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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.30 no.3 São Paulo Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-05822012000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

A percepção das mães sobre o apoio paterno: influência na duração do aleitamento materno

 

La percepción de las madres sobre el apoyo paterno: influencia en la duración de la lactancia materna

 

 

Priscila Palma da SilvaI; Regina Bosembecker SilveiraII; Maria Laura W. MascarenhasII; Mirian Barcellos SilvaII; Cristina Correa KaufmannIII; Elaine Pinto AlbernazIV

Instituição: Universidade Católica de Pelotas (UCPel), Pelotas, RS, Brasil
IMestre em Saúde e Comportamento pela UCPel, Pelotas, RS, Brasil
IIMestre em Saúde e Comportamento pela UCPel; Professora-Assistente da Escola de Medicina da UCPel, Pelotas, RS, Brasil
IIIDoutora em Saúde e Comportamento pela UCPel; Professora Adjunta da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, RS, Brasil
IVDoutora em Epidemiologia pela Universidade Federal de Pelotas; Professora Adjunta do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Comportamento da Faculdade de Medicina da UCPel, Pelotas, RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estudo de coorte prospectiva dos bebês nascidos na cidade de Pelotas entre setembro de 2002 e maio de 2003, com o objetivo de avaliar a percepção das mães quanto ao apoio paterno e sua influência na duração do aleitamento materno (AM).
MÉTODOS: A população inicial do estudo foi de 2.741 bebês, sendo que uma amostra aleatória de 30% destes foi acompanhada no 1º, 3º e 6º meses, baseada em cálculo amostral com um nível de significância de 95% e poder estatístico de 80% para detectar risco relativo de 2,0. Foram realizadas análises univariada e multivariada, sendo que somente as variáveis com p<0,05 foram consideradas associadas ao desfecho de forma significante.
RESULTADOS: Observou-se que no 1º mês aproximadamente 10% dos bebês não estavam em AM. A baixa escolaridade paterna e a falta de participação do pai na amamentação foram variáveis associadas ao desmame no 1º mês. No 3º mês, constatou-se forte associação entre o desmame e a falta de apoio paterno. O fato de a mãe não viver com o companheiro e a menor escolaridade paterna foram variáveis também associadas ao desfecho. Já no 6º mês, não foi encontrada associação entre variáveis paternas e AM.
CONCLUSÕES: Este estudo pode servir de subsídio para futuras políticas públicas em saúde, como também para incentivo à inserção da figura paterna nas consultas pré-natais, na atenção ao parto e no puerpério.

Palavras-chave: pai; aleitamento materno; epidemiologia; desmame; lactentes.


RESUMEN

OBJETIVO: Estudio de cohorte prospectivo de los bebés nacidos en la ciudad de Pelotas (Rio Grande do Sul, Brasil), entre septiembre de 2002 y mayo de 2003, con el objetivo de evaluar la percepción de las madres respecto al apoyo paterno y su influencia en la duración de la lactancia materna (LM).
MÉTODOS: La población inicial del estudio fue de 2.741 bebés, siendo acompañada en el primero, tercero y sexto meses una muestra aleatoria y representativa de 30% de éstos, basada en cálculo muestral, con un nivel de significancia de 95% y poder estadístico de 80%, para detectar riesgo relativo de 2,0. Se realizaron análisis uni y multivariados, siendo que solamente las variables con p<0,05 fueron consideradas asociadas al desfecho de modo estadísticamente significante.
RESULTADOS: Se observó que, en el primer mes, un 10% de los bebés no estaban en LM. La baja escolaridad paterna y la falta de participación del padre en la amamantación fueron asociadas al destete en el primer mes. En el tercer mes, se constató fuerte asociación entre el destete y la falta de apoyo paterno. El hecho de que la madre no vive con el compañero y la menor escolaridad paterna fueron variables también asociadas al desenlace. Ya en el sexto mes, no se encontró asociación entre variables paternas y LM.
CONCLUSIONES: Este estudio puede servir de subsidio para futuras políticas públicas en salud, como también para incentivo a la inserción de la figura paterna en las consultas prenatales, en la atención al parto y en el puerperio.

Palabras clave: padre; lactancia materna; epidemiología; destete; lactantes.


 

 

Introdução

Há uma constante preocupação com o aumento da duração do aleitamento materno (AM) devido às inúmeras evidências científicas a seu favor(1). No Brasil, assim como no cenário mundial, embora os índices de AM exclusivo (AME) e a duração total da amamentação tenham apresentado elevação na última década, ainda estão aquém do índice preconizado. Vários fatores se associam à duração e à exclusividade do AM, como características socioeconômicas, demográficas e culturais(2-5), mas a participação paterna nos cuidados e na alimentação dos bebês é pouco estudada.

O conhecimento dos pais quanto aos benefícios da amamentação, assim como seu apoio, compreensão e suporte na tomada de decisões juntamente com as mães podem ser itens relevantes na hora em que elas oferecem o leite materno aos filhos. Bar-Yam e Darby(6), em uma revisão sobre o tema, identificaram três aspectos positivos da influência paterna: na decisão quanto ao AM, na assistência da primeira alimentação do bebê e na duração do AM.

Arora et al(7) demonstraram, em um estudo qualitativo, que 80% das mães referiram que o suporte do pai encoraja a amamentação. Susin e Giugliani(8), em um estudo clínico randomizado, ressaltaram o fato de 93,3% das mães entrevistadas declararem que gostariam de receber ajuda de seus parceiros durante o AM e de a inclusão dos pais na intervenção ter diminuído significantemente o risco de descontinuidade do AME antes dos seis meses de vida.

Assim, reforçando a hipótese de que a presença paterna é importante para o sucesso do AM e considerando a escassa literatura sobre o assunto, este estudo teve como objetivo avaliar a percepção das mães quanto ao apoio e à participação paterna e sua influência na duração do AM de bebês nascidos na cidade de Pelotas, no Estado do Rio Grande do Sul.

 

Método

Estudo de coorte prospectiva com delineamento longitudinal desenvolvido na cidade de Pelotas, região Sul do Brasil. O projeto do referido estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação de Apoio Universitário, e as mães assinaram o termo de consentimento informado.

Este estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla, cujo objetivo principal era investigar os índices de AM e os fatores envolvidos na interrupção precoce da amamentação. Para tanto, foram incluídos bebês nascidos entre setembro de 2002 e maio de 2003, cujas mães residiam na zona urbana da cidade de Pelotas e não apresentavam problemas graves, que contraindicassem o AM (como malformação grave e mães HIV positivo). Calculou-se o tamanho da amostra com base em um nível de significância de 95% e poder estatístico de 80% para exposições variando entre 15 e 80%, estimando-se risco relativo de 2,0, com acréscimos para possíveis perdas e controle dos fatores de confusão em potencial.

O estudo apresentou dois componentes: o perinatal (triagem hospitalar em todas as maternidades pelotenses dos bebês nascidos no período) e o acompanhamento de 30% destes bebês, selecionados de forma aleatória (visitas domiciliares nos 1º, 3º e 6º meses).

Para que os dados fossem coletados de forma homogênea, aplicou-se um questionário padronizado para as mães. Também foi utilizado um manual de instruções pelos entrevistadores, a equipe foi treinada e houve revisão semanal dos questionários. Antes do início do estudo, os questionários foram testados em um estudo-piloto realizado no Hospital Universitário São Francisco de Paula, em Pelotas, Rio Grande do Sul. A fim de avaliar a qualidade da coleta de dados e a veracidade das informações, aplicou-se um segundo questionário sintetizado a 10% da amostra, escolhida de forma aleatória. Os resultados foram comparados por meio da análise de concordância pelo coeficiente de Kappa (0,94).

Os dados coletados foram incluídos em uma estrutura no programa Epi-Info 6.0, com dupla digitação. Em seguida, os dados foram transferidos para análise estatística, obedecendo à seguinte sistematização: cálculo das frequências de variáveis e análise bivariada entre fator de exposição e desfecho; entre fator de exposição e outras variáveis; e entre desfecho e outras variáveis, utilizando-se o teste do qui-quadrado. As variáveis, cuja associação mostrou valor de p0,20, foram levadas à análise multivariada por regressão logística para avaliação dos potenciais fatores de confusão.

A regressão logística seguiu o modelo hierárquico (Figura 1) criado previamente, relacionando variáveis e identificando possíveis fatores de confusão. Foram mantidas as variáveis com p0,20 para avaliar tais associações. De acordo com o modelo hierárquico, no primeiro nível encontravam-se variáveis demográficas (idade e cor dos pais) e socioeconômicas (renda familiar e escolaridade dos pais); no segundo, estavam aquelas referentes às figuras paterna (acompanhamento do pai no pré-natal, conhecimento do pai sobre amamentação e participação na introdução de novos alimentos) e materna (situação conjugal, paridade, atividade profissional fora do domicílio, tabagismo, número de consultas pré-natal), percepção materna do apoio paterno, percepção materna do apoio paterno durante a gestação e percepção materna sobre a participação do pai durante o AM); no 3º, encontravam-se características do bebê (idade gestacional, peso de nascimento e utilização de chupeta); e no 4º, o desfecho estudado foi o AM. Ao final da análise, somente as associações com "p"0,05 foram consideradas significantes.

 

 

As variáveis referentes ao 2º nível do modelo teórico foram analisadas de acordo com o referido pelas mães dos bebês. Assim sendo, os resultados obtidos estavam de acordo com a percepção materna, pois os pais não foram entrevistados, e o objetivo era avaliar como as mães sentiam o apoio e a participação de seus companheiros e como esta percepção influenciou suas decisões em relação ao AM. As perguntas relacionadas à percepção materna sobre o apoio paterno foram: "como sentiu o apoio do pai?"; "o que o pai pensa sobre a amamentação?"; "o pai teve informações sobre a amamentação?"; "ele participou da decisão de introduzir outros alimentos?", "se houve algum problema relacionado à amamentação, qual foi a atitude do pai?"; "o que seu companheiro acha de a senhora amamentar?"; e "quando a senhora está amamentando, seu marido/companheiro participa?".

O desfecho foi definido como AM no 1º, 3º e 6º meses de vida do bebê. O AM foi definido segundo a Organização Mundial da Saúde(9), sendo AME aquele que permite apenas o consumo de leite materno pelo bebê, além de medicamentos, vitaminas e minerais. O AM permite o consumo de leite materno, além de outros alimentos ou leites não humanos.

 

Resultados

Das 3.449 crianças nascidas no período de triagem do estudo, 81,0% eram bebês cujas mães residiam na cidade de Pelotas. Dos 2.799 bebês pelotenses, 58 não participaram do estudo: 10 tiveram alta precoce, 26 tinham mães HIV positivo e 22 mães recusaram-se a participar, totalizando 2.741 bebês. Já nas etapas de acompanhamento, a amostra aleatória de 30% correspondeu a 973 bebês. No acompanhamento do 1º mês foram visitados 951 bebês (2,3% de perda), no 3º, 940 (3,4% de perda) e, no 6º, 931 (4,3% de perda).

Na amostra, 51,2% eram do sexo masculino e 80% de cor branca. A mediana de peso ao nascer foi de 3170g, com 8,2% de baixo peso ao nascer (BPN), e mais da metade dos partos foi vaginal (60,9%). A maioria das mães (83,8%) relatou viver com companheiro ou marido. Além disso, 34,4% das mães trabalhavam fora de casa e 40,7% eram primíparas. Aproximadamente 1/3 dos bebês (36,1%) mamaram na primeira hora de vida.

A Tabela 1 descreve as características sociodemográficas da amostra. Houve predomínio de pais com idade inferior a 30 anos. Igualmente, a cor predominante da pele para pais e mães foi a branca (73,3%). Quanto à escolaridade, percebeu-se que metade dos pais e 41,4% das mães apresentaram entre cinco e oito anos completos de estudo. A maior parte das famílias tinha renda entre um e três salários mínimos (59,3%). Das mães, 25,5% fumaram durante a gravidez e a maioria realizou seis ou mais consultas de pré-natal (79,3%).

 

 

Cerca de metade dos pais (49,1%) acompanhou suas esposas nas consultas pré-natais e apenas 34% das mães citaram ter recebido apoio paterno durante a gestação. Metade dos pais (51,2%) acompanhou suas esposas durante o trabalho de parto, mas somente 3% estavam presentes na sala de parto. Aproximadamente um terço dos pais recebeu informações sobre amamentação (34,7%); 78% das mães citaram que seus companheiros apoiaram a amamentação e 82,4% relataram a participação ativa do pai no aleitamento. Quanto à participação paterna na decisão de introduzir novos alimentos, a ocorrência foi em 20,7% da amostra. A quase totalidade dos pais (95,4%) apresentou opinião favorável à amamentação. As principais razões apontadas pelos pais, segundo as mães, para que seus bebês mamassem, foram: "o leite materno é o melhor para a saúde do bebê" (53,8%), "é o alimento ideal" (16,2%), e "é bom para o desenvolvimento infantil" (10,0%). Tais dados não estão apresentados em tabelas.

Não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre as características paternas, seu apoio na gestação e o início da amamentação. Quanto às prevalências de AM, no acompanhamento do 1º mês, observou-se que 60,0% dos bebês estavam em AME e 10,0% já estavam desmamados. No 3º mês, estes percentuais foram 39,0 e 30,0%, respectivamente.

A Tabela 2 apresenta a análise bivariada dos fatores relacionados ao AM no 1º mês. Foi possível notar que os seguintes fatores aumentaram o risco de interrupção do AM: menor escolaridade do pai (razão de prevalência - RP=1,94), fumo durante a gestação (RP=1,67), ausência de trabalho materno externo (RP=1,59), não participação do pai no AM (RP=3,52) e uso de chupeta (RP=4,67). As variáveis "renda familiar, idade materna, cor materna, escolaridade materna, situação conjugal, paridade e número de consultas no pré-natal" não foram apresentadas na tabela por mostrarem associação com um valor de p>0,20. Evidenciou-se que as mães que se sentiram apoiadas pelo companheiro em relação à amamentação estavam amamentando, enquanto somente 57,0% das que não se sentiram apoiadas o fizeram.

Já no 3º mês (Tabela 3), os fatores associados à interrupção do AM foram: mães jovens (RP=1,45), cor da mãe branca (RP=1,28), menor escolaridade do pai (RP=1,52), fumo durante a gravidez (RP=1,36), mãe não vivendo com o companheiro (RP=1,37), falta de apoio paterno na amamentação (RP=3,21), ausência de trabalho materno externo (RP=1,25), ausência paterna quando a mãe estava amamentando (RP=1,98) e uso de chupeta (RP=4,85). Foram também analisadas, mas não incluídas na tabela por apresentarem valor de p 0,20, as variáveis: renda familiar, paridade e número de consultas no pré-natal.

Após análise multivariada hierarquizada, as seguintes variáveis permaneceram associadas ao desfecho: no 1º mês, escolaridade paterna, participação paterna no AM e uso de chupeta (Tabela 2); no 3º mês, cor materna branca, menor escolaridade paterna, mãe não viver com companheiro, ausência de apoio paterno no AM, falta de participação paterna na amamentação e uso de chupeta (Tabela 3).

Não foi encontrada associação significante entre as variáveis paternas e o ato de estar mamando no 6º mês. As variáveis associadas ao desmame no 6º mês foram: fumo durante a gestação (RP=1,25; p=0,002) e tempo de gestação menor que 37 semanas (RP=1,22; p=0,04). Realizou-se análise multivariada, sem evidência da presença das variáveis de confusão (diferença entre as medidas brutas e ajustadas inferior a 10%), permanecendo estas as variáveis associadas ao desfecho.

 

Discussão

Há muito identifica-se o interesse científico pelos fatores capazes de afetar a duração do AM e, assim, desenvolver ações para promovê-lo e protegê-lo. Um deles, ainda pouco estudado na literatura, é a presença paterna apoiando a mãe durante a lactação e participando das decisões. Este estudo trouxe subsídios que ampliam o conhecimento a respeito dos fatores paternos associados à duração do AM, os quais permitem pensar em novas estratégias para auxiliar o incremento dos índices de amamentação.

Como fez parte de uma pesquisa longitudinal de base populacional, que avaliou diversos desfechos, este estudo apresentou algumas limitações, sendo a de maior relevância o fato de os pais não terem sido entrevistados (utilizando-se somente dados referentes à percepção materna). Entretanto, é justamente a forma como a mãe percebe o apoio paterno, e por ele se deixa influenciar, que instigou esta investigação. Além disso, o fato de utilizar uma amostra representativa dos nascimentos da cidade e de medir a percepção do apoio e os desfechos na medida em que ocorriam, minimizando o viés de recordação, incrementou a validade do estudo.

Pôde-se observar que o apoio paterno referido pelas mães foi bastante influente na prevalência de AM nos primeiros meses. O mesmo foi constatado no estudo de Arora et al(7), em que o fator mais significativo para a interrupção do AM foi a percepção das mães quanto à preferência de seus companheiros e o medo de estar fornecendo pouco leite ao bebê. Além disso, 80% das mães citaram que o suporte paterno as encorajava a realizar a prática do AM. Da mesma forma, Littman et al(10) demonstraram que a aprovação paterna foi o fator mais significativo na decisão de amamentar. O estudo anteriror revelou a alta presença paterna (94%) no acompanhamento do parto, enquanto na presente investigação apenas 3% dos pais estiveram na sala de parto.

Neste contexto, um estudo de coorte conduzido na Alemanha por Kuhlhuber et al(11) identificou que a associação mais forte encontrada para iniciar o AM era a atitude positiva do pai quanto à amamentação. O presente estudo não encontrou associação entre o apoio paterno e o AM no 6º mês, sugerindo que o apoio paterno e a atitude positiva dos pais são mais marcantes nos primeiros meses de vida do bebê, podendo perder seu impacto nos meses subsequentes, quando outros fatores estarão envolvidos.

Opiniões favoráveis e a participação ativa do pai na amamentação se mostraram fortemente associadas à duração do AM. Resultados semelhantes foram encontrados em três outros estudos(6,7,12). Bar-Yam e Darby(6) publicaram uma revisão sobre o assunto, na qual identificaram três aspectos positivos da influência paterna: na decisão ao AM, na assistência da primeira alimentação do bebê e na duração do AM. Em contrapartida, a falta de apoio paterno poderia ser considerada um fator de risco para o uso da mamadeira. Dado semelhante foi encontrado no presente estudo: os pais não apoiadores da amamentação tiveram um risco 52% maior de terem seus bebês usando mamadeira aos três meses (p<0,001).

Falceto et al(13) mencionaram existir uma forte associação entre o fato de a mãe viver com o companheiro e o AM presente nos primeiros meses, pois os pais bem relacionados com suas parceiras apresentaram um risco 3,2 vezes maior de dar o suporte necessário ao AM. Faleiros et al(14), em um estudo de revisão, referiram que as mães em união estável e com apoio de outras pessoas, especialmente do companheiro, amamentavam por mais tempo. Resultado semelhante foi encontrado no presente estudo aos três meses. É provável que os pais em união estável estejam mais seguros e tranquilos quanto às mudanças ocorridas na vida do casal após uma gestação. Tal segurança será transmitida para a mãe e se constituirá em mais um motivo para o sucesso na prática de AM.

Os resultados do nosso estudo evidenciaram também uma associação entre escolaridade paterna e AM nos primeiros meses. Os pais com melhor nível educacional provavelmente têm mais acesso à informação e estão mais conscientes dos benefícios do AM. Resultados semelhantes foram encontrados em estudos conduzidos por Littman et al(10), Susin et al(8) e Flacking et al(15).

Assim como a mãe, o pai atravessa um período de adaptação quando passa de companheiro para pai, fato que causa um impacto bem expressivo. O medo, a responsabilidade sobre um novo ser, as mudanças no comportamento da companheira e na relação conjugal, todos estes sentimentos estão presentes na maioria dos homens no período antecedente ao nascimento. Faustino e Freitas et al(16), em um estudo qualitativo, mostram este estado conflituoso dos pais no período de puericultura dos filhos. É importante a presença do pai desde o período da gestação, pois, dessa maneira, o homem se torna parte do processo, o que reflete na qualidade de vida do casal. Neste mesmo contexto, Faustino e Freitas et al(17), em um estudo qualitativo, indicaram que os pais atualmente vivenciam um período de transição, ou seja, de transformação de paradigma. O mesmo estudo apresentou a preocupação de alguns pais em "paternar o filho", acompanhando seu crescimento e desenvolvimento de modo mais próximo: "o provedor afetivo vem emergindo do provedor material".

Outro estudo conduzido por Falceto et al(18) evidenciou a relação entre a saúde mental do pai e da mãe. A saúde mental das mães foi altamente correlacionada com a dos pais; além disso, encontrou-se alta prevalência de desordem mental (depressão, ansiedade e outras). Aquelas mães com problemas psiquiátricos tinham um risco duas vezes maior de interromper o AM. Essa observação reflete a importância de a figura paterna estar consciente e tranquila na transição de companheiro para pai e, assim, evitar o aparecimento de possíveis desordens mentais após o parto.

Uma série de estudos vem demonstrando a efetividade de intervenções com os pais e a duração do AM. Pisacane et al(12) verificaram que o suporte oferecido aos pais no sentido de mostrar a prática do AM e gerenciar as dificuldades encontradas aumentou os índices de AM aos seis meses (25% no Grupo Intervenção e 15% no Grupo Controle). Wolfberg et al(19), em um estudo clínico randomizado, constataram que a prevalência de iniciar o AM é maior no grupo de pais presentes na intervenção (74 versus 41%). Susin et al(8), em um estudo conduzido no Sul do Brasil, revelaram que no grupo de intervenção com os pais, diminuiu significativamente o risco de cessar o AME antes do 6º mês.

O presente estudo sugere a participação e a valorização da figura paterna nas consultas pré-natais e em grupos de gestantes, de forma que os profissionais da saúde possam mostrar a importância desta prática e conscientizar os pais quanto a ela.

É fundamental que se forme um elo entre mãe-pai-bebê desde a gestação. A presença mais ativa do pai na fase de preparação para a maternidade encorajaria a mãe a amamentar por mais tempo, pois, como demonstrado em diversos estudos, a aprovação do pai para a amamentação é um fator primordial para o sucesso do AM.

 

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Endereço para correspondência:
Priscila Palma da Silva
Avenida 25 de Julho, 755, casa 160 - Três Vendas
CEP 96065-620 - Pelotas/RS
E-mail: priscila-nutricao@hotmail.com

Recebido em: 18/10/2011
Aprovado em: 6/2/2012
Fonte financiadora: Universidade Católica de Pelotas
Conflito de interesse: nada a declarar