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Revista Paulista de Pediatria

Print version ISSN 0103-0582

Rev. paul. pediatr. vol.31 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-05822013000100011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Insatisfação com a imagem corporal em escolares do sexto ano da rede municipal de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul

 

Insatisfacción con la imagen corporal en escolares del sexto año de la red municipal de Caxias do Sul (Rio Grande do Sul, Brasil)

 

 

Simona FinatoI; Ricardo Rodrigo RechII; Paula MigonI; Ianará Caroline GavineskiI; Vanderlei de ToniI; Ricardo HalpernIII

Instituição: Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Porto Alegre, RS, Brasil
IAcadêmico do Curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Caxias do Sul, RS, Brasil
IIMestre em Saúde Coletiva, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, UFCSPA; Núcleo de Pesquisa Ciências e Artes do Movimento Humano da UCS, Caxias do Sul, RS, Brasil
IIIDoutor em Saúde da Criança e do Adolescente pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFCSPA; Professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Luterana do Brasil, Canoas, RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Estimar a prevalência de insatisfação com a imagem corporal em escolares de 11 a 14 anos (meninos e meninas) de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, e verificar as possíveis associações com estado nutricional, classe socioeconômica, sexo e escolaridade da mãe.
MÉTODOS: Estudo transversal com 1.417 escolares. As variáveis antropométricas estudadas foram massa corporal total, estatura e circunferência da cintura. A obesidade foi definida pelo índice de massa corpórea, segundo sexo e idade. A imagem corporal foi avaliada por meio da escala de nove silhuetas. Foi realizada uma análise descritiva e bivariada entre as variáveis independentes e o desfecho.
RESULTADOS: A prevalência de insatisfação com a imagem corporal foi de 71,5%. As variáveis sexo (RP 0,77, IC95% 0,60 - 0,98) e estado nutricional (RP 3,84, IC95% 2,72 - 5,41) apresentaram associação estatística com insatisfação da imagem corporal. A escolaridade da mãe, o nível socioeconômico e a idade não apresentaram associação significante em relação à insatisfação com a imagem corporal.
CONCLUSÕES: As prevalências de insatisfação com a imagem corporal da população estudada encontram-se elevadas e devem ser motivo de preocupação dos profissionais de saúde.

Palavras-chave: imagem corporal; escolares; estado nutricional.


RESUMEN

OBJETIVO: Estimar la prevalencia de insatisfacción con la imagen corporal entre escolares de 11 a 14 años (muchachos y muchachas) de Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, y verificar las posibles asociaciones con estado nutricional, clase socioeconómica, sexo y escolaridad de la madre.
MÉTODOS: Estudio transversal con 1.417 escolares. Las variables antropométricas estudiadas fueron masa corporal total, estatura y circunferencia de la cintura. La obesidad se definió por el índice de masa corporal, según sexo y edad. La imagen corporal fue evaluada mediante escala de nueve siluetas. Se realizó un análisis descriptivo y bivariado entre las variables independientes y el desfecho.

RESULTADOS: La prevalencia de insatisfacción con la imagen corporal fue de 71,5%. Las variables sexo (RP 0,77, IC95% 0,60-0,98) y estado nutricional (RP 3,84, IC95% 2,72-5,41) presentaron asociación estadística con insatisfacción de la imagen corporal. La escolaridad de la madre, el nivel socioeconómico y la edad no presentaron asociación significante respecto a la insatisfacción con la imagen corporal.

CONCLUSIONES: Las prevalencias de insatisfacción con la imagen corporal de la población estudiada están elevadas y deben ser motivo de preocupación de los profesionales de salud.

Palabras clave: imagen corporal; escolares; estado nutricional.


 

 

Introdução

Entende-se como imagem do corpo humano a figuração de um corpo formada na mente da própria pessoa, ou seja, o modo pelo qual o corpo se representa para si próprio(1). A imagem corporal é uma construção multidimensional que vai sendo formada juntamente com o indivíduo, sendo que fatores sociais, fisiológicos, psicológicos e ambientais podem alterar a visão tida do corpo(2). Imagem corporal é a nossa totalidade como seres humano(3), é a transcendência em olhar interna e externamente e perceber que o ser humano é fruto das próprias atitudes (físicas, mentais e emocionais) e, por consequência, forma-se a imagem do corpo a partir delas.

Atualmente, vive-se um momento de grande insatisfação com o corpo, visto que constantemente observam-se pessoas tentando modificar a própria aparência. A satisfação corporal é "o componente perceptivo da imagem corporal, que é a acurácia do julgamento do indivíduo de seu tamanho, forma e peso relativos a sua atual proporção". Portanto, a insatisfação com a imagem corporal é uma avaliação negativa que o indivíduo faz de seu corpo a partir de uma imagem formada em sua mente(2). Ocasionada por diversos fatores, a insatisfação desencadeia muitas vezes problemas emocionais e alimentares, os quais podem se agravar ao longo da vida. Várias razões podem afetar a autoimagem, sendo que a insatisfação com a imagem corporal está relacionada a fatores como autopercepção corporal(4) e estado nutricional(5), podendo originar problemas como baixa autoestima e distúrbios alimentares, incluindo obesidade, bulimia e anorexia.

Autoestima, autoconceito e autoeficácia podem influenciar os comportamentos relacionados com a obesidade. Percepção da imagem corporal e níveis de satisfação do corpo afetam positiva ou negativamente a autoestima, o autoconceito e a autoeficácia(6). O sobrepeso ou a obesidade tanto podem ser causas como consequências da insatisfação corporal. São condições altamente estigmatizantes na sociedade, em qualquer idade da vida(7). Sujeitos com transtornos alimentares têm prejuízos na qualidade de vida, principalmente emocionais(8). Em vez de mudar de atitude, como mudar a imagem que tem de si, o indivíduo busca mudar a aparência, gastando esforços demasiados e tornando-se infeliz devido à dificuldade de se aceitar como pessoa.

A insatisfação com a imagem corporal tem uma forte ligação com distúrbios de percepção corporal. No estado do Paraná, 187 estudantes da rede pública estadual de ensino da cidade de Maringá entre 15 e 19 anos foram avaliados e constatou-se maior distúrbio de imagem corporal nas meninas. Destas, 23,9% apresentaram distúrbio leve; 31,6%, moderado; e 10,3%, grave. No sexo masculino, os referidos percentuais eram de 11,4% para o distúrbio leve e 7,2%, para o moderado(9). Os fatores de risco sociais, culturais e econômicos e as diversidades étnica e racial de grupos suscetíveis desempenham um papel importante no desenvolvimento destas preocupações(10).

Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi identificar qual a prevalência da insatisfação com a imagem corporal e as possíveis associações do desfecho com nível socioeconômico, escolaridade da mãe, estado nutricional, sexo e idade em escolares de 11 a 14 anos de escolas municipais de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, Brasil.

 

Método

Trata-se de um estudo epidemiológico transversal de base escolar. As avaliações foram realizadas de agosto a setembro de 2011. A população-alvo foram escolares do sexto ano (de 11 a 14 anos), matriculados no turno diurno das escolas da rede municipal de ensino da cidade de Caxias do Sul em 2011. Este estudo faz parte de um projeto maior, denominado Obesidade, insatisfação com a imagem corporal e sintomas para transtornos alimentares em uma coorte de escolares na Serra Gaúcha.

A população de escolares matriculados no sexto ano em 2011, de acordo com dados da Secretaria de Educação, era de 4.300 (na faixa etária de 11 a 14 anos). Utilizou-se para o cálculo do tamanho de amostra prevalência de 50%, intervalo de confiança de 95% e erro de 3%. Desta forma, seria necessário avaliar um mínimo de 855 crianças. Antecipando-se às possíveis perdas e recusas e para o melhor controle dos fatores de confusão, foi utilizado um efeito de delineamento de 1,4 e, para isso, um mínimo de 1.197 escolares deveria ser avaliado. Para o cálculo do tamanho da amostra utilizou-se o software estatístico Epi-Info (Centers for Disease Control and Prevention, Atlant, USA), versão 6.0.

O critério de amostragem foi por conglomerados, no qual cada escola foi considerada como um deles. Somente entraram no sorteio para a amostra final as escolas que ofereciam ensino de sexto ano, portanto, todas aquelas que preencheram tal critério estavam no sorteio e tiveram as mesmas chances de participar do estudo, de acordo com o número de alunos do sexto ano que a escola possuía na data da escolha. Os alunos da escola que preencheram os critérios de inclusão foram convidados a participar do estudo. Foram sorteadas 22 instituições para completar o número mínimo de alunos a serem avaliados. O número total de alunos do sexto ano das 22 escolas foi igual a 1.417.

Foram adotados os seguintes critérios de inclusão: ter idade entre 11 e 14 anos, não ser portador de necessidades especiais, não ser portador de qualquer complicação que impedisse a prática de atividades físicas, concordar em participar voluntariamente do estudo e apresentar o termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelos pais ou responsáveis legais.

Utilizou-se um questionário autoaplicável com os sujeitos de pesquisa para avaliar as variáveis: dados de identificação, classe socioeconômica, sexo, idade e insatisfação com a imagem corporal. As informações referentes à classe socioeconômica foram classificadas conforme uma proposta de Barros e Victora(11), que considera a utilização de 13 variáveis para produzir o indicador econômico nacional (IEN). Este foi baseado no censo demográfico de 2000 e possui questões do tipo: escolaridade do chefe da família, número de dormitórios, banheiros e bens de consumo. Os escolares foram classificados em três categorias: classes socioeconômicas baixa, intermediária e alta.

Para avaliar a insatisfação com a imagem corporal foi utilizada a escala de nove silhuetas, chamada de Children's Figure Rating Scale(12), a qual avalia insatisfação com a imagem corporal em crianças e adolescentes. A mesma contém nove silhuetas numeradas, com extremos de magreza, gordura e altura estável, sendo apresentada separadamente, segundo o sexo. A criança seleciona a figura compatível com seu tamanho ("com qual dos desenhos tu mais te pareces?") e tamanho ideal ("com qual dos desenhos tu mais gostarias de te parecer?"). O grau de insatisfação com o corpo foi dado pela diferença entre as figuras real e ideal, variando entre -8 e 8. Graus positivos indicam que a criança deseja um corpo menor. Consideraram-se satisfeitos os participantes que apresentaram grau zero como resultado da diferença entre as figuras real e ideal na escala de imagem corporal; já aquelas com grau diferente de zero foram consideradas insatisfeitas com sua imagem corporal.

Além do questionário autoaplicável, foram medidas nos escolares a massa corporal total, a estatura e a circunferência da cintura. Para a medida de massa corporal total utilizou-se a balança portátil digital da marca Plenna (São Paulo, SP, Brasil), com precisão de 100g. Para medir a estatura, foram necessários estadiômetro fixado na parede e esquadro. A partir das medidas de massa corporal total e estatura, calculou-se o índice de massa corpórea (IMC): IMC=massa corporal total/estatura2. O estado nutricional dos escolares foi definido por meio dos pontos de corte do IMC para sexo e idade(13). As crianças foram classificadas como abaixo do peso, com peso adequado, sobrepeso e obesidade.

A equipe da pesquisa foi composta pelos investigadores do estudo e 15 avaliadores, entre eles professores e estudantes de Educação Física. A mesma realizou um treinamento para padronizar as avaliações com distribuição de um manual para as avaliações. O treinamento incluía a apresentação da proposta do estudo, a leitura do questionário, a prática de mensurações (antropometria) e um estudo-piloto realizado com 15 crianças de uma escola que não participou da amostra final do presente estudo. Foram verificadas questões logísticas do projeto, tais como avaliação da linguagem do questionário, sequência de avaliação e padronização das medidas antropométricas realizadas pelos avaliadores. Nenhum problema em relação à logística predefinida no estudo foi detectado no estudo-piloto.

Ao coletar os dados, os mesmos foram duplamente digitados em um banco formatado em EpiDATA (EpiData Association, Odense, Dinamarca), verificados em relação à consistência e exportados para o programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 19, no qual foram analisados. Inicialmente realizou-se a análise descritiva e, depois, a bivariada (teste do qui-quadrado de Pearson) entre as variáveis independentes e o desfecho.

Em relação aos aspectos éticos, foram distribuídos termos de consentimento livre e esclarecido às crianças que fizeram parte da amostra (além do estudo ter sido liberado previamente pela Secretaria Municipal de Educação e pela direção de cada escola). Somente depois do retorno do termo de consentimento com a assinatura dos pais ou responsáveis é que as crianças foram avaliadas. Além do consentimento dos pais, os escolares que fizeram parte da amostra concordaram em participar voluntariamente do estudo. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA).

 

Resultados

Das 1.417 crianças selecionadas para o estudo (entre 11 e 14 anos), 1.230 compuseram a amostra final. Uma criança foi excluída da amostra final por não se encaixar nos critérios de inclusão (cadeirante), 16 se recusaram a participar do estudo (mesmo com o termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelos pais) e 170 não devolveram o termo assinado pelos pais (recusas).

A amostra obteve uma distribuição semelhante por sexo, com 606 meninas (49,3%) e 624 meninos (50,7%). A prevalência de insatisfação com a imagem corporal foi de 71,5%. Para o estado nutricional das crianças avaliadas, 30,1% apresentaram sobrepeso e obesidade (excesso de peso). As médias de peso, altura e idade foram de, respectivamente, 44,89kg, 1,50m e 11,85 anos. Em relação ao nível socioeconômico, 4,3% dos escolares se encontravam no nível baixo; 42,9%, no intermediário; e 52,8%, no alto. Quanto à escolaridade materna, 62% das mães apresentavam até o ensino fundamental completo e, 38%, ensino médio ou superior.

A Tabela 1 apresenta os resultados obtidos com a escala de nove silhuetas. A Tabela 2 demonstra a análise bivariada entre insatisfação com a imagem corporal e variáveis independentes. Para a análise, as variáveis foram agrupadas em dicotômicas. Os meninos apresentaram 23% menos chances (RP 0,77, IC95% 0,60 - 0,98) de estarem insatisfeitos com a imagem corporal em relação às meninas. Os escolares com excesso de peso apresentaram quase quatro vezes mais chances (RP 3,84, IC95% 2,72 - 5,41) de estarem insatisfeitos em relação aos escolares com peso adequado ou baixo peso. Escolaridade da mãe, nível socioeconômico e idade não apresentaram diferenças estatisticamente significantes em relação à insatisfação com a imagem corporal.

 

 

 

 

Discussão

A prevalência de insatisfação com a imagem corporal (71,5%) do presente estudo é próxima ao resultado de 63,9%, encontrado nas cidades de Dois Irmãos e Morro Reuter, no interior do Rio Grande do Sul(14). Quando comparada a pesquisas de outras regiões do Brasil, a prevalência de insatisfação com a imagem corporal é superior à observada nos estudos realizados em Florianópolis/SC (18,8%)(15), Belo Horizonte/MG (62,6%)(2), São Paulo/SP (41,0% meninas e 9,7% meninos)(4) e Caruaru/PE (61,3%)(16). No entanto, quando comparada aos resultados do ABC Paulista/SP (97,3% meninas e 76,8% meninos)(17), a prevalência de insatisfação com a imagem corporal do presente estudo é menor. Essas diferenças de prevalências com outros trabalhos realizados no país podem ocorrer devido à diferença de faixas etárias estudadas, aos instrumentos de avaliação e à diversidade cultural de cada região. Há uma tendência de que estudos que utilizam a escala de nove silhuetas(4,14,16) apresentem prevalências maiores em relação aos estudos que utilizam o Body Shape Questionnaire(15).

Foi encontrada diferença estatística significante entre a prevalência de insatisfação corporal para meninos e meninas, sendo que o sexo masculino apresentou 23% menos chances de estar insatisfeito com a imagem corporal em relação ao feminino. Em Juiz de Fora/MG(18), no ABC Paulista/SP(17), em São Paulo/SP(4), em Maringá/PR(9) e em Utrecht, na Holanda, os investigadores também encontraram diferença significativa em relação ao sexo. Dados divergentes foram encontrados em Florianópolis/SC(19), onde o nível de insatisfação corporal foi similar entre os sexos (67,51% no masculino e 67,61% no feminino) e em Belo Horizonte/MG(2), onde o nível de insatisfação foi maior no sexo masculino (64,1% no sexo masculino e 61,4% no feminino). Tais informações sugerem que a insatisfação com a imagem corporal está acometendo diferentemente meninos e meninas conforme a região avaliada, porém, percebe-se que há uma tendência de as meninas apresentarem maiores prevalências.

Quando confrontadas as variáveis insatisfação com a imagem corporal e excesso de peso, o presente estudo, assim como outras pesquisas nacionais(4,5,14,18,19) e internacionais(6,20-25), encontrou relação estatística significante entre excesso de peso e insatisfação com a imagem corporal, sendo que os escolares com excesso de peso apresentaram quase quatro vezes mais chances (RP 3,84, IC95% 2,72 - 5,41) de estarem insatisfeitos em relação aos escolares com peso adequado ou baixo peso. Tal resultado sugere que o excesso de peso é um fator associado à insatisfação com a imagem corporal.

Porém, ao confrontar a insatisfação com a imagem corporal e as variáveis escolaridade da mãe, nível socioeconômico e idade, este estudo não mostrou qualquer associação. Em Dois Irmãos e Morro Reuter/RS(14), os autores também não identificaram associação da insatisfação da imagem corporal com as variáveis idade e escolaridade da mãe. Em Belo Horizonte/MG(2), não foi encontrada associação com a variável idade, porém, o estudo mostrou tal relação entre insatisfação da imagem corporal e nível socioeconômico e escolaridade do responsável. Em Caruaru/PE(16), os pesquisadores encontraram associação do desfecho com a variável nível socioeconômico, mas não com a idade do paciente. Na região Norte da Cidade do México(22) e em Taiwan(23), os autores não identificaram associação do desfecho com a idade da criança ou do adolescente. Como pode se perceber, a literatura apresenta algumas divergências em relação às variáveis escolaridade materna e nível socioeconômico, sugerindo talvez que melhores condições de vida não protejam crianças e adolescentes da insatisfação com a imagem corporal(2,16,22,23).

Em função de ter sido estudada uma amostra representativa da população-alvo e pelo fato de terem ocorrido poucas perdas, pode-se dizer que os dados obtidos podem ser extrapolados à população-alvo na faixa etária estudada. O presente estudo mostrou o excesso de peso como um fator fortemente associado à insatisfação com a imagem corporal, assim como as meninas mostraram-se mais insatisfeitas em relação aos meninos. Como limitações do estudo, pode-se apontar o fato de ser um estudo transversal e, como tal, não estabelecer uma relação causa e efeito entre as variáveis.

Considerando as limitações do estudo, é possível afirmar que as prevalências de insatisfação com a imagem corporal da população estudada encontram-se elevadas e devem ser motivo de preocupação dos sistemas de saúde dos municípios e da sociedade. Sugere-se que novos estudos, acrescidos de outras variáveis, sejam realizados para ampliar o conhecimento a respeito do tema.

 

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Endereço para correspondência:
Simona Finato
Rua Olympio Valduga, 56 - Centro
CEP 95715-000 - Santa Tereza/RS
E-mail: simonafinato@hotmail.com

Recebido em: 25/4/2012
Aprovado em: 30/7/2012
Fonte financiadora: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), edital 14/2011
Conflito de interesse: nada a declarar

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