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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.18  suppl.5 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502003001200015 

ARTIGO RETROSPECTIVO

 

Adrenalectomia laparoscópica: análise de 11 pacientes1

 

Laparoscopic adrenalectomy – analysis of 11 pacients

 

 

Ricardo Brianezi TiraboschiI; André Luis Alonso DomingosI; Rodolfo Borges ReisII; Tiago Borelli BovoI; Haylton Jorge SuaidII; Adauto José ColognaII; Antonio Carlos Pereira MartinsII

IMedico Residente de Urologia / Hospital das Clinicas – FMRP-USP
IIProfessores e Assistentes de Urologia Hospital das Clinicas – FMRP-USP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar a experiência inicial da Divisão de Urologia do HCFMRP-USP na adrenalectomia transperitoneal videolaparoscópica.
MÉTODOS:
Análise retrospectiva de 11 casos de adrenalectomia transperitoneal laparoscópica realizados de fevereiro de 1999 a março de 2003 sendo 3 em homens( 27%) e 8 em mulheres (73%), idade média de 40,2 ± 13,1 anos. Os pacientes apresentavam os diagnósticos seguintes: adenoma – 5, síndrome de Cushing – 3, feocromocitoma – 1, hiperaldestorismo – 1 e síndrome de Carney – 1.
RESULTADOS:
A cirurgia foi bilateral em 05 pacientes (45,4%) e unilateral em 06 pacientes (54,6 %), destes 04 à direita (36,4%) e 02 à esquerda (18,2%). O tempo médio de internação foi de 3,6 ± 1,1 dias, o tempo médio de cirurgia foi de 220,5 ± 103,7 minutos e a taxa de conversão foi de 18,2%.
CONCLUSÃO:
Os resultados apresentados são similares aos relatados pela literatura, demonstrando que a adrenalectomia videolaparoscópia pode ser realizada de maneira segura e eficiente com benefícios: tempo cirúrgico aceitável, rápida recuperação pós-operatória e alta precoce.

Descritores: Adrenalectomia, laparoscopia. Adenoma da adrenal. Cushing. Conn. Carey.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To analyze the initial experience of the Division of Urology from HCFMRP-USP on the transperitoneal laparoscopic adrenalectomy.
METHODS:
We analyze retrospectively 11 cases of laparoscopic adrenalectomy carried out from February of 1,999 to March of 2,003. The sample included all patients operated on through this method in such period and was composed of 3 (27%) men and 8 (73%) women with a mean age of 40,2 ± 13,1 years. The patients had the following diagnosis: adenoma – 5, Cushing's syndrome – 3, feocromocytoma - 1, Conn's syndrome – 1 and Carey's syndrome – 1.
RESULTS:
The adrenalectomy was bilateral in 5 (45.4%) patients and unilateral in 6 (54.6%) being 4 (36.4%) on the right side and 2 (18.2%) on the left side. The mean hospital stay was 3,6 ± 1,1 days and the mean operating time was 220,5 ± 103,7 minutes. Conversion to open surgery was required in 2 patients (18.2%).
CONCLUSION:
The results of laparoscopic adrenalectomy were similar to those reported elsewhere and corroborate the safety and efficacy of the method resulting in an acceptable surgical time, faster postoperative recovery and shorter hospital stay.

Key words: Laparoscopy. Adrenalectomy. Adenoma. Cushing. Conn. Carey.


 

 

INTRODUÇÃO

O uso de técnicas minimamente invasivas tem mudado o acesso cirúrgico à glândula adrenal. Desde sua primeira descrição, em 1991 por Gaygner1, a adrenalectomia videolaparoscópica tem se difundido com ampla aceitação mundial2. Antes do advento da laparoscopia o acesso cirúrgico tradicional geralmente se fazia por ampla incisão na pele para exposição adequada de um órgão pequeno e friável com abundante e delicada vascularização, situada no retroperitôneo3. Na última década vários trabalhos foram publicados a respeito dos benefícios da adrenalectomia videolaparoscópica2,4,5. Atualmente é considerada o tratamento padrão para a maioria dos pacientes com patologias cirúrgicas da adrenal, incluindo tumores e o feocromocitoma4,5. O procedimento está associado com menor período de convalescência, menor dor pós-operatória, internação hospitalar reduzida e retorno precoce à atividade funcional do paciente6. O objetivo deste trabalho é mostrar a experiência inicial da disciplina de Urologia do HCFMRP-USP.

 

MÉTODOS

Análise retrospectiva dos casos de adrenalectomia laparoscópica realizada de fevereiro de 1999 a março de 2003 no HCFMRP-USP. Os procedimentos foram realizados via transperitoneal. Os pacientes foram posicionados em decúbito lateral. O pneumoperitôneo foi obtido com punção abdominal com agulha de Veress e insuflado dióxido de carbono (CO2) na pressão de 12-14 mmHg. O acesso à cavidade peritoneal foi obtido inicialmente através de uma pequena incisão transversa situada na linha medioclavicular na altura da cicatriz umbilical, onde foi inserido trocarte de 10 mm e colocado a câmera. Três portes adicionais de 5 ou 10 mm foram então colocados: na linha médioclavicular aproximadamente dois dedos abaixo da margem costal, na linha axilar anterior na altura da cicatriz umbilical e linha axilar posterior.

Na dissecção laparoscópica, numerosas pequenas artérias e veias são encontradas e devem ser controladas tanto por eletrocauterização ou clipagem pois as adrenais têm suprimento sanguíneo extremamente rico com ramos arteriais da aorta, artéria frênica inferior e artéria renal. A veia adrenal origina-se na medula e desemboca na veia cava no lado direito e na veia renal do lado esquerdo3.

Na adrenalectomia direita o peritôneo é incisado e rebatido inferiormente, o fígado afastado para exposição adequada. A dissecção da glândula adrenal direita começa inferior e lateral onde o tecido fibroadiposo contém pequenos vasos que são controlados. A veia adrenal entrando na veia cava é identificada e dissecada precocemente, é então duplamente ligada com clipes metálicos e seccionada. A dissecção prossegue superiormente no tecido adiposo entre a glândula adrenal e a face lateral da veia cava inferior, os vasos encontrados são cuidadosamente ligados. A musculatura póstero-inferior do diafragma pode ser vista neste ponto. A dissecção continua inferiormente até a face ínfero-medial da glândula quando é liberada da fáscia de Gerota. A glândula adrenal é removida num saco endoscópico através de um dos portes. É realizada então a revisão da hemostasia.

Para o acesso à adrenal esquerda, a flexura esplênica deve ser incisada e o cólon rebatido inferiormente, geralmente o baço não necessita de afastamento. A dissecção do tecido ao redor da face posterior da cauda do pâncreas ajuda a definir a borda anterior da adrenal esquerda. A dissecção continua póstero-inferiormente no tecido fibroadiposo entre a adrenal e o rim e prossegue anteriormente com atenção para a localização da veia adrenal esquerda.

Os diagnósticos estão apresentados na Tabela 1. Nenhum dos tumores apresentava diâmetro superior a 4cm.

 

 

A taxa de conversão foi de 18,2 %, tendo ocorrido em 2 pacientes: a primeira em uma paciente com diagnóstico de Síndrome de Carney submetida à adrenalectomia bilateral complicada por lesão da cauda do pâncreas durante a adrenalectomia esquerda e posterior conversão, a segunda complicação em uma paciente com diagnóstico de adenoma de adrenal submetida à adrenalectomia direita complicada por laceração da veia adrenal na inserção da veia cava com necessidade de conversão imediata. Ambas tiveram sangramento significativo, recuperação mais lenta e aumento do tempo de hospitalização. Não houve nenhum caso de morte.

Não houve necessidade de transfusão sangüínea nas cirurgias videolaparoscópicas, exceto nos 2 casos que necessitaram de conversão para cirurgia aberta.

 

DISCUSSÃO

O tratamento endoscópico das doenças cirúrgicas da adrenal foi muito difundido na última década, sua indicação está bem estabelecida para os tumores benignos, síndrome de Cushing, feocromocitoma, hiperaldosteronismo primário7,8,9. A via laparoscópica foi proposta também para casos de câncer e em doenças metastáticas para a adrenal mas esta conduta não está estabelecida e ultimamente tem sido contra-indicada em razão do risco de carcinomatose peritoneal10,11,12,13. O procedimento tem a melhor indicação em tumores menores que 4cm pois acima disto além da dificuldade técnica há o risco da presença de tumor maligno2,6.

A adrenalectomia é considerada um procedimento de técnica laparoscópica avançada. O uso de ótica angulada ou de 0º e múltiplos instrumentos simultaneamente pode ser desafiador, exigindo importante curva de aprendizado14,15. Apesar disso, nossa experiência inicial de 11 casos mostrou resultados semelhantes aos da literatura: taxa de complicações e conversão, tempo cirúrgico, tempo de internação16,17, permitindo um regresso precoce do paciente ao lar e retorno a sua atividade funcional18.

 

RESULTADOS

Foram realizados 11 procedimentos, 03 em homens ( 27%) e 08 em mulheres (73%). A cirurgia foi bilateral em 05 pacientes (45,4%) e unilateral em 06 pacientes (54,6 %), tendo sido 04 à direita (36,4%) e 02 à esquerda (18,2%).

A idade, o tempo de internação e o tempo cirúrgico médios estão demonstrados na Tabela 2.

 

CONCLUSÃO

Nossa experiência confirma que a adrenalectomia videolaparoscópica é um método seguro e eficaz oferecendo os benefícios da cirurgia minimamente invasiva. Estes benefícios incluem tempo cirúrgico aceitável, rápida recuperação pós-operatória e alta precoce.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Antonio Carlos Pereira Martins
Hospital das Clínicas – Departamento de Cirurgia, 9º Andar
Av. Bandeirantes, 3900 – Ribeirão Preto
CEP: 14048-900

 

 

1. Pesquisa realizada no Hospital das Clinicas – FMRP-USP