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Revista Paulista de Pediatria

versión impresa ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.30 no.1 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-05822012000100007 

ARTIGO ORIGINAL

 

Estado nutricional e consumo de energia e nutrientes de pré-escolares que frequentam creches no município de Manaus, Amazonas: existem diferenças entre creches públicas e privadas?

 

Estado nutricional y consumo de energía y nutrientes de pre-escolares que frecuentan guarderías en el municipio de Manaus, Amazonas (Brasil): ¿existen diferencias entre guarderías públicas y privadas?

 

 

Bruno Mendes TavaresI; Gloria Valeria da VeigaII; Lucia Kiyoko O. YuyamaIII; Milena Baptista BuenoIV; Regina Mara FisbergV; Mauro FisbergVI

Instituição: Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IMestre em Nutrição pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da UFRJ; Professor Assistente do Instituto de Saúde e Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas, Coari, AM, Brasil
IIDoutora em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); Professora Associada do Instituto de Nutrição Josué de Castro da UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIIDoutora em Ciências dos Alimentos pela Universidade de São Paulo (USP); Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Manaus, AM, Brasil
IVDoutora em Saúde Pública pela USP; Professora da Universidade Paulista, São Paulo, SP, Brasil
VDoutora em Ciências Biológicas pela Unifesp; Professora Associada da Faculdade de Saúde Pública da USP, São Paulo, SP, Brasil
VIDoutor em Pediatria pela Unifesp; Professor Associado do Departamento de Pediatria da Unifesp, São Paulo, SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar o estado nutricional e o consumo alimentar de crianças assistidas em creches públicas e privadas no município de Manaus, Amazonas.
MÉTODOS: Foram avaliadas crianças entre 24 e 72 meses de duas creches públicas (n=217) e duas creches privadas (n=91) de Manaus. O estado nutricional foi classificado pelos índices peso para idade, peso para estatura, estatura para idade e índice de massa corporal (IMC) para idade, em valores de escores Z. O consumo alimentar na creche foi avaliado pelo método da pesagem direta individual dos alimentos e, no domicílio, pelo registro alimentar de um dia aplicado aos responsáveis. Estimou-se a frequência de crianças com ingestão de nutrientes acima ou abaixo dos pontos de corte de Estimated Average Intake (EAR) ou Adequate Intake (AI).
RESULTADOS: Verificou-se maior frequência de crianças com excesso de peso nas creches privadas segundo os índices peso para estatura e IMC para idade. As crianças das instituições públicas, quando comparadas àquelas das privadas, consumiram mais gorduras poli-insaturadas, trans, ácido graxo ômega-6, vitamina C e sódio, e menos zinco. Em ambos os tipos de creches observaram-se consumo elevado de energia e proporção elevada de crianças com consumo de vitaminas A e C, zinco e sódio acima do limite superior tolerável de ingestão. A proporção de crianças com inadequação de consumo de cálcio foi maior nas creches públicas do que nas privadas (27,6 versus 7,9%; p<0,001).
CONCLUSÕES: O consumo de energia e de sódio foi elevado em ambos os tipos de creche e o consumo de cálcio, insuficiente, principalmente nas creches públicas. Recomenda-se melhor monitoramento da dieta infantil para prevenção de doenças futuras.

Palavras-chave: pré-escolar; estado nutricional; consumo de alimentos; creches.


RESUMEN

OBJETIVO: Verificar el estado nutricional y el consumo alimentar de niños asistidos en guarderías públicas y privadas en el municipio de Manaus, Amazonas (Brasil).
MÉTODOS: Se evaluaron niños entre 24 y 72 meses de dos guarderías públicas (n=217) y dos guarderías privadas (n=91) de Manaus. El estado nutricional fue clasificado por los índices peso para la edad, peso para la estatura, estatura para la edad e índice de masa corporal (IMC) para edad, en valores de escores Z. El consumo alimentar en la guardería fue evaluado por el método de pesaje directo individual de los alimentos y, en el domicilio, por el registro alimentar de un día aplicado a los responsables. Se estimó la frecuencia de niños con ingestión de nutrientes por encima o por debajo de los puntos de corte de Estimated Average Intake (EAR) o Adequate Intake (AI).
RESULTADOS: Se verificó mayor frecuencia de niños con exceso de peso en las guarderías privadas, por los índices de peso para estatura e IMC para edad. Los niños de las instituciones públicas, cuando comparados a aquellos de las privadas, consumieron más grasas poliinsaturadas, trans, ácido graso omega-6, vitamina C y sodio, y menos zinc. En ambos tipos de guarderías, se observaron consumo elevado de energía y proporción elevada de niños con consumo de vitaminas A y C, zinc y sodio por encima del límite superior tolerable de ingestión. La proporción de niños con inadecuación de consumo de calcio fue mayor en las guarderías públicas que en las privadas (27,6 versus 7,9%; p<0,001).
CONCLUSIÓN: El consumo de energía y de sodio fue elevado en ambos tipos de guardería, y el consumo de calcio, insuficiente, principalmente en las guarderías públicas. Se recomienda mejor monitoración de la dieta infantil para prevención de enfermedades futuras.

Palabras clave: pre-escolar; estado nutricional; consumo de alimentos; guarderías.


 

 

Introdução

O consumo adequado de vitaminas e minerais na infância é fundamental para evitar carências nutricionais que prejudicarão o crescimento. A desnutrição energético-proteica, a anemia ferropriva e a deficiência de vitamina A representam os principais problemas para a saúde infantil(1). No Brasil, a desnutrição energético-proteica avaliada com base no índice estatura-para-idade, embora em declínio, ainda acomete 6,0% das crianças menores de cinco anos, chegando a atingir 8,5% na Região Norte(2). Por outro lado, o excesso de peso foi observado em aproximadamente um quarto das crianças menores de seis anos assistidas em instituições públicas e privadas de nove estados brasileiros(3).

Segundo dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde realizada em 2006, a prevalência de anemia é de 20,9%, enquanto a hipovitaminose A está presente em 7,4% das crianças menores de cinco anos(4). Na Região Amazônica, a anemia ferropriva foi observada em até 30,6% de pré-escolares(5), assim como já foram descritas nesta faixa etária desnutrição crônica, consumo insuficiente de niacina, ferro e vitamina A(6).

A maioria dos estudos sobre tais carências foi desenvolvida em crianças assistidas em creches, as quais podem ter um impacto positivo sobre o seu estado nutricional, principalmente para aquelas pertencentes a estratos socioeconômicos menos favorecidos, pois podem proporcionar-lhes melhor consumo de alimentos ricos em nutrientes e energia, ao disponibilizar uma alimentação que a criança não disporia em casa(7). Todavia, os estudos realizados no Brasil sobre a saúde infantil, tanto em creches quanto aqueles de base populacional, em especial na Região Amazônica, geralmente restringem-se a informações sobre a avaliação antropométrica, sem informações sobre o consumo alimentar, fundamental para melhor compreender o desenvolvimento de carências nutricionais. Sendo assim, o trabalho teve como objetivo avaliar o estado nutricional e o consumo alimentar de crianças assistidas em creches públicas e privadas no município de Manaus, no Amazonas, acreditando-se que os resultados poderão ser úteis para proposição de estratégias que visem melhor adequação da dieta infantil e, consequentemente, melhor estado nutricional.

 

Método

Trata-se de um estudo transversal desenvolvido a partir dos dados coletados no estudo multicêntrico intitulado Estimativa da prevalência de inadequação de nutrientes em crianças de diferentes regiões do Brasil - Estudo Nutri Infância Brasil, realizado em dez cidades brasileiras, entre estas Manaus, cujos dados são aqui analisados.

No estudo multicêntrico, foi prevista amostra por conveniência de 250 pré-escolares de creches públicas e 100 de creches privadas, com crianças entre 24 e 72 meses. Para calcular o número de crianças a serem entrevistadas em cada cidade, estimou-se prevalência de ingestão inadequada de nutrientes de 65%, com margem de erro de 5% e nível de confiança de 95%. A quantidade de avaliações em cada estrato de creches (pública ou privada) foi baseada no número de matrículas em creches, registrado no Ministério da Educação, Censo Escolar (2005), para os estados brasileiros que participaram do estudo(8).

Em Manaus, avaliaram-se 217 crianças de duas creches públicas filantrópicas e 91 crianças de duas creches privadas, no período de outubro a dezembro de 2007, correspondendo a 88% da amostra prevista no estudo multicêntrico.

Determinou-se o peso em balança eletrônica, portátil, com variação de 50g, com a criança descalça e com o mínimo de vestimentas. A estatura foi medida utilizando-se antropômetro portátil com escala de 0,1cm, com a criança descalça, em posição ortostática. O estado nutricional das crianças menores de cinco anos de idade foi classificado com base nos índices peso-para-idade (P/I), peso-para-estatura (P/E), estatura-para-idade (E/I) e índice de massa corporal (peso/estatura2) para a idade (IMC/I), expressos em valores de escores Z, utilizando como referência os valores da World Health Organization (WHO)(9). Para as crianças de cinco e seis anos foram utilizados os mesmos índices, com exceção do P/E pelo fato da curva de valores para este índice não ter sido disponibilizada na referência da World Health Organization para crianças de cinco a 19 anos de idade(10). Os pontos de corte para classificar déficits e excessos ponderais e estaturais foram baseados nas recomendações do SISVAN(11), as quais são adaptadas da WHO(9,10).

O consumo alimentar foi obtido por meio do método da pesagem direta de alimentos consumidos pelas crianças em um dia nas creches. Os alimentos servidos no prato da criança foram pesados em balança digital, com capacidade para 3kg. Foram feitas três pesagens de cada porção de alimento para se obter um valor médio da quantidade de alimentos oferecidos pela creche em cada refeição. Para se determinar o resto alimentar individual, os alimentos deixados no prato por cada criança após a refeição foram pesados. Os restos foram coletados em sacos plásticos identificados para cada criança, sendo pesados sem separação dos alimentos. Para separá-los, utilizou-se o critério de proporcionalidade, ou seja, o percentual de cada alimento oferecido no prato total também foi considerado como percentual de resto e o seu equivalente em gramas. A quantidade de alimentos ingeridos foi considerada a quantidade ofertada menos o resto. A fim de completar o consumo alimentar da criança, os alimentos consumidos fora da creche e respectivas quantidades foram informados pelos pais ou responsáveis pelo método de registro alimentar.

Efetuou-se uma segunda pesagem em 25% da amostra, selecionada aleatoriamente, tanto nas creches públicas quanto privadas, para avaliar a variância do consumo alimentar das crianças. Esta segunda pesagem foi feita com intervalo de pelo menos um dia da primeira pesagem, repetindo o mesmo procedimento. Ajustou-se a distribuição da ingestão de nutrientes com a remoção do efeito da variância intraindividual, de acordo com o método proposto pelo Iowa State University (ISU)(12), indicado pelo Instituto de Medicina, baseando-se na premissa de que é possível coletar dados de uma subamostra e extrapolar os resultados da estimativa de variância de consumo intraindividual para toda a população avaliada(13). As análises de remoção do efeito da variância intraindividual utilizaram o software PC-SIDE.

A conversão das medidas caseiras em gramas ou mililitros foi feita com base nas padronizações de Pinheiro et al(14) e Fisberg e Villar(15). Os inquéritos alimentares foram digitados e analisados no programa Nutrition Data System for Research(16), cuja principal base de dados é a tabela norte-americana desenvolvida pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Os alimentos regionais não existentes no software foram substituídos por alimentos com valores nutricionais semelhantes.

O consumo de nutrientes foi ajustado pelo teor de energia da dieta, pelo método de resíduos proposto por Willet(17), utilizando-se o software STATA versão 10.

Para classificar a adequação da ingestão de energia, utilizou-se a necessidade estimada de energia (Estimated Energy Requirements - EER)(18) para cada criança, de acordo com sexo e idade, considerando-se ingestão excessiva quando ultrapassados 120% de EER e deficiente quando inferior a 80%. Avaliou-se a proporção de crianças com ingestão de nutrientes abaixo dos requerimentos médios estimados (Estimated Avarage Requirement - EAR) estabelecidos para cada nutriente(19). Quando o nutriente não tinha EAR estabelecido, foram analisados os valores abaixo da ingestão adequada (Adequate Intake - AI). Foram também verificadas as proporções de crianças cujos valores de nutrientes da dieta excediam o limite máximo tolerável de ingestão (Upper Limit - UL) para os nutrientes que possuíam este limite definido(19).

A classificação socioeconômica foi feita a partir do Critério de Classificação Econômica Brasil, utilizando-se o Questionário de Avaliação do Nível Social e Econômico da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisas (ABEP)(20), o qual foi autorrespondido pelos responsáveis das crianças e leva em consideração a presença e quantidade de eletrodomésticos e empregados no domicílio e a escolaridade do chefe da família. De acordo com o critério da ABEP, as classes econômicas são divididas em A1, A2, B1, B2, C, D e E (da classe mais alta para a mais baixa). Para este estudo, agruparam-se as classes A1 e A2, B1 e B2, D e E, resultando em classes: A, B, C e D.

Na análise estatística, avaliou-se, inicialmente, a natureza de distribuição das variáveis pelo teste Komogorov-Sminorv. As variáveis contínuas foram descritas em média e erro padrão e as categóricas, em frequência. As comparações das médias entre creches públicas e privadas foram feitas pelo teste t de Student ou teste de Mann-Whitney, dependendo da natureza das suas distribuições, e a comparação das frequências foi feita pelo qui-quadrado. A análise estatística utilizou o software SPSS para Windows, versão 13.0. Foi considerado o valor de p<0,05 para significância estatística.

O projeto do estudo multicêntrico foi aprovado pelo Comitê de Ética da Unifesp.

 

Resultados

A proporção de crianças com quatro anos ou mais foi maior nas creches públicas (60,8 versus 24,1%), enquanto a proporção de crianças menores de quatro anos foi maior nas creches privadas (75,8 versus 39,1%). Como era esperado, nas instituições privadas prevaleceram crianças pertencentes às classes A (62,2%) e B (32,2%), enquanto nas públicas os pré-escolares pertenciam principalmente às classes C (64,9%) e D (26,7%) (Tabela 1).

Com base nos índices P/I e P/E, verificou-se maior proporção de crianças das creches privadas com excessos e maior proporção das crianças das creches públicas com déficits ponderais. Quando avaliadas pelo IMC/I, houve maior proporção de excesso de peso nas creches privadas do que nas públicas (Tabela 2).

 

 

Quanto à avaliação da dieta consumida (Tabela 3), verificou-se que as crianças das instituições públicas consumiram mais (p<0,05) gorduras poli-insaturadas, ácido graxo ômega-6, gordura trans, vitamina C e sódio do que as crianças das creches privadas.

Com relação à inadequação de consumo energético (Tabela 4), observou-se que, tanto nas creches públicas quanto nas privadas, a proporção de crianças com consumo acima de EER foi cerca de 40%, bem maior do que a proporção com consumo abaixo das recomendações (5,1 versus 6,7%, respectivamente). Maior proporção de crianças das creches públicas ingeriram cálcio em quantidades abaixo da AI (27,6 versus 7,9%, p<0,001), e o consumo de vitamina D abaixo das recomendações foi igualmente elevado em ambos os grupos (25,8 versus 20,2%). Nos dois tipos de creches, observou-se proporção elevada de crianças com consumo de vitaminas A e C, zinco e sódio acima do limite superior. Para vitamina A e zinco, estas proporções foram significativamente maiores nas crianças das creches privadas. O consumo de sódio elevado foi observado em mais de 70% das crianças investigadas, independentemente do tipo de creche que frequentavam. Todas as crianças apresentaram adequação da ingestão de ferro e estavam com consumo de proteínas acima das recomendações (Tabela 4).

 

 

Discussão

Este estudo demonstrou existirem diferenças com relação ao estado nutricional entre crianças que frequentam creches públicas e privadas de Manaus, mas as diferenças no consumo alimentar foram menos evidentes. Constatou-se que as crianças que frequentam creches privadas possuem maior tendência ao desenvolvimento de excesso de peso e obesidade do que as crianças das creches públicas, enquanto que as crianças das creches públicas têm maior tendência a apresentar baixo peso tanto para a idade quanto para a estatura.

Em estudo realizado com 216 pré-escolares de Manaus, Marinho et al(21) também constataram maior índice de desnutrição de Grau I (entre 76 e 90% de adequação de peso para a idade), segundo a classificação de Gomez(22), em crianças de classe socioeconômica baixa, chegando a atingir 47,5% nos meninos e 48,3%, nas meninas. Desta forma, mesmo considerando as diferenças metodológicas de classificação, pode-se deduzir que, apesar das crianças de condições socioeconômicas mais desfavoráveis estarem em maior risco de déficits nutricionais do que as de estratos mais elevados, aparentemente houve uma redução destes déficits em crianças de Manaus, já que no nosso estudo estas proporções, considerando o índice P/I, não ultrapassaram 18%.

Quanto ao déficit de E/I, a proporção encontrada (em torno de 6%) é semelhante à descrita para as crianças brasileiras até cinco anos de idade(2), mas é menor do que a relatada por Alencar et al(23), que evidenciaram como principal manifestação da desnutrição infantil no Amazonas o déficit de crescimento, que chega a atingir entre 15,6 e 35,2% das crianças, dependendo do ecossistema da região em que habitam. Tal diferença pode ser atribuída ao fato de estarmos descrevendo o estado nutricional de crianças residentes na área urbana de Manaus, com condições de vida mais favoráveis do que as observadas nestas regiões.

O excesso de peso, no entanto, foi bastante elevado. Se considerarmos o risco a partir do escore Z acima de 1, a frequência chegou a atingir cerca de 25% das crianças de creches públicas e mais de 40% das crianças de creches privadas. Estes resultados estão de acordo com o aumento da prevalência de sobrepeso observado no Brasil(2) e no próprio estudo nacional Nutri Brasil Infância(3), do qual este trabalho faz parte, reforçando que a obesidade é um problema de Saúde Pública tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento(24). O consumo energético acima das recomendações em cerca de 40% das crianças avaliadas pode explicar a elevada frequência de excesso de peso encontrada.

Não obstante as diferenças socioeconômicas e na classificação de estado nutricional entre os tipos de creches, não houve diferença significativa quanto ao consumo de energia e da maioria dos nutrientes entre os dois grupos. Estes achados contrariam a hipótese de que as crianças de creches privadas consumiriam mais energia e nutrientes do que as das creches públicas, por pertencerem a classes socioeconômicas mais altas e, provavelmente, com maior acesso a alimentos. É provável que a frequência às creches esteja contribuindo para um consumo mais adequado de alimentos, independentemente da classe social à qual as crianças pertençam.

Verificou-se consumo abaixo das recomendações apenas de vitamina D em ambos os tipos de creche e de cálcio nas instituições públicas. O consumo inadequado destes nutrientes pode acarretar comprometimento do crescimento e formação inadequada do tecido ósseo(25). A maior inadequação no consumo de cálcio nas creches públicas pode decorrer da maior proporção de crianças acima de quatro anos neste tipo de creche, as quais já consomem menor quantidade de leite do que as de menor idade.

Outro dado relevante do presente estudo refere-se ao elevado consumo de vitamina C, zinco e sódio (acima da UL) pelas crianças de ambos os grupos. Particularmente o sódio poderá trazer consequências negativas para a saúde infantil e na vida futura, já que o consumo elevado está associado à alta prevalência de hipertensão arterial, considerada um dos maiores problemas de Saúde Pública em adultos(26). A elevada ingestão de sódio, provavelmente, deve-se ao aumento no consumo de alimentos industrializados, ricos neste mineral, hábitos estes que já podem estar sendo incutidos desde a infância.

A vitamina C consumida em excesso pode acarretar efeitos adversos, como diarréia osmótica e distúrbios gastrintestinais, aumento da excreção de oxalato e formação de cálculo renal(25). Todavia, é provável que a ingestão elevada de vitamina C tenha sido observada pelo fato de, no dia da pesagem de alimentos em ambos os tipos de instituições, o cardápio incluir suco de acerola, que é fonte rica deste nutriente, não representando risco à saúde das crianças. A elevada proporção de crianças que consumiram zinco acima da UL pode ter sido consequência do alto consumo de alimentos ricos em proteínas, os quais também são fontes de zinco.

A maioria dos dados no Brasil sobre a avaliação nutricional de crianças é oriunda de estudos realizados em creches públicas devido ao maior espaço cedido para pesquisa por parte das autoridades governamentais. Historicamente, verificam-se também dificuldades de se obter permissão das instituições privadas para realizar estudos em seu domínio. Tal situação contribuiu para que se tenha uma visão parcial da situação nutricional das crianças, visto que as classes socioeconômicas mais elevadas são pouco representadas, dado que as creches públicas costumam ser frequentadas apenas por crianças de classes socioeconômicas menos favorecidas(27).

Neste estudo, foi possível verificar que o consumo alimentar das crianças das creches públicas e privadas, de um modo geral, não difere muito quanto à composição em energia, macro e micronutrientes, o que corrobora os achados de Bueno, Marchioni e Fisberg(7) acerca dos benefícios para a nutrição de crianças pertencentes a estratos socioeconômicos menos favorecidos que frequentam creches, as quais, em última instância, acabam recebendo alimentos em qualidade mais adequados do que se estivessem em seus domicílios e semelhante ao consumo dos pré-escolares de estratos socioeconômicos mais elevados das instituições privadas. Yuyama et al(28) também constataram que crianças de uma creche pública de Manaus alcançaram as recomendações preconizadas de micronutrientes, diferentemente das crianças ribeirinhas, ratificando a relevância das creches na melhoria do estado nutricional das crianças.

Quanto aos diferentes tipos de gordura, o maior consumo de gordura trans pelas crianças das creches públicas, comparado ao consumo das crianças das creches privadas, pode representar um maior risco para as primeiras de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Contudo, em ambos os tipos de creches, a média de consumo deste tipo de gordura foi acima da recomendação de, no máximo, 1% em relação ao valor energético total da dieta(29), ampliando e reiterando este risco para todos os pré-escolares avaliados. Por outro lado, as crianças das creches públicas também consumiram mais gorduras poli-insaturadas e sua fração ômega-6, as quais estão relacionadas a vários benefícios ao organismo, incluindo a prevenção das doenças crônicas(30). O maior consumo de gorduras para as crianças das creches públicas poderia, talvez, ser explicado pela diferença de idade entre as crianças dos dois tipos de creches, já que nas creches públicas prevaleceram crianças maiores de quatro anos e, nas creches privadas, menores de quatro anos. Crianças de maior idade consomem maior quantidade de porções de alimentos e, consequentemente, de energia e nutrientes. Todavia, como o consumo de nutrientes foi ajustado pela quantidade de energia da dieta, acreditamos que a diferença etária entre os tipos de creche não tenha influenciado estes resultados.

Entre as limitações deste estudo, pode-se citar o método de registro alimentar utilizado para mensurar o consumo alimentar das crianças fora das creches, o qual depende da cooperação dos entrevistados e exige certo grau de escolaridade. Para minimizar os erros de registro, foram dadas explicações prévias para o preenchimento do formulário e foi feita conferência no momento da entrega dos mesmos pelos responsáveis das crianças. A pesagem dos alimentos realizada em apenas um dia na creche também é uma limitação, pois pode não refletir a variação dos cardápios, apesar desta limitação ter sido atenuada pela avaliação de um segundo dia de consumo em uma subamostra de 25%, para ajustar a ingestão pela variância intraindividual no consumo. Por fim, a amostragem das creches foi selecionada por conveniência e não de forma aleatória, comprometendo a validade externa do estudo. Porém, é provável que as crianças que frequentam creches públicas e particulares em Manaus não difiram muito das que foram avaliadas neste estudo.

Concluindo, foi encontrada baixa frequência de crianças com peso menor do que o adequado para a idade e de estatura para a idade, tanto nas instituições públicas quanto nas privadas. Por outro lado, observou-se elevada frequência de pré-escolares com excesso de peso, principalmente nas creches privadas. O consumo de macro e micronutrientes, de um modo geral, não diferiu entre pré-escolares que frequentam creches públicas e privadas, com exceção de gorduras poli-insaturadas totais, ácidos graxos ômega-6, gordura trans, vitamina C e sódio, mais consumidos nas creches públicas, e zinco, nas privadas.

A fim de prevenir o ganho de peso excessivo e suas consequências nos pré-escolares assistidos em creches, recomenda-se atenção para a ingestão elevada de energia observada em grande proporção de crianças, principalmente nas creches privadas, e também para um melhor monitoramento quanto ao consumo de sódio, que se encontrou acima das recomendações. Tais cuidados poderão contribuir para a prevenção, desde a infância, de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade e doenças cardiovasculares, que constituem grandes problemas de Saúde Pública na vida adulta.

 

Agradecimentos

À Priscila Maximino pela coordenação operacional do Projeto Nutri Infância Brasil. Ao Guilherme de Pádua Rodrigues, por facilitar a organização logística e coordenação financeira do Projeto Nutri Infância Brasil. À Danone Research pela parceria administrativa e pelo apoio para treinamento das equipes. Aos coordenadores e participantes regionais do projeto Nutri Infância Brasil pelo apoio na coleta dos dados locais.

 

Referências bibliográficas

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Endereço para correspondência:
Gloria Valeria da Veiga
Centro de Ciências da Saúde, Bloco J - 2º andar
Av. Carlos Chagas Filho 373 - Ilha do Fundão
CEP 21941-590 - Rio de Janeiro/RJ
E-mail: gvveiga@globo.com

Recebido em: 7/2/2011
Aprovado em: 1/7/2011
Fonte financiadora: O projeto recebeu apoio parcial da Danone Research para financiamento de passagens para o treinamento das equipes do estudo multicêntrico Nutri Brasil Infância e compra de materiais
Conflito de interesse: Mauro Fisberg presta, eventualmente, assessoria nutricional, desenvolve conferências ou realiza projetos de pesquisa para Abbott, Danone, CDN, Sanofi, Wyeth, Nestlé, Kraft, sem vínculos com quaisquer das empresas. A empresa Danone financiou parcialmente a pesquisa e em nenhum momento interferiu no desenho, realização ou analise do estudo