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Estudos de Psicologia (Campinas)

Print version ISSN 0103-166X

Estud. psicol. (Campinas) vol.29 no.1 Campinas Jan./Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-166X2012000100014 

ARTIGOS

 

Convergências entre a teoria de Lev Semionovich Vigotski e de Norbert Elias

 

Convergence between the theories of Lev Semionovich Vigotski and Norbert Elias

 

 

Tony HonoratoI; Ademir GebaraII

IUniversidade Estadual de Londrina, Centro de Educação Física e Desportos, Departamento de Fundamentos da Educação Física. Rod. Celso Garcia Cid, Pr 445, Km 380, Campus Universitário, 86060-000, Londrina, PR, Brasil, Correspondência para/Correspondence to: T. HONORATO, E-mail: tony@uel.br
IIUniversidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física, Campinas, SP, Brasil

 

 


RESUMO

Esta pesquisa aborda o problema da constituição da singularidade do indivíduo no social, assumindo como referência a concepção de Lev S. Vigotski de internalização e a concepção de Norbert Elias de individualização. O objetivo é identificar algumas convergências entre a teoria de Vigotski e de Elias. Para discutir suas proposições, fez-se uso da metodologia da pesquisa de natureza teórico exploratória em torno da teoria dos dois autores. Vigotski e Elias possibilitaram a compreensão de que as singularidades são processos e funções presentes na constituição das estruturas psíquicas e sociais.

Unitermos: Elias. Individualização. Internalização. Vigotski.


ABSTRACT

This study focuses on the problem of the individual's creation of singularity in society, taking as a reference Lev S. Vigotski's conception of internalization and Norbert Elias's conception of individualization. The objective is to identify convergences between the theory of Vigotski and Elias. To discuss the propositions of Vigotski and Elias, the methodology of theoretical exploratory research on the two authors was used. Vigotski and Elias made possible the understanding that singularities are processes and functions present in the formation of psychic and social structures.

Uniterms: Elias. Individualization. Internalization. Vigotski.


 

 

Estudos na área de psicologia, sociologia e educação (Góes, 2005; Oliveira, 2005; Padilha & Silveira, 2005; Pino, 2005; Silva, 2007) têm buscado aproximações e distanciamentos entre a construção teórica de Lev Semionovich Vigotski e Norbert Elias. Na literatura, constata-se que os dois autores, cada um a partir do seu referencial, apresentam uma discussão aprofundada e consistente sobre a constituição humana do homem.

Para Góes (2005), um tema comum para ambos os autores é o da linguagem e o do conhecimento: os dois colaboram com a ruptura e a descontinuidade entre os processos da vida humana e da vida animal. Contudo, essa autora destaca que, diferentemente de Elias, Vigotski interpreta a emergência da linguagem numa visão marxista.

Já Oliveira (2005) entende que Elias e Vigotski não se furtam à tarefa de tentar compreender, cada um a sua maneira, como fatores biológicos e culturais se articulam na configuração das emoções. As emoções seriam mais do que componentes biológicos e genéticos, pois elas estariam relacionadas à capacidade pessoal adquirida de autorregulação e inter-regulação no plano da cultura e da história. Entretanto, Oliveira aponta que Elias interessa-se em pensar especificamente a relação entre aspectos inatos e aprendidos na configuração das emoções no transcorrer da história do homem, enquanto Vigotski interessa-se em pensar as transformações ocorridas no plano biológico por meio da determinação das práticas sociais e culturais, as quais são submetidas às leis da vida histórica e sublinhadas pelo papel da mediação semiótica no desenvolvimento do homem.

Para Pino (2005, p.2), "tanto no caso do processo civilizador de Elias quanto no do processo de constituição cultural do homem de Vigotski, a ideia é semelhante: 'o homem é obra do próprio homem', não efeito da natureza ou de qualquer outro fator externo". A proposição de Pino é a de que as convergências e as divergências existentes entre a obra de Vigotski e a de Elias têm muito a ver com o significado que os termos civilização e cultura adquirem na análise dos autores. Assim, Pino considera o processo civilizador como uma concepção social e política do humano, e, como tal, constitui um componente do conceito de cultura, tal como é concebido por Vigotski.

Ao se observar a literatura, não se pode deixar de ficar instigado com as diferentes convergências existentes entre a teoria de Vigotski e a de Elias. Por isso, delimitou-se a escrita deste artigo apenas ao problema da constituição da singularidade do ser humano em convívio social/sociedade. A proposição consiste em verificar que tal problema pode ser identificado em Vigotski, em sua concepção de processo de internalização das funções psíquicas superiores, e em Elias, em sua concepção de processo de individualização.

Assim, considerando a linguagem, o estilo de vida, o cenário histórico e outras peculiaridades que tornam Vigotski e Elias clássicos das ciências humanas, singulares e diferenciados, e demarcam o lugar de onde cada um fala, o objetivo deste artigo é identificar, a partir da concepção de internalização de Vigotski e de individualização de Elias, as convergências entre os dois corpus teóricos no estudo da constituição do indivíduo. Cabe destacar que identificar convergências é refletir sobre temas comuns entre os dois autores eleitos, e não encontrar aproximação que implique homogeneidade dos pressupostos teóricos em discussão.

 

Método

Trata-se de uma pesquisa de natureza teórico exploratória em torno de dois autores: Vigotski e Elias. Conforme Triviños (1987), os estudos exploratórios possibilitam o aumento de experiências em torno de determinado problema e o aprofundamento teórico.

Na presente pesquisa, tomou-se o cuidado de apresentar concepções teóricas dos autores de forma separada; buscou-se respeitar o máximo possível o pensamento de cada um para, depois, articularem-se algumas convergências entre os autores. Para isso, assumiram-se como referência principal os seguintes textos: "A sociedade dos indivíduos" de Norbert Elias (1994a); "Génesis de las funciones psíquicas superiores" de Lev S. Vigotski (1931/1995).

Considerando o estudo exploratório em torno dos dois autores, torna-se importante destacar de antemão dois pontos. O primeiro é que Norbert Elias - 1897 a 1990, de origem alemã judaica (Elias, 2001) - e Lev S. Vigotski - 1896 a 1934, de origem russa (Vigotski, 2000) - viveram no mesmo período em localidades distintas, mas com histórias de vida muitas vezes semelhantes, visto que ambos tiveram academicamente suas obras tardiamente reconhecidas. Contudo, acredita-se que um não se fundamentou na obra do outro, haja vista que não se encontra referência do trabalho de um no do outro.

O segundo ponto a ser destacado é que, para a leitura dos textos, foi importante considerar que Elias e Vigotski partiram de uma crítica às ciências naturais de seu tempo para pensar os processos humanos pela perspectiva psicológica, histórica e sociológica, cada um em seus respectivos campos epistemológicos de interesse. Vigotski e Elias transpuseram o muro imaginário de suas áreas de interesse acadêmico, efetivando um verdadeiro cruzamento entre campos teóricos, pois, para elaborar sua proposta teórica, Elias parte da sua preocupação com o campo da sociologia, articulando-o com o da psicologia e da história. Já Vigotski, para construir seu modelo analítico, parte da sua preocupação com o campo da psicologia, articulando-o com o da sociologia e da história. Cabe mencionar que campos como o da medicina e o da filosofia contribuíram com a formação intelectual ampla desses autores, e que o cruzamento é referente aos campos de conhecimentos, e não de específicas abordagens teórico-metodológicas internas desses campos.

Vigotski: a internalização na constituição do indivíduo

Lev S. Vigotski (1931/1995), no texto "Génesis de las funciones psíquicas superiores", apresenta certamente uma de suas teses centrais: que as funções psíquicas superiores (cultural e específica do homem) não só emergem das funções elementares (primitiva, compartilhada com animais, biológica), mas, sim, da natureza social, e constituem-se na internalização das relações sociais que são convertidas para o plano individual, formando a estrutura psíquica e a personalidade do indivíduo no social.

Funções Psíquicas Superiores (FPS) é aquilo que diferencia o homem de todos os outros animais, demarca sua especificidade e o qualifica como humano. Há quatro diferenças centrais das funções psíquicas superiores em relação às elementares: 1) as FPS constituem—se na vida social, são específicas dos seres humanos e suas ações seguem uma autorregulação (controle voluntário); 2) as FPS possuem intelectualização ou realizações conscientes (isso não descarta a possibilidade de ações 'automatizadas', significando uma relativa consolidação mental na execução de determinados comportamentos); 3) as FPS têm origem e natureza social; 4) as FPS se organizam por meio de signos sociais como mediação.

O interesse de Vigotski pelas FPS está relacionado à sua proposta de desenvolvimento humano para o campo da psicologia. Um importante desafio constitutivo da psicologia vigotskiana refere-se ao seu distanciamento, no início do século XX, tanto das teorias funcionalistas e estruturalistas quanto das biologizantes e mecanicistas. Vigotski busca uma psicologia humana, recoloca no quadro das investigações psicológicas o debate acerca da relação entre natureza e cultura, entre individual e social e, por conseguinte, a relação entre indivíduo e sociedade na dinâmica histórica.

Ao discutir a conversão das funções psíquicas elementares (naturais) em funções superiores (culturais) e como a articulação dessa dinâmica se dá enquanto movimento de formação da personalidade singular de natureza e estrutura social, Vigotski articula princípios teórico-metodológicos fundamentais que o guiam e vão se construindo em suas investigações psicológicas. Um dos princípios é o processo de internalização, apontado pelo autor como parte relevante da análise da natureza sócio-cultural das funções psíquicas superiores.

O processo de internalização é descrito, no texto "Génesis de las funciones psíquicas superiores", a partir de um princípio explicativo conhecido como 'lei de dupla formação' ou 'lei genética geral do desenvolvimento cultural', que foi construída com base nas referências teóricas de Pierre Janet. Essa lei, segundo Vigotski, consiste em:

... pasamos a ser nosotros mismos a través de otros; esta regla no se refiere únicamente a la personalidad en su conjunto sino a la historia de cada función aislada. En ello radica la esencia del proceso del desarrollo cultural expresado en forma puramente lógica. La personalidad viene a ser para si lo que es en si, a través de lo que significa para los demais. Este es el proceso de formación de la personalidad ... el problema de las correlaciones de las funciones psíquicas externas e internas. Se hace evidente aquí, como ya dijimos antes, el por qué todo lo interno en las formas superiores era forzosamente externo, es dicer, era para los demais lo que es ahora para sí. Toda función psíquica superior pasa ineludiblemente por una etapa externa de desarrollo porque la función, al principio, es social. Este es el punto central de todo el problema de la conducta interna y externa. Muchos autores habian señalado hace tiempo el problema de la interiorización, el translado de la conducta al interior (Vigotski, 1931/1995, p.149).

Se a natureza, a estrutura e o funcionamento do psiquismo especificamente humano, mesmo nos seus aspectos mais singulares, são sociais, culturais e históricos, a internalização não pode surgir como forma absoluta em suas possibilidades cognoscitivas (Pino, 2000). A internalização é função e desdobramento da própria história social dos homens, logo é parcial porque é de alguém e surge sempre de uma relação com alguém.

A internalização está interligada ao desenvolvimento cultural que, segundo Vigotski (1931/1995), apoiado em Hegel, pode ser descrito do seguinte modo: a) os indivíduos e as funções se determinam primeiramente pela situação objetiva (em si - algo que está dado); b) o dado em si recebe significação das pessoas que o rodeiam (para outros - emerge representações, cultura, história, coletividade); c) por último, o dado para o outro é significado pelo próprio indivíduo na esfera interna (para si - o indivíduo singular internaliza as significações constituindo o cultural de sua individualidade através dos outros).

A internalização pode ser entendida pela trans-formação de um plano interpessoal em um plano intra-pessoal. Dessa forma, é considerada como o processo de formação da consciência e do psiquismo humano, que só emergem como tal, ou seja, como função, a partir de um substrato material (princípio explicativo) denominado relações sociais. As relações sociais são investigadas, nessa perspectiva teórica, como análise sociogenética (que remete à origem, movimento e às transformações dos processos = história), que é paradigma da proposta em psicologia de Vigotski, a qual busca a fundamentação materialista histórico-dialética como alternativa.

A consciência formada no/pelo processo de internalização representaria, assim, o componente de maior destaque na hierarquia das FPS e seria a própria essência do psiquismo humano, constituída na dimensão ontogenética e filogenética. Na primeira, seria enfatizada a história individual e a social dos processos humanos, bem como a complexa inter-relação dinâmica e as transformações do desenvolvimento entre intelecto e afeto, biológico e cultural, atividade no mundo e representação simbólica e a auto-regulação das emoções diante dos demais. Já na dimensão filogenética, seria privilegiada a história evolucionária da espécie humana; sendo assim, a ocorrência da dimensão onto-genética é parte de suas realizações.

Vigotski revela, em sua proposta analítica, preocupação em articular essas duas dimensões. Entretanto, possibilita-nos a interpretação da internalização como sendo construtora da consciência e constituinte das FPS, tanto nos aspectos do funcionamento cognitivo da singularidade do sujeito, quanto no desenvolvimento psicológico mais geral da humanidade.

Convém ressaltar que o processo de internalização é de ordem social, e, como escreveu Vigotski (1931/1995, p.151), mesmo ao converter-se em FPS segue sendo quase social. Portanto, ele não é uma reprodução do comportamento externo, ou seja, do outro. O funcionamento interno permite diferentes formas de comportamentos, de acordo com o nível de desenvolvimento psíquico e social em que se encontra o sujeito. Isso significa que, entre o plano individual e o social, não há homogeneização e passividade e sim tensões nas quais ambos os planos portariam o papel de ativos, implicando (auto)regulações mútuas no meio social.

Nesse sentido, torna-se inexistente a possibilidade de sobreposição ou oposição entre os dois fenômenos: o que é internalizado do social passa assumir função interna, que orienta o próprio sujeito na interação com a realidade. As FPS, que são internalizadas e orientadoras do para si, mudam a estrutura e a morfologia do indivíduo, que passa reciprocamente a transformar o meio social, a ponto de suas funções representativas diferenciarem-se diante de outras ações e representações, o que provoca um tenso entrelaçamento.

A tensão elucida que a internalização não só torna o indivíduo mais social (socializando), mas, acima de tudo, vai tornando-o mais individualizado (processo de individuação) a partir das relações sociais vividas. A internalização é essa relação paradoxal na qual o indivíduo constrói sua estrutura psíquica, sua personalidade e sua singularidade como os demais ao se individualizar no interior do grupo/sociedade que compõe.

Outro elemento relevante a se destacar no processo de internalização é o mecanismo de mediação semiótica, que, como considera Pino (2000), explica a conversão do social em pessoal. A mediação semiótica está relacionada com os conteúdos cognitivos articulados aos instrumentos e signos, que possibilitam a significação e a interação entre os indivíduos em uma relação (Vigotski, 1934/1993). Assim, a mediação semiótica, o simbólico e o espaço representacional demarcam relações indiretas a partir de processos interativos. Esses processos criam significações culturais que são convertidas em entidade (signo) móvel e variável em função do contexto relacional e que, só tardiamente, são internalizadas e se transformam em meio de influência e regulação sobre si mesmo.

Conforme Pino (2000), é a mediação semiótica que permite ao homem transformar, dar uma nova forma, uma nova significação à natureza da qual ele é parte integrante. É a significação dos instrumentos e dos signos produzida na vida social que se internaliza e que se constitui a estrutura psíquica do indivíduo.

Portanto, o que é internalizado das relações sociais não são as relações materiais, mas a significação que elas têm para as pessoas. Significação que emerge na própria relação. Dizer que o que é internalizado é a significação dessas relações equivale a dizer que o que é internalizado é a significação que o outro da relação tem para o eu; o que, no movimento dialético da relação, dá ao eu as coordenadas para saber quem é ele, que posição social ocupa e o que se espera dele. Dito de outra forma, é pelo outro que o eu se constitui em um ser social com a sua subjetividade... . Se o que internalizamos das relações sociais é a significação que o outro da relação tem para o eu, esta significação vem através desse mesmo outro. O outro passa a ser assim, ao mesmo tempo, objeto e agente do processo de internalização, ou seja, o que é internalizado e o mediador que possibilita a internalização. Esse pode ser o sentido de outra das afirmações de Vigotski: "eu me relaciono comigo mesmo como as pessoas se relacionam comigo" (Pino, 2000, p.66, grifo nossos)

Na perspectiva vigotskiana, a significação é uma das qualidades da condição humana que distingue o homem de todos outros animais. As significações, ao serem internalizadas pelos indivíduos desde a tenra infância, e constituindo as FPS, ativam, em concomitância, a individuação e a integração dos próprios indivíduos na vida em sociedade.

Por fim, no texto "Génesis de las funciones psíquicas superiores", Vigotski (1995) preocupou-se, entre outras coisas, em propor ao campo da psicologia um modelo teórico-metodológico, no qual a concepção de indivíduo está inter-relacionada com a de grupo/sociedade humana. Assim, compreende a singularidade não como unidade fechada, absoluta, independente, estável, que representa um papel homogêneo, mas, sim, interdependente com a diversidade cultural, formando tanto as funções psicológicas como a trama social. O autor entende o indivíduo em construção e não simplesmente como estrutura natural, mecânica e zoológica. No entanto, o próprio Vigotski (1934/1993, p.13) reconhece que ainda são necessárias muitas pesquisas a respeito do processo de internalização formador da consciência do ser humano. Nesse sentido, sua teoria provoca a busca da compreensão de como esse problema foi abordado em outro clássico do pensamento moderno, preocupado com a condição humana: Norbert Elias.

Elias: a individualização no social

Na obra "A sociedade dos indivíduos", Norbert Elias (1994a) sistematizou o problema da relação entre indivíduo e sociedade, inicialmente encontrado na construção do volume 1 do "O processo civilizador" (Elias, 1939/1994b), ao constatar que a busca por padrões de comportamentos tornava-se cada vez mais constante na sociedade europeia ocidental entre os séculos XIII-XVIII. Para o autor, a preocupação da referida sociedade com os hábitos de escarrar, com os costumes à mesa e com as manifestações de agressividade foi estendida a inúmeras gerações ao longo do tempo na direção da vergonha e do constrangimento, distinguindo um grupo social e, posteriormente, o indivíduo de outros segmentos e de outras pessoas.

O processo de individualização, como considera Elias (1980; 1994a), está relacionado com a problemática da interdependência entre indivíduo e sociedade, mais especificamente com a crescente especialização dos indivíduos e das sociedades. Isso não significa que o indivíduo está traçando um caminho livre de qualquer restrição social, pelo contrário, desde a infância ele é condicionado para desenvolvê-la num grau bastante elevado de autocontrole das emoções em função das regulações sociais, que, por sua vez, vão se sedimentando nas sociedades humanas e configurando grupos, tribos e instituições com comportamentos e habitus diferenciados, portadores de um certo poder diluído numa formação social específica.

Elias chama a atenção para um problema conceitual, sinteticamente localizado em duas vertentes do pensamento sociológico. Tanto em uma, quanto na outra, existe a polaridade indivíduo-sociedade, e ambas tendem a entender esses fenômenos a partir de análises mecanicistas ou por meio de modelos extraídos das ciências naturais.

Uma vertente refere-se ao ser humano como produto das estruturas sociais, sendo as ações do indivíduo sujeitas às coerções sociais, isto é, considera a sociedade como algo determinante da mentalidade coletiva ou do organismo coletivo. Já para a outra vertente, os conceitos de indivíduo e sociedade concentram-se, acima de tudo, nos indivíduos entendidos isoladamente como átomos, considerando as ações do sujeito, as estruturas e as leis sociais como nada mais que estruturas e leis das pessoas; desconsidera, portanto, a possibilidade de estruturas e de leis sociais com regularidades próprias interligadas às ações dos indivíduos (Elias, 1994a). Eis aí um problema - indivíduo e sociedade - semelhante ao da galinha e do ovo.

Para Elias, o indivíduo e a sociedade são estruturas diferentes, mas relacionadas por meio de inter-dependências funcionais. Essas interdependências são produzidas e resultantes de um processo humano de longa duração, que não é planejado e nem linear, no qual os indivíduos formam suas estruturas psíquicas e sociais. Por essa razão, Elias considera o homem passível de análise psicogenética e sociogenética.

O conceito de individualização é, ao mesmo tempo, um conceito do indivíduo e da sociedade. Na concepção de Elias (1994a; 1939/1994b; 1987), ele porta as seguintes características:

a) Individualização é um processo contínuo e não planejado, construído nos avanços e recuos do processo civilizador individual, no qual todos os indivíduos, como fruto de um processo civilizador social em construção a longo tempo, são automaticamente ingressados desde a mais tenra infância, em maior ou menor grau e sucesso. Nenhum ser humano chega civilizado ao mundo; o individual é obrigatoriamente social, e vice-versa. Sendo assim, o processo de individualização também é processo de civilização e está em elaboração numa crescente interação e dependência das atividades sociais e psíquicas dos indivíduos no interior das configurações;

b) O conceito de individualização está intimamente ligado ao de autocontrole das emoções, que é o processo que vai da exteriorização à interiorização psíquica. O indivíduo interioriza os sentimentos, paixões, controles e representações produzidos nas relações sociais e em suas atividades mentais e depois ele exterioriza suas representações por meio de comportamentos, habitus e relações de poder. Dessa maneira, pensamento e ação estão interligados no plano individual, em conexão com o social, o qual dirige o individual (e vice-versa) para certo limiar de controle exigido e aceito;

c) Tendo em vista a crescente oferta de oportunidade, o processo de individualização carrega marcas de sucessos e insucessos. O poder de escolher por si, entre outras coisas, é exigência que logo se converte em comportamento, habitus e ideal que são avaliados, tanto no sentido positivo, quanto negativo, na escala de valores sociais. Assim, felicidade e infelicidade jogam em conjunto no mesmo espaço social. Esse movimento entre liberdade de escolha e risco de escolha constitui a estrutura da personalidade e as emoções vividas pelo indivíduo nas sociedades em desenvolvimento, rumo a um nível mais elevado de individualização;

d) Na individualização, existe um indivíduo biossocial que busca ser controlador das forças naturais. No plano filogenético, o biológico parece mais 'sólido' e 'resistente', parece ser cada vez mais controlado e previsto, enquanto o social parece mais mutável e vulnerável às mudanças ao longo da história humana.

A individualização como um modelo analítico não se refere apenas à individualidade psíquica fortemente estruturada pelo 'eu', pelo contrário, a individualização ajuda compreender uma singularidade que é também o 'nós' e o 'eles', é o pessoal e o grupal. Embora o 'eu' seja um traço forte nas sociedades complexas e urbanizadas, só tem sentido na relação com o outro, e diferencia-se e especializa-se construindo uma estrutura de personalidade na aquisição e na significação de alguns signos sociais, tais como nome, diplomas, profissões, modo de comportar-se à mesa e outros atributos individuais. Isto é, o indivíduo vive a tensão de dever ser como os demais ao se distinguir na vida em sociedade.

Assim, na obra A sociedade dos indivíduos, Elias (1994a) discute um problema epistemológico da sociologia que se localiza no enviesar dicotômico para leitura dos fenômenos indivíduo e sociedade. De fato, o autor propõe uma análise do indivíduo e da sociedade na cadeia de interdependência, entrelaçando estrutura social e estrutura psíquica.

O próprio Elias reconhece, entretanto, que não conseguiu resolver por completo, epistemologicamente, o problema relativo à relação indivíduo e sociedade, como declara:

O que nos falta, sejamos explícitos, são modelos conceituais e, além deles, uma visão global graças à qual nossas ideias dos seres humanos como indivíduos e como sociedade possam harmonizar-se melhor. Não sabemos, ao que parece, deixar claro nós mesmos como é possível que cada pessoa isolada seja uma coisa única, diferente de todas as demais; um ser que, de certa maneira, sente, vivencia e faz o que não é feito por nenhuma outra pessoa; um ser autônomo e, ao mesmo tempo, um ser que existe para outros e entre outros, com os quais compõe sociedades de estrutura cambiáveis, com histórias não pretendidas ou promovidas por qualquer das pessoas que as constituem, tal como efetivamente se desdobram ao longo dos séculos, e sem as quais o indivíduo não poderia sobreviver quando criança, nem aprender a falar, pensar, amar ou comportar-se como um ser humano (Elias, 1994a, p.68).

Não fosse o bastante, em seus apontamentos finais, reafirma:

Mas todas essas questões - todo o amontoado de problemas que surgem nesse contexto - só fazem provar mais uma vez de que modo, à luz do crescente conhecimento factual das várias ciências humanas e dos problemas nelas discutidos, se tornou urgente investigar o problema - fundamental - da relação entre sociedade e indivíduo e esmiuçar as noções aceitas associadas a essas palavras. De fato, quando as conclusões dispersas da pesquisa nos vários campos são vistas em conjunto, evidencia-se com clareza ainda maior que as categorias, os modelos conceituais normalmente usados ao se refletir sobre essas questões já não estão à altura de sua tarefa (Elias, 1994a, p.125).

Elias reconhece que não está resolvido absolutamente o problema epistemológico da relação indivíduo e sociedade e instiganos a pensar na seguinte provocação: vamos olhar para os fenômenos, a sociedade e o indivíduo, pela ótica da bipolarização ou pela ótica dos conceitos em construção, os quais não dão conta da problemática em razão da sua complexidade. A segunda opção é a assumida por Elias.

 

Considerações Finais

Um ponto convergente entre Vigotski e Elias é a produção de signos sociais na construção da dupla condição humana. Signos e instrumentos - tais como gestos, vestuários, expressões e inúmeros objetos - nada mais são, para os autores, do que uma atribuição de significado no social e corporificação de um padrão específico de emoções e de comportamentos que, ao mesmo tempo, diferenciam e agrupam os indivíduos em sociedade.

A dupla condição do homem, mediada pelos signos e instrumentos, torna-se possível por meio da dinâmica da complexa interdependência entre o mundo das relações sociais - no qual o indivíduo é produtor - e a formação da consciência do ser individualizado que desempenha múltiplos papéis em configurações não harmônicas.

Os processos de individualização e de internalização colaboram com a formação do psiquismo humano, proporcionando o paradoxo: ser e dever ser, paixões e controles sociais. A significação dos signos e dos instrumentos desenvolve novos costumes, novos comportamentos e novas configurações, e intensifica a regulação e o controle das emoções no plano individual e social.

Dessa forma, Vigotski e Elias possibilitam a observação de como as complexidades desenvolvidas pelos elementos simbólicos estão presentes na constituição da singularidade do indivíduo no processo social. Isso é perceptível, particularmente, quando Elias formula o conceito de individualização, habitus e autocontrole das emoções, e Vigotski formula o conceito de internalização, mediação semiótica e autorregulação.

Ao elaborarem os conceitos de individualização e internalização, os autores preocuparam-se também com o desenvolvimento da espécie humana. Vigotski e Elias, para isso, privilegiaram em suas análises os processos sociogenéticos. Esse processo pode ser caracterizado como histórico, cultural, social, contínuo, dinâmico, evolutivo e regressivo, e depende, principalmente, do aspecto relacional e psicológico dos indivíduos e da estrutura das leis sócio-históricas produzidas em sociedade. Assim, os autores estudaram e consideraram os processos evolutivos da espécie humana na constituição do homem moderno do século XX, tendo em vista, certamente, que cada geração tem suas especificidades e transformações.

Outra convergência entre os dois autores é a ideia de singularidade. Ao construírem o conceito de processo de internalização e de individualização, a concepção de singularidade não significa um 'eu' interior, que é naturalmente forte, independente e separado da diversidade de indivíduos, mas, sim, a relação e a função do indivíduo na vida social.

Portanto, para estudar as singularidades por meio do processo de individualização e de internalização, torna-se significativo escapar da dicotomia individual-social, ou indivíduo-sociedade, proposta pelos modelos teóricos apoiados na metafísica. Assim, indivíduo e sociedade (ou individual e social) são duas entidades diferentes, inseparáveis e mutuamente influenciáveis. A singularidade é processo, está em permanente construção nas estruturas psíquicas e nas relações sociais que proporcionam as representações e significações que os indivíduos têm de si e do meio cultural onde vivem.

Por fim, este artigo reconhece não ter encontrado e discutido todas as convergências entre a teoria de Vigotski e de Elias relativas à complexa análise da constituição do indivíduo em convívio social. Sem dúvida, as questões referenciadas neste artigo sequer se extinguem aqui e possivelmente figurarão em debates futuros. Portanto, fica o desafio para novas investigações que queiram abordar o tema: as convergências e as divergências entre os pressupostos teóricos de Vigotski e de Elias a partir dos conceitos de individualização e internalização.

 

Referências

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Recebido em: 28/4/2009
Versão final reapresentada em: 20/1/2011
Aprovado em: 24/8/2011