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Acta Cirurgica Brasileira

versão On-line ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. v.17 n.3 São Paulo maio 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502002000300006 

6 ¾ ARTIGO ORIGINAL

AÇÃO DO PNEUMOPERITÔNIO COM DIÓXIDO DE CARBONO NA TRANSLOCAÇÃO BACTERIANA EM RATOS1

 

Nemer Hajar2
João Carlos Domingues Repka
3
Lady Wilson Canan Júnior
4

 

 

Hajar N, Repka JCD, Canan Jr LW. Ação do pneumoperitônio com dióxido de carbono na translocação bacteriana em ratos. Acta Cir Bras [serial online] 2002 Maio-Jun;17(3). Disponível em URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO ¾ Objetivo: Investigar a translocação bacteriana decorrente da ação do pneumoperitônio com CO2 em ratos normais e em ratos com colite induzida. Métodos: Utilizaram-se 60 ratos distribuídos em seis grupos de 10 animais. No grupo simulação realizou-se laparotomia, manipulação de órgãos abdominais e síntese da parede; os dois grupos pneumoperitônio foram submetidos a pneumoperitônio por uma e três horas, respectivamente; no grupo colite, foi induzida colite e realizada laparotomia, manipulação de órgãos abdominais e síntese da parede; nos dois grupos colite pneumoperitônio induziu-se colite mais pneumoperitônio por uma e três horas, respectivamente. Sacrificados os animais, foram feitas as coletas dos rins, baço, fígado e linfonodos mesentéricos. Nos animais submetidos a colite induzida, foram ressecados 2cm de cólon para análise histológica. Nos órgãos ressecados pesquisou-se a presença de Escherichia coli e Enterococcus faecallis para verificar a translocação bacteriana. Resultados: Não ocorreram óbitos nos grupos estudados. Não houve diferença estatisticamente significante nos grupos de animais submetidos a colite. A ocorrência de translocação bacteriana nos diferentes órgãos independe do gênero da bactéria. Não há incremento da translocação bacteriana com relação a duração de pneumoperitônio (1 e 3h) tanto em ratos normais como nos submetidos a colite induzida. Conclusão: O pneumoperitônio induz a translocação bacteriana em ratos normais e a incrementa em ratos submetidos à colite.

DESCRITORES ¾ Pneumoperitônio. Translocação bacteriana. Dióxido de carbono. Ratos.

 

 

INTRODUÇÃO

A intervenção cirúrgica laparoscópica expandiu-se rapidamente, após Mouret, em 1987, ter realizado a primeira colecistectomia videolaparoscópica. Esta nova via de acesso cirúrgico oferece diversas vantagens sobre a via convencional: menor dor pós-operatória, acentuada diminuição da permanência hospitalar, retorno precoce às atividades habituais e os aspectos estéticos mais favoráveis1.

Esse procedimento apresenta complicações inerentes ao método e, dentre elas, destacamos as relacionadas à insuflação do gás na cavidade intra-abdominal, como: enfisema parietal, injeção de gás no omento, no interior de um órgão abdominal ou grande vaso. O aumento da pressão intra-abdominal ocasiona complicações respiratórias devido à elevação da cúpula diafragmática que determina dificuldade respiratória e de ventilação pulmonar. Outra complicação decorrente do aumento da pressão intra-abdominal são as alterações circulatórias devidas à compressão da veia cava inferior com conseqüente redução do fluxo venoso proveniente dos membros inferiores e, como efeito cascata, redução do débito cardíaco, bradicardia e possível parada cardíaca. Conseqüência também da compressão vascular é o hipofluxo esplâncnico levando a hipoperfusão de órgãos abdominais.

No intestino observa-se redução do fluxo sanguíneo, podendo ocasionar isquemia, com ruptura de estruturas que compõem a mucosa intestinal2,3,4.

A mucosa intestinal tem como função primária a digestão e a absorção de nutrientes, porém, também age como importante barreira mecânica que ajuda a impedir seletivamente a disseminação sistêmica de microorganismos e suas endotoxinas. Se a mucosa apresentar alteração dos seus três fatores fisiológicos básicos ¾ ou seja, a barreira mecânica imposta pela camada epitelial do intestino; as defesas imunes, humoral e celular, proporcionadas pela rede de células denominadas tecido linfóide associado ao intestino; e a significante flora anaeróbica normal do intestino que impede o supercrescimento de outros organismos patogênicos e limita a aderência destes à mucosa ¾ ocorrerá a migração de bactérias da luz intestinal, podendo levar o paciente a uma situação de emergência por quadro séptico que tende a evoluir para a síndrome de disfunção múltipla dos órgãos, sem a definição de um foco infeccioso inicial.

Esse evento caracteriza a translocação bacteriana, que é definida como passagem de microorganismos viáveis através da parede intestinal para os ductos linfáticos, órgãos abdominais e circulação sistêmica5.

A observação de pacientes submetidos a procedimentos laparoscópicos que evoluíram, sem causa aparente, com agravamento do quadro clínico, complicações infecciosas e até sépticas com evolução para êxito letal, foi motivo para a realização deste estudo, que objetivou avaliar, experimentalmente, a translocação bacteriana decorrente da ação do pneumoperitônio com CO2 com diferentes tempos de duração em ratos normais e em ratos com colite induzida por ácido acético a 10%.

 

MÉTODOS

Foram utilizados 60 ratos albinos machos (Rattus norvegicus, Rodentia mammalia) da linhagem Wistar, com peso variando entre 250 e 290g. Os animais foram alojados em caixas com cinco ratos, permanecendo durante todo o experimento em temperatura ambiente, com livre acesso a ração balanceada para espécie e água ad libitum até a data do sacrifício. Durante o experimento obedeceu-se aos critérios do Guide for care and use of laboratory animals.

Os animais foram distribuídos em seis grupos com 10 ratos cada. Grupo simulação (Simula), grupo pneumoperitônio uma hora (PP1), grupo pneumoperitônio três horas (PP3), grupo colite (Col), grupo colite pneumoperitônio uma hora (ColPP1), grupo colite pneumoperitônio três horas (ColPP3). Os procedimentos realizados em cada grupo foi:

Grupo simulação: neste grupo os ratos normais foram submetidos a laparotomia mediana, manipulação de órgãos abdominais e em seguida realizada sutura da parede abdominal. Após 18 horas foram sacrificados e coletadas amostras de fígado, baço, rins e linfonodos mesentéricos.

Grupo pneumoperitônio uma hora e grupo pneumoperitônio três horas: nesses grupos, os ratos normais foram submetidos a um pneumoperitônio com CO2 por um período de uma e três horas, respectivamente, e, após realizada a desinsuflação e passadas 18 horas desse procedimento, os animais foram sacrificados e coletadas amostras de fígado, baço, rins e linfonodos mesentéricos.

Grupo colite: neste grupo os ratos tiveram a colite experimental induzida pela ação do ácido acético a 10% instilada por via retal. No 7o dia após a indução, foram submetidos a laparotomia mediana, manipulação de órgãos abdominais e em seguida realizada sutura da parede abdominal. Após 18 horas foram sacrificados e coletadas amostras de fígado, baço, rins, linfonodos mesentéricos e segmento de cólon.

Grupo colite pneumoperitônio uma hora e grupo colite pneumoperitônio três horas: nestes grupos, os ratos com colite induzida foram submetidos a um pneumoperitônio com CO2 por um período de uma e três horas, respectivamente; em seguida, desinsuflou-se a cavidade abdominal e, após 18 horas deste procedimento, os animais foram sacrificados e coletadas amostras de fígado, baço, rins, linfonodos mesentéricos e segmento de cólon.

Procedimentos

Indução do pneumoperitônio

Para a indução do pneumoperitônio utilizou-se um insuflador eletrônico de CO2, que foi conectado através de tubo estéril de silicone a um dispositivo distribuidor de gás e este, por sua vez, conectado a 10 animais simultaneamente. Para realizar esse procedimento foram seguidas as etapas:

Jejum nas 24 horas que antecederam o procedimento; anestesia com administração intraperitoneal, no quadrante inferior esquerdo do abdômen, de hidrato de cloral a 10% numa dose de 300mg/kg de peso. Com os animais em decúbito dorsal e membros fixados, foi realizada anti-sepsia abdominal com polivinil-pirrolidona-iodo e em seguida puncionados no quadrante inferior esquerdo do abdômen com agulha de ponta romba. A agulha foi conectada através de tubo de silicone esterilizado a um dispositivo distribuidor de CO2 e este a um insuflador eletrônico. Os animais foram mantidos a pressão intra-abdominal de 10mmHg pela insuflação de 50 a 100ml/min de CO2, por um período de tempo predeterminado sob temperatura constante e respiração espontânea.

Indução da colite

Seguiu-se o procedimento descrito por MacPherson e Pfeiffer6, que consiste em: utilização, tanto para a etapa de preparo intestinal como para a indução da colite, de cateter no 6 de polietileno medindo 9cm de comprimento com múltiplos orifícios (a cada 3mm em uma extensão de 5cm da extremidade distal fechada); animal em jejum por 24 horas antes do início do experimento; preparo intestinal, pela instilação por via retal de 20ml de solução fisiológica; decorridas 24 horas, o animal foi anestesiado com administração intraperitoneal, no quadrante inferior esquerdo do abdômen, com hidrato de cloral a 10% numa dose de 300mg/kg de peso; animal em decúbito ventral supino, introdução do cateter por via retal e instilado 0,5ml de ácido acético a 10%.

Sacrifício e coleta das amostras

Os ratos foram sacrificados com inalação letal de éter sulfúrico 18 horas após a realização do pneumoperitônio nos grupos ColPP1, ColPP3, PP1 e PP3; e 18 horas após a realização da laparotomia no grupo Simula e no 7o dia após a indução da colite no grupo Col.

Após fixação dos animais em decúbito dorsal, foi realizada tricotomia abdominal, anti-sepsia local com polivinil-pirrolidona-iodo e colocação de campos de aplicação indireta esterilizados. Foi feita ressecção da parede abdominal para melhor exposição dos órgãos e coleta dos rins, baço, fígado e linfonodos mesentéricos, sempre nessa seqüência, para todos os animais com conjuntos individualizados de pinças e tesouras. As amostras foram acondicionadas em placas de Petri para posterior processamento laboratorial. Foram também ressecados 2cm de cólon, a partir do ânus, dos grupos de animais submetidos a colite induzida para avaliação histológica.

Avaliação histológica

Os fragmentos de cólon foram estirados e fixados sobre superfície de papel cartão e a seguir submersos em formalina. Após decorridas 48 horas, os fragmentos foram submetidos à técnica histológica de rotina e coloração com método usual de hematoxilina-eosina.

As lâminas com cortes histológicos foram aferidas seguindo-se os critérios de graduação histológica da indução e do reparo da lesão propostos por Morais7, como seguem nas Tabelas 1 e 2, respectivamente.

Avaliação da translocação bacteriana

Existe um consenso de que, para a avaliação da translocação bacteriana, seja pesquisada a presença de bactérias de contaminação fecal e, dentre muitas, a Escherichia coli e Enterococcus faecalis são as indicadoras da ocorrência desse processo.

As amostras seguiram as seguintes etapas de preparação: trituração de cada órgão, separadamente, sobre tela de náilon esterilizada com 20m de porosidade; diluição do macerado em 5ml de água peptonada a 10%; colocado 1ml desta solução nos meios de cultura específicos para o cultivo e identificação bacteriana.

Para o isolamento de Escherichia coli foi empregado como meio seletivo e indicador o caldo lactosado com indicador de pH ¾ vermelho de metila. Após incubação e viragem de pH, utilizou-se agar eosina azul de metileno Teague para seleção de colônias lactose-positivas que eram evidenciadas pela coloração verde-metálica, típica de Escherichia coli neste meio de cultivo. Estas colônias eram então repicadas para o meio de Pessoa e Silva para identificação final.

Para isolamento de Enterococcus faecalis, utilizou-se o meio de cultura de Kenner Fecal Streptococcus Agar suplementado com cloreto de trifeniltetrazolium.

As amostras foram incubadas a 37ºC por 48 horas, sendo a seguir selecionadas as culturas positivas e repicadas em meios para seleção primária de colônias e novamente incubadas a 37ºC por 24 horas.

Com relação ao isolamento de Escherichia coli, após a incubação, as culturas positivas em caldo lactosado foram repicadas para agar eosina azul de metileno. As amostras que não demonstraram crescimento nas primeiras 48 horas foram incubadas até o 7o dia para comprovação da negatividade. Ao término das incubações as colônias típicas de Escherichia coli foram repicadas para o meio de Pessoa e Silva para identificação final.

No isolamento dos Enterococcus faecalis, após a incubação, as culturas positivas em Kenner Fecal Streptococcus foram repicadas para caldo simples. As amostras que não demonstraram crescimento nas primeiras 48 horas foram incubadas até o 7o dia para comprovação da negatividade. Ao término das incubações as colônias típicas de Enterococcus faecalis em caldo simples foram submetidas à prova da catalase para caracterização do gênero Enterococcus. Posteriormente, as colônias foram submetidas à hidrólise da esculina, sendo assim caracterizadas as amostras de Enterococcus faecalis.

Análise estatística

Histologia

Após a obtenção das aferições histológicas dos grupos submetidos a colite, em uma primeira etapa de cálculos, transformou-se a escala nominal dos achados histológicos em escala numérica através da correlação de escala predeterminada representada na Figura 1.

 

 

Para obter os valores da Escala 2, tomaram-se os fatores 4 e 5 nas paralelas da Escala 1 e permutou-se o produto destes pelos valores atribuídos de 0 a 5 e 0 a 4, respectivamente.

A partir desses novos valores obtiveram-se médias histológicas numéricas, representativas das alterações microscópicas observadas nos fragmentos colônicos.

Realizou-se a análise entre os grupos para verificar se estas médias histológicas apresentavam diferenças significativas entre elas. Foi adotado o teste de análise da variância pelo mesmo apresentar o maior poder eficiência para a comparação entre os grupos.

Translocação bacteriana

Para verificarmos se existe um ou mais órgãos que sofreram translocação bacteriana, independentemente da bactéria isolada, que se diferenciam dos demais, ou seja, para verificarmos a hipótese H0 de que todos os órgãos são semelhantes entre si, contra a hipótese HA, a hipótese alternativa, de que pelo menos um dos órgãos se diferencia dos demais, aplicamos o teste não paramétrico de Kruskall-Wallis.

Uma vez que estamos comparando dois grupos independentes e o nível de mensuração dos dados é nominal (positivo (+); ou seja, com a identificação de uma ou as duas bactérias nas culturas de órgãos; e negativo (¾), que consiste na não identificação de bactérias na cultura), utilizamos a prova de Fisher.

Estabeleceu-se p £ 0,05 ou 5% como nível de rejeição da hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

No período de realização deste estudo não ocorreram óbitos dos animais em experimentação. O dispositivo distribuidor de CO2, que proporcionou a realização de pneumoperitônio simultaneamente em 10 animais, facilitou a execução deste procedimento, que seguiu sem intercorrências.

Durante o pneumoperitônio os animais não necessitaram de respiração assistida. Após o procedimento os ratos apresentavam manutenção do estado geral, atividade física e disposição para se alimentar.

Na coleta das amostras dos órgãos abdominais, não se observou, em nenhum animal, sinal de perfuração visceral relacionada às punções abdominais ou colite.

Comprovação histológica

Os resultados obtidos das avaliações histológicas das amostras colônicas dos grupos submetidos a colite confirmaram a efetividade da instilação de ácido acético a 10% por via retal na indução do modelo experimental de colite, e, após aferição histológica, obtiveram-se valores nominais, os quais foram transformados em valores numéricos por correlação em escala predeterminada. Em seguida, foram calculadas as médias histológicas para cada grupo dos animais submetidos a colite induzida, como estão demonstradas na Tabela 3.

 

 

Com as médias histológicas numéricas, foi aplicado o teste da análise de variância (ANOVA), obtendo-se um valor de p = 0,965052. Portanto, não ocorreu evidência estatística entre as diferenças das médias histológicas dos grupos de animais submetidos a colite (p = 0,9651).

Comprovação microbiológica

Os resultados obtidos foram listados em tabelas analisando cada animal individualmente, segundo achados microbiológicos em cada órgão pesquisado, tendo valor positivo (+) quando houve translocação bacteriana ou negativo (¾) quando esta não ocorreu.

Analisando cada rato isoladamente, obtivemos o número de órgãos que apresentaram translocação bacteriana em cada grupo, dentre os quatro órgãos estudados, sem considerar o gênero bacteriano isolado. Desse número, calculamos as médias de cada grupo, que estão apresentadas no Gráfico 1 com intervalos de confiança de 95%.

 

 

Analisando o Gráfico 1, observa-se que o pneumoperitônio foi fator importante no aumento da média de número de órgãos com translocação bacteriana, tanto em ratos normais como nos submetidos a colite induzida. O fator tempo, uma e três horas, não elevou essa média nem em ratos normais ou com colite induzida.

A ocorrência de translocação bacteriana nos diferentes órgãos, independente do gênero da bactéria indicadora isolada (Escherichia coli e/ou Enterococcus faecalis) está demonstrada no Gráfico 2.

 

 

Observando o Gráfico 2 faz-se a suposição de que, das translocações ocorridas, apenas com a aplicação do pneumoperitônio, foi encontrado maior percentual de translocações para linfonodos mesentéricos, em seguida para fígado, rins e menor percentual para baço, enquanto que, após a indução de colite, o fígado foi a víscera que apresentou maior percentual de translocações, seguido alternativamente dos rins ou linfonodos mesentéricos. O percentual de ocorrência nas translocações mensuradas no baço manteve-se constante.

Para comprovar as suposições anteriormente aludidas utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis, obtendo-se o valor de p = 0,2978, o que não rejeita a suposição de que nenhum dos órgãos apresenta diferença significativa em relação aos demais, quanto à ocorrência de translocação bacteriana.

Para a análise estatística, foi aplicado o teste de Fisher entre os grupos de animais estudados. Os resultados das análises estatísticas para obter os valores de p, quando da comparação entre os grupos quanto à aplicação do pneumoperitônio, estão resumidas na Tabela 4.

 

 

Verifica-se na Tabela 4 a rejeição da hipótese de nulidade de que o grupo de animais com a aplicação do pneumoperitônio fosse igual ao grupo sem a aplicação. Portanto, pode-se afirmar, com os valores de p obtidos pelo teste de Fisher bilateral, que os grupos são diferentes e que o pneumoperitônio incrementa a translocação bacteriana, tanto em ratos normais como em ratos com colite induzida.

Para a análise estatística da variação do tempo de pneumoperitônio a que foram submetidos os animais, aplicou-se novamente o teste de Fisher, cujos resultados das análises estatísticas para obter os valores de p, quando da comparação entre os grupos nos diferentes tempos (uma e três horas) de aplicação do pneumoperitônio, estão resumidos na Tabela 5.

 

 

Verifica-se, com os respectivos valores de p obtidos pelo teste de Fisher bilateral, a hipótese de nulidade de que a ocorrência de translocações bacterianas, tanto em ratos normais quanto em ratos com colite induzida, não apresenta diferença significativa, em uma e três horas de ação do pneumoperitônio.

 

DISCUSSÃO

Pressão intra-abdominal

Em humanos é sabido que pressões intra-abdominais entre 8 e 12mmHg, decorrentes da insuflação de CO2, são adequadas para a realização de procedimentos laparoscópicos, com alterações pouco significativas da função respiratória, equilíbrio ácido-básico e hemodinâmico durante o ato operatório.

Pressão acima de 15mmHg provoca depressão respiratória e diminuição em 44% do fluxo sanguíneo hepático e 39% no cólon de pacientes submetidos a pneumoperitônio. Estas alterações têm como conseqüência o aumento das taxas de morbimortalidade do ato operatório. Em ratos, a pressão abdominal de 15mmHg ocasiona depressão respiratória que, associada aos efeitos das drogas anestésicas, pode levar a choque circulatório e acidose respiratória, que geralmente é fatal pela dificuldade em proceder a intubação endotraqueal do animal e mantê-lo sob respiração assistida.

Neste estudo utilizou-se a pressão intra-abdominal de 10mmHg, servindo-se dos resultados determinados por Berguer et al.8, que avaliaram as alterações decorrentes da pressão intra-abdominal de ratos que sofreram insuflação de CO2, com pressões de 2, 5, 10 e 15mmHg. Esses autores, verificando as variações de pressão arterial, pH do sangue arterial, pCO2, pO2 e bicarbonato, além do débito cardíaco e temperatura sanguínea, determinaram que a pressão intra-abdominal adequada, para manter ratos em respiração espontânea, é a de 10mmHg.

Translocação bacteriana

O intestino, devido à sua flora microbiana diversificada, ocupa importante posição na pesquisa da translocação bacteriana e vem-se tornando uma área de intensa investigação. A translocação de bactérias e endotoxinas é postulada como parte do mecanismo fisiológico de processamento e apresentação antigênica, sendo esta, parte essencial da resposta imune dos tecidos. As conseqüências podem ser diferentes em pacientes imunocomprometidos ou naqueles portadores de outros estados críticos, cujo nível fisiológico de translocação pode ser suficiente para o desenvolvimento de infecção sistêmica. Da intensidade da translocação depende a ocorrência de infecções que podem evoluir até ao choque séptico.

Pouco tem sido pesquisado em relação aos mecanismos pelos quais as bactérias presentes no lume intestinal alcançam os nódulos linfáticos mesentéricos e outros tecidos. No entanto, vários mecanismos são propostos: a impermeabilidade das membranas celulares, a estreita junção entre as células mucosas e a hipótese do transporte fagocítico. Ainda, existem múltiplas vias descritas para a translocação bacteriana: migração retrógrada para pulmões, migração transmural direta através da parede intestinal e migração para linfonodos mesentéricos e/ou fígado através das vias linfática ou vascular; a concomitância de mais de uma destas vias poderá ocorrer.

A mucosa intestinal sofre lesão devido à reperfusão sanguínea após isquemia temporária, por hipóxia tecidual. Muitos mecanismos tentam justificar essas lesões, mas parecem ser dois os mais aceitos: teoria do estresse oxidativo e a ativação da fosfolipase A2. Estes mecanismos fariam o acúmulo e ativação de neutrófilos na mucosa intestinal. Estas células seriam as responsáveis pela gravidade da lesão na mucosa, que propiciariam a translocação bacteriana.

O aumento da pressão intra-abdominal, por qualquer mecanismo, como síndrome compartimental, insuflação de gás na cavidade abdominal, distensão de vísceras abdominais, produz isquemia dos órgãos intracavitários e parede abdominal, por compressão vascular que leva a alterações hemodinâmicas no sistema esplâncnico e de irrigação da parede intra-abdominal.

Os estudos de Eleftheriadis et al.5 demonstram que sob pressão intra-abdominal de 15mmHg, por 60 minutos, ocorre modificação na microcirculação intestinal. Diebel et al.9,10 e Ishizaki et al.11 relataram diminuição na perfusão sanguínea de órgãos intra-abdominais, quando induziram pressão abdominal entre 10 e 16mmHg.

Eleftheriadis et al.5, Gargiulo et al.12, Diebel et al.13. e Tug et al.14 evidenciaram translocação bacteriana em animais sob pneumoperitônio. No presente estudo, o pneumoperitônio com 10mmHg de CO2, por uma ou três horas foi fator decisivo na indução de translocação bacteriana, quer em animais normais, como em animais induzidos com colite (Tabela 4). Contudo, não se evidenciaram estatisticamente, diferenças entre a magnitude de translocação bacteriana, indicada pelo número de vísceras translocadas, entre os grupos insuflados com CO2 por uma ou três horas (Tabela 5). Estes resultados corroboram os achados de Tug et al.14, que tampouco observaram diferenças entre tempos distintos de duração do pneumoperitônio na indução de translocação bacteriana.

É de conhecimento que o trato gastrointestinal de roedores normais contém inúmeras espécies de bactérias; no entanto, poucas destas são observadas na translocação para nódulos linfáticos mesentéricos e outros órgãos. As enterobactérias, principalmente Escherichia coli, os Streptococcus como o Enterococcus faecalis e lactobacilos são freqüentemente isolados nos modelos de indução de translocação bacteriana. Outros microrganismos, tais como Pseudomonas sp, anaeróbios e leveduras translocam, mas parecem fazê-lo somente em circunstâncias não usuais. As espécies observadas em estudos anteriores como tipos dominantes na translocação são a Escherichia coli e o Enterococcus faecalis, sendo consideradas como indicadores de contaminação de flora cecal e adotadas neste estudo como tais.

É evidente que a experimentação animal tem sido marcante na avaliação de certos procedimentos durante toda a evolução das Ciências Médicas. Neste contexto, estudos que possam contribuir para a implementação da técnica cirúrgica laparoscópica possivelmente trarão em conjunto redirecionamentos nas condutas atinentes. O pneumoperitônio por CO2 tem sido alvo de intensos questionamentos, em face das complicações relatadas em certas situações, sejam complicações sépticas ou hemodinâmicas. Assim sendo, translocação bacteriana em animais portadores de colite induzida e em ratos normais, ambos sob pneumoperitônio por CO2, confirma o risco que esse procedimento conduz. Alternativamente, Smith et al.15 propuseram recentemente a prática da cirurgia videolaparoscópica sem o uso de pneumoperitônio, tendo sucesso no grupo de pacientes por eles estudados. É também consenso desses autores que tanto os instrumentos cirúrgicos como o próprio método sejam motivo de seqüentes estudos, pois a ausência da insuflação da cavidade abdominal com CO2 somente poderá contribuir para a diminuição da morbidade dessa técnica cirúrgica.

Os resultados deste trabalho apontam para a execução de estudos da prevenção de ocorrência de infecções conseqüentes à translocação bacteriana, entre estes, a profilaxia antimicrobiana.

 

CONCLUSÃO

1)Houve indução de translocação bacteriana em ratos normais em decorrência de pneumoperitônio de CO2 sob pressão média de 10mmHg.

2)Houve incremento de translocação bacteriana em ratos submetidos a colite induzida em decorrência de pneumoperitônio de CO2 sob pressão média de 10mmHg.

3)Não houve incremento de translocação bacteriana em ratos normais ou submetidos a colite induzida em decorrência de pneumoperitônio de CO2 sob pressão média de 10mmHg por uma ou três horas de duração.

 

REFERÊNCIAS

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Hajar N, Repka JCD, Canan Jr LW. Action of pneumoperitoneum with carbon dioxide on bacterial translocation in rats. Acta Cir Bras [serial online] 2002 May-Jun;17(3). Available from URL: http://www.scielo.br/acb.

ABSTRACT ¾ Objective: This study has the purpose of determining if pneumoperitoneum with CO2 develops bacterial translocation in normal rats and in rats submitted to induced colitis. Methods: 60 rats, divided into six groups of 10 animals, were utilized. In the sham group, laparotomy, abdominal organ manipulation, and suture of the wall were performed; the two pneumoperitoneum groups were submitted to pneumoperitoneum for one and three hours, respectively. In the colitis group, colitis was induced, laparotomy, abdominal organ manipulation and suture of the wall were performed. In the two colitis pneumoperitoneum groups colitis was induced plus pneumoperitoneum for one and three hours, respectively. After the animals were sacrificed, kidneys, spleens, livers, and mesenteric lymph nodes were collected. In the animals submitted to induced colitis, 2 cm of colon were resected for histologic analysis. The resected organs were analyzed for the presence of E. coli and Enterococcus faecallis in order to check bacterial translocation. Results: No statistic difference was found in the groups submitted to colitis. The bacterial translocation is no dependent on the genus of bacteria. There is no increase in bacterial translocation due to the duration of pneumoperitoneum (one and three hours) either in normal rats or in those submitted to induced colitis. Conclusion: Pneumoperitoneum induces bacterial translocation in normal rats and increases it in rats submitted to induced colitis.

KEY WORDS ¾ Pneumoperitoneum. Bacterial translocation. Carbon dioxide. Rats.

 

 

Conflito de interesses: nenhum
Fontes de financiamento: nenhuma

Endereço para correspondência:
Nemer Hajar
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Data do recebimento: 13/12/2001
Data da revisão: 05/01/2002
Data da aprovação: 12/02/2002

 

 

 

1. Resumo da Tese de Doutorado defendida e aprovada no Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná.
2. Mestre e Doutor pela Universidade Federal do Paraná. Cirurgião do Aparelho Digestivo do Hospital de Clínicas UFPr.
3. Professor Titular da Disciplina de Imunologia e Microbiologia da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná.
4. Acadêmico de Medicina. Monitor da Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UFPr.