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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.18  suppl.5 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502003001200009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Efeito do cloridrato de oxibutinina na hiperatividade vesical conseqüente a cistite hemorrágica1

 

Effects of oxybutynin in bladder hyperactivity caused by hemorrhagic cystitis

 

 

Mizuma, EK I; Takeshita, MSII; Haylton Jorge SuaidIII; Antonio Carlos Pereira MartinsIV; Silvio Tucci JrV; Adaulto José ColognaV; Gonçalves, MAVI

IAluno de Iniciação Científica do Depto de Cirurgia e Anatomia da FMRP-USP - CAPES
IIAluno de Graduação do Curso de Medicina da FMRP-USP
IIIProf. Associado do Depto de Cirurgia e Anatomia – Disciplina de Urologia da FMRP - USP
IVProf. Titular do Depto de Cirurgia e Anatomia – Disciplina de Urologia da FMRP - USP
VProf. Doutor do Depto de cirurgia e Anatomia – Disciplina de Urologia da FMRP - USP
VIPós-Graduando do Depto de Cirurgia e Anatomia da FMRP - USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

INTRODUÇÃO: A oxibutinina atua como agente anticolinérgico que tem ação anti-muscarínica e, principalmente, ação antiespasmódica na musculatura lisa vesical. Assim, ela causa aumento da capacidade vesical e diminui a frequência miccional e bloqueia o estímulo inicial da micção. OBJETIVO: Verificar se a oxibutinina atua sobre a hiperatividade vesical causada pela cistite hemorrágica, dependente do óxido nítrico.
MÉTODOS: Foram estudados dois grupos de animais. O controle com 5 ratas e o experimental com 10 ratas, cujos pesos variaram entre 200g a 250g. A cistite hemorrágica foi provocada pela injeção intraperitoneal de ciclofosfamida 200mg/kg, na véspera do experimento. Após 24 horas, as ratas foram anestesiadas com uretana 1,25mg/kg. A seguir, foi feita cistostomia com cateter P-50. Esse cateter foi conectado em Y a uma bomba de infusão contínua com fluxo de água de 0,3ml/min e a um polígrafo para o registro da cistometria. O registro cistométrico foi feito com a velocidade do papel de 0,05cm/seg, com sensibilidade de 20 e calibração para um curso de 60mm para uma pressão de 100mmHg. Os parâmetros estudados foram: freqüência de contração (Fc), intensidade das contrações (Ic), tempo de enchimento vesical (Te), tempo de contração vesical (Tc) e capacidade vesical (Cv), que foi determinado pelo Te x Fluxo. Esses parâmetros foram determinados por suas médias durante o período de observação de 10 min. Após o registro, foi infundido por gavagem 71 mg/kg de cloridato de oxibutinina. Uma hora depois foi feita nova cistometria. A análise estatística foi feita pelo método de Kruskal-Wallis que comparou os valores do grupo controle com o experimental. O p foi considerado significante quando menor que 0,05.
RESULTADOS:
A comparação entre os dois grupos dos parâmetros estudados antes da infusão do cloridrato de oxibutinina mostrou: Fc – p=0,007; Ic – p=0,0002; Te – p=0,768; Tc – p=0,492; Cv – p=0,056 A comparação dos parâmetros estudados depois da droga mostrou: Fc – p= 0,055; Ic – p=0,0002; Te – p=0,957; Tc – p=0,181; Cv – p=0,206.
CONCLUSÕES:
O cloridrato de oxibutinina nesse modelo experimental atuou de forma a alterar somente a freqüência das miccções, controlando a hiperatividade e não promovendo alterações nos demais parâmetros estudados.

Descritores: Cistite. Polaquiúria. Oxibutinina. Ciclofosfamida


ABSTRACT

BACKGROUND: The oxybutynin is an anticholinergic agent that binds to muscarinic receptors of bladder muscle promoting an antispasmodic effect. As a consequence there is an increase in bladder capacity, reduction in frequency and a blockade in the initial stimuli of miction.
OBJECTIVE: To verify the action of oxybutynin on bladder overactivity due to hemorrhagic cystitis.
METHODS: Hemorrhagic cystitis was provoked through an intraperitoneal injection of 200mg/kg of cyclophosphamide in 10 female rats, weighting 200-250g, 24h before the experiment. The control group of 5 female rats received an intraperitoneal injection of 0.5ml of saline. In the experiment the animals were anesthetized with 1.25mg/kg of urethane followed by a cystostomy with a P-50 catheter connected in Y to an infusion pump (rate of infusion – 0.3ml/min) and to a polygraph to register bladder pressure. The parameters studied were: frequency of bladder contraction (Fc), contraction intensity (Ci), time of bladder filling (Tf) and contraction (Tc), and vesical capacity (Vc) (Tf x flow). We determined the mean value for each parameter following of 10min of observation. After these determinations all rats received 71mg/kg of oxybutynin chloride through nasogastric tubing and 1h afterward the measures were repeated. The data were compared with the Kruskal-Wallis test considering significant a p<0.05.
RESULTS: A comparison both groups (control versus experimental) before the use of oxybutynin showed the following values of p: Fc – 0.007; Ci – 0.0002; Tf – 0.768; Tc – 0.492; Vc – 0.055. After the use of oxybutynin the corresponding values were: Fc – p=0.055; Ci – p=0.0002; Tf – 0.957; Tc – p=0.181; Vc – p=0.206.
CONCLUSION: The oxybutynin chloride was able to control bladder overactivity expressed by a significant reduction in frequency, but no changes in other parameters.

Key words: Cystitis, frequency. Oxybutynin. Cyclophosphamide.


 

 

INTRODUÇÃO

Os antagonistas muscarínicos são considerados agentes parassimpatolíticos por reduzirem ou abolirem seletivamente os efeitos da estimulação parassimpática. A forma de ação dos antagonistas é por competição com a acetilcolina nos receptores muscarínicos. O Cloridrato de Oxibutinina atua como agente anticolinérgico e é uma amina terciária que tem ação anti-muscarínica e, principalmente, ação antiespasmódica na musculatura lisa vesical. Não se sabe especificamente em qual receptor muscarínico ela age. Entretanto, acredita-se que tenha maior afinidade pelos receptores M31. No músculo detrusor os receptores parassimpáticos presentes são do tipo M2-M3, embora a mioria sejja M21,2. Assim, o cloridrato de oxibutinina atua de forma a aumentar a capacidade vesical, diminuir a frequência miccional e atrasar o estímulo inicial da micção. A indicação de uso é para os pacientes com hiperratividade vesical de origem motora ou sensorial, como também na hiperatividade vesical hiperreflexa, cujo objetivo é promover o bloqueio do detrusor e consequentemente tratar a urgência miccional, bem como a incontinência urinária de urgência miccional3.

 

OBJETIVO

Verificar a atuação do cloridrato de oxibutinina sobre a hiperatividade vesical causada pela cistite hemorrágica dependente do óxido nítrico.

 

MÉTODOS

1 ) ANIMAIS

Foram utilizadas 16 ratas Wistar com peso aproximado de 200 g, que foram divididas em 2 grupos.

– Grupo I (GI controle): constituído por 6 ratas normais, que receberam 2,5 ml de NaCl a 0,9% (mesmo volume de ciclofosfamida administrada no grupo experimental) por via intra-peritoneal. Depois da cistometria controle, injetou-se, via orogástrica, aproximadamente, 1,0 ml de solução salina a 0,9% (mesmo volume do cloridrato de oxibutinina).

– Grupo II (GII): 10 ratas receberam o cloridrato de oxibutinina na concentração de 71microgr/kg diluídos em 1,0 ml de solução fisiológica através de sonda orogástrica.

2) INDUÇÃO DA CISTITE HEMORRÁGICA

Ratas normais receberam uma injeção intraperitoneal de ciclofosfamida numa dose de 200 mg/kg diluída em soro fisiológico na concentração de 20 mg/ml que foi dada 24h antes da determinação da função vesical4.

3) ANESTESIA

As ratas foram anestesiadas com uretana na dosagem de 1,250 mg por kilo de peso, via intraperitonial.

4) CIRURGIA

Cistostomia: Inicialmente foi feita tricotomia abdominal. Depois a laparotomia com exposição, reparo e abertura do fundo vesical, local onde se introduziu e fixou um cateter de polietileno PE-50. Esse cateter foi exteriorizado por contra abertura na região dorso lateral direita onde também foi fixado. Serviu para se fazer as medidas das pressões vesicais.

5) REGISTRO DAS PRESSÕES VESICAIS

O sistema para se fazer o registro das pressões veisicais foi composto por uma bomba de infusão continua regulada para um fluxo de 0,3 ml/minuto, conectada em Y ao cateter de cistostomia e a um polígrafo Narco-Biosystem. Determinou-se assim, o comportamento vesical durante 10 minutos, registrando-se o ciclo miccional de enchimento e esvaziamento vesical5. Os registros foram feitos após a cistostomia e uma hora após a infusão gátrica do cloridrato de oxibutinina.

6 ) ANÁLISE ESTATÍSTICA

Os resultados dos parâmetros estudados nos registros miccionais das 16 ratas nos dois períodos estudados foram analisados e comparados através do método de Wilcoxon dentro do mesmo grupo e de Kruskal-Wallis entre os dois grupos. Considerou-se significante a relação para p<0,05.

 

RESULTADOS

1. Avaliação estatística (Wilcoxon) das cistometrias de cada grupo

 

 

 

 

2. Análise estatística comparando os 2 grupos (Kruskal-Wallis).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Na tabela 1 estão agrupadas as médias dos valores dos parâmetros estudados nas cistometrias de 6 ratas do grupo controle, bem como o desvio padrão, o valor de "p" e o nível de significância do teste de Wilcoxon, que não identificou diferenças estatísticas na comparação dos resultados antes e após a infusão gástrica de solução salina a 0,9%.

A avaliação cistométrica do grupo experimental (GII), com uso do cloridrato de oxibutinina, em 10 ratas com cistite hemorrágica estão agrupadas na tabela 2. Observa-se que o teste de Wilcoxon identificou diferenças muito significantes em 2 parâmetros, significantes em 1, e sem alterações significantes em 2 parâmetros.

A cistite provocada pela injeção de ciclofosfamida alterou no grupo experimental a Fc e Ic, não alterando os demais parâmetros quando comparamos com o Grupo Controle (tabela 3). Portanto, ao analisar o resultado após a administração do cloridrato de oxibutinina (tabela 4), percebemos que a droga atuou de forma a alterar a freqüência de micções, não promovendo alterações nos demais parâmetros estudados.

 

CONCLUSÕES

O cloridrato de oxibutinina atuou de forma a diminuir a hiperatividade vesical, aumentar a capacidade vesical e aumentar o tempo de enchimento vesical.

Houve diminuição acentuada da força de contração do músculo detrusor em relação ao controle normal.

 

REFERÊNCIAS

1. Yamanishi T; Chapple CR; Chess-Willians R: With muscarinic receptor is important in the bladder? World J Urol 2001; 19(5):299-306.         [ Links ]

2. Kondo S, Morita T: A study of muscarinic cholinergic receptor subtypes içn human detrusor muscle using radioligand binding techiniques. Nippon Hinyokika Gakkai Zasshi 1993 Jul; 84(7): 1255-61.         [ Links ]

3. O'Leary,M; Erickson, JR;Smith, CP; McDermott, C; Horton, J; Chancellor, MB. Effect of controlled-release oxybutynin in neurogenic bladder function in spinal cord injury. J Spinal Cord Med 2003; 26(2): 159-62.         [ Links ]

4. Souza-Filho, MB; Lima, MV; Pompeu, MM; Balljo, G; Cunha, FQ; Ribeiro, RA. Involvemente of nitric oxide in the pathogenesis of cyclophosphamide-cuced hemorragic cystitis. Am J Pathol 1997; 150: 1247-56.         [ Links ]

5. Suaid, HJ; Martins, ACP; Nina-Rocha, J; Cologna, AJ; Tucci Jr, S. Comparação da função uretral após cistectomia simples em ratas e cistoprostatectomia em ratos. Acta Cir Bras 1998; 13: 25.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Haylton Jorge Suaid
Hospital das Clínicas – Departamento de Cirurgia
Av. Bandeirantes, 3900 – 9º Andar
Ribeirão Preto
CEP: 14048-900

 

 

1. Trabalho realizado no setor de Cirurgia Experimental do Departamento de Cirurgia e Anatomia - HCFMRP-USP