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Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

Print version ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo vol.12 n.3 São Paulo July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-06631998000300004 

Estudo bacteriológico de lesões periapicais

Bacteriological study of periapical lesions

 

Márcia Maria de Negreiros Pinto ROCHA*
José Luciano Bezerra MOREIRA**
Dalgimar Bezerra de MENEZES***
Maria do Perpétuo Socorro Saldanha da CUNHA****
Cibele Barreto Mano de CARVALHO*****

 

 


ROCHA, M.M.N.P.; MOREIRA, J.L.B.; MENEZES, D.B.; CUNHA, M.P.S.S.; CARVALHO, C.B.M. Estudo bacteriológico de lesões periapicais. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 3, p. 215-223, jul./set. 1998.

O tecido perirradicular de 30 casos cirúrgicos foi submetido a exame microbiológico e histopatológico. Foram isoladas 137 cepas bacterianas das 30 lesões periapicais estudadas. Do total de bactérias isoladas, 90 (65,7%) foram caracterizadas como anaeróbias estritas, 40 (29,2%) como anaeróbias facultativas e 7 (5,1%) como aeróbias estritas. Fusobacterium nucleatum, bacilos Gram-negativos pigmentados anaeróbios estritos, Peptostreptococcus sp, Streptococcus mitis e bacilos Gram-positivos não esporulados anaeróbios estritos foram, em ordem decrescente de freqüência, as bactérias mais comumente isoladas das lesões periapicais. A análise histopatológica demonstrou prevalência de granuloma periapical. O estudo de sensibilidade a antimicrobianos foi realizado em 16 cepas de Fusobacterium nucleatum. Os antimicrobianos utilizados foram penicilina, cefoxitina, eritromicina, metronidazol e tetraciclina. Todas as amostras apresentaram suscetibilidade à cefoxitina, tetraciclina e metronidazol; os percentuais de resistência à penicilina e à eritromicina foram 12,5 e 68,8, respectivamente. Os percentuais de resistência de Fusobacterium nucleatum, uma espécie bacteriana importante na patogênese das lesões periapicais, à penicilina e à eritromicina, enfatizam a necessidade de outros estudos de resistência a antimicrobianos de bactérias isoladas em infecções odontogênicas.

UNITERMOS: Lesão periapical; Fusobacterium nucleatum; Antimicrobianos.


 

 

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, muitas questões têm sido levantadas sobre a presença de microrganismos nas lesões periapicais. Até a década de 60, os Streptococcus do grupo viridans eram as bactérias mais freqüentemente isoladas desses processos infecciosos, sendo o granuloma uma lesão periapical considerada "estéril" por muitos pesquisadores. Entretanto, estudos bacteriológicos de lesões periapicais realizados por STEWART28 (1947) e HEDMAN10 (1951) afirmavam que bactérias anaeróbias facultativas e bactérias anaeróbias estritas eram isoladas dessas lesões, havendo predominância das bactérias anaeróbias estritas sobre as demais. Esta situação de impasse começou a ser resolvida a partir da década de sessenta e seu desenrolar acompanhou a evolução das técnicas para isolamento de bactérias anaeróbias estritas. Isolamento de uma microbiota mista, com predominância de bactérias anaeróbias estritas em lesões periapicais, foi relatado por TRONSTAD et al.29 (1987). PANTERA JR. et al.20 (1988) estudaram 119 dentes com necrose pulpar, utilizando a técnica de imunofluorescência indireta, e demonstraram a predominância de bactérias anaeróbias estritas, sendo os gêneros Porphyromonas e Prevotella os mais freqüentemente isolados. Mais recentemente, BARNETT et al.2 (1990), também utilizando técnica de imunofluorescência indireta, demonstraram a presença de Bacteroides intermedius em granuloma periapical.

Atualmente, é amplamente reconhecido que a maioria das infecções pulpares e periapicais é mista ou polimicrobiana, com predomínio de bactérias anaeróbias estritas. Fusobacterium nucleatum, Prevotella e Porphyromonas são as bactérias mais freqüentemente isoladas, estando associadas a quadros sintomáticos e sintomatologia persistente7,9.

A importância das lesões periapicais reside não somente na sintomatologia, mas principalmente na possibilidade de estas lesões atuarem como foco de infecção, além da possibilidade de disseminação para seios nasais e outras áreas da cabeça e pescoço. Considerando a importância do conhecimento das espécies bacterianas envolvidas nas lesões periapicais para obtenção de sucesso terapêutico, que é baseado no tratamento endodôntico/cirúrgico e muitas vezes medicamentoso (antibióticos), aliado à ausência, no nosso meio, de estudo bacteriológico das lesões periapicais, foi realizado este trabalho. Sendo F. nucleatum a espécie bacteriana mais freqüentemente isolada destas lesões (FERREIRA et al.7, 1988; WAYMAN et al.31,1992), o estudo do perfil de sensibilidade aos antimicrobianos mais utilizados na prática clínica também foi realizado. No presente trabalho, foram traçados como objetivos o estudo microbiológico e histopatológico de 30 lesões periapicais, a determinação do perfil de sensibilidade a antimicrobianos das amostras de Fusobacterium nucleatum isoladas e a comparação dos dados obtidos neste estudo com os da literatura.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O tecido perirradicular de 30 casos cirúrgicos, obtido por meio de extração dentária, foi submetido a exame microbiológico e histopatológico. As amostras de lesões periapicais foram coletadas no período compreendido entre junho/1995 e junho/1996 em consultórios odontológicos da rede pública de Fortaleza (Centro Especializado em Odontologia da Polícia Militar do Ceará) e processadas nos Laboratórios de Microbiologia e Patologia do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Universidade Federal do Ceará. Os pacientes atendidos procuraram o serviço cirúrgico de rotina, no Setor de Cirurgia Buco-Maxilo-Facial da Polícia Militar do Ceará, voluntariamente. Informações sobre sinais e sintomas apresentados, presença de tratamento endodôntico e uso de antimicrobianos foram obtidas dos pacientes atendidos através da aplicação de questionário. Foram excluídos da pesquisa aqueles que tomaram antibiótico no período de até 15 dias antes da realização da consulta.

 

ESTUDO MICROBIOLÓGICO

Colheita e transporte. Cada paciente foi submetido a anti-sepsia extra e intrabucal com álcool iodado a 2%, com o intuito de diminuir o risco de contaminação das lesões periapicais com a microbiota da cavidade oral. Para a anti-sepsia de áreas limitadas foi executada a limpeza e desbridamento da superfície dental (raspagem e polimento coronário), permitindo assim a adequada penetração do agente anti-séptico.

Após estes procedimentos, o dente foi submetido ao ato cirúrgico e a lesão periapical, removida do ápice do dente. Para a análise microbiológica, aproximadamente metade da lesão foi acondicionada em meio para transporte Cary & Blair modificado. O tempo decorrido entre a colheita e a semeadura não excedeu três horas.

Identificação. Para isolamento e identificação de bactérias anaeróbias estritas foram utilizados os seguintes meios de cultura: Brain Heart Infusion agar (Difco) suplementado com sangue desfibrinado de carneiro, hemina (Sigma) e menadione (Biochemical); CDC agar (Difco) suplementado com hemina, menadione e com sangue lisado de carneiro, contendo também vancomicina (Sigma) 75 mg/ml e neomicina (Sigma) 100 mg/ml; Brain Heart Infusion agar suplementado com hemina, menadione e verde brilhante (Merck) e o meio de cultura líquido Brain Heart Infusion (Difco) suplementado com hemina e menadione (BHI).

As placas com os meios de cultura semeados foram acondicionadas imediatamente em jarra de anaerobiose contendo a mistura gasosa (80% N2; 10% CO2; e 10% H2) e incubadas a 37° C por 3 a 5 dias. Após este período as colônias foram examinadas por meio de um microscópio estereoscópico e caracterizadas. Todas as colônias morfologicamente distintas foram então repicadas para meios de cultura líquidos (BHI) e incubadas a 37° C durante 24 a 48 horas. O teste do metabolismo respiratório foi realizado. O crescimento bacteriano apenas na condição de anaerobiose demonstrou a presença de bactérias anaeróbias estritas. O esfregaço das colônias distintas foi realizado utilizando-se a coloração pelo método de Gram. Após verificação da pureza das culturas em caldo, da caracterização morfotintorial e do teste do metabolismo respiratório, foram realizadas provas bioquímicas para caracterização de gênero e, quando possível, de espécie, das bactérias isoladas. Para a identificação da espécie bacteriana anaeróbia estrita mais comumente isolada foram realizadas provas bioquímicas seguindo a metodologia descrita por MURRAY et al.18 (1995) e SEBALD; PETIT24 (1994).

Paralelamente ao cultivo de bactérias anaeróbias estritas, o espécime clínico foi semeado em caldo BHI, ágar BHI suplementado com sangue desfibrinado de carneiro e ágar MacConkey (Difco) para o isolamento de bactérias anaeróbias facultativas. O caldo BHI e o ágar BHI foram acondicionados em jarras de microaerofilia (método da vela), enquanto o meio ágar MacConkey foi mantido em atmosfera convencional a 37° C durante 24 a 48 horas. Para a caracterização de gênero e espécie foram realizadas provas bioquímicas seguindo a metodologia descrita por MURRAY et al.18 (1995).

 

ESTUDO HISTOPATOLÓGICO

Seguida da colheita do espécime clínico para a análise microbiológica, a outra parte correspondente a cerca de 50% da amostra periapical, foi transportada em solução de formol a 10% para o Laboratório de Patologia, onde as lesões foram submetidas a análise histopatológica, utilizando-se a coloração por H.E. (hematoxilina-eosina).

 

ESTUDO DO PERFIL DE SENSIBILIDADE A ANTIMICROBIANOS

O estudo de sensibilidade a antimicrobianos foi realizado para 16 amostras de Fusobacterium nucleatum, que foram as espécies mais freqüentemente isoladas das lesões periapicais. Foi determinada a concentração inibitória mínima (CIM) pelo método de diluição em ágar recomendado pelo National Committee for Clinical Laboratory Standards - NCCLS19 (1993), utilizando-se o meio de cultura Wilkins - Chalgren ágar. Os antimicrobianos utilizados foram a penicilina G, eritromicina, tetraciclina e metronidazol (Sigma Chemical Co, St. Louis, MO) e cefoxitina (Merch Sharp L. Dohme Rahway, NJ). Foram utilizadas placas contendo diluições duplas seriadas de agentes antimicrobianos variando de 0,125 a 128 mg/ml. O inóculo final, obtido em poucos minutos, utilizando o meio de cultura caldo brucela e distribuído com um replicador de Steers, foi de 105 ufc/Spot. As placas foram incubadas em anaerobiose durante 48 horas a 37° C. Com o objetivo de constatar possível contaminação com bactérias aeróbias e avaliar a viabilidade das amostras estudadas, foram utilizadas placas controles no início e no final de cada experimento. A primeira placa controle foi incubada em anaerobiose e a outra em aerobiose. Concentração inibitória mínima para cada cepa testada foi considerada como sendo a menor concentração do antibiótico que inibia completamente o crescimento da cepa, ou quando se verificava a presença de crescimento apenas discreto no local da inoculação, ou ainda uma fina película de crescimento visível a olho nu. Em cada experimento foram inoculadas as cepas de referência B. fragilis (ATCC 25285) e B. thetaiotaomicron (ATCC 29741) a fim de assegurar a fidedignidade do método.

Amostras resistentes foram definidas da seguinte maneira: MIC³ 8 mg/ml para penicilina G e eritromicina; MIC³ 16 mg/ml para tetraciclina; MIC³ 32 mg/ml para metronidazol e MIC³ 64 mg/ml para cefoxitina (NCCLS19, 1993).

 

RESULTADOS

Das trinta lesões periapicais estudadas, 28 apresentavam comunicação pulpar aparente com a cavidade oral, sendo que em 23 casos a comunicação era devida à cárie profunda, em 4 havia a presença de fístula e em 1 caso a fratura radicular. Em dois pacientes com lesão periapical, comunicação pulpar com a cavidade oral não estava presente. Estes dois pacientes haviam sido tratados endodonticamente, sem sucesso no tratamento e com ausência de regressão da lesão. Com relação à sintomatologia, 14 (46,7%) pacientes procuraram o serviço de cirurgia queixando-se de dor, enquanto 16 (53,3%) pacientes não relataram dor. Nenhum paciente fazia uso de antimicrobiano no dia da consulta nem nos últimos trinta dias antes da coleta do material.

 

ESTUDO MICROBIOLÓGICO

Foram isoladas 137 cepas bacterianas das 30 lesões periapicais estudadas. Fusobacterium nucleatum, bacilos Gram-negativos pigmentados anaeróbios estritos, Peptostreptococcus sp, Streptococcus mitis e bacilos Gram-positivos não esporulados anaeróbios estritos foram, em ordem decrescente de freqüência, as bactérias mais comumente isoladas das lesões periapicais. Fusobacterium nucleatum foi isolado em 28 dos 30 casos estudados (Tabela 1).

 

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Do total de bactérias isoladas, 90 (65,7%) foram caracterizadas como anaeróbias estritas, 40 (29,2%), como anaeróbias facultativas e 7 (5,1%), como aeróbias estritas. Com relação às características morfológicas e tintoriais, a maior incidência de bactérias isoladas foi de bacilos Gram-negativos, com 43,1% do total.

Nas 30 culturas realizadas, foi observado que as lesões apresentavam infecções polimicrobianas. Em 22 (73,4%) dos casos houve associação de bactérias anaeróbias estritas e anaeróbias facultativas, em 7 (23,3%), de bactérias anaeróbias estritas, anaeróbias facultativas e aeróbias estritas, enquanto em apenas 1 (3,3%) dos casos houve associação exclusiva de bactérias anaeróbias estritas. As infecções polimicrobianas foram representadas por no mínimo dois ou no máximo seis microrganismos isolados por lesão periapical.

 

ESTUDO HISTOPATOLÓGICO

Seguindo a proposta de LANGELAND et al.13 (1977) para classificação histológica de lesões periapicais, das 30 biópsias examinadas, em duas observou-se apenas a presença de células inflamatórias crônicas, 13 foram diagnosticadas como granuloma periapical sem epitélio, 10, como granuloma periapical com epitélio, 3, como cisto periapical e para 2 biópsias não foi possível dar o diagnóstico definitivo por amostragem deficiente.

Relacionando os critérios clínicos com os achados histopatológicos, observou-se que, dos 14 pacientes que se queixavam de dor no momento da consulta, 1 (7,1%) apresentava apenas células inflamatórias crônicas, 6 (42,9%) apresentavam-se com granuloma periapical sem epitélio, 5 (35,8%), com granuloma periapical com epitélio, 1 (7,1%), com cisto periapical e em 1 (7,1%) o diagnóstico histopatológico não foi esclarecido (Tabela 2).

 

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ESTUDO DO PERFIL DE SENSIBILIDADE A ANTIMICROBIANOS DE 16 AMOSTRAS DE FUSOBACTERIUM NUCLEATUM

O perfil de resistência das espécies de F. nucleatum aos antimicrobianos testados, pelo método de diluição em ágar encontra-se na Tabela 3. Os isolados foram uniformemente sensíveis à cefoxitina, tetraciclina e ao metronidazol. Os percentuais de resistência à penicilina e eritromicina das amostras foram de 12,5 e 68,8%, respectivamente.

As concentrações inibitórias mínimas que inibiam pelo menos 50% (MIC50) e 90% (MIC90) das amostras isoladas, para cada um dos antimicrobianos testados, estão apresentadas na  Tabela 3. Pode-se observar que para cefoxitina, tetraciclina e metronidazol, os valores das CIM obtidos para 90% das amostras situaram-se bem abaixo da concentração crítica (breakpoint), ao contrário dos valores obtidos para penicilina e eritromicina. A Figura 1 mostra a distribuição dos valores das CIM dos 5 antimicrobianos testados para as 16 amostras de F. nucleatum ( Tabela 3).

 

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DISCUSSÃO

Não é grande a quantidade de estudos bacteriológicos sobre as lesões periapicais relatados na literatura. Um dos fatores que limitam a pesquisa nesta área é a dificuldade de colher a lesão periapical evitando a contaminação bacteriana. Neste estudo cuidados foram tomados para prevenir a contaminação do espécime clínico com a microbiota da cavidade oral. A anti-sepsia extra e intrabucal realizada nos pacientes atendidos é um modo simples e prático de reduzir o número de microrganismos presentes na cavidade oral e, portanto, qualquer intervenção odontológica deve ser antecedida por esse procedimento.

No presente estudo, foram isoladas 137 cepas bacterianas de 30 lesões periapicais. Em ordem decrescente de freqüência isolaram-se Fusobacterium nucleatum, bacilos Gram-negativos pigmentados anaeróbios estritos, Peptostreptococcus sp e Streptococcus mitis. Estes resultados foram semelhantes aos relatados por TRONSTAD et al.29 (1987) e BARNETT et al.2 (1990). WAYMAN et al.31 (1992), estudando 58 lesões periapicais das quais 29 apresentavam comunicação pulpar com a cavidade oral e a outra metade sem comunicação aparente, em ordem decrescente de freqüência isolaram, nos dois grupos, Peptostreptococcus sp, Fusobacterium nucleatum, Staphylococcus epidermidis. Essa última espécie bacteriana foi isolada neste estudo em apenas 3 lesões. Esta bactéria, embora tida como contaminante nas lesões periapicais, tem sido isolada do canal radicular bem como de lesões periapicais em que aparentemente não foi verificada comunicação pulpar com a cavidade oral28.

IWU et al.11 (1990), em estudo bacteriológico de 16 granulomas periapicais, relataram isolamento de microbiota mista em 88% das lesões estudadas. De um total de 47 bactérias isoladas, 26 foram caracterizadas como anaeróbias facultativas e 21 como anaeróbias estritas. No presente estudo foram encontradas predominância de bactérias anaeróbias estritas e associação dessas bactérias com as anaeróbias facultativas em 73,4% das lesões. A média de 4 espécies bacterianas isoladas para cada lesão periapical concorda com a assertiva de que estas infecções são polimicrobianas11, 31.

Com relação às características clínicas, segundo SMULSON et al.26 (1996), pacientes com lesão periapical do tipo granuloma, cisto e abscesso crônico apresentam-se assintomáticos, ao contrário daqueles com abscesso agudo. Segundo SHAFER et al.25 (1987), nessas lesões crônicas pode haver sensibilidade decorrente da hiperemia, do edema e da inflamação do ligamento periodontal apical. Diversos estudos relatam associação entre a sintomatologia das infecções pulpo-periapicais e bactérias específicas. Bactérias anaeróbias estritas, principalmente bacilos Gram-negativos, geralmente estão relacionadas a quadros com dor, edema e estado febril. Bacilos Gram-negativos pigmentados e Fusobacterium nucleatum são bactérias Gram-negativas anaeróbias estritas que estão associadas a quadros sintomáticos e sintomatologia persistente, respectivamente (FERREIRA et al.7, 1988; HAAPASALO9, 1993). No presente estudo, dos 14 casos de lesão periapical em que os pacientes relataram sentir dor, em 12 havia a presença de F. nucleatum e bacilos Gram-negativos pigmentados. Nos outros dois casos, uma das duas espécies foi isolada. Então, em todos os pacientes que relataram dor no dia da consulta foram isoladas das lesões periapicais essas duas espécies associadas ou uma das duas.

Granuloma periapical foi a lesão predominante neste estudo. 76,7% das lesões foram diagnosticadas como granuloma, enquanto 10% como cisto periapical. Estes resultados são semelhantes aos relatados por BLOCK et al.5 (1976); SOMMER et al.27 (1966); MORSE et al.16 (1973) e outros (BAUMANN; ROSSMAN 3, 1956; GROSSMAN; ETHER8, 1963; LINENBERG et al.15, 1964; MORTENSEN et al.17, 1970; PATTERSON21 et al., 1964; WAIS30,1958) e diferentes dos relatados por BHASKAR4, 1966; LALONDE; LUEBKE12, 1968; PRIEBE22 et al., 1954; e ROSS; BURCH23, 1976. Estas divergências com relação à incidência de granuloma periapical podem estar relacionadas com critérios individuais de cada investigador. No nosso estudo a definição de cisto periapical utilizada foi a proposta por SHAFER et al.25 (1987): "Cisto é definido como uma cavidade delineada por epitélio, geralmente contendo material fluido ou semi-sólido." Utilizando esta definição, apenas 3 dos 30 casos de lesão periapical foram definidos como cisto. LANGELAND et al.13 (1977), em estudo semelhante, diagnosticaram 9 como cistos e 26 como granulomas dentre 35 lesões periapicais. Algumas divergências entre autores também podem estar relacionadas com a técnica cirúrgica utilizada. Se a coleta da lesão não permitir que esta permaneça íntegra, a cavidade cística poderá não se tornar evidente.

Analisando a Tabela 2, observa-se a inexistência de correlação significante entre os sinais clínicos e os achados histopatológicos dos pacientes atendidos. Estes resultados foram semelhantes aos relatados por LANGELAND et al.13 (1977).

As bactérias anaeróbias estritas presentes nas lesões periapicais, como Fusobacterium nucleatum, contribuem para a persistência da sintomatologia, bem como a predominância de bactérias Gram-positivas anaeróbias estritas tem influência sobre o prognóstico da terapia7. Neste estudo foram encontrados 2 casos de pacientes com insucesso no tratamento endodôntico, apresentando a não regressão da lesão e persistência de dor. F. nucleatum estava presente em ambas as lesões periapicais. Em um dos casos, F. nucleatum apresentou resistência à penicilina.

No presente estudo foi determinado o perfil de sensibilidade a antimicrobianos para 16 amostras de F. nucleatum isoladas. Esta espécie bacteriana foi a mais freqüentemente isolada das lesões periapicais e tem sido mais recentemente estudada quanto aos seus fatores de virulência e perfil de sensibilidade a antimicrobianos. Sabe-se atualmente que é uma bactéria produtora de polissacarídio extracelular, possui o LPS endotóxico convencional e é capaz de produzir beta-lactamase18. Nos últimos 20 anos, resistência à penicilina G entre amostras de F. nucleatum isoladas de vários processos infecciosos tem sido descrita6,18. COLLIGNON et al.6 (1988), do laboratório de bacteriologia do Hospital de Westmead, isolaram 20 cepas de Fusobacterium spp de uma variedade de espécimes clínicos e encontraram um percentual de resistência à penicilina G superior a 10%. Neste estudo foi observada resistência à penicilina em 12,5% das 16 amostras de F. nucleatum investigadas. Sabendo-se que a penicilina G é o antibiótico de escolha para o tratamento de infecções pulpo-periapicais no nosso meio, bem como em outras regiões do nosso país, um estudo prospectivo deve ser realizado em cada centro, com o objetivo de detectar aumento desta resistência.

Penicilina, cefoxitina, eritromicina, tetraciclina e metronidazol foram os antimicrobianos escolhidos por tratar-se de um grupo comumente utilizado no tratamento de infecções anaeróbias no nosso país. Penicilina e eritromicina são os antibióticos de escolha no tratamento de infecções pulpo-periapicais14.

Analisando os valores da concentração inibitória mínima (MIC) dos antimicrobianos testados para as amostras em estudo, alguns achados merecem ser comentados. Para cefoxitina, tetraciclina e metronidazol, valores abaixo da concentração crítica (breakpoint) foram detectados em 90% das amostras estudadas.

Com relação à eritromicina, elevado percentual de resistência para 16 amostras de F. nucleatum foi encontrado (68,8%), resultado este que concorda com os relatados na literatura1. Esta droga é a primeira opção terapêutica, em endodontia, para pacientes alérgicos à penicilina (LEONARDO; LEAL14, 1991), sendo assim necessário repensar uma alternativa terapêutica para estes pacientes.

A escolha do antimicrobiano no tratamento das lesões periapicais é empírica, dado que o estudo dos microrganismos presentes nas lesões de cada paciente atendido não é factível. Por esse motivo, faz-se necessário que cada centro ou região tenha seus próprios dados sobre os microrganismos prevalentes nestes processos infecciosos para que uma terapia mais adequada possa ser aplicada. Relatos de crescente resistência bacteriana a antimicrobianos também têm contribuído para sedimentar a necessidade de que estudos de sensibilidade a antimicrobianos devem ser realizados com periodicidade, como recomendado pelo National Committee for Clinical Laboratories Standards19 (1993). Assim, outros estudos de sensibilidade a antimicrobianos, em infecções odontogênicas, deverão ser realizados.

 

CONCLUSÃO

As lesões periapicais são infecções polimicrobianas, com predomínio de bactérias anaeróbias estritas sobre as demais. Fusobacterium nucleatum e Streptococcus mitis foram as espécies bacterianas anaeróbias estritas e facultativas, respectivamente, mais freqüentemente isoladas desses processos infecciosos no centro estudado. Com relação à sensibilidade a antimicrobianos para as amostras de F. nucleatum testadas, o percentual de resistência à penicilina e à eritromicina foi de 12,5 e 68,8%, respectivamente. Sendo essas drogas consideradas de escolha para o tratamento de infecções pulpo-periapicais recidivantes, um monitoramento periódico faz-se necessário para que seja possível evidenciar alterações ou aumento nos percentuais de resistência a esses antibióticos.

 

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi patrocinado pela Fundação Cearense de Amparo à Pesquisa (FUNCAP).

Os autores agradecem a Antônio Jaldir G. Vieira pela assistência técnica.

 

 


ROCHA, M.M.N.P.; MOREIRA, J.L.B.; MENEZES, D.B.; CUNHA, M.P.S.S.; CARVALHO, C.B.M. Bacteriological study of periapical lesions. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 3, p. 215-223, jul./set. 1998.

Periapical tissue from 30 individuals requiring dental surgery was examined histologically and cultured for the presence of bacteria. A total of 137 strains of bacteria were isolated and of the isolates, 65.7% were strict anaerobes, 29.2%, facultative anaerobes and 5.1%, strict aerobes. Fusobacterium nucleatum was the species most frequently isolated, followed by pigmented strict anaerobes, Peptostreptococcus sp and Streptococcus mitis. In all cases more than one bacterial species was found. The histological analysis demonstrated prevalence of periapical granuloma. Fusobacterium nucleatum isolated from 16 patients was tested for susceptibility to penicillin, cefoxitin, erythromycin, metronidazole and tetracycline. All strains were susceptible to cefoxitin, metronidazole and tetracycline and the resistance rates to penicillin and erythromycin were 12.5 and 68.8% respectively. The resistance rates of F. nucleatum, an important bacterium in periapical infection to penicillin and erythromycin emphasize the need to further study antimicrobial resistance of bacteria isolated from odontogenic infections.

UNITERMS: Periapical lesion; Fusobacterium nucleatum; Antimicrobials.


 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 24/02/97
Aceito para publicação em 27/04/98

 

 

* Mestranda do curso de Patologia (Área de concentração Microbiologia) Departamento de Patologia e Medicina Legal (DPML), Universidade Federal do Ceará (UFC).
** Prof. Adjunto de Microbiologia, Departamento de Patologia e Medicina Legal/UFC.
*** Prof. Adjunto de Patologia, Departamento de Patologia e Medicina Legal/UFC.
**** Residente de Patologia, Departamento de Patologia e Medicina Legal/UFC.
***** Profa. Assistente de Microbiologia, Departamento de Patologia e Medicina Legal/UFC.

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