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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.29 no.2 São Paulo June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-05822011000200013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Satisfação com o peso corporal e fatores associados em estudantes do ensino médio

 

 

Eduila Maria C. SantosI; Rafael Miranda TassitanoII; Wallacy Milton F. do NascimentoIII; Marina de Moraes V. PetribúI; Poliana Coelho CabralIV

Instituição: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, PE, Brasil
IMestre em Nutrição pela UFPE; Professora Assistente I do Núcleo de Nutrição
do Centro Acadêmico de Vitória da UFPE, Recife, PE, Brasil
IIMestre em Hebiatria pela UFPE; Professor Assistente I da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Recife, PE, Brasil
IIIMestre em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Professor Assistente I da Associação Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), Caruaru, PE, Brasil
IVDoutor em Nutrição pela UFPE; Professor Adjunto do Departamento de Nutrição da UFPE, Recife, PE, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Investigar a satisfação corporal em estudantes e possíveis associações ao estado nutricional, fatores sociodemográficos, estilo de vida e percepção de saúde.
MÉTODOS: Estudo transversal realizado com estudantes de 15 a 20 anos de idade de escolas públicas do município de Caruaru (PE). Foram avaliadas variáveis antropométricas, sociodemográficas, de estilo de vida e percepção de saúde, sono, estresse e imagem corporal. Utilizou-se o índice de massa corporal por gênero e idade para diagnosticar baixo peso, eutrofia e excesso de peso, segundo o critério o Conde e Monteiro (2006). Na análise multivariada, recorreu-se à regressão logística binária, adotando-se a ocorrência de "insatisfação pela magreza" e de "insatisfação pelo excesso" como desfechos.
RESULTADOs: Amostra composta por 594 estudantes (62% moças), com idade média de 17,5±1,6 anos. Uma proporção de 38,7% (IC95% 34,8-42,7) afirmou estar satisfeito com o peso corporal, enquanto 31,3% (IC95% 27,6-35,2) gosta-riam de aumentar e 30,0% (IC95% 26,3-33,8) de reduzir o peso. Estudantes satisfeitos com o peso corporal consumiam pelo menos cinco porções de vegetais/dia, possuíam percepção positiva de sono e realizavam três ou mais refeições/ dia. Rapazes e indivíduos com baixo peso apresentaram o desejo de aumentar o peso, enquanto moças, estudantes que realizavam menos de três refeições/dia, com maior renda e excesso de peso gostariam de reduzi-lo. Entre os rapazes que gostariam de aumentar o peso, 13,5% apresentavam excesso de peso e 18,8% das moças que queriam reduzir o peso estavam com baixo peso.
CONCLUSÕES: Há necessidade de realizar medidas pre-ventivas que visem esclarecer sobre a cultura do corpo e o risco de danos à saúde, conduzidas de forma independente para cada sexo.

Palavras-chave: imagem corporal; adolescente; estado nutricional.


 

 

Introdução

A determinação da imagem corporal é influenciada por componentes biofísicos, psicológicos, ambientais e comportamentais bastante complexos(1). Segundo Saikali et al, a imagem corporal possui três componentes: (a) perceptivo, que envolve a percepção da aparência física, em estimativa do tamanho corporal e peso; (b) subjetivo, que se relaciona à aparência; (c) e comportamental, que são as situações evitadas pelo indivíduo em decorrência do desconforto associado à aparência corporal(2). Os fatores sociais, as influências culturais, a pressão da mídia e a busca por um padrão de corpo ideal parecem ser condições determinantes para o desenvolvimento de distorções da imagem corporal, em especial em adolescentes(3).

A adolescência pode ser definida como uma fase de transição entre a infância e a idade adulta, compreendendo a faixa cronológica entre dez e 19 anos(4). É caracterizada por profundas transformações biológicas e psicossociais que envolvem intenso crescimento e desenvolvimento(5). Em meio às transformações hormonais, funcionais, afetivas e sociais, as alterações de porte físico e a aparência corporal adquirem importância fundamental(6), particularmente durante o período de mudanças físicas, com o início do desenvolvimento de características sexuais secundárias próprias da adolescência(7).

A cultura da magreza determina valores e normas que, por sua vez, condicionam atitudes e comportamentos relacionados ao tamanho do corpo, à aparência e à supervalorização do tamanho corporal(7), gerando descontentamento. A insatisfação corporal se associa a situações de sobrepeso e obesidade(8,9), a mudanças no peso corporal durante o crescimento(10), ao gênero, especificamente o sexo feminino(3,11) e à percepção materna sobre o estado nutricional dos filhos, no período da infância e no início da adolescência(12).

A insatisfação com a aparência corporal pode conduzir o indivíduo a obter comportamentos benéficos, com a incorporação de hábitos saudáveis, como a alimentação adequada e a prática de atividade física, modificando o âmbito biofísico e melhorando a percepção corporal(1). No entanto, adolescentes insatisfeitos frequentemente adotam comportamentos alimentares anormais e práticas inadequadas de controle de peso, como uso de diuréticos, laxantes, autoindução de vômitos e realização de atividade física extenuante(13).

Prejuízos no desenvolvimento físico e cognitivo podem ser evidenciados em jovens que praticam comportamentos inadequados provenientes de sua insatisfação corporal(14), ocasionando danos ao estado nutricional, baixa autoestima, limitações no desempenho psicossocial, quadros depressivos(15) e maior risco para o desenvolvimento de transtornos alimentares, quando comparados aos adolescentes satisfeitos com sua imagem(16).

Considerando que a percepção distorcida do peso corporal leva a prejuízo do estado de saúde e nutrição de jovens e que pouco se sabe sobre a questão em municípios do interior do país, justifica-se a realização deste estudo que objetivou investigar a satisfação corporal em estudantes de escolas públicas do município de Caruaru (PE), bem como avaliar as possíveis associações entre insatisfação corporal, estado nutricional, fatores sociodemográficos, estilo de vida e percepção de saúde.

 

Método

Estudo do tipo transversal, realizado com estudantes de 15 a 20 anos, regularmente matriculados no ensino médio de escolas públicas estaduais do município de Caruaru (PE).

O município de Caruaru localiza-se na região do Agreste do Estado de Pernambuco, no Nordeste do Brasil, distante 120 km da capital, Recife. É considerada a "capital do Agreste de Pernambuco" e, segundo dados da Secretaria da Educação e Cultura (SEDUC) do Estado de Pernambuco, em 2007, possuía 8.833 estudantes do ensino médio, distribuídos em 15 escolas da rede pública estadual.

Para o cálculo do tamanho da amostra, foi utilizado o programa SampleXS, distribuído pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para apoiar o planejamento amostral em estudos transversais. Foram adotados os seguintes parâmetros: população (n=8.833); intervalo de confiança de 95%; erro máximo tolerável de cinco pontos percentuais; efeito de delineamento amostral de 1,5; e, por não se conhecer com precisão a extensão das diversas condutas de risco à saúde em estudantes do ensino médio de Caruaru, a prevalência foi arbitrada em 50%. Com base nesses parâmetros, o tamanho da amostra foi estimado em 541 estudantes. Em adição, prevendo eventuais recusas, decidiu-se multiplicar a amostra em 1,2, totalizando 649 sujeitos. No processo de seleção, foram considerados: proporção de estudantes conforme região geográfica do município, tamanho da escola e turno escolar (diurno e noturno). Alunos matriculados no período da manhã e da tarde foram agrupados em uma única categoria (estudantes do período diurno).

A seleção da amostra foi por conglomerado em dois estágios e os sorteios realizados de forma aleatória. No primeiro estágio, a unidade amostral foi a escola, sendo todas as escolas estaduais que oferecem ensino médio de Caruaru consideradas elegíveis. Os seguintes critérios de estratificação foram considerados: densidade da escola e de estudantes em cada microrregião do município e porte da escola (pequeno, médio e grande). A classificação adotada para determinar o porte da escola foi: grande, com mais de 500 alunos matriculados; média, entre 200 e 499 alunos; e pequena, com menos de 200 alunos.

No segundo estágio, todas as turmas (menor unidade amostral) das escolas sorteadas foram consideradas elegíveis para o estudo. Como critério de estratificação, considerou-se a densidade de turmas em cada escola sorteada e do quantitativo de estudantes matriculados nos períodos diurno e noturno. Todos os sorteios foram realizados mediante o programa Research Randomizer, que forneceu números aleatórios. Baseado no censo escolar, em 2007 existia, em média, 41 alunos matriculados em cada turma de ensino médio. Assim, foram sorteadas 16 turmas de oito escolas (58,6% do total de escolas). Como os dados da SEDUC não ofereciam a relação nominal dos estudantes para o sorteio aleatório, decidiu-se considerar a turma como a menor unidade amostral; assim todos os estudantes presentes no dia da coleta na faixa estaria estabelecida, de cada turma sorteada, foram convidados a participar. Excluíram-se os alunos com deficiência física e mental.

Para a coleta dos dados, utilizou-se o questionário intitulado "Comportamentos de Risco em Adolescentes Catarinenses" (COMCAP), previamente validado em estudantes da rede pública de ensino do Brasil(17). Entretanto, foi realizado um estudo piloto em estudantes caruaruenses da mesma faixa etária, apresentando medidas de reprodutibilidade de moderadas a elevadas.

A variável dependente foi a satisfação corporal, sendo as opções de resposta - "sim, estou satisfeito"; "não, gostaria de aumentar" (insatisfação pela magreza) e "não, gostaria de diminuir" (insatisfação pelo excesso) - medidas indireta de percepção do peso corporal. As variáveis independentes foram: estado nutricional (índice de massa corporal - IMC), fatores sociodemográficos e econômicos (sexo, idade cronológica, estado civil, renda familiar mensal, série e turno escolar), variáveis relacionadas ao estilo de vida (prática de atividade física, comportamento sedentário, consumo de frutas e verduras, número de refeições diárias, tabagismo e etilismo) e à percepção de saúde (saúde, sono e estresse).

Quanto ao estado nutricional, foi calculado o IMC. Os pontos de corte foram propostos por Conde e Monteiro, em 2006, segundo as categorias: baixo peso, peso adequado, sobrepeso e obesidade(18). O peso e a estatura corporal foram verificados conforme proposta da literatura especializada(19). Estadiômetros da marca Plenna (modelo 206, São Paulo, Brasil) foram utilizados para avaliar a estatura com uma precisão de 0,5cm (amplitude de medidas de 120 a 220cm), enquanto a medida de peso foi realizada em balança eletrônica da marca Plenna (modelo Sport), previamente calibrada (amplitude de medidas de 30-150kg).

Foi investigada a frequência, a intensidade e a duração da prática de atividades físicas em quatro domínios (lazer, doméstico, deslocamento e no trabalho). Os indivíduos foram considerados insuficientemente ativos quando relataram não praticar pelo menos 60 minutos de atividade física moderada à vigorosa em cinco dias ou mais por semana. O comportamento sedentário foi avaliado a partir do número de horas que o indivíduo relatou assistir televisão por dia, sendo divididos em dois grupos: até três horas por dia e mais de três horas por dia.

O consumo alimentar de frutas e verduras foi considerado adequado quando os estudantes relataram consumir cinco porções ou mais por dia, enquanto que o número de refeições diárias foi categorizado em menos de três refeições e três ou mais refeições por dia.

Quanto à avaliação do nível de estresse, os indivíduos foram questionados a descrever como consideram o nível de estresse de suas vidas. Aqueles alunos que relataram uma percepção "quase sempre ou excessivamente estressado" foram agrupados como percepção negativa e aqueles que assinalaram "raramente ou às vezes estressado", como percepção positiva.

Com relação à qualidade do sono, os alunos foram questionados com que frequência consideravam dormir bem, com as seguintes opções de resposta: "sempre", "quase sempre", "às vezes" ou "nunca". As respostas foram categorizadas em percepção positiva (alunos que responderam "sempre ou quase sempre") ou negativa (alunos que relataram "às vezes ou nunca"). Os alunos que referiram uma percepção de saúde "excelente" e "boa" foram categorizados como tendo uma percepção positiva, e "razoável" e "ruim", como com percepção negativa.

A tabulação final dos dados foi efetuada por meio do programa EpiData (versão 3.1). Objetivando detectar erros na entrada de dados, as informações foram redigitadas em outro computador. Por meio do programa Validate do EpiData, foi gerado um arquivo com informações sobre os erros de digitação, a fim de corrigi-los e orientar o processo de revisão e limpeza do banco de dados. Após a checagem, os dados foram exportados para o programa de análise (Statistical Package for Social Sciences, versão 15.0).

Na análise descritiva, foi utilizada a distribuição de frequência para as variáveis categóricas, e a média e o desvio padrão para as variáveis contínuas. Para avaliar a associação entre variáveis, recorreu-se à aplicação do teste do qui-quadrado e, no caso das variáveis em escala ordinal, ao qui-quadrado para tendência.

Na análise multivariada, recorreu-se à regressão logística binária, adotando-se a ocorrência de "insatisfação pela magreza" e "insatisfação pelo excesso" como desfechos. Após a análise bruta, um modelo hierárquico, previamente estabelecido conforme a recomendação da literatura(20,21), foi adotado para estabelecer a ordem de entrada das variáveis independentes. A abordagem hierárquica utilizada considerou três níveis: distal, no qual foram incluídas as variáveis demográficas e econômicas (sexo, faixa etária, estado civil, renda familiar mensal, turno); intermediário, no qual constavam percepção de saúde, sono, estresse, atividade física e consumo de frutas; proximal, relacionado ao estado nutricional e às refeições diárias. O modelo foi composto por análise ajustada para cada nível e para o nível anterior. Duas regressões ajustadas foram realizadas considerando os dois desfechos negativos analisados, estratificados por sexo e estado nutricional [baixo peso e excesso de peso (casos sobrepeso+obesidade)]. Em toda a análise inferencial, foi considerado significante p<0,05.

O estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Associação Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), conforme resolução 196 do Conselho Nacional de Saúde. Os alunos que concordaram em participar receberam todas as informações sobre o estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Além disso, a presente pesquisa teve a anuência da SEDUC do Estado de Pernambuco, que forneceu os dados referentes ao censo escolar.

 

Resultados

Um total de oito escolas e 16 turmas foram visitadas, conforme previsto na sessão Métodos. Do total de estudantes que estavam presentes nos dias de coleta (n=624), 24 se recusaram a participar (3,8%), totalizando 600 estudantes. Entretanto, foram excluídos seis questionários por não apresentarem informações completas em relação à insatisfação corporal. A amostra final foi composta de 594 estudantes (62% de moças), com idade média de 17,5±1,6 anos.

A maioria dos estudantes relatou ser solteiro, estudar à noite e ter renda familiar mensal de até dois salários mínimos. As informações sociodemográficas e relacionadas à escola estão apresentadas na Tabela 1.

Uma proporção de 38,7% (IC95% 34,8-42,7) dos estudantes afirmou estar satisfeito com o peso corporal, enquanto 31,3% (IC95% 27,6-35,2) gostariam de aumentar e 30,0% (IC95% 26,3-33,8), de reduzir o peso. Não houve associação entre o grau de satisfação com o peso corporal e a variável "faixa etária". Para todas as demais variáveis, foi verificada uma associação significativa em relação àqueles que gostariam de diminuir o peso, conforme apresentado na Tabela 2. Em geral, os estudantes satisfeitos com o peso corporal são aqueles que consomem pelo menos cinco porções de frutas por semana, possuem uma percepção positiva em relação ao sono, além de realizar três ou mais refeições diárias (p<0,05) (Tabela 2). Observou-se que os rapazes, os estudantes do período noturno e aqueles com baixo peso apresentam vontade de aumentar o peso em maior proporção (Tabela 2).

Quando o modelo foi ajustado para as variáveis de confusão "sexo" e "estado nutricional", as moças apresentaram 54% menos chance de relatar a vontade de aumentar o peso, enquanto que os estudantes com sobrepeso e obesidade mostraram 87 e 97% menos chance de relatar a vontade de aumentar o peso (Tabela 3). Maior proporção de moças, estudantes com maior renda, que realizam menos de três refeições diárias e com excesso de peso gostariam de reduzir o peso (Tabela 4).

A maioria dos rapazes com baixo peso gostaria de aumentar o peso, proporção significativamente superior, quando comparada às moças (p<0,05). Observou-se ainda que 13,5% dos rapazes gostariam de aumentar o peso, mesmo apresentando excesso de peso. Já entre os estudantes que gostariam de reduzir o peso, a proporção de moças com excesso de peso foi significativamente maior comparadas aos rapazes. Das moças, 18,8% relataram querer reduzir o peso mesmo estando com baixo peso, conforme apresentado no Gráfico 1.

 

 

Discussão

O procedimento amostral indica que o grupo avaliado foi representativo do número de escolas e de alunos matriculados no município, o que permite dimensionar os resultados para toda população de estudantes do ensino médio da rede pública estadual de Caruaru. Como limitação do estudo, o delineamento da amostra não permitiu estratificar a população por faixa etária, visto que os dados fornecidos pela SEDUC não continham essa informação. Assim, os resultados devem ser interpretados com cautela, visto que 12,3% dos estudantes apresentaram 20 anos e, segundo a OMS, a adolescência é o período que vai dos dez aos 19 anos. Entretanto, como a amostra é representativa da realidade dos estudantes do ensino médio do município, decidiu-se manter os estudantes com 20 anos na análise. Além disso, a comparação dos resultados do presente estudo se aproxima mais da fase da adolescência do que da adulta.

A prevalência de insatisfação corporal foi elevada (61,3%), similar à encontrada por Vilela et al(16) e Graup et al(22), que identificaram na região Sul do Brasil 59 e 67% de insatisfação com o corpo em escolares, respectivamente. Altos índices de insatisfação com o corpo também foram observados em pré-adolescentes, com idade entre oito e dez anos, de cidades do interior do Rio Grande do Sul, alcançando 63,9% de prevalência(12).

Embora o descontentamento corporal tenha ocorrido em ambos os sexos, a percepção corporal afetou diferentemente os rapazes e as moças. A maior parte das meninas desejava diminuir o peso corporal, enquanto que, nos meninos, houve maior prevalência no desejo de aumentar. Esses resultados são semelhantes a outros estudos, os quais relataram que, independentemente do estado nutricional, as mulheres geralmente desejam diminuir a silhueta corporal(23) e os homens almejam corpos mais fortes(16,22). De acordo com Kostanski et al, a insatisfação corporal é um problema que afeta ambos os sexos, embora de formas diferentes e, por isso, estratégias devem ser conduzidas de forma independente para cada sexo(24).

Vale ressaltar que o desejo de ser mais magro se mostrou 2,93 vezes superior nas meninas quando comparado ao desejo nos meninos. Outros estudos já demonstraram que a insatisfação pelo excesso acomete principalmente as mulheres(3,16,22). O papel da nossa cultura, disseminando a ideia de que, entre as mulheres, a magreza é sinônimo de competência, sucesso e atração sexual, está ligado ao aumento da ocorrência dessa insatisfação. Por outro lado, os rapazes são direcionados para funções sociais diversas, nas quais é exigido um corpo forte e atlético, tornando-os mais suscetíveis ao desejo de ganho ponderal(25).

Brook e Tepper, estudando o aspecto perceptivo em adolescentes de 14 a 18 anos de idade, constataram quatro vezes mais risco de as meninas se sentirem insatisfeitas pelo excesso de peso(26). Segundo Ferrando et al, a distorção da imagem corporal no sexo feminino ocorre tanto na sua dimensão perceptiva (superestimação do peso), como na dimensão emocional(27).

Ao associar a insatisfação corporal ao estado nutricional, foi detectado que estudantes com baixo peso gostariam de aumentar o peso corporal, enquanto que aqueles com excesso de peso, reduzir. Vale salientar que 64,1% dos estudantes que relataram descontentamento com sua imagem corporal apresentavam peso adequado e 29,9%, excesso de peso. Esses achados corroboram estudos anteriores que identificaram a presença de insatisfação corporal em jovens eutróficos: Bosi et al(28), em 1996, estudando universitárias com autopercepção da imagem corporal alterada, encontraram que 82,9% apresentavam IMC adequado e 11,4% apresentavam IMC de sobrepeso/obesidade. Já Benedikt et al, em 1998, identificaram 60,7% de sua amostra (adolescentes do sexo feminino) insatisfeita com seu peso corpóreo e apenas 13,6% com excesso de peso(29). Em estudo realizado por Nunes et al em 2001 com mulheres de 12 a 29 anos, entre aquelas que se achavam gordas, somente um terço tinha IMC compatível com sobrepeso e obesidade(7).

Observou-se ainda, nessa casuística, que 13,5% dos rapazes gostariam de aumentar o peso, mesmo estando com excesso de peso, provavelmente por desejar um maior desenvolvimento muscular; já 18,8% das moças relataram querer reduzir o peso, mesmo estando com baixo peso, caracterizando um grupo com maior possibilidade de desenvolver comportamento alimentar anormal e transtornos alimentares. Evidências disponíveis na literatura apontam que a supervalorização do peso corporal, independentemente do estado nutricional (IMC), parece ser um dos mais significativos fatores preditivos para comportamentos alimentares anormais e práticas inadequadas de controle de peso(30,31). Grigg et al, em 1996, ao avaliarem adolescentes do sexo feminino, de 14 a 16 anos, insatisfeitas com a imagem corporal, identificaram que 57% (n=853) faziam dietas consideradas não saudáveis e 36% utilizavam pílulas anorexígenas, diuréticos, laxantes e dieta extremamente restritiva(32). Alves et al, em 2008, apontaram uma estreita relação entre insatisfação com o corpo e comportamento alimentar anormal sugestivo de transtorno alimentar(13).

A presente pesquisa evidenciou associação entre a omissão de refeições diárias com a insatisfação pelo excesso de peso, permanecendo essa relação após ajuste para as variáveis de confusão. Os estudantes que não consumiam as três refeições diárias apresentaram uma chance 1,79 vezes maior de apresentar insatisfação pelo excesso de peso corporal, corroborando resultados de Branco et al, em 2007, que apontaram uma relação significativa entre a distorção da imagem corporal e a omissão do desjejum entre as meninas (p<0,05)(33). Esses autores sugeriram que os jovens descontentes com sua imagem corporal omitem determinadas refeições, como, por exemplo, o café da manhã, na tentativa de perder peso e reduzir o valor calórico diário(33).

Associação significativa entre insatisfação corporal pelo excesso e as seguintes variáveis foram observadas na análise bruta: inatividade física; consumo de menos de cinco porções diárias de frutas e verduras; percepção negativa de saúde; estresse e sono. Porém, após ajuste para as variáveis de confusão, não foi verificada associação entre tais variáveis e insatisfação corporal. Era de se esperar que indivíduos que almejassem reduzir o peso fossem capazes de introduzir hábitos de vida saudáveis, como a atividade física, a alimentação equilibrada, o sono adequado e a redução do estresse. No entanto, jovens comumente realizam práticas inadequadas de controle de peso, como, por exemplo, a omissão de refeições, relatada anteriormente.

O nível socioeconômico tem sido apontado como possível fator determinante da insatisfação corporal em crianças e adolescentes(34). Nessa casuística, estudantes que relataram renda familiar mais alta estavam mais propensos a serem insatisfeitos pelo excesso de peso corporal. O estudo de Ogden e Thomas, em 1999, também evidenciou associação entre classe social mais elevada e maiores preocupações com o corpo em meninas de 13 a 16 anos(35). Por outro lado, Pereira et al, em 2009, ao estudarem 402 escolares na faixa etária de nove a 15 anos, identificaram maiores percentuais de crianças insatisfeitas com a imagem corporal nas classes sociais menos favorecidas(34), enquanto que Wang et al, em 2007(36), não observaram diferenças significativas no status socioeconômico em adolescentes com 15 a 18 anos com ou sem insatisfação corporal. A relação entre o nível socioeconômico e a insatisfação corporal não é concordante na literatura, provavelmente por distintas maneiras de mensurar tal variável, ora pela ocupação dos pais e grau de escolaridade do chefe da família, ora considerando a posse de bens e a renda familiar. Vale salientar que, no Brasil de hoje, o problema do excesso de peso já apresenta uma relação inversa com o nível socioeconômico e, desse modo, era de se esperar que o mesmo ocorresse com a insatisfação corporal.

Em resumo, a prevalência de insatisfação corporal foi elevada em ambos os sexos, sendo que rapazes e estudantes com baixo peso apresentaram uma maior proporção do desejo de aumentar o peso, enquanto que as moças, os indivíduos que realizam menos de três refeições diárias, com maior renda e excesso de peso, gostariam de reduzir. Observou-se um indicativo de distorção do peso corporal para ambos os sexos. Entre os rapazes que estavam com excesso de peso, 13,5% ainda gostariam de aumentar o peso. Já entre as moças, 18,8% que estavam com baixo peso ainda gostariam de reduzi-lo.

Assim, este estudo demonstrou a necessidade de se realizarem medidas preventivas que visem esclarecer sobre a cultura do corpo e o risco de danos à saúde, prevenção essa a ser conduzida de forma independente para cada sexo.

 

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Endereço para correspondência:
Eduila Maria C. Santos
Rua José Braz Moscow, 2.075, apto. 401 – Candeias
CEP 54410-390 – Jaboatão dos Guararapes/PE
E-mail: eduila@hotmail.com

Conflito de interesse: nada a declarar
Recebido em: 7/4/2010
Aprovado em: 13/10/2010