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Trabalhos em Linguística Aplicada

On-line version ISSN 2175-764X

Trab. linguist. apl. vol.47 no.2 Campinas July/Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-18132008000200006 

ARTIGOS

 

Reordenação de identidade de imigrantes árabes em Foz do Iguaçu1

 

Arabian immigrants identities reordering in Foz do Iguaçu

 

 

Regina Coeli Machado e Silva

Professora de Sociologia e Antropologia na graduação e pós-graduação em Letras, na UNIOESTE/Paraná, Brasil e Doutora em Antropologia Social pela UFRJ/Museu Nacional. coeli.machado@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Apresentando reflexões sobre as identidades de grupos pertencentes à comunidade árabe em Foz do Iguaçu, pretende-se, neste artigo, evidenciar que ser árabe, nesse contexto, não constitui uma identidade claramente definida. Em um jogo constante de reordenação, tornando móveis seus limites, essa identidade é demarcada por diferentes significados, incluindo e excluindo esse grupo, heterogêneo, na interação local. A exclusão é visível no cultivo da língua, das religiões e nos movimentos políticos (apoio à causa palestina) e a inclusão torna-se perceptível nas festas e rituais públicos. Como representações mentais, atos de percepção, de conhecimento e reconhecimento, tais identidades têm seus limites constantemente reordenados pela organização, classificação e valorização de diferentes níveis da experiência vivida neste contexto.

Palavras-chave: identidades; imigração; classificação social; Foz do Iguaçu.


ABSTRACT

Featuring reflections on identities of groups belonging to the Arab community in Foz do Iguaçu, it is intended, in this article, to show that being Arab, in this context, is not a clearly defined identity. In a game of constant reordering, making mobile its limitations, this identity frontier is established by different meanings, including and excluding this heterogeneous group, within the process of the local interaction. The exclusion is visible in the cultivation of language, of religions and political movements (support for the Palestinian movement) and the inclusion becomes visible in public festivals and rituals. As mental representations, acts of perception, knowledge and recognition, such identities have its limits constantly reordered by the organization, classification and valuation of different levels of experience lived in this context.

Keywords: identities; immigration; social classification; Foz do Iguaçu


 

 

INTRODUÇÃO

Vivemos em um mundo no qual é cada vez mais visível o pluralismo dando formato às experiências coletivas em todas as dimensões sociais - sejam aquelas mais amplas, culturais ou políticas, ou sejam as mais locais, educacionais ou religiosas. Esse pluralismo tem suscitado uma aguda percepção das experiências como descentradas. Se neste contexto parece difícil esboçar a idéia de uma organização mundial, fácil é ver as identidades por toda parte como inapreensíveis. Contudo, seria muito desencorajador ter como premissa a idéia de que, na impossibilidade de apreender um mundo estilhaçado, deveríamos nos contentar com um de seus estilhaços. Afinal, podemos partir de um estilhaço, mas ele não terá significado algum reduzido a ele mesmo. É o contrario disso que procuro mostrar aqui refletindo sobre as identidades da comunidade árabe em Foz do Iguaçu, cidade que cristaliza, em primeiro lugar, a idéia de fronteira por sua localização entre três países - Brasil, Argentina e Paraguai. Contudo, justamente esse aparente realismo geopolítico parece perder o significado no jogo de classificação entre as diferentes identidades. Em segundo lugar, essa posição no espaço, que também é uma posição política e cultural, expressa bem as dificuldades de tornar visíveis os diferentes grupos de imigrantes. Tal realismo geopolítico - a cidade de fronteira entre três países - convive, de maneira surpreendente com o seu oposto: a percepção vívida da diversidade experimentada em Foz do Iguaçu, cujas razões advêm da sua história, feita de migrações sucessivas. Ela é explicitada por meio de uma das categorias de percepção imediata, elaborada pelos moradores sobre a cidade, que vêem Foz do Iguaçu como um lugar atípico. Na mesma direção há a elaboração dos meios de comunicação de massa, principalmente da televisão e dos jornais nacionais, que descrevem a cidade/região como sendo inteiramente voltada para atividades ilícitas no comércio e dotada de uma cultura de fronteira (cf. expressão do jornal Gazeta do Povo, 13/05/01).

Deste modo, considerando a reordenação da identidade da "comunidade árabe" em Foz do Iguaçu, marcada pela heterogeneidade cultural, e as categorias de percepção nativas sobre a sociabilidade vivida na cidade - vista como "atípica" - quero evidenciar as oscilações no jogo de demarcação dessa identidade, focando suas fronteiras móveis. Sendo ela também heterogênea, atualiza-se em diferentes níveis, internamente e externamente. As demarcações mais óbvias podem, assim, ser deslocadas por outras, dependendo da situação em que uma ou outra demarcação é colocada em jogo.

 

A IMIGRAÇÃO ÁRABE EM FOZ DE IGUAÇU

Antes, porém, de me deter nessas controvérsias, é importante descrever minimamente a imigração árabe em Foz do Iguaçu e seus grupos. Para esta descrição, utilizo fontes obtidas de observação direta e de entrevistas, recursos utilizados em situações inteiramente diferentes no decorrer da pesquisa. A observação direta, mesmo constante, padece do mal de ter sido feita de um ponto de vista externo, do lado de fora, condição derivada da minha posição como moradora da cidade, cada vez mais interpelada por esses grupos através da presença e do convívio rotineiro nesse espaço. As entrevistas, ao contrário, foram resultantes de decisão metodológica deliberada, cujo objetivo era abordar o movimento de emigração e imigração em sua dupla dimensão, ao mesmo tempo fato coletivo e de itinerário individual. Mesmo relativizadas, as entrevistas se revelaram um recurso problemático para investigar a imigração nesta situação particular de fronteira. Minha aceitação como pesquisadora supunha sempre uma vigilância constante a respeito da minha identificação pessoal, problema parcialmente atendido mediante a justificativa de que se tratava de um trabalho para a universidade e da apresentação de uma credencial emitida pela unidade acadêmica-admistrativa a que estou vinculada. Se este é um problema recorrente em qualquer entrada em campo de pesquisa, em Foz do Iguaçu parecia haver um elemento complicador pelas seguintes razões: a primeira refere-se à desconfiança quanto aos interesses da pesquisadora, aparentemente injustificável se olharmos do ponto de vista da situação legal e jurídica, pois grande parte dos imigrantes vive legalmente na cidade, principalmente os mais velhos. No caso dos mais jovens, se uma das estratégias utilizadas para entrar no país era o visto de turista, chegando diretamente em Foz do Iguaçu ou desembarcando na Argentina, essa situação se resolvia assim que recebiam anistia do governo brasileiro ou contraiam casamento com um(a) descendente nascido(a) no Brasil. A segunda razão que contribuiu para dificultar a realização das entrevistas está relacionada à vinculação da idéia de que esse espaço, a fronteira, que corresponde às cidades de Foz do Iguaçu, Ciudad del Este e Puerto Iguassu, aparece publicamente como um ponto altamente crítico não somente devido a essa associação da comunidade com aos conflitos do Oriente Médio e da denúncia de grupos extremistas islâmicos aí radicados, mas também pelas práticas de contrabando, de tráfico de drogas, de lavagem de dinheiro e pirataria de patentes2.

Essas duas razões, porém, convergem para um ponto que torna vulnerável a condição desses emigrantes diante de um "investigador", se considerarmos, primeiro, as estatísticas oficiais de entrada de estrangeiros no país. Segundo Baeninger e Leoncy (2001), de 1993 a 1997 a autorização de trabalho para estrangeiros, e sua distribuição nos estados, referem-se, principalmente à "reconcentração da indústria" no país voltada especialmente para indústrias de alta tecnologia. Embora o Paraná ocupe a 4ª posição nesta distribuição - depois de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais - não há registro de autorização de trabalho para estrangeiros oriundos de países árabes, como Líbano, Jordânia e Síria. Essa ausência poderia ser explicada, em parte, pelo mesmo motivo que outros estrangeiros estão presentes e são registrados em outros estados, como São Paulo, onde a autorização de estrangeiros para o trabalho é dada para o desempenho de ocupações de natureza técnica, administrativa e desportistas. Em segundo lugar, como os imigrantes de origem árabe estão todos vinculados ao comércio, seja em Foz do Iguaçu ou Ciudad del Este, o controle do fluxo de mercadorias e pessoas, através de mecanismos de regulação da fronteira, coloca tudo e a todos em constante situação de suspeita. Esse controle faz parte da constituição do Mercosul a partir da década de 90 e inclui organismos de segurança com interesses políticos e econômicos supranacionais (Rabossi, 2001, Presser, 1996, Kratochwil, 1996).

Como se pode notar, as dificuldades envolvidas no trabalho de campo são reveladoras das "ilusões" (expressão de Said, 1998) a que a imigração está associada, pois, enquanto deslocamento, ao mesmo tempo social, moral e político, desfaz, pondo em causa, os fundamentos da cidadania e as justificações que pretendem defender essas ilusões em nome das identidades de origem nacional, lingüística ou étnica. Esse desafiante jogo de classificação, cujas fronteiras são constantemente reordenadas por estas clivagens, faz com que as razões da imigração, que se encontram escondidas, também encontre um desdobramento surpreendente pela visibilidade dessas classificações. Um desses desdobramentos é justamente a ilusão da neutralidade política, cultivada por aqueles que tentam explicar a imigração como sendo motivada pela aventura, pelas necessidades de sobrevivência e pelo trabalho, como também fazem os imigrantes árabes em Foz do Iguaçu.3

Essa é uma das explicações dos entrevistados que emigraram no final da década de 1960 e durante a década de 70, e que relatam a vinda para o Brasil como conduzida pelo ímpeto da juventude (vim por aventura, ficar pouco tempo e voltar). Também faz parte da racionalização desses imigrantes o relato de que vieram sozinhos, mas a escolha do destino, invariavelmente, foi sempre determinada pela presença de parentes no Brasil. Nesse grupo de entrevistados, que pode ser identificado como o da primeira geração de imigrantes a se estabelecerem em Foz do Iguaçu, parece haver um mesmo eixo de chegada e de acomodação: a chegada no Porto de Santos, em São Paulo, a permanência provisória na capital (São Paulo) e as atividades de mascates pelo sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina, norte do Paraná, para, finalmente, se estabelecerem em Foz do Iguaçu.

Estas condições da imigração coincidem, como também são partes indissociáveis, da imigração de sírios e libaneses para São Paulo, estudada por Truzzi (1991). A chegada em São Paulo dos primeiros desses imigrantes, iniciada no final do século passado, apesar de não anular as tensões pregressas da "terra natal", construiu uma sociabilidade autocentrada em numerosas instituições e associações que recriavam um sentimento de ligação com os países de origem. Embora Truzzi esteja se referindo à presença de imigrantes em São Paulo nas três primeiras décadas do séc. XX, é isso o que nos permite entender as referências da chegada dos imigrantes a esta capital, antes de se estabelecerem em Foz do Iguaçu. Esse autor também aponta a mascateação como um padrão ocupacional de inserção dos sírios e libaneses no Brasil, embora, e este é outro dado coincidente com esta primeira geração de imigrantes em Foz do Iguaçu, fossem oriundos de pequenas cidades e dedicassem à agricultura. A atividade de mascate impunha grandes dificuldades para a inserção, aspecto ressaltado pelos entrevistados ao relatarem que tudo era difícil, pois essa atividade, necessária para garantir a própria sobrevivência, exigia o aprendizado tanto da língua portuguesa quanto das transações comerciais, pois se dedicavam às atividades ligadas ao cultivo agrícola.

A figura do mascate, ligada à imigração árabe no Brasil (Truzzi, 1991), consolida a idéia do comércio como uma atividade que abre espaço para estrangeiros, mesmo em comunidades de atividades econômicas tradicionalmente ligadas à indústria e à agricultura. As atividades comerciais, ou o "negócio", como apontou Simmel, reúnem, por sua vez, várias condições da imigração. Uma das esferas privilegiadas de interação e coordenação do estrangeiro na comunidade, o comércio facilita a entrada em grupos mesmo em lugares em que as posições econômicas estão ocupadas, seja na indústria ou na agricultura (Simmel, 1983). Segundo um entrevistado, "onde o árabe tem um negócio, é ali que ele deve ficar".

Esta situação parece se repetir em Foz do Iguaçu e pode ser visualizada no próprio aumento da densidade populacional, entre as décadas de 1970 a 1980, impulsionando o comércio local e transfronteiriço. Esse período corresponde ao início da construção da Usina Hidroelétrica de Itaipu, impulsionando o comércio duplamente: primeiro pelo desenvolvimento de bens de serviços para atender as necessidades deste Grande Projeto e, segundo, pelos acordos bilaterais celebrados entre o Brasil e o Paraguai. Esses acordos reforçaram a abertura dos portos brasileiros ao Paraguai e ajudou a consolidar, neste país, quase 20 anos depois, um importante centro comercial. Para se ter uma idéia da importância deste comércio, no biênio 1994/1995 o movimento econômico em Ciudad Del Este foi de 12 bilhões de dólares4 e isto colocou a cidade paraguaia como a terceira cidade comercial do mundo, depois de Hong Kong e Miami (Rabossi, 2001). Esse comércio atravessou e atravessa a fronteira abastecendo, com diferentes produtos importados, inúmeras cidades no Brasil e na Argentina. No Brasil, em quase todas as cidades grandes e de médio porte há o que se convencionou chamar de paraguaizinho, um local freqüentemente regulamentado pelas prefeituras locais para concentrar barraquinhas e camelôs para vendas de produtos vindos do Paraguai. Segundo o jornal Gazeta do Povo, em 2001, um levantamento da Receita Federal mostrou que "toda semana cerca de 800 ônibus de sacoleiros saem de Ciudad del Este com a média de US$ 20 milhões em produtos ilegais que são injetados no mercado informal das cidades brasileiras".5 Por tudo isso, o comércio, tanto do lado paraguaio quanto brasileiro, é o grande eixo no qual estão concentradas as atividades dos imigrantes residentes em Foz do Iguaçu, situação que parece se repetir na fronteira do Brasil com Uruguai, com a imigração palestina na fronteira do Chuí/RS (Jardim, 2000).

Atribuir às atividades comerciais as motivações para o deslocamento parece ser reconhecido como um dos grandes impulsos integradores que unifica a "ilusão" da imigração frente aos moradores da cidade, pois identificam a comunidade de grupos árabes como comerciantes. Os outros motivos que colaboram para essa unificação são a língua, escrita e falada, e as profissões de fé religiosas Se esses marcadores podem simplificar a auto-apresentação desses grupos, e com isto atuar como forma de exclusão nas interações locais, dando-lhes reconhecimento de dentro para fora, é porque essa aparente unidade não deixam visíveis suas divisões internas.

Embora não se tenha feito ainda uma etnografia cuidadosa sobre estas divisões, elas podem ser observadas em seus desdobramentos no espaço urbano e social da cidade através do grande número de instituições e associações que as ratificam pelas diferenças. Do ponto de vista religioso, há a mesquita Omar Ibn Al-Khatab, sunita, mais antiga, oficialmente inaugurada em 23 de março de 1983, e uma mesquita xiita, Sociedade Beneficiente Islâmica, as duas localizadas no mesmo bairro, no Jardim Central. Há também a Igreja Cristã Árabe e a Igreja Adventista Árabe, com seus respectivos rituais religiosos.

No caso das duas primeiras mesquitas islâmicas, as celebrações rituais são um dos meios para objetivar as clivagens religiosas da comunidade árabe, como, por exemplo, no caso dos xiitas, que anualmente celebram o Achura. Frequentemente no mês de março, durante uma manhã, homens, mulheres com seus véus islâmicos e crianças, todos usando trajes pretos em sinal de luto, chegam à mesquita para participar da celebração. Maior festa do calendário xiita, o Achura celebra o aniversário da morte do imã Hussein, neto do profeta Maomé, numa batalha no século VII. Achura é o décimo dia do mês lunar de muharram, dia em que Hussein e seus seguidores pereceram em combate perto de Karbala, no ano 680, por se recusarem a jurar lealdade ao califa Yazid. Hussein foi decapitado e sua cabeça levada para Damasco, capital da dinastia omíada, rival dos descendentes diretos do profeta Maomé pelo poder no nascente mundo islâmico.

A morte de Hussein marcou definitivamente a divisão da comunidade muçulmana entre os sunitas, seguidores da tradição, e os xiitas, partidários de Ali, pai do imã e genro de Maomé, cujo assassinato, 19 anos antes, deu origem ao cisma que ainda hoje separa as duas comunidades. Os sunitas também celebram o Achura, mas com menos fervor do que os xiitas, que têm na data seu maior festival religioso de massa. Durante a cerimônia, os fiéis xiitas batem com chibatas no peito e na cabeça, fazendo-lhes cortes, para mostrar sua dor e ecoar o sofrimento do imã Hussein. A festa era proibida durante a ditadura de Saddam Hussein (1979-2003), mas voltou com toda força após sua queda.6 O Ashura é celebrado nos países em que há significativas comunidades xiitas, como no Irã, no Iraque, no Afeganistão, no Azerbaijão, em Bahrein, no Líbano, no Paquistão, na Arábia Saudita e na Síria.

A comunidade islâmica sunita, por sua vez, também celebra as principais festas do calendário islâmico, com a presença estimada em torno de 2000 fiéis, sempre. Entre elas está a festa de encerramento da peregrinação, que é marcada por um festival, o Eid-Al-Adha, celebrada com orações e troca de presentes entre as comunidades islâmicas e o Eid-al-Fith, uma festa comemorando o final de Ramadan. Na festa do encerramento da peregrinação, considerado um Dia de Sacrifício, há sempre distribuição de carnes bovina para as entidades beneficentes e assistenciais, celebração que se tornou uma tradição, amplamente divulgada nos meios de comunicação da cidade.

Pertencem ainda à comunidade árabe duas escolas. Uma delas é ligada ao Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu, uma organização cultural e científica, localizada em frente à mesquita sunita. Tem como meta "divulgar o Islamismo, a cultura e a civilização árabe", "distribuir matérias de cunho moral e didático para a imprensa brasileira" como, por exemplo, material escrito que versa sobre a contribuição árabe à civilização mundial. Essa escola, de ensino fundamental, ensina a religião sunita e a língua árabe. A segunda escola, a Escola Brasileira Árabe, iniciou-se há três anos, com autorização da Secretaria Estadual, e desenvolve atividades de ensino fundamental e de segundo grau, com estrutura curricular condizente com as exigências do Estado. A única particularidade dessa escola em relação às demais do município é a introdução do árabe como língua estrangeira. Além disto, há, na cidade, três canais árabes disponíveis na televisão fechada, um site7 de divulgação do islamismo mantido por um importante empresário, representante da comunidade árabe na cidade, e três cursos particulares de ensino da língua árabe. Há também horários fechados para mulheres muçulmanas em academias locais de natação e de hidroginástica. São nestas academias, principalmente, que as diferenças entre as mulheres xiitas e sunitas aparecem, tendo como núcleo, além da religião, a participação diferenciada no mercado de trabalho, pois as mulheres xiitas, segundo as sunitas, não trabalham, não freqüentam escolas e dedicam-se exclusivamente aos filhos e ao marido. Como conseqüência dessa participação limitada nos assuntos públicos, as mulheres xiitas têm mais dificuldades para aprender o português.

Ao lado desses tipos de divisão interna que desfaz a ilusão da existência de uma comunidade árabe única em Foz do Iguaçu, há aquelas que provêm das identificações com os países de origem, modo como os grupos são identificados à nação, referindo-se uns aos outros como libaneses, palestinos e sírios no convívio diário.

No entanto, há eventos públicos em que as linhas de demarcação entre esses grupos de imigrantes convergem, sobrepondo os princípios da constituição destes grupos frente aos grupos nacionais, reordenando suas referências para além da suas clivagens internas. Essa convergência das linhas de demarcação aparece nos rituais públicos, festas que demonstram, inscrevem, e objetivam as identidades da "comunidade árabe" em relação ao contexto da cidade e da nação, ritualização que acaba por estabelecer uma fusão com a própria história de Foz de Iguaçu, feita de migrações sucessivas. Refiro-me às feiras municipais anuais que "celebram" justamente essa diversidade - a FERNATEC (Feira das Nações, Artesanato, Turismo e Cultura) e a FARTAL (Feira de Artesanato e Alimentos). A FENARTEC é promovida pela Câmara Júnior de Foz do Iguaçu com apoio da Fundação Cultural do município. Essas feiras objetivam difundir a "cultura" e os "costumes nativos" e contam com a participação de representantes de várias nações para um "congraçamento dos povos da fronteira". Nelas ocorrem apresentações de danças com trajes típicos, mostras de gastronomia, shows artísticos e folclóricos para divulgar o turismo regional e é também feira de negócios. A FARTAL é promovida pela Prefeitura Municipal através da Fundação Cultural e tem como objetivo ampliar o mercado de trabalho do artesão, bem como mostrar as diversidades culinárias da Tríplice Fronteira.

Essas feiras, também eventos festivos, aparecem como momentos privilegiados em que todos se relacionam pelas suas diferenças, ao mesmo tempo em que essas diferenças são apresentadas e aceitas como tais. São, portanto, objetivações da auto-representação da cidade construídas, sobretudo, pelo poder público, significando a cidade um "lugar de encontros entre diversos povos". Tais ritualizações dessa auto-representação parecem indicar, de modo inverso, mas complementar, a caracterização da cidade como "atípica", expressão que sugere a dificuldade de encontrar uma identidade dominante e legítima aceita por todos.

 

FOZ DO IGUAÇU: UMA CIDADE DE "TODOS NÓS"

Um dos fundamentos da construção dessas auto-representações de Foz do Iguaçu, além da sobreposição e do entrecruzamento entre diversos grupos pela situação de fronteira, pode ser encontrado na própria história da cidade. Ela começa pela localização em uma fronteira tríplice - constituída pelo Brasil, Argentina e Paraguai - unida às outras duas cidades por pontes - Puerto Iguaçu e Ciudad del Leste - situação que por si mesma seria um tema interessante porque, em situação de fronteira geopolítica impõe, de uma forma geral, um cenário privilegiado8. Como mostrou Oliveira (2000, p.16), essa "situação de fronteira" é vivida quando indivíduos e suas famílias vivem compulsoriamente o contato com o Outro, com aquele que está "do outro lado", submetido a outras leis ditadas por um outro Estado Nacional,9 a outros costumes e a outros idiomas e seriam exemplos privilegiados de interação intercultural e interétnica.

No entanto, nesse universo, parece haver outros determinantes que complexificam a situação de fronteira geopolítica, pois a essa situação de alteridade compulsória soma-se o problema de qual trata este artigo: de Foz do Iguaçu ter constituído sua "peculiaridade", historicamente, como um espaço que abriga diferentes grupos de imigrantes oriundos de diversas nações e regiões do Brasil. Daí, talvez, mais uma das razões que explicam a expressão nativa, constantemente reiterada, de que "Foz é uma cidade atípica", principalmente quando se discute algum problema sobre a vida e o convívio cotidiano na cidade.

Concomitante a esta afirmação, que parece ser elucidativa das dificuldades envolvidas nas estratégias para o reconhecimento de uma identidade dominante e legítima, coloca-se outra, que pretende construí-la em um sentido inverso: uma das evidências mais interessantes desse esforço de se constituir como uma "cidade atípica", mas também como espaço de convivências de alteridades, é o apelo público e oficial da Prefeitura Municipal, dirigido aos moradores para participarem da vida cívica, jurídica e legal da cidade, através do emblema "Foz é de todos nós". Diferentemente das condições do imigrante argelino na França, estudadas por Sayad (1998), onde o imigrante será sempre imigrante e estrangeiro, aqui o esforço parece ser o de constituir - pelo menos nessa esfera do poder oficial e legítimo - o imigrante na condição de cidadão (em seu significado universalista da nação, herdeiro do iluminismo francês). Esse emblema também parece expressar o reconhecimento público de um elemento marcante da formação da sua estrutura urbana, constituída pela história da chegada de sucessivos grupos, nacionais e estrangeiros, que emigraram em busca de oportunidades e de outras inúmeras razões.

Como se sabe, indivíduos e grupos que optam pela emigração, independente das circunstâncias, têm como condição primeira a realização de um ato de abandono de suas origens, sejam familiares, nacionais ou culturais. Não deixa de ser significativo, portanto, que essa experiência tenha sido objeto de conhecimento e reconhecimento através das percepções envolvendo a origem da cidade, expressas na narrativa da "Lenda das Cataratas", que não remete propriamente à cidade, mas está presente em seu cotidiano através de monumentos que recriam a lenda, nos nomes das ruas e nos livros das escolas municipais. Trata-se da história de dois jovens que abandonam sua tribo, fugindo do destino - sagrado e coletivo - a eles designado, em busca da realização amorosa e em direção ao "El-Dorado".10 Segundo Wilson Pinto (1967), na lenda, o "El-Dorado" eram as terras encantadas onde viviam as aves sagradas do Tupã, os ventos eram amenos e o sol brilhava com suavidade. Há inúmeras versões dessa lenda, nos livros de história da cidade e do Paraná, que são transmitidas nas escolas do ensino fundamental e médio, bem como há as versões veiculadas nos serviços turísticos, que transformaram essa "tradição" em mercadoria de consumo.11

Uma das interpretações possíveis dessa lenda seria entendê-la como uma narrativa da realização desse ato de abandono que guarda, a exemplo do estudo de Viveiros de Castro e Araújo (1977) sobre Romeu e Julieta, relações profundas com os valores básicos da cultura ocidental, dentre eles a noção do amor. Essa noção expressa uma das concepções da relação entre indivíduo e sociedade, cuja imagem é a do indivíduo liberto dos laços sociais, e o que é valorizado são as relações interindividuais. O amor é visto como uma relação entre indivíduos, despidos de qualquer referência ao mundo social e mesmo contra ele (op.cit.). Porém, o itinerário seguido pelos jovens Naipi e Tarobá, abandonando a tribo em busca desse amor, ficou suspenso no tempo. Trata-se de um itinerário sem qualquer expectativa de retorno - o contrário do itinerário vivido por Ulisses que, interpretado com um olhar contemporâneo, deve ser lembrado para dele extrair experiências do que sofrera (Calvino,1993).

Será justamente a imposição do tempo cronológico e linear e de um espaço bem demarcado que irá se sobrepor a essa lenda através da história da cidade, com a presença de imigrantes e descendentes. Esta passa a ser contada como a história da formação de um espaço geopolítico, intimamente associado à instituição do Estado Nacional, trazendo consigo a presença do estrangeiro como resultante do esforço de legitimação do que seria nacional - o brasileiro, presente na fundação do núcleo urbano, um espaço separado das Cataratas. Como demonstrou Gregory (1997), o atual centro urbano de Foz do Iguaçu, cidade mais antiga da região, embora tenha sido sempre habitada pelos Caingangues durante a colonização portuguesa, foi fundado em 1889, na forma de uma Colônia Militar, por motivos estratégicos politicamente e para garantir segurança nas fronteiras do território nacional. A história recente da colonização do Oeste do Paraná se iniciou aí, com a intensa presença de estrangeiros. Os poucos brasileiros legitimavam e asseguravam a presença do Estado, exercendo funções públicas de fiscalização e cobrança de impostos.12 Posteriormente, em 1924, por ocasião da passagem dos revoltosos tenentistas da Coluna Prestes na região, várias ações foram desencadeadas com o objetivo de proteger as fronteiras e, em 1930, quando Getúlio Vargas assumiu o governo com o apoio dos militares, incluindo os que combateram a Coluna Prestes, adotou medidas drásticas de tendência nacionalista.13 Através de decreto, impunham-se dificuldades à entrada de empresas estrangeiras e se exigia que as empresas em Foz do Iguaçu tivessem no mínimo dois terços de trabalhadores brasileiros, dificultando o ingresso e a permanências de estrangeiros - no caso específico, paraguaios e argentinos, submetidos a outros Estados Nacionais, mas residentes nos limites com o Brasil.

É também da era Vargas a criação da chamada "Marcha para o Oeste", política de ocupação brasileira no território de fronteira com a Argentina e com o Paraguai. Várias estratégias são adotadas e, dentre elas, a necessidade de intensificar o povoamento intensivo, promovendo o aproveitamento das riquezas naturais através da colonização de suas terras. Inteiramente inserida nos objetivos desenvolvimentistas do governo federal e estadual, a colonização prevista deveria ser baseada na pequena propriedade e ter um sentido agro-industrial. Mas até a década de 40, momento da intensa migração14, houve a ocupação das terras de modo esporádico, por colonos advindos das velhas colônias de imigrantes europeus do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Esse mesmo processo migratório foi depois privilegiado pelas empresas de colonização, com o propósito de evitar que "aventureiros" e "parasitas" penetrassem no novo meio. Os migrantes ideais seriam recrutados entre os colonos do Sul, de origem européia, "pacatos", "subordinados ao trabalho", "verdadeiras máquinas de produzir o progresso".15 Para estes, a mudança, da colônia antiga para a nova, também implicava em rompimento, em abandono. Como descreve Gregory (1997), por um longo tempo as famílias viviam na condição de provisoriedade: primeiro, a reserva de um lugar, e depois a construção de um rancho, igualmente provisório, na forma de instalações mínimas que seriam ampliadas. Por um motivo ou por outro, que cabe investigar melhor, foram alguns dentre estes "duas vezes estrangeiros" que iniciaram o núcleo urbano, com funções ligadas não mais à pequena propriedade. Assim, começaram ocupando-se dos serviços urbanos e depois do comércio, até o momento em que se iniciou a construção da hidrelétrica Itaipu Binacional,16 que trouxe outro enorme fluxo de migrantes, de diversas regiões do Brasil e de outros países.

A construção dessa usina foi peculiar, por suas características gigantescas e pelo tempo em que foi construída. No auge da construção da Usina Hidrelétrica Itaipu havia uma "população de estranhos" (expressão de Ribeiro, 1988), constituída por 40 000 trabalhadores isolados de suas redes sociais e culturais anteriores. Também aí havia um constante esforço em tornar realidade convincente essa empresa totalizadora. Por meio de estratégias de legitimação, a idéia era construir a aparência de uma sociedade igualitária, ainda que temporária, na qual o objetivo comum fosse capaz de destruir as divisões de classe e as diferenças culturais, unificando a todos sob a bandeira do progresso. Como no caso dos colonos imigrantes, "duas vezes estrangeiros", uma grande maioria da mão de obra contratada no canteiro de obras de Itaipu era constituída por barrageiros, mão de obra itinerante das barragens anteriores17 e ex-candangos de Brasília, ambos considerados como experientes, "velhos conhecedores da construção civil".18

Foram nos últimos 30 anos que a cidade passou a receber um grande número de imigrantes de origem árabe libaneses, palestinos, sírios, jordanianos, bem como chineses, coreanos e, em número bem menor, hindus e portugueses. Foz do Iguaçu foi escolhida para morar, embora as oportunidades de trabalho no comércio se encontrassem em Ciudad del Leste, Paraguai, unida à Foz do Iguaçu pela Ponte da Amizade, onde trafegam milhares de pessoas por dia.

As oportunidades abertas pelo comércio, facilitam a entrada de grupos estrangeiros mesmo em lugares nos quais as posições econômicas estão ocupadas e, por isto, são uma das esferas privilegiadas de interação e coordenação do estrangeiro em qualquer comunidade (Simmel,1983), sobretudo nessa região, devido ao fato de Ciudad del Este ter se constituído, como foi mencionado, em um importante centro comercial.

Como resultado desse processo histórico rapidamente descrito, Foz do Iguaçu conta uma população constituída atualmente por 279 620 habitantes.19 Seu cotidiano é marcado pelo cosmopolitismo, visível em sua estrutura urbana: além dos espaços sociais dos grupos da comunidade árabe, há, na cidade, um templo budista, igrejas evangélicas e católicas, clubes específicos e associações atuantes - dos portugueses, dos japoneses, dos coreanos, dos italianos e outras menores, como a associação franco-brasileira.

Isto nos reenvia para outro importante tipo de divisão interna que contribui não só para construir a ilusão de uma comunidade árabe como um ato de reconhecimento reordenando-se frente a outros, brasileiros, paraguaios e moradores da fronteira, mas também para solidificar as auto-representações da cidade como "de todos nós", que são as freqüentes manifestações políticas de protesto contra o terrorismo israelense. Aí são os "árabes da fronteira (que) pedem paz na Palestina", são "eles" que lembram o dia da Naqba (catástrofe), como se referem à fundação de Israel. O jornal Gazeta do Iguaçu descreveu, em 16 de maio de 2001: "cerca de 500 pessoas participaram ontem em Foz do Iguaçu de passeata organizada pela colônia árabe na fronteira para protestar contra a criação do Estado de Israel ocorrida em 15 de maio de 1948. A mobilização foi organizada por oito entidades árabes de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este e contou com a participação solidária de lideranças políticas e sindicais iguaçuenses". O líder do movimento justificou a passeata como forma de protesto contra a criação do Estado de Israel e contra o descaso em relação aos massacres feitos na Palestina, injustiça diante da qual não podem ficar calados, pois "cerca de 3,7 milhões de refugiados palestinos registrados na ONU não têm como voltar". Vereadores municipais participaram do evento, afirmando serem solidários ao movimento, e os manifestantes conduziam à frente as bandeiras da Palestina, do Líbano e do Brasil, revezando-se em discursos proferidos, tanto em árabe, quanto em português.

O paradoxo latente da imigração sustentado à custa de ficções, o imigrante árabe, de fora, aparece, então, destituído de suas linhas de identificação internas diante do cidadão nacional, o de dentro. Mas, no mesmo momento em que esta classificação de o imigrante árabe está instaurada, como mostra a descrição da passeata, ela é reordenada, para se reafirmar os dois reconhecimentos paradoxais: descendentes de partes de territórios ocupados por Israel - Líbano, Cisjordânia e Síria - que, na manifestação, também são "gente que, mesmo sem renegar suas origens, sente-se tão brasileira e iguaçuense como nós".

Um dos momentos em que esta sobreposição vertiginosa de identidades mais esteve em evidência está relacionado à acusações de que haveria "elementos ligados a grupos terroristas árabes em meio a uma população estimada em 20 mil dessa descendência", depois do ataque ao edifício World Trade Center em Nova York. Houve uma intensa movimentação local que, entre diversas ações, resultou em um filme que tematizou essas relações e instituiu um festival de humor anual em Foz do Iguaçu.20 Parte da justificativa para essa movimentação, conduzida por comerciantes, hoteleiros e pelo poder público locais estavam alicerçadas no receio de que os boatos sobre a presença de células terroristas em Foz do Iguaçu afetassem os negócios do turismo, uma importante fonte de sustentação econômica do município.

Quero sugerir, provisoriamente, que os movimentos anuais de apoio à causa palestina, bem como os movimentos mais amplos de defesa contra as acusações de terroristas são, talvez, uma das evidências de que a imigração de grupos árabes não pode ser compreendida como um problema social ou como algo imposto por novas configurações da organização do trabalho mundial. Sob esta perspectiva, o atravessamento vertiginoso de identidades que acontece nesses movimentos remete a relações anteriores que são fundamentalmente um problema político e público, que expõe, ao mesmo tempo, as condições da emigração e o contexto local da imigração. Resta, então, apontar, na próxima seção, as pistas analíticas para compreender essa reconstrução.

 

ENTRE FRONTEIRAS E MIGRAÇÃO

A situação acima descrita, vivida em Foz do Iguaçu - em que todos se relacionam em um contexto marcado pelas diferenças advindas de outros Estados Nacionais e de outras referências culturais heterogêneas - é de um espaço caracterizado por um permanente atravessamento e cruzamento de vários tipos de demarcação. Como procurei mostrar, a linhas de classificação e de reconhecimento recíprocos entre os diferentes grupos da comunidade árabe e os grupos locais e nacionais - brasileiros e iguaçuenses - se opõem, se superpõem ou se alinham, dependendo do contexto.

Considero que as questões envolvidas nas tentativas de compreender a reconstrução das identidades de grupos árabes em Foz do Iguaçu, ao envolver a relação identidade, imigração e fronteira (com o significado geopolítico e identitário) repõem, sob um ângulo renovado e desdobrado, as tensões entre universalismo e relativismo para pensarmos a vida social atual.

Essas tensões são expressas em diferentes abordagens - sobretudo sociológicas - que, por um lado, pendem para o segundo lado da tensão e assim procuram compreender a vida social contemporânea como resultante de processos que tornam difícil vislumbrar, em seu processo de objetivação, qualquer noção de totalidade. Assim, algumas análises tendem a analisar esses fenômenos adotando a idéia de que o mundo contemporâneo é descontínuo, evanescente, fluído e poroso e, portanto, grupos identitários em diáspora seriam uma espécie de conseqüência inevitável de uma nova organização mundial.

Diversas abordagens, não necessariamente antropológicas, no esforço de conceituar as experiências culturais e sociais do mundo contemporâneo, apontam para significações de uma cultura em movimento e de um pluralismo cultural (Hall, 2000). Por outro lado, embora pendendo para o primeiro pólo da tensão, há outras abordagens, mais sociológicas, que podem ser vistas como correlatas às primeiras, pois elaboram concepções mais abrangentes sobre a sociedade contemporânea, identificada ora com a "modernidade tardia" (Hall, 2000), ora com "sociedade pós-moderna" (Harvey, 1993) ou "modernização reflexiva" (Lash, 1997). A globalização, o multiculturalismo e a transnacionalidade também aparecem como designações para qualificar o contexto atual (George Marcus, 1991). Mas, como evidenciou Ulf Hanners (1997), palavras-chaves como fluxos, fronteiras e híbridos aparecem nas idéias antropológicas para problematizar questões que, embora atuais, não são novas. Essas designações parecem comportar, sobretudo, a autoconsciência da sociedade. Tais significações seriam, antes de tudo, modelos de totalidades representadas, capazes de incluir, em maior ou menor grau, a heterogeneidade dos grupos da sociedade atual, tentando resolver o problema de estudar os pequenos grupos na sociedade ampla.21

Diante disso, o argumento mais geral, que precisa ser mais bem aprofundado, abre-se em duas direções, correspondendo a dois níveis de atualização de um mesmo núcleo norteador. O primeiro nível corresponde à pista sugerida de que, dentro desse grande marco expresso pelo cosmopolitismo vivido em Foz do Iguaçu, expresso tanto pelo slogan Foz de todos nós, quanto pela caracterização da cidade como atípica, ocorre uma construção e reconstrução simbólica de identidades, coletivas e pessoais, que englobam outras demarcações trazidas pelos diversos grupos imigrantes, advindas dos países de origem e da religião. O segundo nível decorre desse jogo de classificação, que tem suas fronteiras constantemente reordenadas por referências nacionais trazidas pelos grupos de vários países, bem como por aqueles decorrentes da clivagem de grupos em domínios específicos, como os do trabalho e os da religião, como tentei mostrar em relação aos imigrantes árabes. Sob esse reordenamento está a tensão entre dois princípios - particularista e universalista - nas quais a situação de fronteira/imigração aparece como um ponto de atravessamento e cruzamento de vários grupos culturais.

Do argumento acima, uma conseqüência importante, para os indivíduos, famílias e grupos que vivem nessa situação peculiar de fronteira associada à imigração, é daí derivada, do ponto de vista das tentativas de construção de uma identidade mais globalizadora: ela pode ser caracterizada como uma dificuldade de conceber a vida coletiva que ultrapasse uma noção de totalidade circunscrita a uma concepção que fragmenta o todo em entidades pulverizadas e estilhaçadas - através de uma permanente (re)construção das identidades, nacionais - árabe/brasileiro, árabe palestino/sírio/libanês/jordaniano. Ao lado dessas identidades, há outras derivadas do convívio, a exemplo do pertencimento e das práticas de diferentes entidades religiosas, como dos sunitas, dos xiitas ou católicos.

Prosseguindo com o mesmo argumento, o que parece ocorrer é uma absolutização das marcas fronteiriças, pois os diferentes grupos culturais tendem a conceber seus limites em relação aos outros através de classificações sociais elaboradas pelo atravessamento incessante de divisões. As divisões de origem universalista são recortadas pelas categorias da região e da nação, e, as de origem relativista, recortadas pelas diferentes referências religiosas e políticas. Como conseqüência, esse cenário propiciaria uma atitude cognitiva que em que o outro não é sumariamente "excluído" porque pressupõe a própria excepcionalidade vivida na fronteira como convivência com a diversidade.

Essa atitude cognitiva permite sugerir que as diferentes linhas de demarcação reordenando a identidade de grupos árabes em Foz do Iguaçu podem ser compreendidas como uma relação de alteridade que supõe o reconhecimento do diferente. É essa a razão pela qual Roberto Cardoso de Oliveira considera essa modalidade de interação, que inclui migrantes, uma oportunidade privilegiada para o estudo das formas de interação que articulam a identidade - pessoal e grupal.22 Essa situação abre um cenário marcado pelas ambigüidades dos processos identitários pelo reconhecimento recíproco, como mostrei neste artigo, mas também pela intolerância. Talvez por isto, do ponto de vista público e político, não seria tão simples encontrar um arranjo satisfatório entre o reconhecimento que se faz pela diferença e um reconhecimento que se faz pela igualdade, como propõe Taylor (s/d), através da solução de uma "fusão de horizontes". Não será esse um dos motivos que fundamentam outras percepções nativas que consideram a cidade perigosa?23

 

REFERÊNCIAS BIBILOGRÁFICAS

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OUTRAS FONTES

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Recebido: 27/03/2008
Aceito: 01/07/2008

 

 

1 Os dados e análises apresentados neste texto são resultados parciais de uma pesquisa intitulada Entre Fronteiras: estrangeiro ou cidadão? Um estudo de reconstrução de identidades de migrantes em Foz do Iguaçu, e contou apoio da Fundação Araucária, PR.
2 Rabossi (2001) demonstrou que a noção de Tríplice Fronteira está relacionada ao uso progressivo que dela tem feito tanto os meios de comunicação e quanto os planos de segurança para o Mercosul. Na década de 90, especialmente, o uso dessa noção deu-se depois dos atentados realizados contra a Embaixada de Israel, em 1992, e contra a Associação Mutual Israelita Argentina, em 1994.
3 O trabalho e a ampliação das oportunidades para satisfazer as necessidades de sobrevivência tem sido um dos importantes impulsos para a imigração atual.
4 Jornal Gazeta do Povo, Cascavel, 13 de maio de 2001.
5 Hoje esse comércio que atravessa a fronteira tem sido alvo de uma vigilância rigorosa, expondo as ambigüidades entre o legal e ilegal que atuam no centro destas transações.
6 Vale mencionar a discrepância observada entre as comemorações da Ashura, em março de 2004, em Foz do Iguaçu e as do Iraque, cuja maioria da população é xiita. Possível no Iraque somente depois da derrubada do governo de Saddan Hussein, a comemoração foi objeto de uma série de explosões abalou as cidades de Karbala e Bagdá, onde milhares de muçulmanos xiitas celebravam o festival. Pelo menos 145 pessoas morreram e centenas ficaram feridas, de acordo com autoridades locais. O mesmo ocorreu no Paquistão no mesmo dia, quando uma procissão de xiitas foi metralhada e pelo menos 37 pessoas morreram e mais de 150 ficaram feridas, na cidade de Queta (O Globo, 2 de março de 2004).
7 www.islam.com.br
8 Roberto C. de Oliveira se pergunta quais seriam as peculiaridades de cidades fronteiriças como as que podemos observar no espaço latino americano, que se encontram unidas por uma rua (como Rivera e Santana do Livramento, ou Chuí e Xui), na fronteira Brasil-Uruguai, por uma ponte, (como Artigas e Quarai, ou Rio Branco e Jaguarão), na mesma fronteira, Uruguaiana e Passos de los Libres, ou em Posadas na Argentina e Encarnación no Paraguai, ou as cidades de Salto e Concórdia e as de Paysandú-Colón e Concepción del Uruguai na fronteira Uruguai- Argentina.
9 Fernando Rabossi (2001) analisou o comércio transfronteiriço como um elemento complicador aos limites entre unidades políticas e sociais, estabelecidos por uma lógica espacial institucionalizada pela idéia de estados nacionais.
10 Segundo a lenda, os índios Caingangues, habitantes das margens do Rio Iguaçu, acreditavam que o mundo era governado por M'Boi, um deus que tinha a forma de uma serpente. O cacique dessa tribo tinha uma filha, Naipi, muito bonita, prometida a M'Boi. Havia, porém, um jovem guerreiro, Tarobá, que, ao ver Naipi, por ela se apaixonou. No dia em que foi anunciada a festa da consagração de Naipi, enquanto os guerreiros dançavam, Tarobá fugiu com Naipi em uma canoa que seguia rio abaixo pela correnteza. Quando M' Boi soube da fuga, ficou furioso, penetrou nas entranhas da terra e, retorcendo o corpo, produziu uma enorme fenda, formando uma catarata gigantesca. Envolvida pelas águas da imensa cachoeira, a embarcação dos índios fugitivos caiu de uma grande altura, desaparecendo para sempre. Diz a lenda que Naipi foi transformada em uma das rochas centrais das Cataratas, perpetuamente fustigada pelas águas revoltas, e Tarobá foi convertido em uma palmeira situada a beira do abismo e inclinada sobre a garganta do rio. Debaixo dessa árvore está a entrada da gruta, de onde o monstro vingativo vigia, eternamente, as suas duas vítimas.
11 Essa comercialização das lendas das Cataratas é análoga aos modos de representar a história, elaborados por agências privadas de turismo na Inglaterra, que fazem do passado uma mercadoria (Urry, 1996).
12 Os trabalhadores das companhias da exploração de erva-mate e de madeira eram mensus, de origem paraguaia. Etimologicamente, a expressão mensu vem do espanhol, mensual que significa mensalista ou trabalho pago mensalmente (Gregory, op. cit., p.53).
13 É importante mencionar o movimento concomitante da campanha de nacionalização instituída pelo Estado Novo (1937-1945) visando à assimilação dos imigrantes em nome da unidade nacional, como descreveu Seyferth (1997).
14 Motivada por uma conjuntura mundial em crise que abriu espaço para investimento de capitais nacionais após a segunda guerra mundial, como ocorreu com a criação de companhias madeireira e de colonização que adquiriram terras na região (Gregory, 1997).
15 Categorias utilizadas no Plano de Colonização, de 1946 (Gregory, 1997, p.229).
16 A regulamentação para construção e operação da Usina de Itaipu foi feita através de um tratado entre Brasil e Paraguai, assinado em 1973.
17 Ilha Solteira, Furnas, Jaguará, Itumbiara, Capivara, Boa Esperança, Acarai e São Simão.
18 Revista Construção Pesada, 03/79. Os trabalhadores médios e especializados eram "indicados" por colegas e profissionais do universo do trabalho do setor elétrico. Por exemplo, um deles convidava ou fornecia nomes pelo conhecimento de experiências profissionais anteriores e mesmo por amizade. Eram atraídos pelos altos salários e pelos desafios colocados ao trabalho pelo tamanho gigantesco da usina.
19 O filme, exibido no cinema e na televisão tem a direção de Rogério Bonato e intitula-se Quando o humor vence o terror.
20 Essas qualificações são iguais às encontradas nas representações da sociedade, elaboradas pelos saberes organizacionais recentes, como foi verificada na minha pesquisa, em 98/99. Assim, a representação da totalidade social através da globalização remete a idéias de uma todo sistêmico, dinâmico e aberto, cujos pressupostos estão ancorados em diversas teorias da Biologia e da Física. Com outros pressupostos, e em uma direção inversa, mas complementar, a própria idéia de totalidade é contraída em favor de unidades/totalidades "heterogêneas", "transitórias" e "plurais" (Silva,1999).
21 Pois, segundo ele, "a população inserida no contexto de fronteira tem um grau de diversificação étnica que, somado à nacionalidade natural ou conquistada do conjunto populacional de um e de outro lado da fronteira, cria uma situação sócio-cultural extremamente complexa"(2000, p. 17).
22 A intolerância e a violência verificadas nos grandes centros urbanos de EUA e da Europa constituem exemplo irrefutável do convívio dramático de grupos culturalmente diversos nas grandes cidades. Tais conflitos têm sido muito explorados pela literatura e pelo cinema, mostrando não só o lado da intolerância, mas, sobretudo, a disposição para um olhar mais atento a uma cultura plural vivida no mundo moderno.
23 A intolerância e a violência verificadas nos grandes centros urbanos de EUA e da Europa constituem exemplo irrefutável do convívio dramático de grupos culturalmente diversos nas grandes cidades. Tais conflitos têm sido muito explorados pela literatura e pelo cinema, mostrando não só o lado da intolerância, mas, sobretudo, a disposião para um olhar mais atento a uma cultura pluras vivida nomundo moderno.

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