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Revista de Odontologia da Universidade de São Paulo

versión impresa ISSN 0103-0663

Rev Odontol Univ São Paulo v.13 n.4 São Paulo oct./dic. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-06631999000400001 

Editorial

A Credibilidade da Odontologia no Brasil?!?!?!...

 

 

O título pode causar surpresa mas é premeditado. A Odontologia nacional vive atualmente momentos de exclamação face a calorosos elogios ou perante duras críticas, bem como estágios de interrogação sobre o seu presente como, principalmente, sobre o seu futuro.

Embora já repetitivo, devo reiterar a minha convicção de que a odontologia brasileira possui algumas Faculdades como centros de competência, ou seja, são ilhas de excelência. Esta afirmação é mais fundamentada na qualidade da prática clínica dos experimentados profissionais, docentes especializados e formandos bem avaliados. Embora as áreas básicas tenham evoluído espetacularmente nas últimas quatro décadas o seu aspecto quantitativo ainda é insatisfatório.

Mas o que dizer, no geral, da qualidade heterogênea existente entre as Faculdades e conseqüentemente, dos seus egressos? Simplesmente que as Faculdades deficientes estão comprometendo a saúde da população e a credibilidade da profissão, cujas conseqüências, embora já aparentes serão ainda mais graves em futuro não distante. O resultado médio obtido pelos odontolandos no último “Provão” (1999) foi até comemorado como bom (!), mas “esconde” a realidade mais individual de cada Faculdade. Neste aspecto, por exemplo, destacou-se em 1º lugar o desempenho dos alunos da Faculdade de Odontologia-USP acompanhado pelo de várias outras Faculdades, notadamente públicas.

Porém aconteceram resultados medíocres em certas Faculdades e, como é sabido, há casos em que o número de vagas oferecidas em cada uma está próximo à somatória de todos os formados anualmente pelas 3 Faculdades da USP (S. Paulo/Ribeirão Preto/Bauru). Ou seja, a análise  mais apurada da realidade dos resultados mostra que a formação da maioria (?) dos nossos futuros colegas não é a mais adequada.

Como fato recente sobre o atual descontrole da situação cite-se a ação de predadores da própria classe odontológica que, sem exaurirem o debate interno sobre como cooperar na solução destes problemas, saem a campo “vendendo razões” para que a população evite riscos inerentes ao cirurgião-dentista! Com esta divulgação não será que todos foram para a mesma fossa?

A credibilidade de uma profissão é uma conquista longa, árdua, coletiva e diretamente vinculada à competência científico-tecnológica dos seus atores enriquecidos por valores humanos indispensáveis de ordem social, moral e de ética com estética. Sua essência está na visão primordial do ser humano que ouvi certa ocasião do saudoso Professor Francisco Degni através da expressão: “O cirurgião-dentista deve olhar para o paciente que tem dentes e não somente para os dentes do paciente”. Só assim a Odontologia será respeitada e justificada pela sociedade sobre o seu mérito e sua existência.

Este é mais um alerta opinativo onde não reflito nem utopia e nem uma virtude quixotesca. Aliás Cervantes (talvez por ter sido filho de cirurgião) dedicou a Dom Quixote (parte I, Cap. XVIII) o famoso conceito ao qual a Odontologia será permanentemente devedora: “A boca sem dentes é como moinho sem pedra; deve-se estimar muito mais um dente do que um diamante”.

 

 

Flávio Fava de Moraes
Professor Titular do Instituto de Ciências Biomédicas da USP

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