevida observada, considerando o percentual de 50% de animais vivos, pós-implante, foi de 14 dias.

 

CONCLUSÃO

O modelo de implante de tumor de Walker no parênquima do rim direito de ratos Wistar é eficiente, tem reprodutibilidade, apresentando um índice de pega de 100%, permitindo seu uso em linhas de pesquisa.

 

REFERÊNCIAS

  1. Hard GC. Experimental models for the sequential analysis of chemical induced renal carcinogenesis. Toxicol Pathol 1986;14:112-22.
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  3. Koller LD, Kerkvliet NI, Exon JH. Neoplasia induced in male rats fed lead acetate, ethyl urea, and sodium nitrite. Toxicol Pathol 1985;13:50-7.
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  5. Hard GC. Identification of a high-frequency model for renal carcinoma by the induction of renal tumors in the mouse with a single dose of streptozocin. Cancer Res 1985;45:703-8.
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  7. Kirkman H, Bacon RL. Estrogen-induced tumors of the kidney: I. Incidence of renal tumors in intact and gonadectomized male golden hamsters treated with diethylstilbestrol. JNCI 1952;13:745-55.
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  9. Eker R, Mossige J, Johannessen JV. Hereditary renal adenomas and adenocarcinomas in rats. Diagn Histopathol 1981;4:99-110.
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  11. DeVere-White R, Olson CA. Renal adenocarcinoma in the rat: a new model. Invest Urol 1980;17:405-12.
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  13. Claude A. A spontaneous, transplantable renal carcinoma of the mouse: electron microscope study of the cells and of an associated virus-like particle. J Ultrastruct Res 1962;6:1-18.
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  17. Schrec R, Avery RC. Histological observation on transplantable rat and rabbit tumors cultivated in the chorio-allantoic membrane of chick embryos, with special reference to the walker rat tumor 256. Am J Pathol 1937;13:41–5.
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  19. Caldirola L, Dei Poli M, Biglani S. Sullo svilupp del tumore di walker nella cute e nel tessuto sutto: cutaneo del ratto-nota I. Minerva Chir 1968;23:51–5.
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  21. Moraes MO, Fonteles MC, Matos FJA, Moraes MEA. Atividade antitumoral de plantas do nordeste brasileiro. Ciênc Cult 1980;31:647.
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  23. Oliveira PFM, Henriques IA, Rodrigues Filho F, Almeida PRC, Moraes MO. Estabelecimento de um modelo de tumor experimental pela inoculação de tumor de Walker em estômago de ratos Wistar. Acta Cir Bras 1998;13:243-9.
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  25. Mattos I, Montenegro MR, Silva CRV. Walker 256 carcinossarcoma: pathologic microscopic and ultrastructural features of the tumoral circulating cells. Cienc Cult 1980;32:849-57.
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Silva LFG, Soares FSD, Anselmo JNN, Fé DMM, Cavalcante JLBG, Moraes MO, Vasconcelos PRL. Experimental tumor model in rats kidney. Acta Cir Bras [serial online] 2002 Jan-Feb;17(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT: Walker carcinossarcoma 256 has a great interest as experimental model for studies on tumoral biology. OBJECTIVE: develop a kidney tumor model to be used in the evaluation of the biological behavior of neoplasms in vitro and in vivo environments. METHODS: twenty adult male Wistar rats weighting between 250-300 g were obtained from the Federal University of the Ceará Experimental Surgery Laboratory. Upon ether anesthesia, the right kidney of each animal was accessed through a supraumbelical incision and inoculated with a solution containing 3 x 105 tumor cells (Walker 256 carcinossarcoma tumor cells). Following anesthetic recovery the rats were returned to their cages, housed individually and allowed to eat and drink ad libitum. RESULTS: the post-operative average survival was 14 days. Tumor growth was encountered in all animals. The rats exhibited destruction of the kidney, invasion of the adjacent structures, but absence of metastasis. CONCLUSION: the kidney Walker tumor model proved to be an excellent tool for experimental studies on tumor behavior, due to its rapid growth and its easy reproduction.

KEY WORDS: Tumoral model. Walker carcinossarcoma. Kidney tumor. Cancer.

 

 

Conflito de interesses: nenhum
Fontes de financiamento: nenhuma

Endereço para correspondência:
Lúcio Flávio Gonzaga Silva
Rua Dr. José Lino, 141/1002
Fortaleza – Ceará
60165-270
e-mail: luciofl@secrel.com.br

Data do recebimento: 27/10/2001
Data da revisão: 23/11/2001
Data da aprovação: 12/12/2001

 

 

 

1. Trabalho realizado no Laboratório de Cirurgia Experimental do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal do Ceará.
2. Mestre em Cirurgia, Doutorando em Farmacologia Professor assistente de Urologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
3. Estudante de medicina da UFC.
4. PhD in Oncology, Professor adjunto de Farmacologia da UFC.
5. PhD in Surgery. Professor adjunto da UFC. Coordenador da pós-graduação da UFC.