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Estudos de Psicologia (Campinas)

Print version ISSN 0103-166XOn-line version ISSN 1982-0275

Estud. psicol. (Campinas) vol.35 no.4 Campinas Oct./Dec. 2018

http://dx.doi.org/10.1590/1982-02752018000400001e 

Editorial

Psicologia da Arte: seção temática

Vera Lúcia Trevisan de SOUZA1 
http://orcid.org/0000-0003-2062-0680

1Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Centro de Ciências da Vida, Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Av. John Boyd Dunlop, s/n., 13060-904, Jd. Ipaussurama, Campinas, SP, Brasil.

Lev Semionovich Vigotski (1896-1934), psicólogo russo considerado o precursor da Psicologia Histórico-Cultural, iniciou suas reflexões e estudos no campo da Psicologia investigando a reação estética suscitada no sujeito que frui uma obra de arte. Esses estudos estão expressos em sua tese de doutorado, concluída em 1925 e intitulada “Psicologia da Arte” (Vigotski2, 1925/1999). O texto, repleto de densas e extensas acepções, sustentadas em referências que revelam a profundidade das reflexões do autor no campo das artes e da psicologia de então, reporta seus esforços para demonstrar a arte como um fenômeno humano, cujas raízes e essência são sociais caracterizando-se, portanto, como mediação potente na relação do homem com a realidade e consigo próprio.

Nesse livro, que só chegou ao Brasil em 1999, Vigotski apresenta uma psicologia que dialoga com áreas como a Filosofia, a Sociologia e a Arte, discutindo questões teóricas e conceitos que não têm sido considerados nas interpretações dominantes de seu trabalho.

Entretanto, recentemente, vários pesquisadores ao redor do mundo têm se dedicado ao estudo e compreensão do conceito de perezhivanie (Cole & Gajdamschko, 2016; Fleer, González Rey, & Veresov, 2017), expressão russa cuja tradução para o português tem sido objeto de muitas controvérsias, mas que conteria a ideia de Vigotski sobre a vivência de emoções. Emoção é justamente um conceito que foi negligenciado em sua obra e cujas bases foram lançadas no “Psicologia da Arte”, conforme se verá nos artigos a seguir.

Vigotski (1925/1999), assim define a potência da arte para fazer viver a emoção:

… a verdadeira natureza da arte sempre implica algo que transforma, que supera o sentimento comum, e aquele mesmo medo, aquela mesma dor, aquela mesma inquietação, quando suscitadas pela arte, implicam algo a mais, acima daquilo que nelas está contido. E este algo supera esses sentimentos… e assim se realiza a mais importante missão da arte

(Vigotski, p.307).

Segundo o autor, a arte retira da vida seu conteúdo, mas ao ser apreciada ela produz, no sujeito, acima desse conteúdo. Ou seja, no contato com a produção artística o sujeito vive as situações e/ou fenômenos nela expressos que, como tal, não pertencem ao sujeito, à sua realidade. No entanto, ele os vive com suas emoções e sentimentos, que são reais. A obra de arte, então,… é uma espécie de sentimento social prolongado ou uma técnica de sentimentos… (Vigotski, p.308). Isto porque, a arte não expressa a vida, seus fenômenos tal como se apresentam na realidade, mas concentra em um mesmo suporte e uma mesma forma, aspectos antagônicos da realidade, subvertendo o tempo e o espaço. É neste sentido que Vigotski (1925/1999) afirma o caráter dialético da expressão artística, que conteria a contradição na própria relação entre forma e conteúdo, entre o representado e a representação. Então, na fruição de uma obra, nas diferentes naturezas de expressão, o sujeito estaria em contato com essa contradição, o que favorece a vivência de emoções – perezhivanie.

… A arte parte de determinados sentimentos vitais mas realiza certa elaboração desses sentimentos… que consiste na catarse, na transformação desses sentimentos em sentimentos opostos, nas suas soluções. ... Ela introduz cada vez mais a ação da paixão, rompe o equilíbrio interno, modifica a vontade em um sentido novo, formula para a mente e revive para o sentimento aquelas emoções, paixões e vícios que sem ela teriam permanecido em estado indefinido e imóvel. Ela ‘pronuncia a palavra que estávamos buscando, faz soar a corda que continuava esticada e muda’

(Vigotski, p.316).

Esse é o sentido de catarse que o autor defende como potencial da psicologia da arte. Nós preferimos chamar de perezhivania, enquanto vivências carregadas de fortes emoções que impactam o desenvolvimento interferindo em seu curso. É o tipo de vivência que confere o caráter de drama ao desenvolvimento, compreendido como revolução que tem o meio como fonte, implicando nessa acepção o conceito de situação social de desenvolvimento que será apresentado no primeiro artigo.

Por compartilhar de muitos desses conceitos, empreendemos esforços para organizar o conjunto de artigos que constitui este tema especial, visando contribuir para o diálogo com pesquisadores que têm investido em estudos que revelam a plausibilidade da psicologia da arte, seja no avanço de novas compreensões e postulações, seja na atuação crítica em contextos coletivos.

O primeiro artigo, A “Psicologia da Arte” de Vygotsky: seu texto fundamental e ainda inexplorado” de Fernando González Rey, apresenta uma análise profunda de algumas questões teóricas e conceituais presentes no livro Psicologia da Arte, remetendo ao contexto de sua produção, e que não têm sido tratadas nas obras do autor ao longo do tempo. Destaca, em especial, os conceitos de “sentido”, “perezhivanie” e “situação social de desenvolvimento”, como acepções que ampliam imensamente a potencialidade do legado do autor para a compreensão de fenômenos como subjetividade, criatividade e motivação.

No segundo artigo, “Ser ou não ser”: a perezhivanie do ator nos estudos de L.S. Vigotski, de Raquel Rodrigues Capucci e Daniele Nunes Henrique Silva, a partir de uma articulação entre os conceitos de Vigotski sobre a arte e a psicologia, notadamente o de perezhivanie e as considerações de Stanislavski a respeito da perezhivanie do ator, as autoras apresentam uma interessante e instigante reflexão sobre os aspectos envolvidos no trabalho criador do ator e os que permeiam os processos psicológicos no desenvolvimento do sujeito, sobretudo em momentos dramáticos, caracterizados por vivência emocional promotora de mudanças de trajetórias.

O terceiro artigo, “A importância do conceito de perezhivanie na constituição de agentes trans-formadores”, de Fernanda Coelho Liberali e Valdite Pereira Fuga traz contribuições da linguística com os conceitos de mobilidade e repertório para dialogar com o conceito de perezhivanie de Vigotski e ampliar a compreensão do processo de desenvolvimento dos sujeitos. As autoras defendem o papel central do conceito de perezhivanie no desenvolvimento dos sujeitos como agentes transformadores de uma sociedade que tem se caracterizado, por vezes, como nociva à capacidade de ação dos sujeitos.

O último artigo, “Psicologia da Arte: fundamentos e práticas para uma ação transformadora”, de Vera Lucia Trevisan de Souza, Lilian Aparecida Cruz Dugnani e Elaine de Cássia Gonçalves dos Reis destaca a arte em sua dimensão humanizadora e em seu potencial para afetar o sujeito, elegendo-a como instrumento de trabalho do psicólogo no favorecimento da constituição de formas mais elaboradas de pensamento e ação sobre o mundo. As autoras sustentam suas proposições nos conceitos de imaginação, emoção e consciência de Vigotski, como funções psicológicas superiores mobilizadas pela fruição da arte pelo sujeito, que tem como central a contradição que a obra encerra em si. Apresentam, ao final, a análise de uma experiência de intervenção realizada com jovens do Ensino Médio noturno em que se evidencia o potencial da arte na promoção do poder de agir do sujeito.

Os quatro artigos apresentados ilustram a potencialidade de conceitos postulados por Vigotski, sobretudo perizhivanie, imaginação, emoção e situação social de desenvolvimento (1896-1934) para a compreensão dos processos de desenvolvimento humano e proposições de ações transformadoras em contextos coletivos diversos.

2A grafia do nome do autor aparece de diferentes formas nas produções brasileiras e estrangeiras. A depender das traduções do russo, ora seu sobrenome é grafado com dois yy – Vygotsky, ora com um no início – Vygotski ou no fim – Vigotsky e, por último, com dois ii – Vigotski. No Brasil, após um período em que se discutiu sobre qual deveria ser a grafia correta, a maioria dos estudiosos do autor tem adotado esta última grafia – Vigotski – e mantido nas citações a forma como aparece nas obras utilizadas.

Como citar este artigo/How to cite this article

Souza, V. L. T. (2018). Psicologia da Arte: seção temática. Estudos de Psicologia (Campinas), 35(4), 333-338. http://dx.doi.org/10.1590/1982-02752018000400001e

Referências

Cole, M. & Gajdamschko, N. (2016). The growing pervasiveness of perezhivanie. Mind, Culture and Activity, 23(4). http://dx.doi.org/10.1080/10749039.2016.1201515 [ Links ]

Fleer, M., González Rey, F., & Veresov, N. (2017). Perezhivanie, emotions and subjectivity: Advancing Vygotsky’s legacy (Vol. 1). Singapore: Springer. [ Links ]

Vigotski, L. S. (1999). Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes. (Originalmente publicado em 1925). [ Links ]

Correspondência para/Correspondence to: V.L.T. SOUZA. E-mail: <vera.trevisan@uol.com.br>.

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