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Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

Print version ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo vol. 12 no. 1 São Paulo Jan./Mar. 1998

https://doi.org/10.1590/S0103-06631998000100012 

FRATURA DO ARCO ZIGOMÁTICO NO PERÍODO DE CRESCIMENTO.
ESTUDO EXPERIMENTAL EM RATOS

ZYGOMATIC ARCH FRACTURE IN THE GROWTH PERIOD.
AN EXPERIMENTAL STUDY IN RATS

 

Alan Cruvinel GOULART*
Elza Maria Villanova FERNANDES*
Fernanda da Costa CAVALCANTI*
Moacyr Domingos NOVELLI**
João Gualberto de Cerqueira LUZ***

 

 

GOULART, A. C.; FERNANDES, E. M. V.; CAVALCANTI, F. C.; NOVELLI, M. D.; LUZ, J. G. C. Fratura do arco zigomático no período de crescimento: estudo experimental em ratos. Rev Odontol Univ São Paulo, v.12, n.1, p.75-80, jan./mar. 1998.

O comportamento da fratura do arco zigomático no período de crescimento foi avaliado através de mensurações cefalométricas. Fratura com desvio medial no lado direito foi realizada em ratos com um mês de idade. Foi verificada tendência de retorno do arco fraturado à sua posição original, porém, com diferença estatisticamente significante para a profundidade da fossa infratemporal. Entretanto, não houve diferença significante para a distância entre o arco zigomático e a mandíbula, o que pode ser explicado pela presença de desvio significante da mandíbula.

UNITERMOS: Zigoma; Fraturas.

 

 

INTRODUÇÃO

As fraturas do complexo zigomático, representado pelo osso zigomático e arco zigomático, são freqüentes em humanos. Casuísticas as têm situado como segundo ou terceiro sítio de maior ocorrência das fraturas faciais (CRIVELLO et al.1, 1989; PALMA et al.7, 1995). As fraturas do arco zigomático podem ocorrer em indivíduos adultos e em crianças (LUZ et al.5, 1993). Lesões traumáticas em sítios específicos, como a articulação temporomandibular (ATM), têm demonstrado experimentalmente a ocorrência de anomalias de desenvolvimento mandibular (SORENSEN; LASKIN8, 1975; MARKEY et al.6, 1980). Entretanto, até o momento não se conhece o comportamento da fratura do arco zigomático na fase de crescimento.

O arco zigomático cresce lateral e inferiormente, assumindo uma forma arqueada, sendo responsável pela maior largura da face e pela conseqüente manutenção da simetria facial. A influência do arco zigomático na função da ATM tem sido demonstrada experimentalmente (KOTYLA4, 1986). A ressecção localizada do arco zigomático na altura do processo zigomático do osso temporal altera a função articular, porém, não modifica a estrutura da cartilagem condilar. Apesar disso, fica evidente a atividade de remodelamento nas superfícies lateral e anterior do côndilo (KOTYLA4, 1986). A influência do arco zigomático no desenvolvimento facial também tem sido descrita. Sua ressecção provoca alterações na maxila nos sentidos anterior e transverso, havendo assimetria quando unilateral (DEL CAMPO et al.2, 1995).

A proposta deste trabalho foi avaliar o comportamento do arco zigomático após fratura unilateral com desvio em ratos na fase de crescimento.

 

MATERIAL E MÉTODO

Neste trabalho, foram utilizados 30 Rattus norvegicus albinus jovens, com um mês de idade, distribuídos em dois grupos, sendo 25 para o grupo experimental e 5 para o grupo controle. No grupo experimental foi realizada fratura unilateral do arco zigomático. No grupo controle, não foi feito qualquer procedimento. Os animais foram submetidos a anestesia geral com emprego de cloridrato de cetamina (Francotar, Francodex), aplicado na dose de 10mg/100g de peso corpóreo por via intraperitoneal.

A incisão foi realizada na região pré-auricular, do lado direito, sobre o arco zigomático, seguida de divulsão romba, descolamento de parte do periósteo e identificação do mesmo. A seguir, foi provocada fratura empregando-se pinça hemostática do tipo Halstead, com desvio dos fragmentos no sentido medial. Sutura por planos com fio de "nylon" monofilamentar 4.0 concluiu o procedimento (Figura1).

 

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FIGURA 1 - Radiografia axial 24 horas após, evidenciando a fratura com desvio.

 

A seguir, os animais foram alojados em gaiolas adequadas, recebendo ração granulada para roedores, fragmentada nos primeiros 15 dias, e água ad libitum. Os animais de ambos os grupos foram sacrificados após o período de 60 dias. Suas cabeças foram seccionadas e, após a retirada da pele, fixadas em formol a 10%. Foram feitas tomadas radiográficas nos sentidos axial e rostro-caudal. Foi utilizado filme radiográfico do tipo periapical (Ektaspeed, Kodak) e aparelho de raios X odontológico (Spectro II, Dabi Atlante) no regime de 56kVp, 10mA e 0,5s. Para facilitar a identificação do plano mediano mandibular, foi introduzida uma agulha para seringa tipo Carpule entre os incisivos inferiores.

A imagem radiográfica foi digitalizada usando leitor óptico (Fotovix II), utilizando placa de aquisição (Íris 16) através do programa DIRACOM3, desenvolvido no Laboratório de Informática Dedicado à Odontologia (LIDO). Foram empregadas as seguintes mensurações: profundidade da fossa infratemporal, obtida medindo-se a distância entre a cortical medial do arco zigomático e a cortical lateral da mandíbula na altura da porção posterior da cavidade nasal, para os lados direito e esquerdo, na tomada radiográfica axial (Figura 2); distância arco zigomático-mandíbula, medida entre o ponto de maior radiopacidade do arco zigomático e a cortical lateral do ramo da mandíbula, para os lados direito e esquerdo, na tomada radiográfica rostro-caudal (Figura 3); distância entre o plano mediano e os incisivos inferiores, medida através da distância entre as perpendiculares dos pontos médios entre as bulas timpânicas (plano mediano) e entre os incisivos inferiores dos grupos experimental e controle na tomada radiográfica axial (Figura 2).

 

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FIGURA 2 - Radiografia axial 60 dias após, sendo mensurada a profundidade da fossa infratemporal (F=fratura, N=controle) e a distância entre plano mediano (M) e incisivos (I).

 

 

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FIGURA 3 - Radiografia rostro-caudal 60dias após, sendo mensurada a distância arco zigomático-mandí- bula (F = fratura, N=controle).

 

Para a verificação da significância da diferença entre os valores médios dos lados direito e esquerdo e também entre os grupos experimental e controle, foi utilizado o teste t de Student. Foi fixado o nível de significância a 5% para todas as análises estatísticas.

 

RESULTADOS

Na observação macroscópica, foi detectada discreta assimetria facial no grupo experimental. Radiograficamente, foi verificado o retorno dos fragmentos à sua posição inicial, entretanto, com um leve comprometimento da forma final do arco zigomático (Figuras 1 e 2). A seguir, são descritas as mensurações obtidas.

Profundidade da fossa infratemporal

Os valores da distância entre a cortical medial do arco zigomático e a cortical lateral da mandíbula, para os lados direito e esquerdo, no grupo experimental, são observados na Tabela 1. Com a aplicação do teste t de Student, foi constatada diferença significante no nível de 1%.

 

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Distância arco zigomático-mandíbula

Os valores da distância entre o ponto de maior radiopacidade do arco zigomático e a cortical lateral do ramo da mandíbula, para os lados direito e esquerdo, no grupo experimental, são observados na Tabela 2. Com a aplicação do teste t de Student, foi constatada diferença não significante.

 

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Distância entre o plano mediano do crânio e o plano mediano mandibular

Os valores da distância entre as perpendiculares dos pontos médios entre as bulas timpânicas e entre os incisivos inferiores dos grupos experimental e controle são observados na Tabela 3. Com a aplicação do teste t de Student, verificamos diferença significante no nível de 2,5%.

 

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DISCUSSÃO

Neste trabalho, verificamos que, na fase de crescimento, os fragmentos do arco zigomático voltaram à posição original e que, radiograficamente, estavam aparentemente consolidados. Também, os animais mantiveram atividade mastigatória e apresentaram ganho de peso após o procedimento cirúrgico. Utilizamos neste experimento ratos com um mês de idade, logo após o desmame. Essa faixa etária é classificada como infantil e permitiu o acompanhamento até a idade adulta, aos três meses, como período final do experimento.

O arco zigomático cresce lateral e inferiormente, por aposição óssea progressiva nas suas faces lateral e inferior, tanto através do periósteo como do endósteo, com reabsorção nas superfícies opostas, crescendo em tamanho para acomodar os músculos nele inseridos (ENLOW3, 1990). O crescimento é promovido pela matriz de tecido mole que envolve o osso, sendo que as determinantes genéticas e funcionais residem no composto de tecidos moles que ativam ou inativam, aceleram ou retardam as ações dos tecidos osteogênicos, tais como periósteo, endósteo, suturas etc. Além disso, o arco zigomático sofre deslocamento secundário para lateral e inferior, devido ao crescimento craniano e ao deslocamento primário, quando é tracionado pela força resultante de todos os tecidos em crescimento que o circundam, sendo que osso neoformado é acrescentado imediatamente na superfície de contato (ENLOW3, 1990). Ocorre também o processo de remodelamento do arco zigomático, que permite recolocar cada uma de suas partes de acordo com o crescimento, o que o leva a acomodar suas funções de acordo com as ações fisiológicas, promovendo diminuição do espaço entre os ossos e entre estes e os tecidos moles em crescimento e função (ENLOW3, 1990).

A redução espontânea do arco zigomático fraturado e com o desvio medial provavelmente está associada à ação do músculo temporal, presente na fossa infratemporal. A dupla convexidade do arco zigomático, nos sentidos inferior e lateral, capacita-o a resistir às forças conseqüentes das contrações do masseter. Existem evidências de que o arco zigomático também sofre influência do músculo temporal, pois, na sua superfície superior e no interior da fossa infratemporal, ocorrem irregularidades ósseas indicativas de remodelamento (ENLOW3, 1990). É provável que o diâmetro da fossa infratemporal e, portanto, o tamanho e a forma de seu limite lateral sejam afetados pela ação do músculo temporal (ENLOW3, 1990). O músculo temporal também influi no desenvolvimento transversal dos terços médio e superior da face (DEL CAMPO et al.2, 1995). Havia discreta assimetria facial e, dessa maneira, foi importante mensurar a profundidade da fossa infratemporal. Houve diferença significante entre os lados da fratura e de controle. Assim, ficou demonstrada a influência da fratura no comprometimento da forma final do arco. Os processos de crescimento e de deslocamento do arco zigomático (ENLOW3, 1990) teriam sido influenciados negativamente pela fratura.

Por outro lado, na mensuração da distância do arco zigomático à mandíbula, não houve diferença significante, conforme observado na incidência rostro-caudal. Esse achado, a princípio, contestaria o verificado na profundidade da fossa infratemporal. Porém, na avaliação da distância entre o plano mediano do crânio e os incisivos inferiores, foi observada diferença significante quando comparada com a do controle. Assim, a ocorrência de desvio mandibular pode explicar a diferença não significante na distância arco zigomático-mandíbula. Ela indica também que a mandíbula não deve ser utilizada como referência para mensurações de assimetrias faciais causadas pela fratura do arco zigomático. A tendência de desvio da mandíbula provavelmente ocorreu por compensação da função mastigatória, através de mecanismo neuromuscular. O arco zigomático é considerado moderador do crescimento facial (DEL CAMPO et al.2, 1995). Assim, novos estudos são necessários para determinar a influência da fratura do arco zigomático no crescimento e desenvolvimento facial.

 

CONCLUSÕES

Nas condições desta pesquisa, podemos concluir que:

1. Houve tendência de retorno do arco zigomático fraturado com desvio à sua posição original.
2. Houve diferença significante para a profundidade da fossa infratemporal entre os lados de fratura e controle.
3. Não houve diferença significante para a distância arco zigomático-mandíbula entre os lados de fratura e controle.
4. Houve diferença significante para a distância entre o plano mediano do crânio e o plano mediano mandibular.

 

 

GOULART, A. C.; FERNANDES, E. M. V.; CAVALCANTI, F. C.; NOVELLI, M. D.; LUZ, J. G. C. Zygomatic arch fracture in the growth period: an experimental study in rats. Rev Odontol Univ São Paulo, v.12, n.1, p.75-80, jan./mar. 1998.

The behavior of the zygomatic arch fracture in the growth period was analyzed by means of cephalometric measurements. Medially displaced fracture of the right side was provoked in one-month-old rats. There was a tendency of the fractured arch to return to its original position, but with statistically significant differences as to the depth of the infratemporal fossa. However, there was no significant difference regarding the distance between zygomatic arch and mandible, which can be explained by the presence of significant deviation of the mandible.

UNITERMS: Zygoma; Fractures.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CRIVELLO Jr., O. et al. Considérations statistiques sur les fractures isolées maxillo-faciales à São Paulo. Rev Stomat Chir Maxillofac, v.90, n.2, p.100-103, 1989.         [ Links ]

2. DEL CAMPO, A. F. et al. Craniofacial development in rats with early resection of the zygomatic arch. Plast Reconstr Surg, v.95, n.3, p.486-495, Mar. 1995.         [ Links ]

3. ENLOW, D. H. Facial growth. 3. ed. Philadelphia: Saunders, 1990. 562p.         [ Links ]

4. KOTYLA, J. R. An exploratory study of the mandibular condyle in the rat following changes in articular function. Eur J Orthod, v.8, n.4, p.265-270, Nov. 1986.         [ Links ]

5. LUZ, J. G. C. et al. Transfixação de fio de KIRSCHNER no tratamento de fraturas instáveis do complexo zigomático. Rev Odontol Univ São Paulo, v.7, n.4, p.279-284, out./dez. 1993.         [ Links ]

6. MARKEY, R. J. et al. Condylar trauma and facial asymmetry: an experimental study. J Maxillofac Surg, v.8, n.1, p.38-51, Feb. 1980.         [ Links ]

7. PALMA, V. C. et al. Freqüência de fraturas faciais em pacientes atendidos num serviço hospitalar. Rev Odontol Univ São Paulo, v.9, n.2, p.121-126, abr./jun. 1995.         [ Links ]

8. SORENSEN, D. C.; LASKIN, D. M. Facial growth after condylectomy or ostectomy in the mandibular ramus. J Oral Surg, v.33, n.10, p.746-756, Oct. 1975.         [ Links ]

 

Recebido para publicação em 14/11/96
Aceito para publicação em 03/10/97

 

 

* Estagiários e *** Professor Associado da Disciplina de Traumatologia Maxilo-Facial do Departamento de Cirurgia, Prótese e Traumatologia Maxilo-Faciais da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
** Professor Doutor da Disciplina de Patologia Geral do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.

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