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Acta Cirurgica Brasileira

versão impressa ISSN 0102-8650versão On-line ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. v.22 n.6 São Paulo nov./dez. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502007000600016 

EDITORAÇÃO

 

Revistas brasileiras publicadoras de artigos científicos em cirurgia. III: análise das instruções aos autores baseada na estrutura dos requisitos de Vancouver1

 

 

Rosely de Fátima PellizzonI; Edna Frasson de Souza MonteroII; Dinah Aguiar PoblaciónIII; Rosangela MonteiroIV; Regina Célia Figueiredo CastroV

IEspecialização em Informação em Ciências e Bibliotecária Responsável pelo Setor de Referência da Biblioteca Central da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP - São Paulo (SP) – Brasil. Pesquisadora do NCCC - São Paulo (SP) - Brasil. rosely.bc@epm.br
IIProfessora Afiliada do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal de São Paulo – São Paulo (SP) – Brasil e Pesquisadora do NCCC- São Paulo (SP) - Brasil. edna.montero@gmail.com
IIIProfessora Doutora da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP- São Paulo (SP) - Brasil. Coordenadora e Líder do Núcleo de Produção Científica (NPC/ECA/USP). Vice-Líder do Grupo de Pesquisa - Núcleo de Comunicação Científica em Cirurgia – NCCC; São Paulo (SP) - Brasil. dinahmap@usp.br
IVDoutora pelo Programa de Cirurgia Torácica e Cardiovascular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP - São Paulo (SP)- Brasil. Biologista-chefe do Serviço de Cirurgia Torácica do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)- São Paulo (SP) - Brasil. Pesquisadora do NCCC São Paulo (SP) - Brasil. lacrosangela@incor.usp.br
VDoutora em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo (SP) - Brasil. Coordenadora de Comunicação Científica em Saúde na BIREME/OPAS/OMS (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde), São Paulo (SP), Brasil. Pesquisadora do NCCC - São Paulo (SP) Brasil. castrore@bireme.ops-oms.org

Correspondence

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar as instruções aos autores contidas em revistas científicas nacionais que publicam artigos da área cirúrgica, buscando traçar um panorama da situação, bem como fazer recomendações para editores e autores.
MÉTODOS:
Foram analisadas as Instruções aos Autores de 20 revistas e classificadas segundo os Requisitos de Vancouver. Foram consultadas na SciELO, nos sites das revistas ou no último fascículo impresso disponível na coleção da BIREME. Os resultados foram analisados descritivamente, sendo considerada a freqüência de cada variável.
RESULTADOS:
75% recomendam a adoção dos Requisitos de Vancouver, embora nem sempre indiquem a versão atualizada; 90% das revistas fizeram menção ao cumprimento de princípios éticos de pesquisa, 80% ao processo de revisão por pares e 70% ao conflito de interesses e à cessão dos direitos autorais. Os idiomas estrangeiros aceitos com maior freqüência foram inglês (80%) e espanhol (30%). Todas as revistas publicam artigos originais, seguidos pelos de revisão (90%), relatos de caso (80%), cartas ao editor (70%) e artigos de atualização (55%). A nomenclatura adotada para as seções das revistas é muito variada.
CONCLUSÃO: Ainda que a liberdade editorial e independência de cada editor devam ser respeitadas, há critérios aceitos internacionalmente que devem ser observados. As tendências atuais, visando à priorização das revistas eletrônicas em acesso aberto, implicarão em modificações no processo de editoração das revistas científicas.

Descritores: Editoração. Publicações periódicas. Políticas editoriais. Comunicação científica. Produção científica.


 

 

Introdução

O aumento exponencial da produção científica nas últimas décadas levou ao surgimento de centenas de periódicos; entretanto, muitos deles não conquistaram a credibilidade e o reconhecimento pela comunidade científica, tendo sua publicação interrompida após algumas edições. O prestígio de uma revista está atrelado à rígida política editorial, com publicação de artigos que tenham sido conduzidos dentro de rigor ético e científico e que tenham potencial para influenciar o rumo do desenvolvimento da área de pesquisa em que se insere. Da mesma forma, as características formais e estruturais da revista assumem particular importância, o que tem levado os editores a estabelecer orientações padronizadas para a elaboração de manuscritos a serem publicados, buscando uniformizar a forma de apresentação dos artigos nas revistas científicas. Entretanto, nem sempre estas instruções são totalmente compreensíveis, obrigando aos autores a consulta e leitura de vários artigos já publicados na revista à qual se pretende submeter seu manuscrito1.  Além disso, as instruções variam de uma revista para outra e, muitas vezes, de um fascículo para outro da mesma revista. Neste particular, merece destaque o trabalho que vem sendo realizado pelo International Committee of Medical Journal Editors, mais conhecido como Grupo de Vancouver, com a publicação dos Uniform Requirements for Manuscripts Submitted to Biomedical Journals: Writing and Editing for Biomedical Journals2, adiante denominados Requisitos de Vancouver, que desde 1978 tem procurado estabelecer diretrizes para padronização e características das revistas biomédicas. Embora os Requisitos de Vancouver se refiram a todo o processo editorial, muitos autores e editores científicos os identificam apenas em relação aos padrões para referências bibliográficas. Em relação às referências bibliográficas, além de apresentar o estilo e a formatação, os Requisitos especificam também algumas boas práticas, tais como: indicação completa dos dados da fonte citada, incluindo links para o texto completo; citação de documentos mais relevantes; exclusão de citações de resumos e de comunicações pessoais. A edição mais recente foi atualizada em outubro de 2007 (http://www.icmje.org/). O NCCC – Núcleo de Comunicação Científica em Cirurgia vem desenvolvendo estudos relacionados à política editorial e à normalização, com o intuito de diagnosticar as características de revistas científicas brasileiras que publicam artigos de cirurgia. Os dados levantados têm subsidiado encontros com editores científicos da área da saúde para debates, tanto no âmbito nacional3 como internacional. Essas análises foram divididas em etapas, as duas primeiras já publicadas4,5. Este estudo apresenta a terceira etapa, que tem por objetivo analisar as instruções aos autores contidas em revistas científicas nacionais que publicam artigos da área cirúrgica, buscando traçar um panorama da situação, bem como fazer recomendações para editores e autores.

 

Métodos

Foram analisadas 20 revistas que publicam artigos na área cirúrgica (Quadro 1). O objetivo inicial era manter as 23 revistas analisadas nas etapas anteriores, segundo os critérios referentes à regularidade da periodicidade da publicação, à disponibilidade pela SciELO (http://www.scielo.br) ou à  possibilidade de acesso aos exemplares impressos das revistas. No entanto, no processo de reavaliação de observância desses critérios, foram eliminados três títulos. Às características anteriormente analisadas foram incorporadas as informações referentes à classificação no programa Qualis (http://qualis.capes.gov.br/webqualis/), da área de Medicina III, ano-base 2006, onde estão inseridas as revistas das especialidades cirúrgicas.

 

 

As Instruções aos Autores foram analisadas com o auxílio de instrumento para coleta de dados, elaborado especificamente para este fim, e foram classificadas em cinco domínios, considerando como base a estrutura dos Requisitos de Vancouver:

1.      Política editorial - considerações éticas: foram observados os preceitos éticos no processo de preparação de originais, conflitos de interesse, financiamento, agradecimentos, direitos autorais, revisão por pares (peer review) e fluxo de julgamento;

2.      Idiomas aceitos para contribuições: além da língua portuguesa, foi observada a indicação da aceitação de artigos e resumos, em outros idiomas como inglês e espanhol, bem como a responsabilidade pela execução e pelos custos relacionados a possíveis versões e traduções;

3.      Classificação dos tipos de contribuição: categorias de artigos publicados, definição ou orientação sobre o conteúdo dos mesmos, bem como forma de apresentação e formatação;

4.      Preparação e submissão dos manuscritos: foram consideradas as recomendações quanto à preparação e ao envio do manuscrito ao editor;

5.      Referências: foram analisadas as instruções referentes à terminologia, restrições quanto à normalização, forma de citação no texto, número máximo permitido de referências, padrões de abreviaturas e arranjo.

As Instruções aos Autores foram consultadas na SciELO,  nos sites das próprias revistas ou no último fascículo impresso disponível na coleção da BIREME. Os resultados foram analisados descritivamente, sendo considerada a freqüência (%) de cada variável pesquisada.

 

Resultados

1. Política editorial

Houve menção ao cumprimento de princípios éticos de pesquisa nas Instruções aos Autores de 18 (90%) revistas. As declarações e códigos de ética mencionados foram:

·  Comitê de ética institucional, incluindo pesquisa em seres humanos e animais;

·  Declaração de Helsinki da World Medical Association (www.wma.net/e/policy/b3.htm);

·  Código de Ética Médica do Conselho Federal de Medicina (www.portalmedico.org.br/codigo_etica/codigo_etica.asp?portal=);

·  Resolução 1595/2000 do Conselho Federal de Medicina (http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/cfm/2000/1595_2000.htm);

·  Resolução RDC 102/2000 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (http://e-legis.anvisa.gov.br/leisref/public/showAct.php?id=16627&word=);

·  Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/reso_96.htm);

·  CONSORT (Consolidated  Standards of Reporting Trials  www.consort-statement.org);

·  COPE (Committee on Publication Ethics www.publicationethics.org.uk);

·  CIOMS (Council for International Organizations of Medical Sciences   www.cioms.ch/frame_guidelines_nov_2002.htm);

· Princípios do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (www.cobea.org.br).

Quanto ao conflito de interesses, foram encontradas 14 (70%) revistas que mencionam as diferentes ocorrências, que podem ser caracterizadas como conflito potencial, passíveis de afetar o julgamento científico ou relações pessoais. A declaração escrita deste aspecto foi solicitada por dez (50%) revistas. Algumas restrições para aceitação dos trabalhos a serem submetidos, tais como autor não filiado à sociedade responsável pela revista e não obediência às instruções aos autores, foram definidas por nove (45%) editores. A aceitação ou não de matéria paga não foi mencionada nas instruções por 16 (80%) revistas, enquanto duas (10%) aceitam e duas (10%) rejeitam. Por outro lado, o aspecto referente à menção de nomes comerciais estava explícito em apenas nove (45%) revistas. A indicação do apoio oufonte de financiamento da pesquisa realizada, que reflete um dos aspectos do INPUT, observado pelo autor no planejamento da investigação, foi considerada por editores de dez (50%) revistas. O tópico específico de agradecimentos não foi considerado nas Instruções aos Autores de sete (35%) revistas. Por outro lado, das 13 (65%) restantes, que abordaram a importância dos agradecimentos, apenas duas (10%) incluíram a solicitação do envio por escrito da autorização e do consentimento dos colaboradores. A prática consagrada da cessão dos direitos autorais para a revista foi mencionada por 14 (70%) editores, dos quais sete (35%) solicitaram que a autorização fosse incluída na carta de transferência assinada pelos autores. O processo de revisão por pares estava expresso em 16 (80%) Instruções aos Autores. No entanto, apenas nove detalharam o processo de avaliação e apresentaram o fluxo do julgamento.

2.Idiomas aceitos para contribuições

A menção dos idiomas aceitos para publicação não foi feita de maneira uniforme pelas revistas analisadas: ora aparecia no início, juntamente com informação sobre a missão e tipos de contribuições, ora apenas nas instruções para submissão dos trabalhos. Apenas três (15%) revistas não mencionaram os idiomas aceitos, inclusive o português. Com exceção de uma, as revistas analisadas publicam artigos em português. Dos demais idiomas, os mais comumente aceitos foram o inglês (80%) e o espanhol (30%) e apenas uma revista declarou aceitar artigos em francês. Das 17 (85%) revistas que mencionaram a aceitação de artigos em outros idiomas, apenas quatro ressaltaram os aspectos de custo para versão dos trabalhos: em duas, os autores devem arcar com os custos da versão e, nas outras duas, a própria revista se encarrega da tradução. Quanto ao título do manuscrito, 16 (80%) revistas solicitaram o título em mais de um idioma: 11 (55%) em português e inglês, quatro (20%) em português, inglês e espanhol e uma também em francês, além dos três idiomas já mencionados. Uma revista especificou apenas a necessidade de inclusão do título em português. Três (15%) revistas não mencionaram em suas normas o idioma a ser empregado no título do manuscrito.

3. Classificação dos tipos de contribuição

Todas as revistas declararam publicar artigos originais. Quanto aos demais tipos de contribuição, os mais aceitos foram os artigos de revisão (90%), seguidos de relatos de caso (80%), cartas ao editor (70%) e artigos de atualização (55%). Além desses, apareceram com menor freqüência, comunicações breves (20%), resumos e resenhas (20%) e notas prévias (15%). Outros tipos de contribuição foram mencionados: correlação clínico-cirúrgica, anátomo-clínica ou clínico-radiográfica, notas técnicas, ensaios clínicos, experiência de serviço, Como-eu-faço, técnicas e métodos.

4. Preparação e submissão dos manuscritos

Quanto às normas adotadas para a preparação dos manuscritos, 13 (65%) revistas recomendaram seguir os Requisitos de Vancouver, das quais dez indicaram o site do ICMJE. Dentre as demais revistas, em quatro não houve menção às normas adotadas e, em três, havia instruções para cada tipo de documento, mas não em relação à norma a ser seguida. Observou-se que dentre as revistas que citaram o ICMJE, duas (10%) indicaram uma fonte secundária, ou seja, uma revista científica que publicou traduções dos Requisitos de Vancouver, desatualizadas em relação à última atualização publicada no site oficial. Quanto aos critérios relacionados à autoriados artigos, 17 (85%) revistas não os definiram. Nenhuma das revistas solicita declaração do tipo de participação de cada autor no trabalho, conforme consta no item II.A.1. Byline Authors, dos Requisitos de Vancouver. O nome completo de cada autor foi solicitado por 12 (60%) revistas; sete (35%) não mencionaram a forma de apresentação e uma (5%) pediu que este fosse abreviado. A titulação acadêmica de cada autor foi solicitada por 13 (65%) revistas e a vinculação institucional de cada autor pela metade (50%), sendo o crédito institucionaldo trabalho exigido por 14 (70%). Treze (65%) revistas não mencionaram limitação do número de autores por artigo. Uma revista limita o número de autores para artigos originais e seis (30%) para outras contribuições. O resumoestruturado foi indicado para os artigos originais nas instruções aos autores de 15 revistas (75%) e resumo semi-estruturado por uma única. Para outros tipos de contribuição, como artigos de revisão e relatos de caso, quatro (20%) delas permitiam o envio de resumos livres e informativos.  Quatro (20%) revistas não apresentam nenhuma orientação quanto à estrutura do resumo. A maior parte das revistas (85%) estabeleceu um limite máximo de palavras para a extensão dos resumos, que variou entre 200 e 250 palavras para os artigos originais. Para outros tipos de contribuição, como Relatos de caso,Comunicações breves e Como-eu-faço, quatro (20%) revistas apresentaram limite de 100 palavras. O resumo em língua inglesa foi denominado Abstract por 15 (75%) revistas e Summary por quatro (20%). Uma das revistas não indicou nenhuma denominação específica para resumo em língua inglesa, apesar de adotar o termo Abstract no corpo de seus artigos. Cinco (25%) revistas incluíram especificações para envio do resumo em espanhol. Para a recuperação do conteúdo dos artigos, os editores recomendaram o uso de Descritores (30%), Palavras-chave (20%), enquanto ambos os termos foram indicados em 30% das revistas. Apenas uma revista indicou Unitermos. Em inglês, o termo Key-words foi empregado por 13 (65%) revistas e uma, Key-words in Anesthesiology. Apenas três (15%) revistas não citaram um vocabulário. As demais recomendaram o vocabulário DeCS/MeSH ou somente DeCS, exceto uma que indicou vocabulário específico para a área (Key-words in Anesthesiology). A quantidade de termos recomendada variou de três a dez de acordo com o vocabulário utilizado. Para a elaboração da estrutura do manuscrito, 17 (85%) sugeriram a estrutura clássica de Introdução, Método(s), Resultados e Discussão, sendo que 14 (70%) incluíram também a seção de Conclusão e cinco (25%), uma seção específica para Objetivos. Três (15%) revistas não mencionaram estrutura para o texto. A seção de Métodos apresentou maior variação na denominação: Método, Métodos, Material e Métodos, Casuística e Métodos. As seções de Objetivo e Resultado apareceram tanto no singular como no plural. O conteúdo das seções foi definido em oito (40%) revistas. Quanto às tabelas, 19 (95%) revistas mencionaram e definiram as orientações para elaboração e apresentação; a quantidade permitida variou de cinco a oito para os artigos originais. Uma revista limitou a quantidade de tabelas em função do número de páginas do artigo. As ilustrações (figuras) foram mencionadas e definidas em 18 (90%) revistas, sendo somente citadas em uma (5%). A quantidade foi limitada para artigos originais por quatro (20%) revistas, variando em número de cinco a oito. As diretrizes para a submissão dos manuscritos foram analisadas segundo os aspectos de processo e de responsabilidade dos autores sobre o conteúdo. Assim, os aspectos de conflitos de interesses, agradecimentos e cessão dos direitos autorais, já relatados, deverão ser contemplados em carta de encaminhamento assinada por todos os autores ou pelo autor responsável. Quanto ao processo, verificou-se que 12 (60%) revistas solicitaram o manuscrito impresso, das quais dez (50%) exigiram a remessa digital concomitante, CD-ROM ou disquete. Por outro lado, a submissão eletrônica por meio do e-mail foi indicada por cinco (25%) revistas, enquanto o sistema eletrônico de gerenciamento e submissão foi mencionado por apenas três (5%).

5. Referências

A nomenclatura adotada para a lista de referências foi simplesmente Referências em pouco mais da metade (11) das revistas analisadas e Referências Bibliográficas nas demais. Em inglês, os Requisitos de Vancouver sugerem apenas References. Os Requisitos de Vancouver para referências foram adotadas por 15 (75%) revistas, enquanto duas (10%) indicaram modelo próprio de apresentação e três (15%) não mencionaram a norma adotada. Todas as revistas incluíram um modelo das referências dos principais tipos de documentos citados. Para a abreviatura dos títulos das revistas citadas, 14 (70%) adotam “as abreviaturas do Index Medicus”. O arranjo numérico da lista de referências na ordem de citação no texto, sugerido pelos Requisitos de Vancouver, foi adotado por 17 (85%) revistas. Apenas três (15%) adotaram o arranjo alfabético ou alfa-numérico. O formato para identificação das citações no texto foi descrito em 85% das revistas, com preferência para a indicação numérica no texto. Onze (55%) revistas mencionaram o limite do número de referências segundo os tipos de artigos. Os valores máximos para artigos originais variaram de 20 a 50 e, nos artigos de revisão, de 30 a 80.

 

Discussão

Os editores de revistas científicas, segundo sua formação profissional, nem sempre dedicam à evolução do fluxo de comunicação científica a atenção devida e o acompanhamento das atualizações. Embora reconheçam a importância das Instruções aos Autores, geralmente as orientações não são suficientemente claras e objetivas. Considerando que seu objetivo é facilitar aos colaboradores o domínio das diretrizes para tomada de decisão quanto à escolha da revista, a seleção quanto à pertinência da temática e os critérios a serem observados para elaboração, apresentação e submissão dos artigos, as Instruções aos Autores devem ser coerentes com os padrões de qualidade internacional. Esses aspectos, observados nas revistas analisadas, mostram que 75% recomendam a adoção dos Requisitos de Vancouver. No entanto, em decorrência da interpretação dada pelos diferentes editores, as principais constatações foram:

  • A recomendação para utilizar os Requisitos nem sempre se refere à versão atualizada e não informa o endereço eletrônico do ICMJE, o que ocorreu em 50% das Instruções aos Autores. Altman6, em análise de revistas de alto impacto na área da saúde, também observou que o site do ICMJE foi citado por metade das revistas;
  • Os Requisitos foram focalizados apenas em relação às referências, omitindo os demais itens concernentes aos princípios éticos, direitos autorais, tipos de contribuições, formato de apresentação, submissão e encaminhamento, nos suportes tradicional e eletrônico. Estudos recentes, publicados por Schriger et al.7 e Sorinola et al.8,também enfatizam a importância de incluir nas Instruções aos Autores orientações sobre o conteúdo científico dos artigos, além das relacionadas à formatação e envio de trabalhos e sobre a revista. Sorinola et al.8 destacam que a maioria das revistas detalha apenas a estrutura dos artigos originais, negligenciando outros tipos de contribuição;
  • As fontes de informação que devem servir como base de consulta para a garantia da qualidade do trabalho, tais como os Códigos de Ética e Proteção dos Direitos Autorais, colaboração de autorias, conflitos de interesse, agradecimentos e créditos de reconhecimento, com os respectivos sites, geralmente estão desatualizadas ou incompletas. Exemplo disto é a recomendação para utilizar o Index Medicus para as abreviaturas dos títulos das revistas, que deixou de ser publicado em 2004; os Requisitos (versão de fevereiro de 2006) recomendavam o List of Journals Indexed in MEDLINE e, na atualização mais recente (outubro de 2007), sugerem a consulta à National Library of Medicine’s Citing Medicine, um guia de estilo para autores, editores e publicadores9.

A constante revisão das Instruções aos Autores contribui para orientar os autores, na seleção das revistas e na redação dos trabalhos, e os revisores, na análise dos trabalhos submetidos e para diminuir o esforço dos editores na formatação e adequação às normas. Antes restritas à forma impressa, com limitação de tamanho, essas conquistaram espaço de destaque nas versões eletrônicas das revistas, com informações mais detalhadas e com enlaces para as fontes citadas, permitindo atualização permanente10. Embora essa situação tenha evoluído nos últimos anos, estudos recentes também encontraram resultados semelhantes, até mesmo em revistas de alto impacto internacional6,7,11,12. Os princípios éticos mencionados em 90% das revistas analisadas indicam uma preocupação recente dos editores de revistas brasileiras, pois Sardenberg et al.12, em 1999, analisaram 139 títulos e concluíram que esses preceitos não eram adotados por 79%. Dentre os princípios éticos destacam-se: privacidade e confidencialidade aos pacientes participantes dos estudos, a proteção nos experimentos com animais e humanos de acordo com a Declaração de Helsinki (1975 revisada em 2000), a submissão às Comissões de Ética institucionais, segundo o Código de Ética Médica do Conselho Federal de Medicina, ao CONSORT, QUORUM, MOOSE e outras diretrizes criadas para aumentar a qualidade das publicações da área médica6,13-16. Os editores devem tornar explícitos, por meio de formulário próprio, os potenciais conflitos de interesses, relações com os nomes comerciais e de produtos, a aceitação de matéria paga, além de outros aspectos relacionados com as restrições para aceitação de trabalhos. As relações financeiras, como o apoio de agências de financiamento, patrocínios e participações societárias, que se relacionam com a promoção de nomes comerciais, produtos e equipamentos, não foram enfocados com suficiente clareza nas revistas analisadas. Como citou Atlas13, “os editores devem ser mais pró-ativos na tentativa de influenciar os padrões de conduta científica e de publicação, dando visibilidade às orientações éticas para publicação de pesquisas nas Instruções aos Autores”. Por outro lado, os princípios de autoria e colaboração nos trabalhos científicos foram abordados em apenas 15% das revistas analisadas. A definição dos papéis representados pelos autores, os conflitos de interesse e a menção de pessoas envolvidas na pesquisa nos agradecimentos facilitam aos autores e aos leitores dos artigos científicos a identificação da real contribuição de cada um nos resultados da pesquisa. Os créditos de reconhecimento aos colaboradores de pesquisa vêm sendo amplamente discutidos na literatura17-19, pois favorecem a elucidação das questões éticas que envolvem a inclusão de nomes e a ordem dos autores nos artigos, muitas vezes definida mais por questões hierárquicas e de poder do que por efetiva colaboração na pesquisa ou na redação do trabalho. Os Requisitos de Vancouver recomendam que sejam identificados os papéis de cada autor ao final do artigo, mas essa prática ainda não foi incorporada pelos editores das revistas brasileiras da área. Embora os Requisitos de Vancouver não detalhem ou definam os tipos de artigos publicados em revistas científicas, a nomenclatura utilizada pelas revistas não esclarece aos autores o conteúdo e formato que deve ter cada tipo de contribuição. As definições ou características dos tipos de contribuições foram encontradas em poucas revistas e, mesmo assim, diferem de uma revista para outra. A maior diversidade de definições foi observada quanto a artigos de revisão e de atualização. É recomendável que as seções das revistas e os tipos de contribuição sejam definidos nas Instruções aos Autores. Além desses aspectos que vêm sendo discutidos há vários anos, os avanços do fluxo da comunicação científica exigem a participação de todos os envolvidos no processo de produção científica, no acompanhamento e adoção de novas práticas. Nesse sentido, o acesso aberto, certamente, modificará as políticas editoriais, principalmente referentes aos direitos autorais. As revistas científicas devem começar a se preocupar em explicitar de que forma permitirão que os artigos publicados em suas revistas sejam arquivados em repositórios de acesso aberto. Pela definição de acesso aberto, os autores são os detentores do direito autoral e podem decidir de que forma querem que o documento seja utilizado. Existem licenças especiais para proteção de direitos autorais de documentos eletrônicos oferecidas pela Creative Commons (http://creativecommons.org) e Science Commons (http://sciencecommons.org/), instituições sem fins lucrativos criadas com o objetivo de oferecer aos autores o direito de proteger suas obras. Para conhecer as políticas editoriais de revistas científicas de todo o mundo, uma boa opção é o site do Projeto SHERPA (Securing a Hybrid Environment for Research Access and Preservation - http://www.sherpa.ac.uk/romeo.php), que inclui os registros do Projeto RoMEO Project (Rights Metadata for Open Archiving).

 

Conclusão

A liberdade editorial e independência de cada editor devem ser respeitadas como autoridade principal para a definição da missão de cada revista e do seu conteúdo. No entanto, há critérios aceitos internacionalmente que devem ser observados. Na área da saúde, esses critérios estão suficientemente claros nos Requisitos de Vancouver, com orientações sobre princípios éticos, políticas editoriais e outras diretrizes visando garantir a qualidade das publicações científicas. As tendências atuais visando a priorização das revistas eletrônicas em acesso aberto implicarão em modificações no processo de editoração das revistas científicas.

 

Referências

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Agradecimentos

A Márcia Bento Moreira, Heliane Campanatti-Ostiz, Fernando Redondo Moreira Azevedo, Aparecida Cássia dos Santos, Paulo de Oliveira Gomes e Saul Goldenberg, pelas sugestões no desenho do estudo e participação na fase inicial de coleta dos dados.

 

 

Correspondence:
Edna Frasson de Souza Montero
Alameda Espada, 134 – Residencial Onze
06540-395  Santana de Parnaíba – SP  Brasil
efsmontero@terra.com.br

Recebimento: 12/09/2007
Revisão: 10/10/2007
Aprovação: 06/11/2007
Conflito de interesse: nenhum
Fonte de financiamento: nenhuma

 

 

1. Trabalho realizado pelo Núcleo de Comunicação Científica em Cirurgia (NCCC).

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