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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.19 no.3 São Paulo May/June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502004000300009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estudo manométrico do esôfago distal de gatos anestesiados com tiopental sódico1

 

Manometric study of the distal esophagus of cats anesthetized with sodic thiopental

 

 

Carlos Eduardo Meirelles dos SantosI; Maria Aparecida Coelho de Arruda HenryII; Sheila Canevesse RahalIII; Mauro Masson LercoIV

IMédico Veterinário do Centro Veterinário de Bauru
IIProfessora Titular do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da UNESP
IIIProfessora Adjunta do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia de Botucatu
IVProfessor Assistente do Departamento de Cirurgia e Ortopedia da UNESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Obter o padrão de normalidade da pressão e comprimento do esfíncter inferior do esôfago (EIE) em gatos anestesiados com tiopental e analisar a viabilidade prática do anestésico para uso neste tipo de investigação sobre atividade motora do esôfago de felinos.
MÉTODOS: Em 12 gatos anestesiados com tiopental sódico foram realizados estudos manométricos do EIE, com leitura por perfusão em três canais radiais. Foram avaliadas as pressões e comprimentos do EIE.
RESULTADOS: Os valores médios da pressão e comprimento do EIE foram 33,52 ± 12,42 mmHg e 1,6 ± 0,4 cm, respectivamente.
CONCLUSÃO: Foi possível estabelecer valor de referência para a pressão e comprimento do EIE de felinos, com uma contenção e retorno confortáveis para o animal, utilizando o tiopental sódico como agente anestésico.

Descritores: Manometria. Esôfago. Gato. Tiopental.


ABSTRACT

PURPOSE: To obtain the normality standard of the lower esophageal sphincter (LES) of cats anesthetized with tiopental and at analysing the practical viability of the anesthetic use in felines esophagus motor activity investigation.
METHODS: Manometric studies of LES were performed in 12 cats anestetized with tiopental with perfusion reading in three radial channels. LES pressures and lengths were measured.
RESULTS: The mean values of LES pressure and lengths were 33,52 ± 12,42 mmHg and 1,6 ± 0,4 cm respectively.
CONCLUSION: A LES reference value for felines pressure and length was determined. Acommodation and return were comfortable for the animals with the use of sodic tiopental as an anesthetic agent.

Key words: Manometry. Esophagus. Cat. Tiopental.


 

 

Introdução

O estudo da atividade motora do esôfago é importante para esclarecer a fisiopatologia de afecções esofágicas tais como o megaesôfago1,2,3, doença do refluxo gastroesofágico4,5,6 e distúrbios da deglutição, que são de importância significativa tanto na medicina humana como na veterinária.

O arranjo das fibras musculares do esfíncter inferior do esôfago (E I E) do gato e gambá7,8,9, é semelhante ao do homem. Entretanto, Rogers et al1., observaram que o EIE de cães com acalasia não se comporta como em humanos com esta doença. Estes fatos, aliados à semelhança do pH gástrico humano e felino9 colocam o gato como melhor modelo de estudo10, considerando inclusive que é de mais fácil aquisição e manipulação que o gambá.

Diversos autores têm estudado a fisiologia do esôfago felino10,11 visando obter o padrão de normalidade para servir de bases em estudos experimentais.

Correnti et al,10 estudaram o E I E de 15 gatos anestesiados com quetamina por via intramuscular. Segundo estes autores a pressão média do E I E foi de 28,1 ± 1,4 mmHg. Como as características dos esfíncters e da motilidade do corpo foram semelhantes a vista em humanos, os autores concluíram ser o gato um modelo apropriado para estudo da motilidade esofageana.

Ao determinarem o papel da inervação vagal extrínseca no controle da função do E I E em quatro gatos, Reynolds et al12., encontraram valores normais do esfíncter inferior do esôfago em média, de 58 ± 17 mmHg. Os animais foram anestesiados com quetamina na dose de 15 mg/kg via intramuscular na indução e 10mg/kg via intramuscular a cada 30 a 60 minutos de manutenção.

Preiksatis et al7 concluíram, ao avaliarem quatro gatos, que o E I E dessa espécie, semelhante ao dos humanos, apresenta assimetria radial. Os autores observaram também redução significativa da pressão no E I E após injeção de atropina.

Ao efetuarem experimento sobre reversibilidade da motilidade do esôfago em 22 gatos, Schneider et al2., observaram valores da pressão no E I E variando entre 31 e 47 mmHg, com média de 37 mmHg, como padrão de normalidade na zona de alta pressão deste animal. A manometria esofágica foi efetuada com os animais anestesiados pela quetamina, aplicada via intramuscular na dose de 30mg.

Tendo como argumento a preservação do reflexo de deglutição, Zhang et al8, utilizaram a anestesia com quetamina na dose de 15mg/kg em cinco gatos, avaliando a peristalse esofágica e a função do E I E (47+/- 4 mmHg no grupo controle).

Hashim e Waterman13,14 analisaram em gatos, influência do sulfato de atropina, acepromazina, tiopental, propofol, quetamina, e a associação sulfato de atropina xylazina e quetamina, sobre a pressão e comprimento do E I E. Os autores observaram que todos os fármacos diminuem a pressão do E I E, sendo que a quetamina apresentou efeito menos intenso, pois os gatos preservaram reflexo de deglutição e pedalagem.

Visto que no exame manométrico é imprescindível a correta e confortável imobilização do animal na posição supina4,10 ou dorsal, para a passagem da sonda por via nasal10, ou oral,4 o presente trabalho foi realizado com o objetivo de se obter o padrão de normalidade da pressão e comprimento do E I E em gatos anestesiados com tiopental, bem como analisar a viabilidade prática do anestésico para o uso neste tipo de experimentação manométrica e o conforto e segurança para animais anestesiados.

 

Métodos

Foram estudados 12 gatos SRD, sendo sete fêmeas e cinco machos, com idades variando entre 2 e 12 meses e pesos entre 1,0 e 3,5 kg. Após jejum de 12 horas os animais foram anestesiados com tiopental sódico, na dose inicial de 30 mg/kg por via venosa, em pequenos bolus vagarosa e continuamente até a obtenção do segundo plano do terceiro estágio anestésico, monitorado pela observação da perda da consciência, perda do reflexo interdigital, diminuição do reflexo palpebral e monitoração da freqüência respiratória.

Em seguida estes animais foram submetidos a manometria esofágica e para tal foi utilizada sonda de três vias de polietileno, com 1,5mm de diâmetro externo. A sonda possui três orifícios radiais, permitindo a obtenção de três medidas de pressão no E I E em cada exame manométrico.

As três vias da sonda foram ligadas a transdutores de pressão, sistema de perfusão de água destilada e fisiógrafo de seis canais computadorizado (Figura 1).

 

 

A eletromanometria foi realizada segundo técnica de puxada intermitente da sonda, segundo padronização do Laboratório de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Faculdade de Medicina de Botucatu-UNESP;15,16,17. Após a introdução no estômago, a sonda foi tracionada de meio em meio centímetro até atingir o E I E e corpo esofágico. A eletromanometria permitiu o estudo da amplitude da pressão do E I E (mmHg) e comprimento do E I E (cm) nos canais 1, 2 e 3 (Figura 2).

 

 

Após o término do exame, os animais foram observados até o retorno anestésico, que ocorria após duas a três horas do início do experimento.

Sendo o objetivo do trabalho a obtenção do padrão de normalidade, o procedimento estatístico utilizado limitou-se ao estudo das médias, desvios padrão e coeficiente de variabilidade das duas variáveis (pressão e comprimento do EIE).

 

Resultados

A técnica anestésica utilizada permitiu eficaz contenção dos animais, não tendo sido observado sinais de reflexos contrários a passagem do cateter. A abolição da deglutição foi dose dependente.

Na Tabela 1 estão contidos os valores da pressão no E I E (mmHg) observados nos 3 canais de registro, a média de cada animal, desvio padrão e coeficiente de variabilidade.

Os valores do comprimento de E I E (cm) nos três canais de registro, a média de cada animal, desvio padrão e coeficiente de variabilidade estão na Tabela 2.

 

 

Discussão

O presente trabalho foi realizado com o objetivo de estudar o EIE de gatos anestesiados com tiopental sódico, visando a obtenção de um padrão de normalidade, que será utilizado em futuras pesquisas no Laboratório de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Faculdade de Medicina de Botucatu (UNESP) e analisar a viabilidade do tionembutal sódico como anestésicos nestes experimentos.

A atividade motora do esôfago tem sido objeto de estudo em nosso laboratório, utilizando o cão15,16, o coelho17,18 e o gambá19 como animais de experimentação. Entretanto das espécies estudadas apenas o gambá apresenta a distribuição das técnicas musculares semelhantes à do homem20. Todavia, o gambá apresenta algumas desvantagens, pois sua obtenção é difícil e os biotérios não dispões de rotina estes marsupiais. Além disso este animal é bastante agressivo e constitui reservatório natural de alguns protozoários (Tripanossoma cruzi), fatos que contribuem para o temor da equipe encarregada de manipula-lo.

Trabalhos recentes têm demonstrado que o gato constitui bom modelo experimental para estudo da motilidade esofageana2,4,5,8,10. O estudo da amplitude da pressão do E I E em gatos realizado por vários autores (Tabela 3), demonstra valores médios deste atributo variando entre 22,1 ± 3,6 mmHg e 58 ± 17mmHg. Os autores acima referidos utilizaram a quetamina como agente anestésico, administrada por via intra muscular.

Nesta pesquisa utilizou-se o tiopental para anestesiar os animais e foi obtido como valor médio da pressão do E I E 33,52 ± 12,42 mmHg. Os resultados observados neste trabalho foram semelhantes aos observados por Eastwood et al21, Correnti et al10, Preiksaites et al7 e Schneider et al2. Apenas dois autores8,12 observaram valores mais elevados que os obtidos na presente investigação.

Com relação ao comprimento do EIE, observou-se nesta pesquisa o valor médio de 1,6 ± 0,4 cm. Não foi encontrado na literatura trabalho realizado em felino e estudando este parâmetro, fato que inviabiliza a comparação de nossos resultados com os de outros autores.

Assim, acredita-se que o uso do tiopental como agente anestésico dos gatos apresenta vantagens em relação a quetamina, pois os animais da presente investigação permaneceram relaxados durante todo o experimento, em plano anestésico mais uniforme e contínuo, o retorno anestésico foi suave e rápido, além de índice de óbito nulo.

O encontro de valores de pressão do E I E semelhante ao observado na literatura e ausência de efeitos colaterais com o uso do tiopental nos levam a conclusão de que esta droga pode ser utilizada com segurança nos estudos da motilidade esofágica, usando o gato como modelo experimental.

 

Conclusão

O valor de referência para a pressão e comprimento do EIE de felinos foram estabelecidos, com uma contenção e retorno confortáveis para o animal, utilizando o tiopental sódico como agente anestésico.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Profa. Maria Aparecida Coelho de Arruda Henry
R. Miguel Ciofi, 200
18607-790 Botucatu - SP
Tel: (14) 3815-2537

Data do recebimento: 22/02/2004
Data da revisão: 17/03/2004
Data da aprovação: 04/04/2004
Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

1. Trabalho realizado no Laboratório de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP.
Como citar este artigo:
Santos CEM, Henry MACA, Rahal SC, Lerco M M. Estudo manométrico do esôfago distal de gatos anestesiados com tiopental sódico. Acta Cir Bras [serial online] 2004 Maio-Jun;19(3). Disponível em URL: http://www.scielo.br/acb. [também em CD-ROM].