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Trabalhos em Linguística Aplicada

Print version ISSN 0103-1813

Trab. linguist. apl. vol.50 no.2 Campinas July/Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-18132011000200006 

ARTIGOS

 

O léxico diferenciado da tradução

 

The distinctive lexis of translation

 

 

Ana Frankenberg-Garcia

Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL), Portugal. ana.frankenberg@gmail.com

 

 


RESUMO

Ao lermos uma tradução, é comum termos a clara noção de que estamos perante um texto traduzido, ao contrário do que acontece quando lemos um texto original, produzido sem as limitações impostas por um texto-fonte escrito num idioma diferente. Uma das características que poderá conferir esta sensação de diferença em relação às traduções é a frequência fora do comum de determinado léxico. Pesquisas existentes comparando a frequência de certas palavras em traduções e em textos que não são traduções revelam diferenças de distribuição significativas. A maioria dos estudos em causa tem como base uma abordagem de baixo para cima. Seleciona-se uma dada palavra específica, cuja frequência é então comparada em textos traduzidos e não traduzidos. No presente estudo, invertemos essa metodologia e adotamos uma abordagem exploratória de cima para baixo. Começamos com um corpus de textos literários em português traduzido e português não traduzido e, a partir daí, procuramos identificar palavras sobre e sub-representadas nas traduções. Os resultados obtidos não só reforçam a nossa intuição relativamente ao léxico característico da tradução, como também revelam uma série de contrastes inesperados, que provavelmente não teriam sido detectados se não se tivesse utilizado a presente metodologia.

Palavras-chave: tradução, léxico, corpora


ABSTRACT

It is a well-known fact that translated texts read differently from texts that have been written without the constraints imposed by source texts from another language. One of the features that can confer a distinctive feel to translations is the frequency with which certain lexical items are represented in them. Previous research has compared the frequency of specific words in translations and in texts that are not translations and unveiled substantial differences in their distributions. Most of these studies adopt a bottom-up approach. Their starting point is a given word whose frequency in translated and non-translated texts is then compared. In the present study, we adopt an explorative, top-down approach instead. We begin with a Portuguese language corpus of translated and non-translated literary texts and attempt to identify lemmas which are markedly over and under-represented in the translations. Our results not only appear to support existing bottom-up intuitions regarding distinctive lexical distributions, but also disclose a number of unexpected contrasts that would not have been discernible without recourse to corpora.

Keywords: translation, lexis, corpora


 

 

INTRODUÇÃO

Uma das grandes vantagens das análises baseadas em corpora é o fato de permitirem identificar convenções linguísticas difíceis de observar a olho nu. Tal como previu Baker (1993), a recente utilização de corpora nos estudos de tradução teve um grande impacto sobre o nosso conhecimento das especificidades do texto traduzido. Contudo, algumas características das traduções têm recebido bem mais atenção do que outras. A hipótese da explicitação, por exemplo, segundo a qual a informação implícita nos originais tende a ser mais explícita nas traduções (VINAY e DARBELNET, 1958, BLUM-KULKA 1986), já foi corroborada por diversas análises quantitativas baseadas em corpora (por exemplo, ØVERÅS 1998; OLOHAN E BAKER, 2000; PÁPAI, 2004 E FRANKENBERG-GARCIA, 2009a).

Um fenômeno bem menos explorado é a distribuição diferenciada do léxico dos textos traduzidos e não traduzidos. Num dos poucos estudos existentes, Shama'a (1978, citada em BAKER, 1993) constatou que as palavras inglesas day e say eram duas vezes mais frequentes em inglês traduzido do árabe do que em inglês original, fazendo com que as traduções soassem diferentes e contribuindo para a identificação desses textos como traduções. Num trabalho mais recente, baseado num corpus paralelo, pude notar que o advérbio inglês already é duas vezes mais frequente em inglês traduzido do português do que em inglês original (FRANKENBERG-GARCIA, 2004).

No entanto, a sobrerepresentação de determinado léxico nas traduções não é necessariamente a regra. Em outro estudo baseado num corpus, Tirkkonen-Condit (2004) centra a sua análise nos verbos tipicamente finlandeses de suficiência e nota que estes são bem menos frequentes nas traduções do que em textos originalmente escritos em finlandês.

Tanto a sub-representação como a sobrerepresentação de certos itens lexicais podem afetar a impressão que os leitores têm de um texto traduzido, ou seja, se aparenta ou não ser uma tradução. Num estudo anterior, Tirkkonen-Condit (2002) pediu para um grupo de falantes nativos de finlandês decidir se certos excertos de texto eram originais ou traduções e chegou à conclusão de que tanto as avaliações corretas como as incorretas baseavam-se principalmente na presença ou ausência de palavras tipicamente finlandesas. Conforme sugerido por Baker (1993), a distribuição diferenciada de certos itens lexicais nas traduções pode dever-se ao confronto existente entre o código-fonte e o código-alvo. Para Toury (1995), a tradução, não sendo nem língua fonte nem propriamente língua alvo, é uma espécie de terceiro código. Embora a priori não se associe nenhum juízo de valor ao terceiro código, nas traduções de má qualidade, a distorção do texto devido a uma influência despropositada da língua fonte é o que Baker (1993) chama de tanslationese, ou seja, "tradutês".

Independentemente de se tratar de um terceiro código ou de uma má tradução, nem sempre é fácil avaliar se existem palavras sobre ou sub-representadas nas traduções. Uma maneira de o fazer seria através de uma abordagem de baixo para cima, tomando uma determinada palavra como ponto de partida e depois comparando a sua distribuição em textos traduzidos e não traduzidos. No entanto, para tal, em primeiro lugar seria preciso decidir que palavras são potencialmente dignas de tal comparação. Na pesquisa de Tirkkonen-Condit (2004), o léxico em análise eram palavras sem equivalentes na língua dos textos que deram origem às traduções finlandesas. Seguindo uma abordagem equivalente de baixo para cima, observei que o verbo inglês nod, que não tem uma tradução direta para português, apresenta uma frequência significativamente mais elevada num corpus de textos originais em inglês do que num corpus de inglês traduzido do português (FRANKENBERG-GARCIA, 2007). Contudo, também poderão existir palavras com equivalentes diretos nas línguas do original e da tradução, mas cuja distribuição em textos traduzidos e não traduzidos seja totalmente distinta. Como já foi referido, a sobre representação das palavras day e say no inglês traduzido do árabe (SHAMA'A, 1978) e do advérbio already no inglês traduzido do português (FRANKENBERG-GARCIA, 2004) são exemplos disso.

Por vezes, os tradutores e os professores de línguas estrangeiras, por trabalharem justamente com línguas em contato, são intuitivamente capazes de identificar este gênero de distribuição lexical diferenciada. Por exemplo, numa discussão informal anterior à realização do presente estudo, uma tradutora profissional portuguesa referiu que tinha a impressão de que os advérbios terminados em mente tinham uma frequência excepcionalmente elevada no português traduzido do inglês se comparado com o português original (BASTOS, 2008). Da mesma forma, Stella Tagnin, professora de tradução na Universidade de São Paulo, comentou que tinha a impressão de que o verbo poder era utilizado em demasia no português das traduções (TAGNIN, 2008). Para a presente autora, antes da realização deste estudo, os adjetivos diferente e possível e os advérbios simplesmente, exatamente, perfeitamente e absolutamente pareciam ser invulgarmente frequentes no português traduzido do inglês. É preciso reconhecer, no entanto, que as abordagens de baixo para cima tais como as descritas acima podem ser limitadas, uma vez que poderão existir palavras com distribuições díspares que escapam à nossa percepção.

O presente estudo baseado em corpus é uma tentativa de investigar o léxico diferenciado da tradução a partir de uma perspectiva inversa, que vai de cima para baixo. Pretende-se verificar se as nossas impressões sobre palavras com distribuições distintas na tradução se confirmam e, ao mesmo tempo, procurar descobrir outros fenômenos de distribuição lexical marcada que escapam à observação direta.

 

1. MÉTODO

Numa abordagem de baixo para cima, começaríamos por selecionar uma palavra e a seguir compararíamos a sua frequência em corpora comparáveis de textos traduzidos e não traduzidos. Na abordagem de cima para baixo adotada no presente estudo, partimos de um corpus comparável de textos traduzidos e não traduzidos para então estabelecer quais as palavras sub e sobre representadas nas traduções. O corpus utilizado na presente análise foi o COMPARA versão 10.0, um corpus pararelo bi-direcional com um total de três milhões de palavras em inglês e português provenientes de textos literários (FRANKENBERG-GARCIA e SANTOS, 2003)1. Como já referi em Frankenberg-Garcia (2009b), uma das muitas vantagens dos corpora paralelos bi-direcionais é o fato de possibilitarem a comparação não só de duas línguas, mas também dos subconjuntos traduzidos e não traduzidos das línguas em questão. O presente estudo teve em conta 39 excertos de textos originalmente escritos em português no corpus (634.601 palavras) e 32 excertos comparáveis em português traduzido do inglês (733.282 palavras)2. Encontram-se representados na amostra 22 autores de Portugal, Brasil, Angola e Moçambique e 25 tradutores portugueses e brasileiros3.

Os textos em língua portuguesa do COMPARA foram automaticamente anotados com o analisador gramatical PALAVRAS (BICK, 2000) e, no momento deste estudo, a anotação automática estava sendo submetida a uma revisão manual (SANTOS e INÁCIO, 2006). Desta forma, alguns ajustes resultantes dessa revisão posterior à realização do presente estudo poderão eventualmente reverter em pequenas variações em relação aos dados que serão aqui apresentados, mas sem que isso altere os resultados globais obtidos de forma significativa.

O ponto de partida da presente análise consistiu em obter uma distribuição de lemas nos sub-corpora de textos traduzidos para português e de textos originais em português do COMPARA (doravante traduções e originais). Selecionaram-se para um exame mais detalhado todos os lemas classificados de acordo com as categorias gramaticais genéricas para nomes (excluindo os nomes próprios), adjetivos, verbos e advérbios (ver tabela 1)4. Não foram incluídas na análise palavras gramaticais, tais como artigos, preposições e conjunções.

 

 

Obtidas essas distribuições, consideraram-se insuficientemente representados e consequentemente descartaram-se do estudo os lemas com frequência inferior a 10 ocorrências por 100 mil palavras nos sub-corpora em análise5. No entanto, preservaram-se os lemas que atingiram ou superaram este limiar num dos sub-corpora (por exemplo, nos originais), mas não no outro (por exemplo, nas traduções). A amostra resultante engloba 1003 lemas ao todo, distribuídos de acordo com as seguintes categorias gramaticais: 482 nomes,113 adjetivos, 309 verbos e 99 advérbios.

Palavras com grafias alternativas foram consideradas como um único lema, uma vez que as diferenças ortográficas não são relevantes para um estudo centrado sobre o léxico. Assim sendo, ignoraram-se diferenças ortográficas entre o português do Brasil e o português europeu, como direção e direcção6 e outras grafias alternativas, tais como loiro e louro, ainda que no COMPARA estas formas sejam tratadas como lemas distintos. Os empréstimos que não fazem oficialmente parte da língua portuguesa, tal como o pronome de tratamento inglês sir, também foram excluídos do estudo7.

A seguir, calculou-se a frequência por 100 mil palavras de cada um dos lemas acima nos originais e nas traduções, a fim de os comparar e determinar o grau de diferença entre cada caso. Consideraram-se sobre representados na tradução os lemas que ocorressem pelo menos duas vezes mais do que ocorreram no corpus dos originais. Seguindo esta mesma lógica, consideraram-se sub-representados na tradução os lemas com uma frequência igual ou menor do que a metade no corpus de originais. Os lemas sobre e sub-representados foram então inspecionados em mais detalhe.

Tendo em conta que alguns autores estão mais representados do que outros no COMPARA, foi necessário determinar se estariam em causa distorções dos resultados devidas ao estilo próprio de um autor específico. Se mais de um terço das ocorrências de um dado lema provinha de um único autor, os resultados para este lema deixaram de ser considerados no estudo. Não se julgou necessário proceder a um controle deste tipo de distorção em relação aos tradutores representados no corpus, uma vez que estes se encontram razoavelmente bem distribuídos. Os resultados obtidos encontram-se descritos nas próximas quatro seções.

 

2. NOMES DIFERENCIADOS

Dos 482 lemas nominais com uma frequência suficiente que justificasse uma análise mais pormenorizada, 137 foram inicialmente considerados sobre ou sub-representados nas traduções. Contudo, 46 lemas foram excluídos do estudo, já que mais de um terço das suas ocorrências provinham de um único autor. Na tabela 2 encontram-se os 42 nomes sobre representados, enquanto a tabela 3 contém os 49 nomes sub-representados que restaram.

 

 

 

 

Os resultados na tabela 2 mostram que a maioria dos lemas nominais sobre-representados consiste de nomes abstratos. O mais notável de todos é gé(ê)nero, que, por sinal, pode ser considerado sinônimo de mais dois nomes sobre representados: espécie e tipo. Vários dos lemas nominais constantes nessa tabela também transmitem a ideia geral de modo (por exemplo, tom, modo, expressão, aspecto e atitude), e muito deles são usados para classificar e agrupar (por exemplo, membro, grupo, lista e maioria). Em contrapartida, como mostra a tabela 3, a maioria dos nomes sub-representados refere-se a seres humanos. Sem surpresas, há também vários nomes sub-representados na tradução que facilmente se associam à psique que permeia a língua portuguesa: lembrança, saudade, tristeza e alma.

Também é interessante notar a presença de quasi-sinônimos em extremidades opostas das distribuições: rapariga (sobre representado) e menina (sub-representado), recordação (sobre representado) e lembrança (sub-representado), escola (sobre-representado) e colégio (sub-representado).10

 

3. ADJETIVOS DIFERENCIADOS

Dos 113 adjetivos selecionados na amostra, apenas dois lemas tiveram de ser excluídos do estudo devido ao fato de mais de um terço das suas ocorrências provirem de um único autor. Restaram 11 adjetivos com pelo menos o dobro de ocorrências nas traduções (ver tabela 4), e 10 adjetivos com pelo menos o dobro de ocorrências nos originais (ver tabela 5).

 

 

 

 

Como mostram os resultados, o adjetivo mais sobre-representado nas traduções é sentado, e o mais sub representado é gordo. Curiosamente, a maioria dos adjetivos sobre-representados (com exceção de sentado e jovem) são adjetivos que refletem opiniões pessoais e sentimentos. Em contrapartida, a maioria dos adjetivos sub-representados parece transmitir descrições concretas.

 

4. VERBOS DIFERENCIADOS

Nenhum dos 309 verbos com frequências iguais ou acima do limiar de análise pré-estabelecido teve de ser descartado por distorções devido à influência de um único autor. Ao contrário dos nomes e adjetivos até agora analisados, entre os verbos parece haver uma tendência maior para a sobre representação do que para a sub-representação. Apresentam-se os 32 verbos com pelo menos o dobro das ocorrências nas traduções e os 19 verbos com pelo menos o dobro das ocorrências nos originais nas tabelas 6 e 7, respectivamente.

 

 

 

 

Como se pode constatar nas tabelas 6 e 7, a anotação morfossintática do corpus COMPARA classifica como lemas separados os verbos seguidos de pronomes clíticos diferentes. Por exemplo, sentir-se e sentir-me são analisados separadamente. Ao contrário das diferenças ortográficas, decidiu-se manter esta distinção dos clíticos na medida em que as consideramos relevantes para o presente estudo.

Os resultados obtidos trazem à tona uma série de tendências. O verbo mais sobre representado nas traduções é o verbo de ligação encontrar-se, e há vários verbos de ligação com pelo menos o dobro da frequência no português traduzido: constituir, tornar-se, sentir-se, sentir-me, fazê-lo, representar e manter. Dois outros grupos que se destacam entre os verbos sobre representados são os verbos dicendi (revelar, exclamar, lamentar, sugerir, comentar e replicar) e os verbos de movimento (inclinar-se, regressar, dirigir-se, baixar, virar-se, apanhar, apoiar, voltar-se, acenar e abanar). Entre os lemas verbais com pelo menos o dobro da frequência nas traduções, encontramos também verbos que precedem outros verbos (tentar, conseguir e permitir).

Em contrapartida, a maioria dos lemas verbais sub-representados nas traduções são de elevado teor lexical, sendo que muitos deles são típicos da linguagem dramática da literatura (vencer, fugir, beijar, cantar, quebrar, sonhar, amar, roubar, chorar, matar, morrer e nascer). Mais uma vez, detectaram-se quasi-sinônimos com distribuições opostas: compreender e apanhar (sobre representados), mas entender e recolher (sub-representados).

 

5. ADVÉRBIOS DIFERENCIADOS

Nenhum dos 99 advérbios selecionados para este estudo tiveram de ser excluídos devido a distorções por causa de um único autor. No total, 13 foram considerados sobre representados e 10 foram classificados como sub-representados nas traduções. Nas tabelas 8 e 9, respectivamente, apresentam-se os advérbios com pelo menos o dobro das ocorrências nas traduções e os advérbios com pelo menos o dobro das ocorrências nos originais.

 

 

 

 

Como indica a tabela 8, mais de metade dos advérbios sobre representados terminam em mente e praticamente todos eles são advérbios de modo. Vale a pena notar que os advérbios sobre representados absolutamente, completamente, simplesmente, perfeitamente, imediatamente e exa(c)tamente são muito semelhantes, do ponto de vista fonético e morfológico, aos seus equivalentes ingleses. Em contrapartida, nenhum dos advérbios sub-representados termina em mente e a maior parte deles expressam tempo e frequência. Mais uma vez, verifica-se a ocorrência de quasi-sinônimos com distribuições opostas, com a sub-representação de todo e toda e a sobre-representação do advérbio completamente.

 

6. DISCUSSÃO

Surgem vários pontos de discussão quando olhamos para os resultados globais obtidos relativamente às quatro categorias gramaticais analisadas neste estudo. Em primeiro lugar, é interessante notar que praticamente só os nomes sofreram da influência desproporcionada de um único autor, tendo sido necessário excluir da análise 46 lemas nominais. Apenas dois adjetivos, mas nenhum verbo ou advérbio, tiveram de ser eliminados do estudo. Na realidade, o uso aparentemente excessivo de alguns nomes por parte de certos autores não se deveu apenas a uma questão de estilo e preferência vocabular. Em muitos casos, esses nomes têm estritamente a ver com o enredo das histórias. Por exemplo, 90% das ocorrências do nome cego (que por razões já referidas não foi contabilizado no estudo) provêm do romance Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

Os lemas nominais também se destacam das outras categorias gramaticais em apreço na medida em que são os únicos em que a sub-representação de lemas na tradução foi superior à sobre-representação. Para os adjetivos e advérbios, o número de lemas sobre-representados na tradução é muito semelhante ao número de lemas sub-representados. No entanto, em relação aos verbos, ocorre justamente o contrário: há substancialmente mais lemas sobre-representados do que sub-representados. Estes resultados vão de encontro à ideia generalizada de que o português é uma língua mais nominal, enquanto o inglês, o idioma dos textos-fonte que deram origem ao corpus de traduções, é mais verbal.

Outro resultado assinalável é a presença de quasi-sinônimos com distribuições opostas. Com a exceção do par menina-rapariga, que, como já foi referido, provavelmente tem a ver com as diferenças entre o português do Brasil e de Portugal, os restantes pares sinônimos servem para chamar a atenção para o fato de que uma das palavras é mais típica da literatura não traduzida do que a outra. Vale a pena lembrar que os pares sinônimos destacados até agora são apenas aqueles em que uma das palavras do par foi pelo menos duas vezes mais frequente em português original ou duas vezes mais frequente em português traduzido. Se baixarmos esse limiar para um valor menos restritivo, encontraremos muito mais pares sinônimos com distribuições marcadamente distintas. Na tabela 10 encontram-se pares sinônimos em que uma das palavras do par era pelo menos 1,5 vezes mais frequente do que a outra. Repare-se na presença de um certo contraste estilístico entre alguns dos pares, já que, de modo geral, os lemas preferidos nas traduções parecem ser mais formais do que os seus correspondentes nos originais, nomeadamente, recordação vs lembrança, edifício vs prédio, compreender vs. entender e recordar vs. lembrar. Isto poderia ser interpretado como um sinal de que os tradutores portugueses favorecem uma linguagem mais formal do que seria natural em português original.

 

 

Os resultados desta análise também chamam a atenção para uma série de contrastes semânticos. Nas traduções, prevalecem os nomes abstratos (por exemplo, g(ê|é)nero e fa(c)to), enquanto os nomes alusivos a seres humanos ficam sub-representados (por exemplo, sobrinho e menino). Também predominam os adjetivos de opinião (por exemplo, calmo e maravilhoso), ao passo que os adjetivos concretos são comparativamente escassos (por exemplo, gordo e grosso). Em relação aos advérbios, destacam-se nas traduções os advérbios de forma e destacam-se pela negativa os advérbios de tempo e frequência. Quanto aos verbos, os verbos de ligação, os verbos dicendi, os verbos de movimento e os verbos que precedem outras formas verbais se destacam nas traduções, enquanto os verbos de elevado grau lexical e os verbos de significados proposicionais dramáticos marcam as traduções pela sua escassez, revelando, desta forma, possíveis diferenças culturais entre a literatura original e traduzida.

Além das constatações acima, o presente estudo reforça algumas das impressões intuitivas relativamente a certas especificidades do léxico do português traduzido. Confirmando as impressões de Bastos (2008), e da presente autora, há vários advérbios terminados em mente sobre-representados nas traduções. Os adjetivos diferente e possível, que também tinham sido alegadamente identificados como sendo excessivos nas traduções do inglês, não chegam a atingir o dobro da frequência proposto neste estudo, mas verificou-se que o primeiro é 1,7 vezes e o segundo 1,9 vezes mais frequente nas traduções do que nos originais. Talvez isso seja até um indício de que o critério de considerar apenas os lemas duas vezes mais frequentes nas traduções ou duas vezes mais frequentes nos originais tenha sido excessivamente rigoroso. Embora o verbo poder, que Tagnin (2008) supôs ser utilizado em excesso nas traduções, não tenha sido considerado sobre-representado (tendo ocorrido apenas 1,2 vezes mais nas traduções), os seus sinônimos conseguir e permitir apresentaram o dobro da frequência nos textos traduzidos.

Apesar de não se ter antecipado nenhuma palavra em particular que pudesse a priori soar escassa nas traduções, a abordagem exploratória e de cima para baixo adotada neste estudo revelou um elevado número de lemas pelo menos duas vezes mais frequentes nos originais do que nas traduções. Enquanto alguns destes eram completamente imprevisíveis, outros, como os lemas notoriamente associados à alma e à psique portuguesa (saudade, triste, tristeza, alma, lembrança, sonhar e sonho) fazem todo o sentido. Da mesma forma, olhando retrospectivamente enquanto tradutora e professora de tradução e de língua inglesa, a relativa escassez dos advérbios hoje, ontem e amanhã nas traduções para português não surpreende, uma vez que intuitivamente essas palavras parecem ser usadas com mais frequência no português.

 

CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS PARA O FUTURO

Este estudo procurou analisar o léxico diferenciado da tradução a partir de uma perspectiva exploratória de cima para baixo. A análise tomou como ponto de partida dois corpora comparáveis de português original e português traduzido do inglês, para então identificar quais eram os lemas nominais, verbais, adjetivais e adverbiais mais sobre- e sub-representados nas traduções.

Os resultados obtidos neste estudo não só reforçam impressões existentes relativamente a palavras sobre-representadas na tradução, como também revelam uma rede imbricada de contrastes linguísticos e culturais entre o português original e o português traduzido que não teria sido possível detectar a olho nu.

Enquanto alguns dos resultados aqui apresentados, tais como a preferência por certas palavras (algumas das quais apontam também para diferenças culturais e estilísticas) no português não traduzido, poderão ter um impacto imediato sobre o desenvolvimento de ferramentas multilíngues, tradução automática, auxiliares de tradução e formação de tradutores, muitos dos contrastes identificados requerem mais investigação no futuro. Em particular, deve-se ter em conta que uma análise baseada em lemas é muito genérica, e é preciso explorar mais a fundo possíveis contrastes entre palavras flexionadas e os diferentes significados de alguns lemas polissêmicos. Além disso, seria importante desenvolver a pesquisa lexical isolada e desprovida de co-texto efetuada neste estudo com um maior detalhamento em termos de análises colocacionais e fraseológicas. Os verbos sobre-representados acenar e abanar, por exemplo, co-ocorrem quase sempre com cabeça. Se examinarmos estes lemas verbais em contexto, chega-se à conclusão de que não são apenas os verbos em si que estão sobre-representados no português das traduções, mas sim as unidades fraseológicas nas quais estes verbos se inserem, nomeadamente, acenar a cabeça e abanar a cabeça.

Embora a pesquisa de formas flexionadas, polissemia e fraseologia contrastiva ultrapasse o âmbito deste trabalho, espera-se que a metodologia desenvolvida e os resultados obtidos possam servir de estímulo para estudos futuros, bem como para estudos análogos a partir de corpora de gêneros textuais e línguas diferentes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido: 06/07/2011
Aceito: 09/11/2011

 

 

1. O corpus COMPARA encontra-se disponível em http://www.linguateca.pt/COMPARA/
2. Três dos originais do corpus encontram-se alinhados com duas traduções cada: EBDL1, EBDL3 e PBJA1. Para evitar distorções causadas pela contagem em duplicado de textos-fonte com alinhamentos múltiplos, apenas uma das traduções destes textos foi contabilizada no presente estudo. No caso do EBDL1 e do EBDL3, utilizou-se a tradução brasileira, a fim de dar um maior equilíbrio às variantes do português representadas nas traduções. No caso do PBJA1, preferiu-se o alinhamento com a tradução inglesa de 2000 à tradução de 1865, que se demarca completamente das restantes traduções contemporâneas representadas no corpus.
3. Nenhuma distinção foi feita em relação às diferentes variantes do português representadas no corpus, embora, como se verá adiante, isso poderá ter influenciado alguns dos resultados obtidos.
4. Ver Inácio & Santos, 2008, para uma descrição detalhada dessas categorias gramaticais.
5. Em números absolutos, o ponto de corte equivale a um mínimo de 73 ocorrências no corpus de traduções e 63 ocorrências no corpus de originais.
6. Os textos do corpus são anteriores à recente implementação do Acordo Ortográfico de 1990.
7. Contudo, ver FRANKENBERG-GARCIA, 2009c, para um estudo aprofundado sobre a utilização de empréstimos na tradução literária.
8. F= frequência no corpus; F rel. = frequência relativa por 100 mil palavras; Dif. T/O = frequência relativa nas traduções dividida pela frequência relativa nos originais (e nas tabelas subsequentes, Diff O/T= frequência relativa nos originais dividida pela frequência relativa nas traduções).
9. Embora fato signifique terno em português europeu, quando a palavra é grafada sem a letra C só se contabilizaram as ocorrências provenientes do português do Brasil, equivalentes a facto em Portugal. Para todos os outros lemas em apreço, não se levou em conta a polissemia.
10. A presença marcada de rapariga no corpus de traduções pode ser em parte explicada pelo fato de que as traduções do corpus provêm principalmente de Portugal, onde esta palavra é muito mais comum do que em português do Brasil. O fato de não se ter separado as diferentes variantes do português pode ter constituído uma variável interveniente na distribuição de alguns lemas.