SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 suppl.1EditorialConstruction of knowledge in odontology: the scientific production in debate author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Cirúrgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.20  suppl.1 São Paulo  2005

https://doi.org/10.1590/S0102-86502005000700002 

Achados da fundoscopia e alterações do pé diabético em pacientes do Hospital Universitário Onofre Lopes/UFRN1

 

Fundoscopic alterations and diabetic foot in patients of Hospital Universitário Onofre Lopes/UFRN

 

 

Damaso de Araújo ChaconI; Andréa Dore da Silva Magalhães ChavesII; Raquel Amorim DuarteII; Carlos Alexandre de Amorim GarciaIII; Aldo da Cunha MedeirosIV

IProf. Adjunto do Departamento de Medicina Integrada, Disciplina de Doenças do Sistema Cardiovascular-CCS/UFRN, aluno do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde-UFRN (doutorado)
IIMédicas Residentes-R2, Residência em Oftalmologia/HUOL/UFRN
IIIProf. Dr. do Departamento de Cirurgia-CCS/UFRN, Coordenador da Residência Médica em Oftalmologia do HUOL/UFRN
IVProf. Dr. do Departamento de Cirurgia-CCS/UFRN, Chefe do Núcleo de Cirurgia Experimental-UFRN, Pesquisador nível I do CNPq, Orientador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde-UFRN

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Trabalho com o objetivo de identificar as alterações do pé diabético causadas pelas lesões microangiopáticas e das lesões do fundo de olho secundárias aretinopatia diabética.
MÉTODOS:
76 pacientes com Diabetes Melito tipos 1 e 2atendidos no ambulatório de Oftalmologia e Cirurgia Vascular do HUOL/UFRN, Natal, RN, no período de novembro de 2004 a janeiro de 2005, com queixas relativas a alterações da retinopatia diabéticae/oudo pé diabético. Em todos os pacientes foi realizado exame clínico geral, vascular e oftalmológico. Na avaliação específicado pé diabético deu-se ênfase paraa investigação do status vascular pela Classificação de Fontaine para Doença Arterial Obstrutiva Periférica, biomecânica,e teste do monofilamento de Semmes-Weinstein. O exame oftalmológico constou de refração e fundoscopiaatravés da qual identificou-se as formas clínicas da retinopatia diabética. Os dados foram submetidos à análise estatística das variáveis primárias que consistiu em caracterizar o grupo quanto a idade, tempo de doença, nível de glicose A segunda estratégia da análise dos dados constituiu na realização de testes de associação entrealgumas variáveis secundárias selecionadas. O software utilizado para os testes estatísticos foi o Statistica Versão 5, 1997.
RESULTADOS:
Dos 76 pacientes diabéticos 97% tinham idade superior a 40 anos. O tempo de doença65% tinham mais de 10 anos. Com relação à glicose 72,72% apresentaram níveis de glicose em jejum acima de 100mg/dl. 55,26% apresentavam algum grau de retinopatia diabética contra 44,74% que não apresentavamesses sinais. Com as alterações do pé diabético, identificou-se 59,93% com lesões com área de predominância isquêmica, enquanto 41,07% tinham ausência de sinais. 58,82% apresentaram área de predominância neuropática, e 41,18% sem sinais de neuropatia. Dos com retinopatia diabética 78,57% tinham comprometimento isquêmico no pé e 47,62% tinham algum grau de neuropatia diabética. Observou-se que a retinopatia diabética não proliferativa, nos seus diversos graus de comprometimento apresentou-se com percentuais em torno de 80% junto às lesões do pé diabético, seja isquêmico ou neuropático. Dos pacientes que tinham retinopatia 60,46% tinham alterações biomecânicas dos pés.
CONCLUSÃO: Concluiu-se que a RDNP leve foi mais freqüente nas lesões do pé diabético isquêmico, enquanto a RDNP severa mostrou-se mais presente no pé diabético neuropático.

Descritores: Neuropatia Diabética, Retinopatia Diabética, Microangiopatia, Pé Diabético


ABSTRACT

PURPOSE: To identify diabetic foot abnormal changes caused by microvascular events and fundoscopy eye lesions due to diabetic retinopathy.
METHODS: A survey was performed with 76 diabetic patients from the Hospital Onofre Lopes out-patient department of ophtalmology and vascular surgery. To evaluate the diabetic foot the patients were submmited to an individual interview using Fontaine classification. The vascular test used was Semmes-Weinstein monofilament. Refraction and eye fundoscopy were acomplished in all patients to arrange the diabetic retinopathy.The study results consisted in characterized the group as age,time of disease and glicose level. The second analyse was performed with association tests among the selected secondary study results. " Statística Versão 5,1997 " was the software available.
RESULTS:
From 76 diabetics patients 97% had age higher than 40 years. 65% had more than 10 years of time disease. 72,72% obtained glicose level>100mg/dl. 55,5% had some degree of diabetic retinopathy against 44,74% had not. About the diabetic foot abnormalities, 59,93% had ischemic damages and 41,07% had not signs. 58,82% had neuropathic foot and there were 41,18% patients without diabetic neuropathy signs. Talking about the diabetic retinopathy population, 78,57% had ischemic foot and 47,62% had neuropathic foot. It was seen 80% of no proliferative diabetic retinopathy in all diabetics foot ( isquemic and neuropathic).The patients with retinopathy 60,46% of them had foot biomechanics abnormalities.
CONCLUSION: Light no proliferative diabetic retinopathy was most common in patients with ischemic diabetic foot. The severe no proliferative diabetic retinopathy was most common in patients with neuropathic diabetic foot.

Keywords: Diabetes Neuropathy. Diabetes Retinopathy. Microangiopathy. Diabetic Foot.


 

 

Introdução

As conseqüências do Diabetes Melito em longo prazo decorre de alterações micro e macrovasculares que levam a disfunção, dano ou falência de vários órgãos. As complicações crônicas incluem a nefropatia, com possível evolução para insuficiência renal, a retinopatia, com a possibilidade de cegueira e a neuropatia, com risco de úlceras nos pés e até amputações1.

O Diabetes Melito constitui um dos maiores problemas de saúde. Sua incidência e prevalência estão aumentando, alcançando proporções epidêmicas. Está associado a complicações que comprometem a produtividade, a qualidade de vida e a sobrevida dos indivíduos. Além disso,acarreta altos custos para seu controle metabólico e tratamento de suas complicações. Hoje, sabe-se que o Diabetes Melito constitui a principal causa de amputações primárias dos membros inferiores é, também, a principal causa de cegueira adquirida1.

É conhecido que em torno de 120 milhões de pessoas no mundo são portadoras de Diabetes Melito2. Nos Estados Unidos a doença afeta aproximadamente 6.25%, aproximadamente 16 milhões de pessoas 3.Em nosso país,os índices de mortalidade por essadoença é de 16,8 óbitos para 100 mil brasileiros, atingindo índices maiores em grupos etários acima dos 80 anos (319,2 para 100 mil habitantes)4.

Aretinopatia diabética constituia principal complicação do Diabetes Melito apresentando um risco de cegueira 25 vezes maior do que no resto da população. 5 Nos EUA, constituia segunda causa de cegueira e calcula-seque 8000 novos cegos surgem a cada ano devido à retinopatia diabética.5

Entre os fatores de risco atribuídos ao desenvolvimento destas complicações, estão: fatores demográficos, raça, genética, idade, sexo, tempo de evolução do diabetes, tipo de tratamento do diabetes, controle metabólico, gravidez, tabagismo, entre outros.6

A retinopatia diabética pode ser classificada em proliferativa e não proliferativa. A forma não proliferativa pode ainda ser subdividida em leve, moderada e severa e muito severa. Já a proliferativa em precoce e de alto risco.7,8A maioria delas culmina com baixa da acuidade visual eaté cegueira em estágios mais avançados da doença. Os neovasos formados poderão levar ao descolamento do vítreo posterior, hemorragia e descolamento de retina. Outras complicações são: glaucoma neovascular, catarata, diminuição da sensibilidade corneana.9,10

Apesar disso, poucos são os dados que se temrelacionando às alteraçõesda retinopatia diabética e pé diabético.

Tendo em vista esses fatos é importante ampliar conhecimentos que denunciem o grau de comprometimentodesses órgãoseque identifiquecaracterísticas das complicações da microangiopatia diabética entre os achados do fundo de olho e alterações do pé diabético.

Este trabalho tem como objetivo identificar as alterações do pé diabético pelas lesões microangiopáticas e as lesões do fundo de olho pela retinopatia diabética.

 

Métodos

Trata-se de um estudo prospectivo de um grupo de 76 pacientes atendidos no ambulatório de Oftalmologia e Cirurgia Vascular do Hospital Universitário Onofre Lopes- Natal, RN,no período de novembro de 2004 a janeiro de 2005 e submetido aapreciação do Comitê de Ética daUFRN.

Foram incluídos pacientes portadores de Diabetes Melito Tipos 1 ou 2 com confirmação laboratorial, que procuraram o Hospital Universitário Onofre Lopes comqueixas relativas a alterações da retinopatia diabética e/ou do pé diabético, sejam elas primárias ou recidivantes, independente do sexo, raça, cor, procedência e profissão. Foram excluídos da pesquisa diabéticos que não apresentaram nenhuma das alterações do fundo de olho ou do pé diabético, os que não concordaram com a participação, deficientes mentais e gestantes.

Em todos os pacientes foi realizado exame clínico constituído de: Anamnese, exame físico geral, vascular e oftalmológico. Na avaliação específicado pé diabético investigou-se o status vascular pela Classificação de Fontaine para Doença Arterial Obstrutiva Periférica,a integridade da pele, biomecânica,presença ou ausência dos pulsos, provas funcionais de isquemia plantar,rubor de declive e enchimento venoso,e teste do monofilamento de Semmes-Weinstein.O exame oftalmológico constou de refração e fundoscopiaatravés da qual identificou-se as formas clínicas da retinopatia diabética.

Os dados foram submetidos à análise estatística das variáveis primárias que consistiu em caracterizar o grupo quanto a idade, tempo de doença, nível de glicose A segunda estratégia da análise dos dados constituiu na realização de testes de associação entrealgumas variáveis secundárias selecionadas. O software utilizado para os testes estatísticos foi o Statistica Versão 5, 1997.

 

Resultados

Dos 76 pacientes diabéticos objeto desta investigação 97% tem idade superior a 40 anos (figura 1). No que concerne ao tempo de diagnóstico da doença verificou-se que mais de 65% têm doença há mais de 10 anos. (figura 2)

 

 

 

 

Com relação à glicose 72,72% apresentaram níveis de glicose em jejum acima de 100mg/dl. Ressalte-se que, embora a amostra seja constituída de 76 pacientes, observa-se que para algumas variáveis este número sofreu pequenas variações por falta de informação do paciente, como por exemplo, apenas 54 pacientes apresentaram os resultados do exame de glicose. (figura 3)

 

 

Dos 76 pacientes estudados 55,26% apresentavam algum grau de retinopatia diabética contra 44,74% que não apresentavam esses sinais.( tabela 1). Com relação às alterações do pé diabético, identificaram-se 59,93% com lesões com área de predominância isquêmica, enquanto 41,07% tinham ausência de sinais. 58,82% apresentaram área de predominância neuropática, e 41,18% sem sinais de neuropatia. (tabela 1)

 

 

Dos pacientes com retinopatia diabética 78,57% tinham comprometimento isquêmico no pé e 47,62% tinham algum grau de neuropatia diabética. (tabela 2 e 3). Observa-se que a retinopatia diabética não proliferativa, nos seus diversos graus de comprometimento apresentou-se com percentuais em torno de 80% junto às lesões do pé diabético, seja isquêmico ou neuropático. Dos pacientes que tinham retinopatia, 60,46% tinham alterações biomecânicas dos pés. (tabela 4)

 

 

 

 

 

 

Discussão

Inúmeros trabalhos sobre retinopatia e pé diabético têm seguido protocolos distintos, apesar de a microangiopatia constituir fator etiopatogênico comum8, 11,12 ,13.

Segundo o ETDRS um dos propósitos do estudo foi conhecer dados da história natural da doença para serem utilizados na identificação dos fatores de risco da retinopatia diabética, alem de avaliar qual o melhor tempo para o seu tratamento com fotocoagulação8.

Sabe-se também que desde o final dos anos 50 uma série de estudos sobre retinopatia têm surgido com a identificação de alguns preditores nos fatores de risco da Diabetes Melito8,11,12.

No Brasil protocolos são conhecidos na investigação do pé diabético, mas há carência do registro de dados específicos sobre o assunto, muito embora a prática clínica dos profissionais que lidam com o problema leve-os a constatar a freqüência de pacientes com complicações em pés13 . No presente estudo, as variáveis como idade, tempo de doença, níveis de glicose estão de acordo com trabalhos já publicados14. As faixas etárias acima dos 40 anos de idade representaram mais de 98% do grupo com complicações do diabetes melito estudados. Comprometendo, portanto, um grande número de pessoas na fase produtiva de suas vidas . Confirma-se também que o diabetes melito costuma iniciar suas complicações a partir dos 10 anos de doença15.

Com relação à glicose observou-se que níveis abaixo de 150mg/dl , portanto próximos da normalidade, não garantiram a ausência das complicações. Torna-se necessário um controle mais rigoroso do perfil dos níveis de glicose, ao longo de um tempo para melhor prevenção da doença.

A presença das alterações da retina e do pé do diabético na evolução do diabetes melito16, reforça a busca por protocolos mais unificados para melhor avaliar as complicações causadas pela microangiopatia

Com base nos resultados encontrados concluímos que a RDNP leve foi mais freqüente nas lesões do pé com predominância isquêmica, enquanto a RDNP severa representou a forma clínica da retinopatia diabética mais freqüente dos diabéticos com as lesões do pé de predominância neuropática.

 

Referências

1. Consenso Brasileiro sobre diabetes – 2002 Sociedade Brasileira de Diabetes Rio de Janeiro, Diagraphic Editora,2003        [ Links ]

2. Bernardes CHA, Penteado JG, Martins MFS, Rosa VA, Tinos MS. Pé diabético: analise de 105 casos. Arq Bras Endocriol Metab 1993;37:139-42.        [ Links ]

3. Sumpio BE. Foot ulcers. N Engl J Med 2000;343:787-93.        [ Links ]

4. www.datasus.gov.br/cgi/idb97/most/co914.htm

5. Klein R, Moss SE. The Winscosin epidemiologic study of diabetic retinopathy. III.Prevalence and risk of diabetic retinopathy when age at diagnosis is 30 or more years. Arch Ophthalmol. 1984; 102:527 – 32        [ Links ]

6. Benson WE, Tasman W, Duane TD: Diabetes mellitus and the eye. In: Duane's Clinical Ophthalmology. Vol 3. 1994.        [ Links ]

7. Englmeier KH, Schmid K, Hildebrand C, Bichler S, Porta M, Maurino M, Bek T.Early detection of diabetes retinopathy by new algorithms for automatic recognition of vascular changes. Eur J Med Res 2004;9:473-78.        [ Links ]

8. Frong DS, Ferris FL, Davis MD,Chew EY. ETDRS Research Group.Causes od Severe Visual Loss in the Early Treatment.Diabetic Retinopathy Study.EDTRS Report nº 24 Am J Ophthalmol 1999; 127:137-41        [ Links ]

9. Bron AJ, Sparrow J, Brown NAP. The lens in diabetes. Eye 1993;7:260-3.        [ Links ]

10. Awasthi P, Sarbhai KP, Maheswari BB. Corneal sensations in diabetes mellitus. Trans Third Int Congr (Paris)1974; 1:402        [ Links ]

11. Ferris FL, Podgor MJ, Davis MD, The Diabetic Retinopathy Study Research Group: Macular edema in Diabetic Retinopathy Study Pacients.Diabetic Retinopathy Study(DRS) Report Number

12. Ophthalmology 1987; 94:754-60

12. Strattom IM, Kohner EM, Aldington SJ. UKPDS 50:Risk factors for incidence and progression of retinopathy in type II diabetes over 6 years from diagnosis. Diabetologia 2001; 44:156-63        [ Links ]

13. Lopes CF. Projeto de Assistência ao pé do paciente portador de Diabetes Melito. J Vasc Br 2003;2:79-82        [ Links ]

14. Vinik AI, Vinik E. Prevention of the Complications of Diabetes. Am J Manag Care 2003; 63:81-4.        [ Links ]

15. Klein R, Klein BE,Moss SE, Linton KL. The Beaver Dam Eye Study:retinopathy in adults with newly discovered and previous diagnosed diabetes mellitus. Ophthalmology 1992;99:58-62        [ Links ]

16. Scheffel RS Bortolanza D, Weber CS. Prevalência de complicações micro e macrovasculares e de seus fatores de risco em pacientes com Diabetes melito do tipo 2 em atendimento ambulatorial Rev Assoc Med Bras 2004;50:263-7.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dâmaso de Araújo Chacon
Rua Almte. Nelson Fernandes, 797/1200
59022-600 – Natal, RN

 

 

1 Trabalho realizado na Disciplina de Oftalmologia do CCS/UFRN, Natal, RN.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License