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Trabalhos em Linguística Aplicada

Print version ISSN 0103-1813

Trab. linguist. apl. vol.51 no.1 Campinas Jan./June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-18132012000100014 

ARTIGOS

 

O Twitter de Renê Silva e a ocupação da tecnologia: o morro (do Alemão) tem vez

 

Renê Silva's Twitter and technology occupation: the time of Alemão's slum

 

 

Junot de Oliveira Maia

UNICAMP-IEL/DLA/PPGLA, Campinas (SP), Brasil. junotmaia@gmail.com

 

 


RESUMO

No final do ano de 2010, durante a ocupação militar do Morro do Adeus, no Rio de Janeiro, Renê Silva, de 17 anos, destacou-se por usar o microblog Twitter para transmitir informações em tempo real sobre os acontecimentos que marcavam a invasão. O jovem, o qual fazia suas postagens de dentro da própria favela, é exemplo de sujeito pertencente a grupo periférico e que, a despeito das barreiras socioeconômicas impostas, se apropriou das TIC por meio de estratégias e táticas que, em ação, desestabilizaram a ordem hegemônica (DE CERTEAU, 1980/2008), aqui principalmente representada pelos veículos de informação em massa. Assim, este trabalho destaca como Renê, por meio de seus letramentos plurais e híbridos, se apropriou das novas tecnologias e, dessa forma, tornou-se locutor privilegiado dos conflitos que ocorriam no Complexo do Alemão.

Palavras-chave: apropriação das TIC; grupos periféricos; Renê Silva.


ABSTRACT

In late 2010, during the military occupation of the Adeus' slum in Rio de Janeiro, Renê Silva, 17, stood out by using the microblog Twitter to transmit real-time information about the events that marked the invasion. Silva, who made his posts from the slum itself, is an example of a subject belonging to the peripheral group and who, despite the socio-economic barriers imposed, appropriated the ICT through strategies and tactics that in action destabilized the hegemonic order (DE CERTEAU, 1980/2008), here mainly represented by the mass media. Thus, this work highlights how Silva, through his plural and hybrid literacies, appropriated new technologies and thereby became a privileged reporter of the conflicts that occurred in the Alemão's complex of slums.

Keywords: TIC appropriation; peripheral groups; Renê Silva.


 

 

"o morro pede passagem"
(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

 

INTRODUÇÃO

Polícia ocupa morro do Alemão

 

 

No dia em que a manchete acima estampou a capa do jornal Folha de São Paulo, tropas da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, juntamente com as Forças Armadas, invadiram o Complexo do Alemão, conjunto formado por 13 diferentes comunidades1, a fim de acabar com o domínio, sobre aquela área, dos traficantes do Comando Vermelho, uma das facções criminosas existentes no Rio de Janeiro.

Em função da relevância social de tal ato, o processo de ocupação, que se estendeu por cerca de 2 horas, dominou as notícias daquele período, tendo sido, portanto, amplamente divulgado. O Complexo do Alemão era, então, tópico na TV, no rádio, nos jornais impressos e, é claro, na Internet, que detalhava a ação através de seus inúmeros portais de notícias, redes sociais, blogs e microblogs.

Foi justamente em um desses microblogs, o Twitter2, que, em meio ao contexto de ação militar no morro e ampla promoção midiática, um jovem passou a chamar a atenção dos outros usuários, os chamados "twitteiros". Renê Silva, 17 anos, morador do Morro do Adeus, uma das favelas que compõem o Complexo do Alemão, e idealizador do projeto "Voz da Comunidade", um pequeno jornal mensal que tem como público-alvo os próprios habitantes da periferia, passou a relatar e divulgar a invasão policial de dentro da favela e em tempo real. O twitter institucional de seu veículo, o @vozdacomunidade3, tornou-se reconhecido como fonte privilegiada de novas e instantâneas informações e, por isso, teve um salto em número de seguidores (de 180 no início da cobertura para 22.000 no auge da ocupação); os twitters pessoais da equipe de redação do jornal, composta, a saber, por Renê (@Rene_Silva_RJ) e mais dois amigos (@JackComunidade e @IgorComunidade), transformaram rapidamente esses menores anônimos em celebridades (su)perseguidas no mundo virtual. O "Voz da Comunidade" aumentou seu número de seguidores, bem como passou a ser amplamente promovido pelos usuários do Twitter, sendo divulgado, inclusive, por algumas celebridades da grande mídia, como atores e jornalistas.4

É nesse contexto, considerando que "a distribuição desigual de recursos materiais e as barreiras levantadas para o acesso à informação em certos contextos sociais de prestígio historicamente sempre favoreceram os grupos economicamente privilegiados" (BRAGA, 2010, p. 374), que o percurso de Renê Silva, líder do jornal, pode ser caracterizado como um caso de apropriação das novas tecnologias por parte de um sujeito pertencente à periferia do mercado de bens culturais, o que se configura como uma atitude de subversão das práticas sociais hegemônicas.

Dessa forma, levando em consideração as novas possibilidades de construção de sentido por meio das tecnologias da informação e comunicação5 (em especial, a Internet) e das múltiplas práticas contemporâneas de letramento, este estudo de caso objetiva mostrar, com base em reportagens sobre Renê Silva e em declarações que ele próprio concedeu em entrevistas6, como os sujeitos pertencentes aos grupos periféricos são capazes de se apropriar desses novos recursos a fim de promover uma coligação contra-hegemônica (SOUZA-SANTOS, 2005), subvertendo, assim, a ordem vigente, valorizada e estabilizada pelas relações de poder.

 

1. O PROCESSO DE APROPRIAÇÃO DAS TIC: A SUBVERSÃO DA HEGEMONIA COMO INVENÇÃO DO COTIDIANO

Ao se pensar a apropriação das TIC por parte de grupos periféricos e os inúmeros letramentos que ela envolve, considerando que os sujeitos que os compõem praticam um movimento de subversão e resistência diante das (im)posições do poder hegemônico, o trabalho de De Certeau (1980/2008) mostra-se produtivo no que tange a um embasamento crítico das complexidades envolvidas nesse processo. O autor acredita em um sujeito que lança mão de seus usos astuciosos no limiar entre a autonomia relativa aos determinantes de sua condição social e a passividade tangente às imposições disciplinadoras da razão técnica, do poder majoritário vigente. O homem ordinário de De Certeau (1980/2008), diante dos inúmeros enquadramentos sociais que lhe são impostos entre o autônomo e o modelador, é "(...) Cada vez mais coagido e sempre menos envolvido por esses amplos enquadramentos, (...) se destaca deles sem poder escapar-lhes, e só lhe resta a astúcia no relacionamento com eles, 'dar golpes'" (1980/2008, p. 52). São esses movimentos de astúcia na estrutura social, são esses "golpes" que marcam o sujeito periférico, ordinário, como indivíduo a ser reprimido pelas forças dominantes e, simultaneamente, agente fortalecedor de resistências e lutas em direções contra-hegemônicas (BRAGA, 2010).

Um fator relevante proveniente dessa astúcia periférica é que, inusitadamente, embora esse homem ordinário esteja submetido a jogos de poder e discursos da razão que buscam fortemente excluí-lo das práticas sociais valorizadas, suas ações inventivas e transgressoras ocorrem justamente no campo da hegemonia, do poder, da ordem técnica que acredita dominar os meios de organizar funções e pessoas. É, pois, na trincheira desse opositor hegemônico, que ele conseguirá agir e resistir para democratizar os objetos sociais dominantes, hibridá-los a fim de propor novos usos para os produtos que lhe são impostos, e isso inclui as diferentes e híbridas práticas de letramento.

1.1. Reconhecendo as práticas contemporâneas de letramento como híbridas: os Novos Estudos do Letramento

O surgimento dos estudos iniciais sobre letramento se deu em função do reconhecimento, por parte dos estudiosos de linguagem, da urgência de se separar as pesquisas e trabalhos sobre alfabetização daqueles que visavam à análise crítica dos impactos sociais concernentes à escrita (KLEIMAN, 1995).

O trabalho que inaugurou os Novos Estudos do Letramento, New Literacy Studies7, foi concebido por Street (1984 apud ROJO, 2009) justamente para marcar a distância existente entre o caráter individual relativo aos alfabetismos e os inúmeros usos e práticas sociais de linguagem que caracterizam a circulação contextualizada da escrita. Seriam, então, dois os possíveis enfoques regentes dos estudos de letramento: o autônomo, ligado a aspectos majoritariamente cognitivos, independentes do contexto, e que, consequentemente, reconhecem os alfabetismos como habilidades capazes de hierarquizar os sujeitos; e o ideológico, que analisa a leitura e a escrita como práticas necessariamente imersas nos contextos sociais.

É ancorado nesse último enfoque, o ideológico, que Street (2003) reconhece a variação relativa às práticas de letramento em função dos diferentes contextos. Segundo o autor,

[pensar o letramento como prática social] implica o reconhecimento dos múltiplos letramentos, que variam no tempo e no espaço, mas que são também contestados nas relações de poder. Assim, os NLS não pressupõem coisa alguma como garantida em relação aos letramentos e às práticas sociais com que se associam, problematizando aquilo que conta como letramento em qualquer tempo-espaço e interrogando-se sobre 'quais letramentos' são dominantes e quais são marginalizados ou de resistência (STREET, 2003, p.77).8

A partir desse reconhecimento, o conceito de letramento passa a ser pensado de modo plural: ao invés de letramento, letramentos. Uma postura de análise crítica também se faz indispensável para "o trato ético dos discursos em uma sociedade saturada de textos e que não pode lidar com eles de maneira instantânea" (MOITA-LOPES e ROJO, 2004 apud ROJO, 2009, p. 108), pois, imersas nas relações de poder, as diversas práticas e, portanto, os diferentes letramentos, são determinantemente influenciados pela contemporaneidade, a qual, por sua vez, é marcada pela intensificação e diversificação da circulação de informações, pelo encurtamento das distâncias espaço-tempo e pelas multissemioses características das relações texto-hipermídia.

A atitude de admitir, então, múltiplos letramentos, plurais e críticos, como é possível inferir de Street (2003), também nos leva a pensar que as práticas atuais que envolvem leitura e escrita, quando analisadas no contexto das TIC, hibridam-se, misturam-se, interpenetram-se, amalgamam-se a fim de conseguir dar conta das complexidades impostas pela contemporaneidade. Fazendo isso, elas enfraquecem a resistência do hegemônico na medida em que lhe impõem instabilidade, o que, consequentemente, permite que os sujeitos periféricos consigam se destacar em meio ao cartesianismo forçado pelos grupos de poder nas práticas cotidianas.

Assim, no que tange à relevância das TIC em meio às práticas híbridas, a complexa gama de implicações decorrentes dessa nova dinâmica

revela que as interações das novas tecnologias com a cultura anterior as torna parte de um processo muito maior do que aquele que elas desencadearam ou manejam. Uma dessas transformações de longa data, que a intervenção tecnológica torna mais patente, é a reorganização dos vínculos entre grupos e sistemas simbólicos; os descolecionamentos e as hibridações já não permitem vincular rigidamente as classes sociais com os estratos culturais. (...) a tendência predominante é que todos os setores misturem em seus gostos objetos de procedências antes separadas. (GARCIA-CANCLINI, 2008, 309).

Nesse sentido, como afirma o mesmo García-Canclini (2008), considerando que essa cultura anterior envolve as práticas de leitura e escrita anteriores aos adventos digitais, não se trata de defender que a circulação, mais fluida e complexa, proporcionada pelas TIC, tenha dado fim às fronteiras que determinam as divergências sociais; mas, por outro lado, uma nova forma de analisar a (re)organização do cenário de consumo dos bens culturais, relevando o fato de que a hibridação das práticas outrora separadas é recorrente, faz-se urgente.

Mais uma vez, o trabalho de De Certeau (1980/2008) impõe-se como fundamental para a análise proposta. Não bastasse a descrição do sujeito ordinário, agente transgressor componente dos grupos periféricos, o autor também irá propor uma espécie de teoria formal que visa a detalhar o modus operandi, as maneiras de fazer dos sujeitos excluídos, reconhecendo a necessidade de que essas práticas sociais sejam problematizadas, criticamente analisadas, segundo seu caráter de subversão em relação às práticas valorizadas, longe das exaltações cabíveis a uma cultura popular ou a uma bandeira de resistência.

1.2. A rede de conceitos certeaunianos para a apropriação anti-hegemônica: o uso diante do lugar das estratégias e do não-lugar das táticas9

Conforme destaca Buzato (2007), a busca fundamental de De Certeau (1980/2008) com seus modelos analíticos, mais do que fazer uma coletânea de práticas, seria "caracterizar as trajetórias dos praticantes, entender as séries de operações encadeadas em sequências temporais, e seguir a circulação social dos fragmentos de conhecimento privado entre amigos, parentes, vizinhos e colegas de trabalho" (GIARD, 2003 apud BUZATO, 2007, p. 47). Por isso, trata-se de conceitos flexíveis - e não de um modelo estrito -, que, além de permitir aplicações múltiplas, são capazes de servir de inspiração para a análise crítica da apropriação das TIC por parte de sujeitos periféricos, o que envolve, por conseguinte, o contato com diversos letramentos circulantes.

Assim, da complexa rede de conceitos de De Certeau (1980/2008) que buscam compreender a produção do cotidiano por parte dos sujeitos marginalizados, merecem destaque os de produtores e consumidores, estratégias e táticas, lugar e espaço.

1.2.1. Produtores e consumidores

É possível extrair, das ideias de De Certeau (1980/2008), que o consumo, embora requeira certa carga de passividade, não é só por ela caracterizado. Ora, isso é tanto verdade na medida em que um sujeito, quando consome uma mercadoria, ao mesmo tempo em que assim age por estar subordinado (e, portanto, passivo) a um sistema fortemente disciplinador que o obriga a consumir, ele, a partir desse ato, também faz um uso específico do produto, o que marca sua atividade nesse processo.

O uso é, dessa forma, a ação fundamental para que um sujeito possa ser caracterizado como consumidor ou produtor. Não se trata de estabelecer uma diferença entre quem produz ou não, mas sim de analisar criticamente o uso que é feito dos produtos sociais: de um lado, há os sujeitos que o fazem de forma racional, centralizada, estrategicamente a fim de metaforizar a ordem vigente; de outro, os que usam de modo astucioso, descentralizado, colocando em ação suas táticas de forma dispersa e, dessa forma, empregando, de acordo com seus interesses, aquilo que é imposto pela ordem dominante (BUZATO 2007, p. 50).

É de se imaginar, no entanto, que a complexidade das relações que marcam a dinâmica social faz com que o posicionamento produtor-consumidor seja relativo, ou seja, que varie de acordo com os contextos. Isso implica o entendimento de que um mesmo sujeito, consumidor em uma determinada situação, pode ser produtor em outra. Dessa forma, analisar as relações de força envolvidas nos processos cotidianos de produção social e, portanto, de apropriação, é indispensável.

1.2.2. Estratégias e táticas; lugar e espaço

Considerando o processo de apropriação como um "golpe" aplicado por meio do uso dos bens culturais característicos da ordem dominante, é necessário reconhecer que ele "deriva num relevo imposto" (DE CERTEAU, 1980/2008, p. 97), ou seja, ocorre marcado pelas determinações da ordem vigente. Nesse contexto, os conceitos utilizados por De Certeau (1980/2008) para pensar as relações de força que caracterizam as dinâmicas da produção cotidiana são concebidos ou como estratégia, ou como tática.

Segundo o autor, estratégia é

o cálculo (ou a manipulação) das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um sujeito de querer e poder (uma empresa, um exército, uma cidade, uma instituição científica) pode ser isolado. A estratégia postula um lugar suscetível de ser circunscrito como algo próprio e ser a base de onde se podem gerir as relações com uma exterioridade de alvos e ameaças. (2008, p. 99).

Dessa forma, a estratégia implica sensação de segurança, estabilidade que pressupõe uma espécie de encistamento cuja casca protege o sujeito dos poderes opressores, porém invisíveis, do Outro. Consequentemente, além de permitir o estabelecimento de um próprio, um triunfo sobre o tempo que implica autonomia, ela se configura como uma visão antecipada, uma prática panóptica a partir de um lugar que, tal como a estratégia exige, privilegia a possibilidade de prever adversidades. É por isso, então, que De Certeau afirma que, no lugar, "impera a lei do próprio: os elementos considerados se acham uns ao lado dos outros, situados num lugar 'próprio' e distinto que define. (...) Implica uma indicação de estabilidade" (1980/2008, p. 201).

Se a estratégia se define pela segurança, a tática, por sua vez, ocorre justamente no lugar do outro, um não-lugar marcado pela instabilidade. Arte caracterizadora da astúcia do marginalizado, ela é

a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio. Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia. (...) [Ela] deve jogar com o terreno do outro que lhe é imposto tal como o organiza a lei de uma força estranha. (...) Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as 'ocasiões' e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. (...) Tem que utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário. Aí vai caçar. Cria ali surpresas. Consegue estar onde ninguém espera. É astúcia. (DE CERTEAU, 1980/2008, p. 100).

Portanto, sucintamente, a tática aproveita as ocasiões e delas depende, na medida em que se aproveita das lacunas camufladas pela suposta homogeneidade de um sistema. Pode ser considerada recurso-limite, astúcia possível e pertinente ao sujeito marginalizado diante da ocasião oportuna; é "movimento 'dentro do campo de visão do inimigo' (...) e no espaço por ele controlado" (DE CERTEAU, 1980/2008, p. 100). Esse espaço da tática, pois, é marcado pela instabilidade, é "efeito produzido pelas operações que o orientam, o circunstanciam, o temporalizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas conflituais ou de proximidades contratuais" (DE CERTEAU, 1980/2008, p. 202), é marcado pelo apagamento da estabilidade de um próprio.

O modelo de estratégias e táticas, dessa forma, permite que o sujeito marginalizado, a despeito das barreiras impostas pelo poder hegemônico, consiga se apropriar de letramentos valorizados, o que inclui, consequentemente, o uso das TIC. É nesse embate entre a segurança do lugar estratégico e a ousadia do espaço tático que ele conseguirá "dar o golpe". O caso a ser analisado em seguida procura entender o percurso de apropriação do "golpista" Renê Silva, que assistiu à ocupação do Morro do Alemão ocupando-se do poder de subversão das novas tecnologias.

 

2. OCUPAÇÃO E APROPRIAÇÃO: RENÊ SILVA E SEUS "GOLPES" DA VEZ

Renê Silva, jovem do morador do Morro do Adeus, twitou em tempo real a invasão da polícia ao Complexo do Alemão

 

 

Essa manchete do jornal "O Globo" deixa claro que Renê Silva, um jovem habitante da periferia carioca, conseguiu aplicar seu golpe, dobrar o poder hegemônico ao fazer uso das TIC e se tornar o informante privilegiado de fatos ocorridos durante a tomada do Complexo do Alemão pelos militares. Reconhecido isso, importante é entender, com apoio nos conceitos de De Certeau (1980/2008), de que forma se deu esse processo de apropriação.

2.1. Estratégias: a relevância de variados letramentos para a preparação do "golpista"10

O destaque conseguido por Renê Silva11 em meio à circulação hegemônica de discursos, o que envolve algumas práticas valorizadas de diferentes letramentos, não foi conseguido, é claro, de forma aleatória. Isso significa que ele já dominava, antes da ocupação do morro, estratégias importantes, as quais, ao passo que garantiam sua estabilidade e segurança frente às relações de poder, serviriam posteriormente como embasamento para a ação tática no terreno do Outro.

Uma primeira estratégia pode ser reconhecida na participação de Renê Silva no jornal de sua escola. Ele admite esse primeiro contato como a grande inspiração para que ele conseguisse expandir suas práticas de letramento para além dos muros de sua escola:

R1 A ideia surgiu quando eu resolvi participar do jornal escolar, na escola municipal onde eu estudava. E eu participei do jornal escolar, aprendi a usar o computador, aprendi a tirar foto, aprendi a fazer o jornal escolar. Depois de um mês, mais ou menos, eu tive uma ideia assim de, poxa, por que não criar um jornal pra dentro da comunidade, com o apoio da escola, tirando os xérox, fazendo tudo, né. E aí eu conversei com a diretora e a diretora achou super boa a ideia e aí incentivou, "vamos fazer, sim".

Considerando que o jornal envolve a prática de diferentes letramentos e que se configura como manifestação de grande mídia, é impossível negar que houve um contato do jovem, justamente por meio das práticas de letramento escolar, com gêneros textuais de elite. O folhetim da escola era, dessa forma, uma representação, em pequeno contexto, dos grandes jornais que veiculam, por meio de diferentes e valorizados gêneros, as informações que interessam ao poder letrado. Trata-se, pois, de um descolecionamento, uma hibridação que permitiu que um jovem marginalizado tivesse contato com práticas letradas hegemônicas.

No entanto, o fato de ter sido na escola o contato de Renê com o jornal não implicou que ele restringisse suas formas de fazer sentido às práticas de letramento escolar. Ele começou, então, a diversificar suas mídias e, assim, lidar com outras tantas práticas de letramento que viabilizavam ações pertinentes ao contexto de produção de um jornal, como a manipulação de programas de computador para fazer a diagramação, o uso de máquinas de xérox para a impressão das edições e o levantamento de fontes de pesquisa para a seleção dos textos e temas a compor um número:

R2 [tive] todo suporte na área de tirar xérox, de fazer impressão, de organizar, e eu fui aprendendo a usar o computador, o programa Word, que eu usava no começo (...) Eu seleciono as notícias fazendo o seguinte, é... através da Internet, do Twitter... tô bem atualizado, né. Através do Twitter, eu consigo fazer a pesquisa com as pessoas dizendo "quais assuntos eu devo abordar este mês".

Nesse trecho, é claro o uso de diferentes letramentos, práticas híbridas, plurais e críticas, tão pertinente ao contexto das TIC. Inicialmente com o uso do editor de textos Word e, a posteriori, graças ao advento da Internet, o jovem conseguiu munir-se de diferentes recursos para buscar informações, fatos a serem comentados ou noticiados, e para organizar estruturalmente o próprio jornal a ser impresso. Não bastasse, a mesma ferramenta que ele usa como fonte de informação, também é usada como instrumento de interação com o público do jornal, como ele denota ao citar o Twitter como instrumento de interação que expõe a opinião dos "seguidores-leitores". Em suma, são multiletramentos que permitem multissemioses (COPE; KALANTZIS, 2010).

Há que se ressaltar, ainda, que o uso da Internet e os multiletramentos são fundamentais para as iniciativas de localização assumida (SOUZA-SANTOS, 2005) colocadas em prática por Renê. No entanto, ele não usa as mídias simplesmente como forma de resistência local em relação à hegemonia; trata-se tanto de uma sociabilidade cooperativa e participativa que promove interação em contexto marginalizado, como é uma tentativa de divulgar globalmente seu local, de "dar voz ao morro":

R3 (...)tem a coluna "Empreendedores da Comunidade", que eu criei, tive a ideia de criar, que conta a história de cada morador que investiu em um projeto dentro da comunidade, criou uma empresa, dono de um bar, entendeu, e eu conto a história. Tem uma coluna chamada "Da comunidade para o Brasil", que são pessoas com talentos, cantores, que têm alguma coisa pra mostrar pra fora, entendeu, e aí através (...) dessa interação com a Internet, eu consigo montar o jornal e discutir quais assuntos devem entrar ou não.

Os relatos anteriores, portanto, expõem o lugar marcado por Renê Silva para conseguir estabilidade, para tornar-se sujeito de querer e poder, e dão destaque às estratégias por ele desenvolvidas (DE CERTEAU, 1980/2008). Esse movimento cartesiano se torna ainda mais verdade na medida em que a entrevista é de data anterior às ações militares na periferia do Rio de Janeiro. É importante, então, mostrar como a invasão ao morro do Alemão foi a oportunidade ideal para que Renê, seguro em suas estratégias, colocasse suas táticas em ação.

2.2. Táticas: a vez de Renê Silva na trincheira do Outro12

Embora o jovem tenha afirmado que não esperava tamanha repercussão, por parte da grande mídia, sobre sua atuação, a ocupação militar do Complexo do Alemão foi o acontecimento que projetou Renê Silva como sujeito a ser valorizado pelos grupos de poder. Notadamente, esse acontecimento se configurou como a oportunidade perfeita para que ele, ancorado em suas estratégias, conseguisse aplicar suas táticas em um movimento desestabilizador da ordem hegemônica, representada, nesse contexto, pelos grandes veículos de mídia.

No seguinte depoimento, ele expõe como começou a cobrir os acontecimentos da ação militar:

R4 Comecei postando do meu Twitter pessoal, e meus seguidores falaram que era melhor twittar do perfil do jornal, que representava melhor a comunidade. Comecei a escrever em tempo real o que estava acontecendo ao meio-dia de sábado e fiquei até 2h da manhã de ontem. Fui deitar, mas, se ouvia um cada (sic) disparo, me levantava para twittar. Não imaginava que ia causar tanta repercussão.

Segundo essa declaração, a ideia de usar o twitter institucional, o @vozdacomunidade, foi de um dos seguidores iniciais de Renê Silva, que já conheciam o jornal e as iniciativas do jovem. Foi através desse usuário que disparos, ações militares dentro da favela, atitudes de resistência por parte dos traficantes e manifestações e opiniões dos moradores das comunidades foram divulgados na Internet, em tempo real.

Vale ressaltar que, mesmo diante da ideia de postar por meio do twitter do jornal, também houve manifestações importantes através dos twitters pessoais da equipe do "Voz da Comunidade", composta por dois jovens colegas de Renê. Igor, um deles, twittou "os traficantes jogaram uma granada nos policiais!!! tenso" e "Um carro de bombeiros acabou de chegar próximo a (sic) rua Joaquim de Queiroz, na grota!!!", detalhando algumas das ações que ocorreram no morro na noite da invasão.

O fato de esses jovens estarem imersos no contexto da ocupação fez com que eles se tornassem um canal privilegiado de informações sobre o andamento dos acontecimentos no morro. Foram, dessa forma, equiparados aos maiores veículos da grande imprensa, fossem eles jornais impressos, televisionados, ou portais da Internet, mas com diferenciais que os destacavam de todas as outras manifestações midiáticas, como a realidade decorrente do contexto de produção dos tweets e o conhecimento acerca do espaço ocupado, justamente por serem moradores da área invadida. Isso fez com que, em vários momentos, eles respondessem a dúvidas postadas pelos internautas sobre fatos como a possibilidade de os bandidos estarem usando civis como reféns, ou sobre o que retratavam imagens transmitidas pela televisão e pela Internet:

 

 

Em alguns momentos, inclusive, o "Voz da Comunidade" chegou a corrigir informações noticiadas pela grande mídia, como mostra a declaração a seguir:

R5 Às vezes, a gente até corrigia algumas informações dadas na tevê, como as áreas que os helicópteros estavam sobrevoando, porque nós conhecemos melhor a comunidade.

A repercussão da cobertura feita pelo "Voz da Comunidade" tornou-se ainda maior quando algumas celebridades, como o jornalista Marcelo Tas, a atriz Fernanda Paes Leme, a novelista Glória Perez e a cantora Gal Costa elogiaram, em seus twitters, a cobertura feita pelos jovens.

Tamanha repercussão alcançada pelo "Voz da Comunidade", mais especificamente, por seu idealizador, fez, inclusive, com que Renê, em alguns momentos, passasse a dar declarações de autoridade, não mais meramente informativas. Firmando-se, pois, como pessoa que vivia a ocupação da forma como nenhum espectador, ou mesmo jornalista, o fazia, ele chegou a dar declarações à imprensa sobre o que ele esperava que a operação fosse gerar:

R6 Não senti medo, pois já estou acostumado. Mas espero agora descansar, não ouvir mais disparos de tiros e que haja mudanças.

Nesse momento, então, o "golpe" se esclarece: o jovem faz da ocupação do Complexo do Alemão seu momento de agir taticamente. Agora, Renê é sujeito que se apropriou de bens culturais da elite e, por meio deles, fez ecoar a sua voz. Ele se dirige ao grupo hegemônico, age discursivamente no lugar do inimigo, a fim de clamar por mudanças: ele quer descansar sem ser acordado pelo barulho de tiros; ele não quer estar acostumado à violência; ele também quer a paz, que parece ser um anseio e um direito somente dos grupos de poder.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Mesmo diante da admissão do fato de que os processos de estruturação social impõem barreiras que sempre favoreceram os grupos hegemônicos (BRAGA, 2010), os marginalizados conseguem, por meio de suas ações, se apropriar de bens culturais característicos da elite. Esse processo de apropriação se dá, à luz de De Certeau (1980/2008), segundo o uso de estratégias, próprias e estáveis, que permitem que táticas, instáveis e deslocadoras da ordem racional vigente, sejam colocadas em ação.

As TIC, dessa forma, configuram-se como bens culturais, feitos por e para a elite, que habilitam os grupos periféricos a fazerem apropriações no equilíbrio imposto pelos grupos de poder. Nesse sentido, o caso de Renê Silva é exemplar, na medida em que, além de denotar estratégias e táticas sendo postas em ação, demonstra que elas são marcadas pelos letramentos múltiplos, plurais e híbridos, tão produtivos no que tange a diferentes formas de fazer sentido.

O jovem do morro do Alemão, que se define como sujeito que está onde a imprensa não entra, é exemplo claro de ataque direto à linearidade do poder hegemônico e, portanto, de apropriação bem sucedida. Ele prova, pois, que não se trata de fazer demais: os periféricos, quando têm oportunidade, ancoram-se em suas estratégias e colocam suas táticas em ação a fim de subverter a ordem cartesiana. O canto de Renê Silva é pela voz, pela vez do morro.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAGA, D. B. (2010) Tecnologia e participação social no processo de produção e consumo de bens culturais: novas possibilidades trazidas pelas praticas letradas digitais mediadas pela Internet. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, v. 49, n. 2, p. 373-391.         [ Links ]

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KLEIMAN, A. B. (1995) Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. In: KLEIMAN, A. B. (Org.) Os significados do letramento: uma nova perspectiva na sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras.         [ Links ]

O GLOBO. (2010) Renê Silva, jovem do (sic) morador do Morro do Adeus, twittou em tempo real a invasão da polícia ao Complexo do Alemão. Disponível em: <http://oglobo.globo.com/rio/mat/2010/11/28/rene-silva-jovem-do-morador-do-morro-do-adeus-twittou-em-tempo-real-invasao-da-policia-ao-complexo-do-alemao-923134429.asp>. Acesso em: 07 de julho de 2011.         [ Links ]

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Recebido: 6/09/2011
Aceito: 24/01/2012

 

 

1. Informação extraída do site da ONG Raízes em Movimento. Disponível em: <http://raizesemmovimento.blogspot.com/search/label/4%20-%20Onde%20estamos>. Acesso em: 24 de junho de 2011.
2. Criado em 2006 por Jack Dorsey, o Twitter é uma rede social e microblog gratuito cuja principal função é permitir a troca, entre seus usuários, de atualizações pessoais contidas em, no máximo, 140 caracteres. Para maiores informações, consultar <http://twitter.com/about>. Acesso em: 03 de julho de 2011.
3. No Twitter, o nome de usuário é precedido pelo "@" e as pessoas que acompanham as postagens dos muitos usuários são chamadas de "seguidores".
4. Informações baseadas na reportagem "Renê Silva, jovem do (sic) morador do Morro do Adeus, twittou em tempo real a invasão da polícia ao Complexo do Alemão", do portal "O Globo" de 29 de novembro de 2010; e na transcrição de uma entrevista concedida por Renê Silva à TV Gama, divulgada via YouTube no dia 3 de outubro de 2010.
5. Doravante, TIC.
6. Declarações extraídas especificamente da reportagem e da transcrição mencionadas na nota 5.
7. A sigla NEL é válida, bem como NLS.
8. Tradução extraída de Rojo (2009, p. 102).
9. Conceitos destacados no texto original de De Certeau (1980/2008) são, nesta divisão, colocados em itálico.
10. Nessa subdivisão, as transcrições de R1 a R3 foram retiradas da entrevista concedida por Renê Silva à TV Gama, divulgada via YouTube no dia 3 de outubro de 2010.
11. Doravante, nos trechos de entrevista e declarações, Renê Silva será representado como "R".
12. Nessa subdivisão, as declarações de R4 a R6 e os trechos de reportagem foram retirados da matéria "Renê Silva, jovem do (sic) morador do Morro do Adeus, twittou em tempo real a invasão da polícia ao Complexo do Alemão", publicada no portal "O Globo" do dia 29 de Novembro de 2010.