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Trabalhos em Linguística Aplicada

On-line version ISSN 2175-764X

Trab. linguist. apl. vol.49 no.2 Campinas July/Dec. 2010

https://doi.org/10.1590/S0103-18132010000200001 

APRESENTAÇÃO

 

 

Inês Signorini e Marilda do Couto Cavalcanti

 

O escopo deste número dedicado ao tema "Linguagem e tecnologia - debates contemporâneos no campo aplicado" é o de apresentar e discutir - sem a pretensão de ser exaustivo e sem a restrição de explorar apenas uma visada utópica ou distópica - modos de apreensão, hipóteses e problemas que consideramos relevantes para o estudo do tema no campo transdisciplinar da Linguística Aplicada.

Para isso, estão agrupados na primeira parte 6 trabalhos inéditos de autores brasileiros e, na segunda parte, 4 traduções de trabalhos já publicados de autores estrangeiros. A inclusão de artigos traduzidos não visa, porém, à divulgação do que se apresenta como produção estrangeira mais recente e sim à expansão e qualificação dos termos de um debate mais abrangente, que acreditamos ser fundamental para a reflexão no campo aplicado contemporâneo. E, tendo em vista o histórico de pesquisa do tema no âmbito do Programa de Pós-graduação em Linguística Aplicada do IEL, este número busca atender também aos interesses específicos da pesquisa nessa área de concentração.

De fato, um subtema presente na maioria dos trabalhos que compõem as duas partes deste número é o dos novos letramentos relacionados às chamadas novas tecnologias de informação e comunicação, as TIC, em suas implicações de ordem social, ética, estética e política, mas também epistemológica. E esse é um subtema que vem sendo focalizado por pesquisadores do referido Programa desde 1999, quando foi introduzida uma linha de pesquisa sobre linguagem e tecnologia. Inicialmente mais voltada para o estudo de práticas de ensino de línguas estrangeiras mediadas por computador (a esse respeito, ver BRAGA, 1999; BRAGA e COSTA, 2000; BRAGA e SCHLINDWEIN, 2007; entre outros), a pesquisa nessa linha ampliou-se desde então contemplando diversidade crescente de práticas e de questões de pesquisa e passando a constituir uma área de concentração com o mesmo nome a partir de 20051 .

O primeiro artigo da Seção I deste número focaliza justamente o ensino de línguas estrangeiras mediado por computador, mais especificamente a questão dos "Fatores a serem levados em consideração para o desenvolvimento de testes de proficiência oral em contexto virtual". Nesse artigo, Ana Cristina B. Salomão (UNESP) apresenta e descreve os fatores que considera relevantes para o desenvolvimento de testes de proficiência oral mediados por computador. Sua contribuição para o levantamento de questões de interesse para a pesquisa sobre o tema está sobretudo na sistematização de resultados trazidos por revisão bibliográfica, dentre os quais destacamos as necessidades de pesquisa de base empírica sobre os usos efetivos da língua(gem) em ambiente digital e sobre as implicações socio e psico-cognitivas desses usos para o desempenho em testes de proficiência oral nesse mesmo ambiente.

No artigo seguinte, Fabiana C. Komesu (UNESP) examina a questão dos "Espaços e fronteiras da 'liberdade de expressão' em blogs na internet", mais especificamente a suposta 'liberdade (irrestrita) de expressão' em blogs e microblogs contemporâneos. À luz de princípios pecheutianos e foucaultianos de análise dos discursos que circulam nesses novos espaços, a autora busca estabelecer uma visada crítica em contraponto ao que acredita ser consensual entre usuários das redes. E essa visada crítica levanta questões de interesse para a pesquisa sobre o tema, dentre as quais destacamos a das relações entre níveis e escalas de circulação da 'expressão' individual em seu movimento contínuo de contextualização e de des/re/contextualização nas redes.

A questão mais geral do letramento digital crítico na educação é objeto das reflexões de Marcelo Buzato (unicamp) no ensaio "Can reading a robot derobotize a reader?", o terceiro trabalho da Seção I. Nesse ensaio, o pesquisador focaliza a relação entre letramentos digitais e letramentos críticos tomando como ponto de partida os conceitos de transcodificação cultural e dialogismo. A discussão, contextualizada através de excertos de interações entre o autor e um "agente de automatizado disponível na WWW", aponta que essa interação pode ser vista como dialógica, pois mostra o "povoamento" dos textos digitais por dois tipos diferentes de vozes (intenções discursivas), uma centrada na racionalidade e outra na racionalização. Apresentando esse povoamento como um hibridismo de vozes, Buzato sugere seu aproveitamento para uma educação crítica no desmonte de oposições binárias entre tecnologia e cultura.

Também voltado para a questão do letramento digital crítico na educação, o artigo seguinte, de Denise B. Braga (unicamp), tem como tema "Tecnologia e participação no processo de produção e consumo de bens culturais: novas possibilidades trazidas pelas práticas letradas digitais vinculadas à Internet". O foco desse artigo é o papel potencialmente inovador e crítico das TIC em processos de emancipação sociopolítica e ideológica vivenciados por grupos socioculturamente marginalizados. Apoiando-se na tradição gramsciana de estudo dos processos hegemônicos e não hegemônicos de mudança social, a autora analisa e discute resultados de uma entrevista com um líder de um movimento popular local, também engajado no movimento software livre. Além dos modos de apropriação da tecnologia em contextos socioculturalmente periféricos, discutidos nesse artigo, é de interesse para a pesquisa sobre o tema a questão da extensão e gradação dos impactos dos processos não hegemônicos de apropriação das práticas letradas digitais sobre os estudos acadêmicos dos letramentos.

Tendo como tema "Os novos letramentos digitais como lugares de construção de ativismo político sobre sexualidade e gênero", Moita Lopes (UFRJ) apresenta e discute no artigo seguinte a questão dos letramentos digitais enquanto práticas de ação sociopolítica e discursiva que atravessam os mundos virtual e real e que são "infinitamente" potencializadas pelo confronto, nos espaços criados pelas TIC, com a "multidão", no sentido dado a esse termo por Hardt e Negri (2005): um coletivo heterogêneo e não unificado porque composto de diferenças irredutíveis. Em sua discussão, o autor enfatiza o papel dos "discursos inovadores, desestruturadores e inesperados", próprios desse tipo de coletivo, nos processos de transformação da vida social e política. Dentre as indagações de interesse para a pesquisa sobre o tema, destacamos a dos modos de "reinvenção", nos termos do autor, do próprio discurso acadêmico frente a esses espaços de "multidão".

No último artigo da Seção I, Inês Signorini e Marilda C. Cavalcanti (unicamp) trazem para discussão no campo aplicado dos estudos da linguagem contribuições de diferentes disciplinas dos estudos computacionais que consideram relevantes para o estudo das relações entre "Língua, linguagem e mediação tecnológica". Duas questões específicas são contempladas: a da reconceptualização das TIC e de seus objetos como objetos sociotécnicos por um lado, e como objetos de linguagem, ou objetos semióticos, por outro; e a da reconfiguração da metáfora da interface, proposta pelos estudos no campo transdisciplinar da Interação Humano-Computador, como objeto semiótico de mediação tecnológica. Em função da discussão apresentada, são levantados novos focos de interesse para a pesquisa sobre o tema.

O primeiro artigo que compõe a Seção II deste número, dedicada às traduções, focaliza a questão mais geral da cultura técnica mínima necessária a uma sociedade dita "do conhecimento". No artigo "Trajetórias de uso das tecnologias de comunicação: as formas de apropriação da cultura digital como desafios de uma 'sociedade do conhecimento'", Serge Proulx (Université Du Québec à Montreal/Canadá) traz para discussão considerações e perguntas surgidas no início da década e que continuam desafiando e também inspirando a investigação e a análise crítica no campo dos estudos sobre as TIC, seus usos e seus impactos nas sociedades contemporâneas. A esse respeito, destacamos a questão de como se formam os percursos individuais e coletivos de uso e apropriação das TIC em práticas da vida privada, profissional e pública (ou cidadã) e a dos impactos desses percursos nos modos de funcionamento de comunidades e redes virtuais emergentes que, inevitavelmente, passam a constituir as diferentes dimensões (econômica, política, ética e também estética) do chamado mundo real.

O trabalho de Jay Lemke (University of Michigan/EUA), apresentado em seguida, focaliza o tema "Letramento metamidiático: transformando significados e mídias". Nesse artigo, o autor resume e amplia as indagações, surgidas sobretudo desde a década de 1990 no mundo acadêmico anglo-saxão, sobre a crescente multiplicidade, heterogeneidade e complexificação dos letramentos na chamada "Era da informação". Dentre as várias considerações de interesse para a investigação e análise crítica dos novos letramentos não logo/grafocêntricos descritos pelo autor, destacamos a necessidade de uma semiótica multimidiática para a compreensão aprofundada dos processos de produção de significados em "ecologias" tecnológicas e sociais próprias das práticas culturais, e a identificação de um "paradigma de aprendizagem interativo" emergente, capaz, segundo o autor, de transformar não só os padrões convencionais de aprendizagem, como também a experiência humana no mundo.

Também voltado para o exame das necessidades criadas pelos letramentos contemporâneos, o artigo "Expandindo o conceito de letramento", de Elizabeth Daley (University of Southern Carolina/EUA), descreve e discute as limitações do conceito logo/grafocêntrico do letramento quando se pretende não mais ignorar a importância da linguagem multimidiática das telas de cinema, televisão e computador no cotidiano de um contingente cada vez maior de pessoas. Argumenta em favor de uma reconceitualização que confira à linguagem multimidiática o mesmo status tradicionalmente atribuído à linguagem verbal, sobretudo escrita, no estudo das práticas de letramento. Dentre as várias questões de interesse para a pesquisa sobre o assunto está a do letramento multimidiático como uma necessidade básica dos indivíduos do século XXI, a começar pelos contemporâneos, conforme atesta o relato de trabalho pioneiro da autora numa universidade americana. Nesse caso, o interesse está sobretudo no potencial transformador da "linguagem das telas", nos termos da autora, quando integradas às práticas de letramento acadêmico.

Voltado para a exploração crítica dos modos de apreensão de um uso específico da "linguagem das telas" por adolescentes usuários do serviço de rede social MySpace, o artigo "Copiar e colar? práticas de letramento na produção de um perfil Myspace", de Dan Perkel (University of California at Berkeley/EUA), examina a produção e circulação de perfil pessoal customizado como uma prática de letramento que envolve a apropriação e reutilização de recursos e produtos de mídia pré-construídos e disponibilizados por terceiros na internet. Como mostra o autor, esta é uma prática centrada em novas habilidades de participação social e em não tão novas habilidades de copiar e colar, vistas com reserva pela escola convencional. Ao descrever o copiar e colar blocos de código como não trivial ou sem significado e sim como forma de expressão "mídia-dependente", o autor levanta questões de interesse para a pesquisa sobre o assunto, dentre as quais destacamos a da importância do "remix" como modus operandi próprio de novos letramentos relacionados à web.

 

AGRADECIMENTOS

As organizadoras agradecem às tradutoras que contribuíram para a elaboração deste número temático. Agradecem também a tradução de artigos que subsidiaram as discussões a respeito do tema.

Campinas, 30 de novembro de 2010.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAGA, D. B. (1999). Self-Tutoring Processes: The Role of Subjective Factors in Readiness for Autonomous Learning of Foreign-Language Reading. The Especialist, PUCSP- São Paulo, v. 20, n. 1, p. 58-75.         [ Links ]

_______. (2007). Apresentação. Trabalhos Em Lingüística Aplicada, Campinas, 46 (1), Jan/Jun, p. 5-8.         [ Links ]

BRAGA, D. B. e COSTA, L. A. (2000). O computador como instrumento e meio para ensino e aprendizagem de línguas. Trabalhos em Lingüística Aplicada, Campinas, v. 36, n. Jul/Dez, p. 61-79.         [ Links ]

BRAGA, D. B. e SCHLINDWEIN, A. F. (2007). Estudo auto-monitorado de leitura em língua inglesa por alunos graduandos: reflexões sobre o efeito de diferentes estilos de percepção. Revista de Estudos Lingüísticos Veredas, v. 2/2007, p. 118-132.         [ Links ]

HARDT, M. e NEGRI, A. (2005). Multidão: guerra e democracia na era do império. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record.         [ Links ]

 

 

1 A esse respeito, ver também o no. 46 (1) desta revista, referente a janeiro/junho de 2007, organizado pela Profa. Denise Braga e dedicado ao estudo d"a relação entre os letramentos digitais e o desenvolvimento de reflexão social crítica" (Braga, 2007, p. 5).

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