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Acta Cirurgica Brasileira

On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.19 no.5 São Paulo Sept./Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502004000500019 

TERMINOLOGIA MÉDICA

 

Expressões médicas errôneas. Erros e acertos

 

 

Simônides BacelarI; Carmem Cecília GalvãoII; Elaine AlvesIII; Paulo TubinoIV

IMédico, Professor Voluntário, Centro de Pediatria Cirúrgica do Hospital Universitário da Universidade de Brasília
IIBacharela em Língua Portuguesa e em Lingüística pela Universidade de Brasília (UNB)
IIIProfessora Adjunta de Cirurgia Pediátrica da UNB
IVProfessor Titular de Cirurgia Pediátrica da UNB

Endereço para correspondência

 

 

A terminologia médica apresenta numerosos casos de impropriedades evitáveis.3,4,6-8 Nos relatos médicos, como anotações do prontuário, publicações, discursos, há grande número de cochilos gramaticais e de estilo.2 De fato, algumas expressões comuns precisam de ser retocadas, tais como "colher hemograma" (hemograma é um laudo), "dor na topografia do baço" (significa descrição dolorosa sobre a localização do baço), "metástase envolvendo o fígado" (na verdade, é o fígado que envolve a metástase), "Foi feito radiografias" (pelas normas gramaticais diz-se: Foram feitas radiografias). É necessário e oportuno tornar conhecidos e remediar descuidos sempre que possível.

Este artigo apresenta comentários dos autores sobre alguns termos médicos de uso discutível, como contribuição aos estudos sobre linguagem médica.

 

Ostomia, ostomisado, osteoma

De acordo com as normas de transmudação de termos gregos para o português, ostomia é forma irregular. Não há "ostoma" nem "ostomia" registrados nos dicionários, embora possam, futuramente, aparecer neles se esses nomes tiverem uso muito difundido.

Na língua portuguesa, as formas derivadas do termo grego stóma, boca, quando iniciam palavra, são feitas com e inicial (estoma), não o (ostoma). Daí, criaram-se termos como estomalgia, estomatite, estomódio e semelhantes. Como regra, embora haja exceções, na formação de nomes com elementos procedentes do grego ou do latim, usa-se o referido e prostético antes de termos iniciados por s, seguido de outra consoante. Exemplos: species > espécie; stilus > estilo; spatium > espaço; stómakhos > estômago; strategia > estratégia; stoma > estoma. Quando esses termos aparecem em seguida a outro elemento pode-se, em muitos exemplos, conservar ou eliminar o e prostético: broncoespasmo, broncospasmo; cifoescoliose, cifoscoliose; supra-espinal; supraspinal. Para complementar, note-se que não se diz "fazer uma oscopia", mas, fazer uma escopia, tendo em vista, por análise comparativa, termos como histeroscopia, gastroscopia, duodenoscopia, rinoscopia, otoscopia, colonoscopia.

Fruto da metodologia lingüística, estoma é o nome regular, autônomo e existente no léxico.1 Pode-se dizer: estoma distal (ou proximal) da colostomia. Geralmente é usado para compor vocábulos, como os mostrados acima. O termo colostomia, por exemplo, é composto de três elementos: colo+estoma+ia ou colo+stoma+ia. Do mesmo modo, podem ser também decompostos os vocábulos vesicostomia, ileostomia, nefrostomia e outros da mesma natureza.

Ainda que não haja estomia nos dicionários como elemento independente, é nome encontrável na literatura médica: "Estomias e drenos veiculam secreções digestivas e secreções purulentas".5 No VOLP,1 há estômia.

Termos derivados de "ostomia" são encontráveis na literatura, como ostomizado e osteoma. Pelo exposto, ostomizado é neologismo mal formado. Assim como ostomia, inexiste nos dicionários. Estomizado seria melhor. Ostomisado é grafia incorreta de "ostomizado". O verbo "ostomisar" já aparece nos corredores do âmbito hospitalar. Osteoma, em lugar de estomia, é erro grosseiro.

Têm sido adotadas, em medicina, as nominações estomoterapeuta e estomoterapia, neologismos úteis e bem formados, em coerência com outros compostos análogos, encontrados no VOLP,1 como estomocefalia, estomocéfalo, estomogástrico, estomografia.

 

Colostograma

Nome inexistente nos bons dicionários, embora muito usado no meio médico. Procede de colostomia (colosto(mia) + grama). Colografia parece nome mais ajustado, pois na realidade não se examina radiologicamente uma colostomia e sim o colo a montante ou a jusante dela. Não há, por exemplo, ileostograma, ureterostograma, esofagostograma nem pielostograma, assim como não se denomina a radiografia pelo orifício por onde se administra o meio de contraste. Não se diz estomograma para designar esofagograma, ou anograma em caso de enema opaco nem meatograma por uretrografia. Daí, colografia proximal ou colografia distal (à colostomia) parecem termos claros e mais adequados que "colostograma".

 

Respirador, ventilador

Os dicionários registram como respirador, e não como ventilador, o aparelho usado para respiração mecânica. Entretanto, do ponto de vista semântico, ventilador é termo mais exato, dado que tal aparelho ventila, ou seja, produz e regula fluxo de ar, e não respira como o faz o paciente. Respirar é função orgânica, significa absorver o oxigênio do ar ou da água e expelir o gás carbônico, função fisiológica própria de organismos vivos. Por conseguinte, são termos melhores: ventilação mecânica, respiração assistida (apenas auxiliada pelo ventilador), respiração controlada (com ritmo imposto pelo ventilador).

 

Comentário final

Bem conceituados lingüistas proclamam que, em um idioma, não há o certo e o errado. Há o adequado e o inadequado em relação aos diversos níveis de linguagem. Se, mesmo errôneo, um termo traz clara comunicação, é justificável seu uso. Contudo, por amor à qualidade, é relevante mencionar que, entre os termos existentes para designar uma mesma coisa, quase sempre se pode escolher o mais adequado. Sobretudo para a elaboração de relatos científicos formais.

 

Referências

1. Academia Brasileira de Letras. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 2ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional; 1998.

2. Bacelar S, Galvão CC, Alves E, Tubino P. Brasília. Med 2001; 38 (1/4):58-63.

3. Figueiredo C. Vícios da linguagem médica. 2ed. Lisboa: Livraria Clássica Editora; 1922.

4. Lima MA. Expressões médicas. J. Bras. Med. 1967; 13 (1): 63-89.

5. Margarido NF, Tolosa EMC. Técnica cirúrgica prática. São Paulo: Atheneu; 2001.

6. Melo P. Linguagem médica. São Paulo; 1943.

7. Pinto PA. Linguagem médica e digressões vocabulares. Rio de Janeiro: Jacynto Ribeiro dos Santos Editor; 1931.

8. Rezende JM. Linguagem médica. 2ed. Goiânia: Editora UFG; 1998.

 

Agradecimento

Ao Professor Joffre Mascondes de Rezende, Universidade Federal de Goiás, editor emérito da Revista Goiana de Medicina, por suas valiosas sugestões, na elaboração deste relato, todas acolhidas.

 

 

Endereço para correspondência
Simônides Bacelar
SHI Sul QI 13, Cj 01/casa 15
71630-010 Brasília – DF

Recebimento: 28/04/2004
Revisão: 05/06/2004
Aprovação: 10/07/2004
Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

Como citar este artigo:
Bacelar S, Galvão CC, Alves E, Tubino P. Expressões médicas errôneas: erros e acertos. Acta Cir Bras [serial online] 2004 Set-Out;19(5). Disponível em URL: http://www.scielo.br/acb [também em CD-ROM].