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Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

Print version ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo vol. 12 no. 1 São Paulo Jan./Mar. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-06631998000100004 

RETRATAMENTO ENDODÔNTICO:
ESTUDO COMPARATIVO ENTRE TÉCNICA MANUAL, ULTRA-SOM E CANAL FINDER

ENDODONTIC RETREATMENT: COMPARATIVE STUDY BETWEEN MANUAL TECHNIQUE, ULTRASONIC SCALER, AND CANAL FINDER

 

Clovis Monteiro BRAMANTE*
Carla Vilma Junta FREITAS**

 

 

BRAMANTE, C. M.; FREITAS, C. V. J. Retratamento endodôntico: estudo comparativo entre técnica manual, ultra-som e Canal Finder. Rev Odontol Univ São Paulo, v.12, n.1, p.13-17, jan./mar. 1998.

Instrumentações manual, ultra-sônica e com Canal Finder foram utilizadas para retratamento de 30 dentes com canais obturados com guta-percha e óxido de zinco e eugenol. Avaliaram-se: 1. tempo gasto para a penetração inicial até o ápice; 2. tempo para completar a limpeza; 3. extrusão de material e 4. limpeza dos canais. O Canal Finder foi a técnica que propiciou melhor limpeza, seguida da manual e da ultra-sônica. A parede palatina do canal foi constantemente mais limpa do que a vestibular. Quanto à extrusão, a técnica de ultra-som foi a que propiciou mais extravasamento de material obturador.

UNITERMOS: Retratamento; Ultra-som; Canal Finder; Tratamento do canal radicular.

 

 

INTRODUÇÃO

O avanço técnico-científico na área de Endodontia tem permitido um índice muito grande no sucesso do tratamento.

Todavia, algumas vezes, nos defrontamos com a necessidade de retratar uma determinada peça dentária em função do fracasso do tratamento anteriormente realizado7.

Considerando que diversos materiais podem ser empregados na obturação dos canais, como pastas, cimentos, cones de guta-percha e cones de prata, é fácil entender as implicações que isso acarreta quando se faz necessária sua remoção3,5.

O retratamento endodôntico tem sido, de um modo geral, realizado manualmente com limas tipo Kerr ou Hedströen associadas ao uso de solventes como xilol, clorofórmio, eucaliptol etc.2,11,12,14,15,16,17,18.

Com o advento de novos equipamentos, como ultra-som e Canal Finder, uma nova perspectiva se abriu para a realização do retratamento4,6,8,9,10,13,14.

Se existem vantagens ou não, a literatura não especifica. O objetivo deste trabalho é fazer uma análise comparativa de retratamentos efetuados com as técnicas manual, com ultra-som e Canal Finder.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados 30 incisivos centrais superiores humanos extraídos, que tinham sido previamente obturados com cones de guta-percha e cimento de óxido de zinco e eugenol pela técnica da condensação lateral proposta por BRAMANTE et al.1. A desobturação foi realizada após 1 ano de a obturação ter sido feita.

Todos os dentes foram radiografados no sentido mésio-distal e vestíbulo-palatino, com o objetivo de se verificar a qualidade da obturação do canal.

Após a remoção de todo o material da câmara pulpar, aplicou-se o solvente na embocadura do canal radicular durante 30 segundos, passando-se, então, para a fase de retratamento. Cada grupo xperimental compunha-se de 10 dentes, conforme o Quadro 1.

 

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O solvente utilizado foi o xilol e, para a irrigação, a água destilada.

Grupo I - Técnica manual: limas tipo Kerre Hedströen

Após a remoção de todo o material da câmara pulpar e aplicação do solvente, iniciou-se a penetração com uma lima tipo Kerr nº15 até atingir o comprimento de trabalho. A seguir, uma lima tipo Hedströen nº15 foi introduzida no canal, iniciando-se a manobra de esvaziamento do mesmo. Quando esta ficava folgada no canal, passava-se imediatamente à mais calibrosa, até atingir a lima nº35. Durante essas etapas, novo solvente era aplicado e, ao final, o canal era irrigado.

Grupo II - Técnica com ultra-som: o aparelho ultra-som ENAC em potência 2 com limastipo Kerr

Do mesmo modo que no grupo anterior, após a remoção do material da câmara pulpar e aplicação do solvente, iniciou-se a penetração com limas tipo Kerr até se alcançar a extensão de trabalho, prosseguindo-se o esvaziamento até a lima nº35. Para a penetração inicial, o sistema de irrigação foi desligado, voltando a ser ligado nas etapas de esvaziamento.

Grupo III - Técnica do Canal Finder: contra-ângulo do sistema Canal Finder com limas apropriadas para o aparelho

Removido o material da câmara pulpar e aplicado o solvente, iniciou-se a penetração com limas Pathfinder até se atingir a extensão de trabalho. Prosseguiu-se então o esvaziamento do canal com limas Set-File nos20, 25, 30 e 35.

A cada troca de instrumento, os canais foram irrigados e foi novamente aplicado o solvente.

Durante a fase experimental, anotaram-se em ficha os seguintes dados:

  • Tempo A - tempo decorrido para a lima nº15 penetrar até a extensão de trabalho.
  • Tempo B - tempo decorrido até que se considerasse o canal adequadamente limpo com a lima nº35.
  • Tempo T - tempo total, a soma dos dois anteriores.
  • Extrusão - procurou-se observar a presença e intensidade da extrusão do material obturador para o ápice através da avaliação subjetiva expressa no Quadro 2.

 

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Os dentes foram então seccionados no sentido mésio-distal, para se analisar a presença ou ausência de material obturador nas paredes vestibular e lingual. Para essa análise, usou-se uma lupa com aumento de 10X.

Para se pontuar a limpeza, usaram-se os escores expressos no Quadro 3.

 

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RESULTADOS

Na Tabela 1, estão expressos os tempos gastos (em minutos) para a realização do retratamento em função da técnica empregada.

 

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A Tabela 2 expressa a avaliação macroscópica da limpeza nas paredes vestibular e palatina dos canais.

 

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No Gráfico 1, estão representadas as médias dos graus de limpeza nas três técnicas utilizadas para o retratamento.

 

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GRÁFICO 1 - Graus de limpeza nas paredes vestibular e palatina em função da técnica de retratamento.

 

Na Tabela 3 estão os dados da análise estatística.

 

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Finalmente, a Tabela 4 expressa o grau de extrusão do material obturador em função da técnica de retratamento.

 

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DISCUSSÃO

A realização de um retratamento endodôntico impõe a procura de uma técnica rápida, segura e eficiente, o que, sem dúvida nenhuma, criaria condições para o êxito nesse procedimento11.

De acordo com a Tabela 1 e o Gráfico 1, podemos ordenar, segundo o tempo consumido na realização do retratamento, as técnicas da mais para a menos rápida, como segue: 1. clássica, 2. ultra-som e 3. Canal Finder.

Se observarmos os dados da Tabela 1, perceberemos que a ordenação acima é seguida tanto na penetração inicial como na complementação da limpeza do canal, sendo, porém, que a maior diferença entre os tempos é denotada na penetração inicial. Provavelmente, essa diferença de tempo despendido nessa manobra se deva ao fato de que, na técnica clássica, pode-se exercer maior pressão na penetração dos instrumentos na massa obturadora do que quando usamos o ultra-som ou o Canal Finder.

FRIEDMAN et al.3, em 1989, comenta que a fase mais difícil no retratamento é a penetração inicial e, quanto mais rapidamente ela for feita, menor deformação criaremos no canal.

SANTOS; AUN11, em 1992, comparando as técnicas manual e sônica em retratamento de canais, encontraram que esta foi mais eficiente e rápida do que a manual na limpeza e no esvaziamento do canal. Os dados da análise estatística demonstram não haver diferença com relação ao Tempo A entre as diferentes técnicas de preparo, porém, no tempo total, houve diferença estatística entre a técnica ultra-sônica e a clássica.

No que se refere à limpeza, a ordenação da técnica mais eficiente para a menos eficiente é a seguinte:

  1. Canal Finder: 1,75;
  2. clássica: 1,80;
  3. ultra-sônica: 2,00.

Não se encontrou diferença estatisticamente significante entre as técnicas. Todavia, é importante salientar que nenhuma das técnicas foi capaz de limpar completamente os canais, nos quais se observavam, com freqüência, resíduos de cimento e de guta-percha aderidos à parede do canal.

Observando-se os resultados da Tabela 2, a parede palatina se apresentou mais limpa do que a vestibular em todas as técnicas empregadas. Nesse caso, a diferença foi estatisticamente significante. É possível que a abertura coronária tenha influenciado esse resultado, uma vez que uma abertura clássica, com manutenção da área incisal vestibular, tende a forçar o instrumento para palatino; daí a limpeza melhor nessa área.

Os autores GAFNEY4 (1981); SIERASKI10 (1983); WILCOX17 (1987); STAMOS13 (1988) têm relatado a eficiência do ultra-som na remoção de cones de prata dos canais radiculares. Todavia, quando a obturação é com guta-percha, o ultra-som já não se mostrou eficiente. TANSE et al.15 (1986); STABHOLZ et al.12 (1988), entre outros, salientaram que a guta-percha é mais difícil para se remover do que os cimentos obturadores.

No caso da técnica clássica e do Canal Finder, como os instrumentos atuam por tração, a remoção se processa mais facilmente do que com o ultra-som, que, tocando constantemente a guta-percha, chega a plastificá-la, aderindo-a à parede dos canais.

Também o solvente deve ter influenciado esse resultado. O clorofórmio tem sido relatado como melhor solvente que o xilol, que foi empregado neste trabalho2,6,14,18. A ação do ultra-som liberando calor deve ter provocado uma eliminação precoce do solvente; daí termos dificuldade na remoção da guta-percha.

Outro fator importante no retratamento é a extrusão de material que, uma vez contaminado com material necrosado, microorganismos ou material solvente, pode determinar reagudização, a que os autores têm chamado de "flare up".

Observando-se os dados da Tabela 4 referentes a extrusão, todas as técnicas determinaram uma extrusão entre discreta e moderada. Assim, pela ordem daquela que determinou da menor extrusão para a maior, temos:

  • clássica: 1,3;
  • Canal Finder: 1,5;
  • Ultra-sônica: 1,8.

Esses resultados nos surpreenderam, pois, se lembrarmos que a extrusão se deve ao ajuste do instrumento no canal com o conseqüente bombeamento do material para o ápice, seria de se esperar que a técnica clássica determinasse maior extrusão. Todavia, tal fato não ocorreu. É possível que o controle manual da pressão e do ajuste do instrumento quando da realização da técnica tenha minimizado tal ocorrência.

 

CONCLUSÕES

Diante dos resultados obtidos neste trabalho, conclui-se que:

1. Entre as técnicas investigadas - clássica, com ultra-som e Canal Finder -, nenhuma se mostrou eficaz em limpar completamente o canal.

2. Embora as técnicas não tenham permitido uma limpeza completa do canal radicular, a técnica do Canal Finder foi a que possibilitou resultados mais satisfatórios.

3. As três técnicas de retratamento propiciaram melhor limpeza da parede palatina do que da vestibular.

4. O tempo gasto para o retratamento foi menor na técnica clássica, enquanto que, para o Canal Finder, o tempo foi maior.

5. Conquanto todas as técnicas tenham demonstrado extravasamento de material obturador, na técnica clássica esse processo se mostrou em menor intensidade.

 

 

BRAMANTE, C. M.; FREITAS, C. V. J. Endodontic retreatment: comparative study between manual technique, ultrasonic scaler, and Canal Finder. Rev Odontol Univ São Paulo, v.12, n.1, p.13-17, jan./mar. 1998.

Endodontic retreatment of 30 teeth filled with guta percha and zinc oxide-eugenol was carried out using manual instrumentation, ultrasonic scaler, and the Canal Finder System. The following variables were evaluated: time spent to reach the apex; time spent to complete cleaning of the canal; apical extrusion of material; and cleanliness of the canals. Results showed the Canal Finder System as providing the highest level of cleanliness of the canal system; lingual walls were constantly cleaner than buccal walls; ultrasonic technique presented a greater degree of apical extrusion of filling material.

UNITERMS: Retreatment; Ultrasonics; Canal Finder System; Root canal therapy.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BRAMANTE, C. M. et al. Técnica de condensação lateral para obturações de canais radiculares de pequenos diâmetros, com cones de guta-percha. Estom & Cult, v.6, n.1, p.70-72, 1972.

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Recebido para publicação em 09/12/96
Aceito para publicação em 30/10/97

 

 

* Professor de Endodontia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo.
** Residente em Endodontia do HPRLLP-USP, Bauru-SP.

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