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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.18  suppl.1 São Paulo  2003

https://doi.org/10.1590/S0102-86502003000700001 

Ação do fator de crescimento de fibroblasto básico na cicatrização da aponeurose abdominal de ratos1

 

 

Aldo da Cunha MedeirosI, 2; Antônio Medeiros Dantas FilhoII, 3; Keyla Ferreira Borges da RochaIII, 4; Ítalo Medeiros de AzevêdoIV, 5; Francisca Yane Bulcão de MacedoV, 6

IProfessor Adjunto, Doutor em Cirurgia, Chefe do Núcleo de Cirurgia Experimental e da Disciplina de Técnica Operatória, UFRN; Pesquisador nível I do CNPq
IIMestre em Cirurgia, Professor Assistente do Departamento de Cirurgia, UFRN. Aluno do Programa de Pós-graduação-Doutorado
IIIProfessora Mestre do Departamento de Patologia, UFRN
IVAluno do Departamento de Estatística, UFRN
VAluna bolsista de Iniciação Científica PIBIC, CNPq

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Trabalho realizado em ratos com o objetivo de estudar o efeito do Fator de Crescimento de Fibroblastos básico (FCFb) na cicatrização da aponeurose abdominal.
MÉTODOS: Foram usados 20 ratos Wistar separados aleatoriamente em 2 grupos iguais. Os animais foram anestesiados com pentobarbital sódico na dose de 20 mg/Kg por via intraperitoneal e submetidos a laparotomia mediana de 4 cm, cuja camada aponeurótica foi suturada com mononylon 5-0. No grupo I foi aplicada a dose de 5mg de FCFb sobre a sutura da aponeurose. No grupo II (controle) foi aplicada solução salina 0,9% sobre a linha se sutura. Após observação por 7 dias os animais foram mortos com superdose de anestésico. A camada aponeurótica com 1,5 cm de largura foi submetida a teste de resistência à tensão empregando a Máquina de Ensaios EMIC MF500. Biópsias das zonas de sutura foram processadas e coradas com HE e o tricômico de Masson. Os achados histopatológicos foram quantificados através de sistema digital (Image pro-plus) de captura e processamento de imagens. Os dados obtidos foram analisados pelo teste T com significância 0,05.
RESULTADOS:
Nos animais do grupo I (experimental) a zona de sutura da camada aponeurótica suportou a carga de 1.103± 103,39gf. A quantificação dos dados histopatológicos desse grupo atingiu a densidade média 226± 29,32. No grupo II (controle) a carga suportada pela zona de sutura foi de 791,1± 92,77 gf. Quando foram comparadas as médias das resistências à tensão dos dois grupos, observou-se uma diferença significante (p<0,01). O exame histopatológico das lâminas desse grupo relevou densidade média 114,1± 17,01, correspondendo a uma diferença significante quando comparadas as médias dos dois grupos (p<0,01).
CONCLUSÃO:
Os dados permitem concluir que o FCFb contribuiu para aumentar a resistência da aponeurose suturada e para melhorar os parâmetros histopatológicos da cicatrização.

Descritores: Fator de crescimento de fibroblastos. Cicatrização. Aponeurose abdominal.


ABSTRACT

OBJECTIVE: As little is known about the use of basic Fibroblast Growth Factor (FCFb) in the healing of abdominal aponeurosis, an experimental work was done to study it.
METHODS:
Twenty Wistar rats randomly separated in two groups were used. They were anesthetised with pentobarbital 20 mg/Kg intraperitonealy, submited to a 4cm median laparotomy and the aponeurosis was sutured with nylon 5-0. In group I 5mg of FCFb was applied over the sutured aponeurosis end the group II received saline 0,9% over it. After seven days the rats were killed by an overdose of anesthetic. A transversal 1,5 cm wideness sample of aponeurosis was submited to tensil strenght test, using the assay device EMIC MF500. Biopsies from the sutured tissue were processed and colored by HE and Masson trichromic. The histopatologic data were quantitated and transformed into mean density by the digital equipment Image Pro-plus. The Student t test was used and the differences were significant when p<0,05.
RESULTS:
In group I the the mean tensil strength was 1.103± 103,39gf and the mean density of histopatologic data was 226± 29,32. In group II (control) the tensil strenght was 791,1± 92, 77gf and the histolopatogical density was 114,1± 17,01. The differences were statisticaly significant (p<0,01).
CONCLUSION:
In conclusion, our data show that FCFb induces an increase of tensil strenght of sutured aponeurosis of rats and turns better the histopatological parameters of wound healing.

Keywords: Fibroblast Growth Factor. Healing. Abdominal aponeurosis


 

 

INTRODUÇÃO

A musculatura abdominal ântero-lateral é composta pelo músculo reto do abdome e três ântero-laterais. As forças desenvolvidas pelos músculos do abdome, dispostas em vários sentidos, têm como resultante uma força que tende a afastar a linha mediana. Essas forças em equilíbrio exercem tensão considerável durante os esforços abdominais sobre a linha alba, formada pelo entrecruzamento de fibras das aponeuroses dos músculos oblíquos e transverso. A disposição desses músculos e aponeuroses, tanto no homem quanto nos animais, contribui para dar sustentação às vísceras abdominais, de modo que a reconstituição da parede do abdome ao término das operações é de grande importância, dado o grande número de complicações que podem surgir. Uma delas, a mais freqüente, é a hérnia incisional, a única hérnia da parede abdominal realmente iatrogênica1.

O fator de crescimento de fibroblasto básico (FCFb) é uma proteína de 17.000 DA de peso molecular que tem funcionado como potente fator angiogênico2, sendo mitogênico e quimiotático para fibroblastos e células endoteliais3. O (FCFb) infiltrado em feridas incisionais no terceiro dia pós-operatório acelerou o ganho da resistência em 35% entre o quinto e sétimo dias de observação4.

O presente trabalho tem o objetivo de estudar a ação do FCFb na cicatrização da aponeurose abdominal de ratos, com a finalidade de procurar meio que fortaleça a ferida operatória praticada nesta estrutura anatômica, sujeita a tensão considerável no pós-operatório.

 

MÉTODOS

Foram operados 20 ratos Wistar, separados aleatoriamente em grupo I (n=10) e grupo II (n=10). Todos os animais foram mantidos em gaiolas individuais, com oferta de água e alimento Labina PurinaÒ ad libitum e receberam apenas dieta líquida no pré-operatório por um período de 12 horas. Os animais foram anestesiados com pentobarbital sódico na dose de 20 mg/Kg por via intraperitoneal. Após depilação e anti-sepsia da parede abdominal com povidona, foram submetidos a uma laparotomia mediana de 4 cm a partir do apêndice xifóide. Em seguida, foi fechada a camada aponeurótica com fio de mononylon número 5-0. Nos animais do grupo I (experimental) foi aplicada sobre a linha de sutura a dose de 5m g de fator de FCFb (procedência SIGMAâ) em colágeno solúvel, como veículo, constituindo uma preparação viscosa e aderente segundo a técnica utilizada por Slavin et al5. Em seguida, foi suturada a pele com o mesmo fio. Nos animais do grupo II (controle) foi aplicado o mesmo volume de solução salina 0,9% sobre a linha se sutura. Após 7 dias de observação os animais foram mortos com superdose de anestésico. Em seguida, a camada musculoaponeurótica foi ressecada em formado em ampulheta, de modo que a região da sutura tivesse 1,5 cm de largura e as extremidades da peça 3 cm de cada lado. A peça assim preparada foi presa a duas garras especiais sob pressão e levada para teste de resistência à tensão empregando a Máquina de Ensaios EMIC MF500. O teste foi feito utilizando-se gf (grama força) como unidade, e o estirando-se a peça a uma velocidade constante de 20 cm/min. Em seguida foi feita biópsia da zona de sutura que foi fixada em formol a 10 % por 48 hs, cujos cortes foram tratados com técnica de rotina e corados com hematoxicilina-eosina e o tricômio de Masson. A análise quantitativa foi feita através de microscopia óptica, num microscópio Olympusâ modelo BX50, utilizando-se o aumento de 200x, sendo as imagens captadas através de câmera digital, e enviadas ao computador para estudo da densidade dos componentes histológicos da cicatrização, através do programa Image Pro Plusâ, versão 4.0 para Windowsâ. O aporte de fibras colágenas, de células inflamatórias inerentes ao processo cicatricial, e a formação de neovasos, foram quantificados em unidades de densidade média.. Os dados obtidos foram analisados pelo teste T de Student com significância 0,05 e os resultados expressos em média± desvio padrão.

 

RESULTADOS

Os animais suportaram sem complicações o período de observação. No grupo I (experimental) a zona de sutura da camada musculoaponeurótica suportou a carga de 1.103± 103,39gf. Os valores discriminados encontram resumidos na tabela 1. A quantificação dos dados histopatológicos desse grupo atingiu o escore 226± 29,32 pontos (tabela 2). Chamou a atenção a exuberância do número de macrófagos e fibroblastos nas lâminas examinadas, o grande número de neovasos, bem como a quantidade de fibras de colágeno, especialmente evidenciadas pelo tricrômico de Masson.

 

 

 

No grupo II (controle) a carga suportada pela zona de sutura atingiu a média de 791,1± 92,77 gf. Quando foram comparadas as médias das resistências à tensão dos dois grupos, observou-se uma diferença significante (p<0,01). O exame histopatológico das lâminas desse grupo relevou escore de 114,1± 17,01 pontos, correspondendo a uma diferença significante (p<0,01) quando comparadas as médias dos dois grupos (tabela 2).

 

DISCUSSÃO

A cicatrização normal da ferida operatória requer uma interligação complexa e ordenada de vários mediadores bioquímicos e celulares. A aplicação da tecnologia de recombinação e de purificação bioquímica do DNA, através de técnica de cromatografia de afinidade pela heparina, permitiu a identificação de vários fatores de crescimento. A técnica da reação e ampliação da cadeia da polimerase apontou a origem celular desses fatores6,7. Atualmente sabe-se que os fatores de crescimento exercem funções importantes como: são angiogênicos, quimiotáticos, indutores ou inibidores da diferenciação celular, transformação ou indução da síntese de proteínas e são mais adequadamente descritos como citocinas8.

Dentre os fatores de crescimento, os que parecem ter mais destaque na cicatrização das feridas são os fatores de crescimento de fibroblastos (FCF). Há dois tipos de FCF, sendo um de reação básica e outro de reação ácida, de acordo com o potencial isoelétrico. Destes o FCF de reação básica (FCF-b) exerce um maior número de reações fisiológicas9. Os fatores de crescimento são essencialmente angiogênicos, promovem, portanto, o crescimento vascular, aspecto muito desejável nos processos de cicatrização. Além disso, sua ação é indireta na síntese de colágeno, proteína que dá resistência às feridas em cicatrização10.

Estudo experimental realizado para observar a vascularização da aponeurose abdominal mostrou que há vasos em quantidade muito limitada na intimidade desse tecido, caracterizando uma estrutura anatômica de nutrição precária11. A escolha da aponeurose abdominal para estudo deveu-se a suas características de estrutura mal vascularizada que conseqüentemente é de cicatrização lenta, é submetida a grandes esforços e tensões e freqüentemente lesada nas vias de acesso ao abdome. A metodologia da determinação da resistência da aponeurose à tensão foi testada de várias maneiras em outros estudos, todos com resultados satisfatórios12,13,14. O exame histopatológico qualitativo e quantitativo realizado com equipamento de captação de imagem e tratamento digital contribuiu para eliminar o fator subjetivo da avaliação pelo patologista. Alguma outras técnica têm sido utilizadas15,16,17,18.

Mcgee et al4 que assinalaram a ação do FCFb na epitelização mais rápida, a intensa neovascularização e a deposição do colágeno na matriz extracelular, mesmo na presença de infecção. Tem sido demonstradas as suas funções proliferativas e angiogênicas, e ficou provado que os mesmos só têm ação local não tendo repercussões renais, eletrolíticas e hematológicas4. No campo da oftalmologia, Mazue et al19 demonstraram o aumento da celularidade, da angiogênese e da maturação do colágeno. Resultados semelhantes aos encontrados no presente trabalho forma encontrados em estudos experimentais recentes20,21.

No presente estudo concluiu-se que o FCF-b contribuiu para aumentar a resistência da aponeurose à tensão, melhorando sobremaneira a evolução histopatológica do processo cicatricial, o que fez com que a ferida operatória pudesse se tornar menos susceptível à ruptura.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Av. Miguel Alcides Araújo 1889
59078-270 Natal, RN

 

 

1 Trabalho do Núcleo de Cirurgia Experimental, UFRN. Apoiado pelo CNPq
2 Professor Adjunto, Doutor em Cirurgia, Chefe do Núcleo de Cirurgia Experimental e da Disciplina de Técnica Operatória, UFRN; Pesquisador nível I do CNPq.
3 Mestre em Cirurgia, Professor Assistente do Departamento de Cirurgia, UFRN. Aluno do Programa de Pós-graduação-Doutorado.
4 Professora Mestre do Departamento de Patologia, UFRN.
5 Aluno do Departamento de Estatística, UFRN
6 Aluna bolsista de Iniciação Científica PIBIC, CNPq

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