SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.12 issue3Shear bond strength of two "one-bottle" adhesive systemsUse of a refractory slurry characteristic in mold casting author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

Print version ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo vol.12 n.3 São Paulo July 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-06631998000300013 

Resistência de união entre liga de níquel-cromo e cimentos resinosos*

Retention between nickel-chromium alloy and adhesive cements

 

Rodrigo de Oliveira FRANÇA**
Antonio MUENCH***
Paulo Eduardo Capel CARDOSO****

 

 


FRANÇA. R.O.; MUENCH, A.; CARDOSO, P.E.C. Resistência de união entre liga de níquel-cromo e cimentos resinosos. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 3, p. 267-270, jul./set. 1998.

O objetivo do trabalho foi a determinação da retentividade, por ensaio de tração, entre uma liga de níquel-cromo e cimentos resinosos (Comspan, Panavia Ex e All-Bond C & B), com quatro tratamentos superficiais (liso, microjateado, ataque eletrolítico e silicoater) e armazenagem por 3 e 30 dias em solução de NaCl a 0,9%, a 37° C e termociclagem intercalada na segunda (a 5 e 55° C, por 1 minuto em cada banho, perfazendo 600 ciclos). Os corpos de prova eram discos, providos de alça fixadora entre si dois a dois. Os resultados permitiram concluir que: superfícies lisas conduzem a baixíssimas retentividades e tratadas com silicoater a altíssimos valores, com qualquer cimento e condição de armazenagem; Panavia Ex com superfícies microjateadas também conduz a altas retentividades; a maior retentividade foi obtida pela combinação silicoater/All-Bond C&B.

UNITERMOS: Cimentos dentários; Prótese adesiva.


 

 

INTRODUÇÃO

As próteses adesivas foram introduzidas há poucas décadas. HOWE; DENEHY3, em 1977, introduziram a confecção de próteses adesivas com estrutura metálica perfurada. TANAKA et al.9 (1979) introduziram o processo eletrolítico para formar microrretenções no metal. THOMPSON et al.11 (1981) aprofundaram esse tratamento, alcançando retentividades de 65 a 278 kp/cm2. OMURA et al.8 (1984) desenvolveram o adesivo dental Panavia Ex, contendo um grupo fosfato. Obtiveram retentividade de 82 a 240 kp/cm2, conforme as condições das superfícies. MONDELLI et al.6 (1984) também apresentaram um estudo comparativo com a retenção no metal: perfurações, ataque eletrolítico e pérolas de resina, junto à cera, para obter uma superfície irregular durante a fundição. Obtiveram os melhores resultados de retenção com as perfurações e seguidos pelas pérolas e ataque eletrolítico. MUSIL7 (1984) descreveu o método do silicoater, que consiste em depositar sobre a superfície do metal jateado uma camada de óxido de silício (SiOx-C).

THOMPSON et al.10 (1985) verificaram que a ciclagem térmica influi com alguns cimentos e outros não. WATANABE et al.12 (1988) compararam a retentividade de cimentos e tratamentos de superfície. Encontraram maior retentividade com ataque eletrolítico do que com jateamento. BARKMEYER; COOLEY1 (1992) encontraram com liga de Ni-Cr microjateada e cimento All Bond II 259 kp/cm2, não tendo influído a termociclagem. KOLODNEY Jr. et al.4 (1992) avaliaram a retentividade de uma liga de Ni-Cr-Be, tratada com o sistema silicoater, e cimentada com Panavia Ex. Verificaram que a retentividade era aumentada pela interposição de resina sem carga entre o silicoater e o cimento.

A literatura mostra que ainda persistem muitas dúvidas sobre a retentividade em próteses adesivas, pelo que se propõe a estudar: influência do tratamento da superfície do metal, do tipo de cimento e da armazenagem.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os semicorpos de prova eram discos com área de 0,2 cm2 e 0,1 cm de espessura. Foram obtidos pelo método convencional de fundição de liga de níquel-cromo (Litecast B - Williams Dental, EUA). Esses discos em uma das faces eram providos de alças, fundidas conjuntamente, para fixação na máquina de ensaio. Dois discos cimentados entre si constituíram um corpo de prova.

Tratamento das Superfícies

A lisa, bem como as demais superfícies, inicialmente eram aplainadas com lixa no 200. Em seguida era feito polimento tipo clínico, empregando-se discos Sof-lex e terminando com óxido de estanho em disco de feltro.

A superfície microjateada, após planificação, era desgaseificada a 1.010° C, sob vácuo, por 5 minutos. O microjateamento foi feito com o "Micro-Etcher" (Dowville Eng. Inc., EUA). Em seguida, as peças eram submetidas ao ultra-som, por 5 minutos, e armazenadas em água destilada.

O ataque eletrolítico foi feito com o aparelho Odonto Larcon (Maringa, Br). As peças previamente eram tratadas com partículas de óxido de alumínio (80 a 100 mm). A solução usada foi de H2SO4 a 10% e metanol 9:1, e a corrente elétrica era de 200 mA/cm2, por 6 minutos ou mais, se necessário. O tratamento subseqüente era no aparelho ultra-som em HCl a 18%, por 10 minutos, armazenando-se os corpos de prova em água destilada, até a cimentação.

O tratamento com o sistema silicoater foi realizado conforme orientação e supervisão do fabricante (Kulzer - São Paulo, Br). A seqüência consiste em jateamento com partículas de óxido de alumínio (250 mm) por 30 segundos, ultra-som por 5 minutos, aplicação do Kulzer Siliclean, tratamento no aparelho silicoater a 500° C por 5 minutos, aplicação do Sililink e, após sua evaporação, o Siliseal, retornando a peça ao aparelho silicoater por 3 minutos.

Três cimentos foram empregados: Comspan Opaco (Dentsply - Brasil); Panavia Ex (Kuray Co. - Japão); All-Bond C&B (Bisco - EUA). Dois discos preparados eram cimentados entre si, mantidos em posição por meio de dispositivo, sob carga (9 kp) até a presa do cimento, cujo excesso era removido. O preparo dos cimentos foi feito conforme instruções dos fabricantes, aplicando-se no Panavia Ex o "Oxiguard".

A armazenagem foi feita sob duas condições: 3 e 30 dias, em solução de NaCl, 0,9%, a 37° C. Na segunda condição (30 dias) foi feita, intercaladamente, termociclagem (a 5 e 55° C), um minuto por banho, perfazendo ao todo 600 ciclos, na máquina de termociclagem (Ética Equipamentos).

Os ensaios foram por tração. As cargas de rompimento foram relacionadas à área e feitos os cálculos para a retentividade em MPa.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise de variância mostrou que os três fatores principais (adesivo, tratamento de superfície e armazenagem) foram significantes. Além disso, foram significantes as interações adesivo x tratamento superfície e imersão x tratamento superfície. As médias correspondentes estão nas Tabelas 1 e 2.

 

a12t2.gif (3722 bytes)

 

Tanto a Tabelas 1 como a Tabela 2 mostram que com a superfície lisa as retentividades são baixíssimas. Tratamento este não recomendado desde o surgimento das próteses adesivas (HOWE; DENEHY3, 1977).

O microjateamento foi muito eficiente com o cimento Panavia Ex, mas não para os outros, embora com valores maiores com o All-Bond C&B do que com o Comspan.

O ataque eletrolítico, além de implicar em equipamento mais complexo que o jateamento (WATANABE et al.12, 1988), conduziu a retentividades relativamente baixas. Esse tratamento foi desenvolvido por TANAKA et al.9 (1979) para coroas veneer e usado em próteses adesivas por THOMPSON et al.11 (1981), LIVADITIS5 (1981) e DEL CASTILLO; THOMPSON2 (1982). Pela Tabela 2, verifica-se que o tratamento eletrolítico foi em particular influenciado pela longa imersão com termociclagem.

Um tratamento de grande eficiência consiste no sistema silicoater. A Tabelas 1 mostra que o silicoater conduziu a valores extremamente altos de retentividade, para os três cimentos, embora exista diferença significante entre eles (em MPa: Comspan, 26,67; Panavia Ex, 30,62; All-Bond C&B, 40,25). Mesmo o menos resistente ainda apresenta um valor bem alto. Com esse tratamento de superfície o cimento All-Bond C&B conduziu ao maior valor.

O tempo de imersão, conforme já visto, influiu na retentividade. Contudo, conforme Tabela 2, ele não influiu no tratamento com jateamento, pouco com o silicoater e muito com ataque eletrolítico, sempre diminuindo a retentividade com imersão prolongada com ciclagem térmica. Resultados esses que concordam com os de BARKMEYER; COOLEY1 (1992), que também, em certos casos, verificaram a influência do tempo de imersão.

Uma análise geral dos resultados mostra que o tratamento com silicoater conduz a valores bem altos, quando comparados com outros. Contudo, com o jateamento o cimento Panavia Ex também conduz a alta retentividade. O fato de o Panavia Ex ter conduzido a altos valores talvez seja devido à sua composição, consistindo em melhor escoamento para penetrar entre as irregularidades da superfície metálica tratada.

 

CONCLUSÕES

Tendo em vista os resultados obtidos, parece lícito concluir que:

  1. Superfícies lisas, sob qualquer condição, conduziram a valores numericamente baixos.
  2. Entre os cimentos, em superfícies microjateadas, o Panavia Ex promoveu altíssima retentividade.
  3. O tratamento da superfície com o sistema silicoater conduziu a altíssimas retentividades, sob qualquer condição.
  4. A imersão prolongada com termociclagem não influiu na retentividade das superfícies microjateadas.

A maior retentividade foi obtida pela combinação silicoater/All-Bond C&B.

 

 


FRANÇA. R.O.; MUENCH, A.; CARDOSO, P.E.C. Retention between nickel-chromium alloy and adhesive cements. Rev Odontol Univ São Paulo, v. 12, n. 3, p. 267-270, jul./set. 1998.

The purpose of the investigation was to test tensile strength between Ni-Cr alloy and adhesive cements. Variables were: three cements (Comspan, Panavia Ex and All-Bond C&B); four surface treatments (smooth, sandblasted, electrolytic etching and silicoater); two types of storage (3 and 30 days in NaCl 0.9% solution at 37° C, performing in the latter 600 thermocycles at 5 and 55° C). Specimens were discs obtained through conventional casting procedures and cemented together two by two. Opposite sides of cementing discs were provided with a loop for fixing to the testing equipment. Conclusions were that: smooth surfaces presented very low retentivity and those with silicoater a very high one; Panavia Ex with sandblasting also led to very high retention; highest retention was obtained with the combination silicoater/All-Bond C&B.

UNITERMS: Dental cements; Denture, partial, fixed, resin-bonded.


 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. BARKMEYER, W.W.; COOLEY, R. Laboratory evaluation of adhesive systems. In: INTERNATIONAL SYMPOSIUM ON ADHESIVES IN DENTISTRY, Omaha, July 11-13, 1991. Operat Dent, v. 5, p. 50-61, 1992.

2. DEL CASTILHO, E.; THOMPSON, V.P. Electrolytically etched NP alloys resin bond and laboratory variables. In: INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR DENTAL RESEARCH. General Session, 60. New Orleans, March 12-21, 1982. Abstracts of papers. J Dent Res, v. 61, p. 186, 1982. [Resumo n. 64].

3. HOWE, D.F.; DENEHY, G.E. Anterior fixed partial dentures utilizing the acid-etch technique and a cast metal framework. J Prosthet Dent, v. 37, n. 1, p. 28-31, Jan. 1977.         [ Links ]

4. KOLODNEY JR.H. et al. Shear bond strengths of prosthodontic adhesive systems to nickel-chromium-beryllium alloy. Quintessence Int, v. 23, n. 1, p. 65-69, Jan. 1992.         [ Links ]

5. LIVADITIS, G.L. Resin-bonded cast restorations: clinical study. Int Periodont Restorat Dent, v. 1, n. 4, p. 70-79, 1981.

6. MONDELLI, J. et al. Técnica alternativa para a simplificação e aperfeiçoamento da capacidade retentiva das próteses fixas adesivas indiretas. Rev Paul Odontol, v. 6, n. 2, p. 40-44, mar./abr. 1984.         [ Links ]

7. MUSIL, R. The adhesion of dental resins to metal surfaces. Wehrheim, Kulzer & Co Gmbh, p. 9-35, 1984,         [ Links ]

8. OMURA, I. et al. Adhesive and mechanical properties of a new dental adhesive. In: INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR DENTAL RESEARCH. General Session, 62. Dallas, March, 15-18, 1984. Abstracts of Papers. J Dent Res, v. 63, p. 233, 1984. [Resumo n. 561].

9. TANAKA, T. et al. Pitting corrosion for retaining acrylic resin facings. J Prosthet Dent, v. 42, n. 3, p. 282-291, Sept. 1979.         [ Links ]

10. THOMPSON, V.P. et al. Bonding of adhesive resins to various non-precious alloys. In: INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR DENTAL RESEARCH. General Session, 63. Las Vegas, March. 21-24, 1985. Abstracts of Papers. J Dent Res, v. 64, p. 314, 1985. [Resumo n.1258].

11. THOMPSON, V.P. et al. Resin bond to electrolyticly etched non-precious alloys for resin bonded prostheses. In: INTERNATIONAL ASSOCIATION OF DENTAL RESEARCH. General Session, 59. Chicago, March 19-22, 1981. Abstract of Papers. J Dent Res, v. 60, p. 377, 1981. [Resumo n. 265].

12. WATANABE, F. et al. In vitro bonding of prosthodontic adhesives to dental alloys. J Dent Res, v. 67, n. 2, p. 479-483, Feb. 1988.         [ Links ]

 

Recebido para publicação em 08/07/97
Reformulado em 03/10/97
Aceito para publicação em 19/12/97

 

 

* Resumo da Dissertação de Mestrado do Curso de Pós-Graduação em Odontologia, Área de Concentração em Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia da USP.
** Prof. Titular de Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia da Universidade Bandeirantes/SP.
*** Prof. Titular do Departamento de Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia da USP.
**** Prof. Dr. do Departamento de Materiais Dentários da Faculdade de Odontologia da USP.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License