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Revista de Economia e Sociologia Rural

Print version ISSN 0103-2003

Rev. Econ. Sociol. Rural vol.51 no.4 Brasília Oct./Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20032013000400007 

Pesquisa Qualitativa: rigor metodológico no tratamento da teoria dos custos de transação em artigos apresentados nos congressos da Sober (2007-2011)

 

 

Cleiciele Albuquerque AugustoI; José Paulo de SouzaII; Eloise Helena Livramento DellagneloIII; Silvio Antonio Ferraz CarioIV

IDoutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Email: cleicielealbuquerque@yahoo.com.br
IIProfessor Associado do Departamento de Administração da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Email: jpsouza@uem.br
IIIProfessora Associada da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Email: eloise@cse.ufsc.br
IVProfessor Associado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Email: fecario@uem.br

 

 


RESUMO

O objetivo deste artigo foi analisar como são construídas as pesquisas de natureza qualitativa em artigos sobre a Teoria dos Custos de Transação (TCT), considerando as publicações dos anais da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober), de 2007 a 2011. Foram focados aspectos metodológicos relacionados aos tipos de pesquisa, recorte temporal, métodos de coleta, tipos de dados e métodos de análise utilizados. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa, do tipo descritiva e exploratória, com abordagem teórica, recorte transversal com perspectiva longitudinal e fundamentada em dados secundários. Os resultados demonstraram que grande parte dos artigos analisados é de natureza qualitativa, do tipo exploratório, com recorte transversal, sendo o questionário, seguido por entrevistas estruturadas, os métodos de coleta predominantes. Os dados primários em conjunto com os secundários foram os mais utilizados. Os métodos de análise não se apresentaram de forma clara nos artigos selecionados, sendo observadas três situações: a) não são citados; b) são citados, mas não são explicados e observados no momento da análise; c) são citados e explicados, mas não são adotados na análise. Concluiu-se que a ausência de rigor metodológico, notadamente nos métodos de coleta e análise de dados, prejudica a análise dos resultados, reduzindo a possibilidade de contribuição dos trabalhos para o avanço do conhecimento que envolve a TCT.

Palavras-chaves: Teoria dos Custos de Transação, pesquisa qualitativa, procedimentos metodológicos.


ABSTRACT

To exam how qualitative research is built in articles involving the Transaction Costs Theory (TCT), considering publications listed from 2007 to 2011 of the congress of Brazilian Society for Rural Economics, Administration and Sociology (Sober) is the aim of this paper. Therefore, it was considered, mainly, methodological aspects related to the research types, time frame, collection methods, data types and analysis methods used. For this purpose, it was carried a qualitative research, descriptive and exploratory type, with theoretical approach, cut crosssectional and longitudinal perspective based on secondary data. The results showed that most of the articles analyzed involved qualitative research, exploratory type, with cross-cut and questionnaire, followed by structured interviews, as the predominate data collection methods. The primary data, along with the secondary data, were the most used. The analysis methods were not clear in any of the selected quality articles. Three situations were observed: a) they are not cited; b) they are cited, but not explained or observed in the analysis; c) they are quoted and explained, but not adopted in the analysis. It was concluded that the lack of methodological rigor, specifically in collecting and analyzing data, affected the results, reducing the possibility of the contribution of works for advances of knowledge involving the TCT.

Key-words: Transaction Costs Theory, qualitative research, methodological procedures.
Classificação JEL: B49.


 

 

1. Introdução

Nos últimos anos, diversos estudos sobre a Teoria dos Custos de Transação (TCT) têm sido feitos, buscando investigar os fatores que influenciam a coordenação de transações entre agentes. Fundamentada nos estudos de Ronald Coase (1937, 1960), Oliver Williamson (1985, 1996), Oliver Hart (1995), dentre outros, a TCT defende a consideração da existência de custos de transação positivos, confrontando os custos da organização interna com os da produção via mercado. Tratada como uma teoria de eficiência e considerando a transação como sua unidade de análise, propõe a redução desses custos por intermédio do alinhamento entre atributos de transação, pressupostos comportamentais e estruturas de governança.

Zylbersztajn (2009, p. 43) destaca que "[...] a partir dos trabalhos de Coase emergiu uma família de teorias que permitiu a elaboração de pressupostos e aplicações aos problemas empíricos do mundo real". Sua validade para aplicação empírica, entretanto, se dá a partir dos trabalhos de Oliver Williamson (1985, 1996), conforme é ratificado por Ménard (2004), ao afirmar que esse autor elaborou ferramentas para explorar os mecanismos de governança, permitindo sua aplicação e análise empírica. O autor observa que a TCT surgiu como alternativa à carência de estudos empíricos que pudessem explicar as formas alternativas de coordenação, além do mercado, presentes no sistema agroindustrial.

A partir de então, a crescente presença de estudos sobre governança e formas contratuais na agricultura começaram a ser fomentadas em sociedades internacionais como American Agricultural Economics Association e na International Society for the New Institutional Economics (ZYLBERSZTAJN, 2005). No Brasil, conforme o autor, o tema foi incorporado a agendas de pesquisa, em estudos envolvendo, notadamente, o sistema agroindustrial. Nesse sentido, observase um direcionamento desses estudos para cadeias agroindustriais, sendo que os seus principais mecanismos de disseminação estão em congressos de natureza científica, com destaque para o Congresso Anual da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober).

Com a propagação de estudos sobre essa temática, torna-se relevante entender, em termos metodológicos, como se dá a interação entre os pressupostos teóricos da TCT e os princípios norteadores predominantes nos trabalhos empíricos. Embora o racional predominante seja o alinhamento entre as estruturas de governança e atributos de transação, a consideração de fatores comportamentais determina o modo como essas estruturas são configuradas. Tendo em vista esses fatores, a metodologia qualitativa parece identificar um caminho natural para a compreensão de fenômenos comportamentais que abrangem a temática da TCT. Diante disso, o foco nesse estudo é compreender como os estudos envolvendo trabalhos empíricos na TCT se estruturam em propostas de natureza qualitativa, tendo em vista os aspectos comportamentais (oportunismo e racionalidade limitada) destacados como influenciadores na definição das estruturas e governança. Destaca-se, portanto, que a sua preocupação se origina no direcionamento dos métodos de pesquisa e não em conclusões sobre a contribuição efetiva no campo da TCT.

Desta forma, o objetivo da presente investigação é analisar como são construídas as pesquisas de natureza qualitativa em artigos que envolvem a temática da TCT, considerando as publicações constantes nos anais da Sober de 2007 a 2011. Para atender esse objetivo, este artigo foi dividido em cinco seções, além desta introdução. Sendo assim, na segunda seção são apresentadas as ideias básicas sobre a Teoria dos Custos de Transação, explorando suas origens e pressupostos básicos. Na terceira seção, é feita uma revisão sobre pesquisa qualitativa com base nas suas características metodológicas principais, visando fornecer indicativos para a análise dos resultados. A quarta seção é destinada à descrição do percurso metodológico realizado. Na quinta seção, fazse a análise dos dados coletados. Por fim, a sexta seção é utilizada para as considerações finais, seguida pelas referências utilizadas.

 

2. Pesquisa qualitativa

2.1. Origens

Conforme Denzin e Lincoln (2006), o berço da pesquisa qualitativa está na sociologia e na antropologia. Na sociologia, a discussão da importância da pesquisa qualitativa para o estudo da vida de grupos humanos se deu por meio de trabalhos realizados pela Escola de Chicago, nas décadas de 1920 e 1930. Na mesma época, na antropologia, os estudos de autores como Evans-Pritchard, Radcliffe-Brow e Malinowski trouxeram os métodos de trabalho de campo.

Nesses métodos, a perspectiva metodológica utilizada era entender o outro, que normalmente era proveniente de uma cultura menos civilizada do que a cultura do pesquisador. Conforme Schwandt (2006), apesar de muitas décadas antes antropólogos e sociólogos já realizarem trabalhos de campo que incluíam investigação qualitativa, é na década de 1970 que a pesquisa qualitativa ganha força. Foi desenvolvida como um movimento de contraposição à concepção positivista de ciência, cujo foco são os fatos ou causas dos fenômenos sociais, devotando pouca consideração pelos estados subjetivos individuais. A perspectiva positivista, diferente da qualitativa, busca informações através de dados quantitativos que permitem estabelecer e provar relações entre variáveis definidas.

Com a propagação da pesquisa qualitativa, os métodos para geração e interpretação dos dados qualitativos ganharam certa aceitação em diversos outros campos das ciências sociais e comportamentais, tais como a educação, a história, a ciência política, os negócios, a medicina, a assistência social, entre outras. Desta forma, a pesquisa qualitativa recobre hoje um campo transdisciplinar e suas características são amplamente aceitas e utilizadas. Para um melhor entendimento dessa metodologia de pesquisa, o próximo tópico é destinado a esclarecer os princípios básicos dessa abordagem.

2.2. Características principais

Segundo Denzin e Lincoln (2006), a pesquisa qualitativa envolve uma abordagem interpretativa do mundo, o que significa que seus pesquisadores estudam as coisas em seus cenários naturais, tentando entender os fenômenos em termos dos significados que as pessoas a eles conferem. Seguindo essa linha de raciocínio, Vieira e Zouain (2005) afirmam que a pesquisa qualitativa atribui importância fundamental aos depoimentos dos atores sociais envolvidos, aos discursos e aos significados transmitidos por eles. Nesse sentido, esse tipo de pesquisa preza pela descrição detalhada dos fenômenos e dos elementos que o envolvem.

Ao discutir as características da pesquisa qualitativa, Creswel (2007, p. 186) chama atenção para o fato de que, na perspectiva qualitativa, o ambiente natural é a fonte direta de dados e o pesquisador, o principal instrumento, sendo que os dados coletados são predominantemente descritivos. Além disso, o autor destaca que a preocupação com o processo é muito maior do que com o produto, ou seja, o interesse do pesquisador ao estudar um determinado problema é verificar "como" ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas. Outro aspecto é que a análise dos dados tende a seguir um processo indutivo – a pesquisa qualitativa é emergente em vez de estritamente préconfigurada. Richardson (1999) acrescenta que a pesquisa qualitativa é especialmente válida em situações em que se evidencia a importância de compreender aspectos psicológicos cujos dados não podem ser coletados de modo completo por outros métodos, devido à complexidade que encerram (por exemplo, a compreensão de atitudes, motivações, expectativas e valores).

Godoy (2005) destaca alguns pontos fundamentais para se ter uma "boa" pesquisa qualitativa, tais como: credibilidade, no sentido de validade interna, ou seja, apresentar resultados dignos de confiança; transferibilidade, não se tratando de generalização, mas no sentido de realizar uma descrição densa do fenômeno que permita ao leitor imaginar o estudo em outro contexto; confiança em relação ao processo desenvolvido pelo pesquisador; confirmabilidade (ou confiabilidade) dos resultados, que envolve avaliar se os resultados estão coerentes com os dados coletados; explicitação cuidadosa da metodologia, detalhando minuciosamente como a pesquisa foi realizada e, por fim, relevância das questões de pesquisa, em relação a estudos anteriores.

Os defensores da pesquisa qualitativa argumentam que a realidade é socialmente construída e que, por esse motivo, não pode ser apreendida e expressa por meio de estudos quantitativos, cujos pressupostos são mais objetivos e gerais. A seguir, são apresentadas algumas comparações entre pesquisa qualitativa e quantitativa na tentativa de esclarecer as principais diferenças entre essas duas metodologias de pesquisa.

2.2.1. Pressupostos básicos quanto à natureza da pesquisa: pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa

Nos últimos anos, tem havido muita discussão sobre as diferenças entre a pesquisa qualitativa e quantitativa. Segundo Bauer e Gaskell (2002), uma metodologia qualitativa ou quantitativa será empregada dependendo da forma que o pesquisador deseja analisar um problema. Desta forma, existem problemas que podem ser investigados por meio da metodologia qualitativa e há outros que exigem uma conotação mais quantitativa.

Na visão de Denzin e Lincoln (2006), a palavra qualitativa implica uma ênfase sobre as qualidades das entidades e sobre os processos que não podem ser examinados ou medidos experimentalmente em termos de quantidade, volume, intensidade ou frequência. Já os estudos quantitativos enfatizam o ato de medir e analisar as relações causais entre variáveis, e não processos.

Seguindo essa linha de raciocínio, Richardson (1999, p. 102) destaca que "o objetivo fundamental da pesquisa qualitativa não reside na produção de opiniões representativas e objetivamente mensuráveis de um grupo; está no aprofundamento da compreensão de um fenômeno social por meio de entrevistas em profundidade e análises qualitativas da consciência articulada dos atores envolvidos no fenômeno". Por esse motivo, a validade da pesquisa não se dá pelo tamanho da amostra, como na pesquisa quantitativa, mas, sim, pela profundidade com que o estudo é realizado. No mesmo sentido, Trivinõs (2008) afirma que na pesquisa qualitativa recursos aleatórios podem ser usados para fixar a amostra. Nesse caso, pode-se decidir intencionalmente o tamanho da amostra, considerando uma série de condições, como sujeitos que sejam essenciais para o esclarecimento do assunto em foco, segundo o ponto de vista do investigador, facilidade para se encontrar com as pessoas, tempo dos indivíduos para a entrevista e assim por diante.

Ao explicar os aspectos que diferenciam a pesquisa qualitativa da quantitativa, Denzin e Lincoln (2006) destacam que o pesquisador qualitativo acredita que tem melhor condição de se aproximar da perspectiva do ator por meio da entrevista e da observação direta. Já os pesquisadores quantitativos consideram não confiáveis e não objetivos esses métodos, preferindo questionários que são mais diretos na captura dos dados. Outro aspecto indica que os pesquisadores qualitativos acreditam que descrições ricas do mundo social são valiosas, ao passo em que os quantitativos são indiferentes à essa riqueza das descrições, porque para eles esse tipo de detalhe interrompe o desenvolvimento das generalizações.

Segundo Bauer e Gaskel (2002, p. 24), muitos esforços foram despendidos na tentativa de justapor pesquisa quantitativa e qualitativa como paradigmas competitivos. No entanto, os autores defendem que isso não é possível, uma vez que não há quantificação sem qualificação, bem como não há analise estatística sem interpretação. Seguindo esse raciocínio, Vidich e Lyman (2006, p. 40) destacam: "[...] todos os métodos de pesquisa são, no fundo, qualitativos [...]; o emprego de dados quantitativos ou de procedimentos matemáticos não elimina o elemento intersubjetivo que representa a base da pesquisa social".

O escopo metodológico da pesquisa qualitativa baseiase em uma variedade de técnicas usadas na sua construção. Para melhor compreensão dessas técnicas, a seguir, são discutidos os tipos, recortes e abordagens da pesquisa qualitativa, bem como os métodos de coleta, tipos de dados e métodos de análise que podem ser utilizados na sua elaboração.

2.2.2. Tipos, recorte e abordagem de pesquisa

A classificação utilizada na presente investigação indica como tipos de pesquisa de natureza qualitativa as pesquisas de cunho exploratório e descritivo. As pesquisas explicativas, conforme Richardson (1999), normalmente guardam uma relação de causa-efeito, sendo, por este motivo, ligadas a investigações de natureza quantitativa, cuja intenção é estabelecer relações entre variáveis, fugindo do objetivo pretendido neste trabalho.

De acordo com Gil (2008), o objetivo de uma pesquisa exploratória é familiarizar-se com um assunto ainda pouco conhecido ou explorado. Assim, se constitui em um tipo de pesquisa muito específica, sendo comum assumir a forma de um estudo de caso. Nesse tipo de pesquisa, haverá sempre alguma obra ou entrevista com pessoas que tiveram experiências práticas com problemas semelhantes ou análise de exemplos análogos que podem estimular a compreensão.

As pesquisas descritivas, por sua vez, têm por objetivo descrever criteriosamente os fatos e fenômenos de determinada realidade, de forma a obter informações a respeito daquilo que já se definiu como problema a ser investigado (TRIVIÑOS, 2008). A diferença em relação à pesquisa exploratória é que o assunto da pesquisa já é conhecido. A grande contribuição das pesquisas descritivas é proporcionar novas visões sobre uma realidade já conhecida. Nada impede que uma pesquisa descritiva assuma a forma de um estudo de caso, apesar de essa possibilidade ser mais comum nas pesquisas exploratórias (GIL, 2008).

Quanto ao recorte temporal, Richardson (1999) aponta três tipos. O primeiro referese aos estudos de corte transversal, em que os dados são coletados em um ponto no tempo, com base em uma amostra selecionada para descrever uma população nesse determinado momento. O segundo diz respeito aos estudos de corte longitudinal, que consiste na coleta de dados de uma mesma amostra através do tempo, sendo, segundo o autor, mais demorados e custosos. O terceiro tipo são estudos de recorte transversal com perspectiva longitudinal, que se focam num ponto no tempo, mas incluem noção de mudança ao longo de um período.

No que tange à abordagem, as pesquisas são classificadas nesse trabalho como teóricas ou teóricoempíricas. Conforme Demo (2000, p. 20), a pesquisa teórica é aquela "[...] dedicada a reconstruir teoria, conceitos, ideias, ideologias, polêmicas, tendo em vista, em termos imediatos, aprimorar fundamentos teóricos" Conforme o autor, essa modalidade de pesquisa requer rigor conceitual, análise acurada, desempenho lógico, argumentação diversificada e capacidade explicativa. A pesquisa teórico-empírica, por sua vez, é a pesquisa "[...] dedicada ao tratamento da face empírica e fatual da realidade; produz e analisa dados, procedendo sempre pela via do controle empírico e fatual" (DEMO, 2000, p. 21). Segundo o autor, o significado dos dados empíricos depende do referencial teórico, mas estes dados agregam impacto pertinente, sobretudo no sentido de facilitarem a aproximação prática.

2.2.3. Métodos de coleta e tipos de dados

Ludke e André (1986) apontam três métodos de coleta de dados utilizados na pesquisa qualitativa: observação, entrevista e pesquisa ou análise documental. A observação é um método de análise visual que consiste em se aproximar do ambiente natural em que um determinado fenômeno ocorre, visando chegar mais perto da perspectiva dos sujeitos investigados. Precisa ser, antes de tudo, controlada e sistemática, o que implica a existência de um planejamento cuidadoso do trabalho a ser realizado. Richardson (1999) destaca que a observação pode ser participante (o observador busca tornar-se um membro do grupo) ou não participante (o pesquisador não interage com o grupo observado).

A entrevista é um segundo método empregado na coleta de dados. Conforme Godoy (2005) ela é um dos métodos mais utilizados na pesquisa qualitativa e parte de um continuum que vai desde entrevistas estruturadas, passando por entrevistas semiestruturadas até entrevistas não estruturadas. A chamada entrevista estruturada é usada quando se objetiva a obtenção de resultados uniformes entre os entrevistados, permitindo, assim, uma comparação imediata, em geral mediante tratamentos estatísticos. Triviños (2008) destaca que o tipo de entrevista mais adequado para a pesquisa qualitativa aproxima-se dos esquemas mais livres, menos estruturados, em que não há imposição de uma ordem rígida de questões.

A pesquisa documental é a terceira técnica apresentada por Ludke e Andre (1986). Conforme os autores, embora pouco explorada, essa técnica pode ser valiosa, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema, seja complementando as informações obtidas por outras técnicas. Outra vantagem é que a análise permite a obtenção de dados quando o acesso ao sujeito é impraticável. Além desses métodos, é válido ressaltar a utilização de questionários, que também podem servir de apoio nas pesquisas de natureza qualitativa, sendo a principal técnica de coleta em pesquisas quantitativas.

Para Richardson (1999), geralmente os questionários cumprem duas funções, ou seja, descrevem características e medem determinadas variáveis de um grupo. Quando ao tipo de pergunta, os questionários podem ser classificados em questionários de perguntas fechadas, de perguntas abertas e que combinam ambos os tipos de perguntas. Conforme o autor, que apesar de exigir menos habilidade para aplicação do que uma entrevista, os questionários sozinhos podem não ser suficientes para alcançar a profundidade na compreensão do fenômeno requerida pelas pesquisas de natureza qualitativa.

Quanto aos tipos de dados coletados, eles podem ser classificados em dados primários e secundários. Os dados primários são aqueles que apresentam relação física direta com os fatos analisados, ou seja, foram coletados especificamente para uma determinada investigação. Os dados secundários, por sua vez, referem-se às informações que não apresentam relação direta com o acontecimento registrado, tendo sido reunidos para algum outro propósito que não o estudo imediato em mãos (RICHARDSON, 1999).

2.2.4. Métodos de análise de dados

Entre os métodos de análise de dados utilizados nas pesquisas de natureza qualitativa, destacamse o de análise de conteúdo e o de análise de discurso. De acordo com Bardim (2004), a análise do conteúdo consiste num conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, obter indicadores quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) das mensagens. Conforme Richardson (1999), a análise de conteúdo tenta descrever o texto segundo a sua forma, isto é, os símbolos empregados, palavras, temas, expressões, frases e quanto ao seu fundo, que tenta verificar as tendências dos textos e a adequação do conteúdo.

Segundo Bardin (2004, p. 89), a análise de conteúdo apresenta as seguintes etapas no seu processamento: 1) Pré-análise: nesta etapa, o pesquisador vai realizar a "escolha dos documentos a serem submetidos à análise, a formulação das hipóteses e dos objetivos e a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final"; 2) Descrição analítica: o material é submetido a um estudo aprofundado orientado pelas hipóteses e pelo referencial teórico. Procedimentos como a codificação, a categorização e a classificação são básicos nesta fase. Buscamse sínteses coincidentes e divergentes de ideias; 3) Interpretação referencial: a reflexão, a intuição com embasamento nos materiais empíricos estabelecem relações, aprofundando as conexões das ideias. Nessa fase, o pesquisador aprofunda sua análise e chega a resultados mais concretos da pesquisa.

A análise de discurso, por sua vez, apresenta três tradições analíticas indispensáveis, conforme Fairclough (2001): 1) Tradição de análise textual e linguística, com enfoque tanto na forma quanto no significado embutido no texto (foco no texto em termos de vocabulário, gramática, coesão e estrutura textual); 2) Tradição macrossociológica de análise da prática social em relação às estruturas sociais (foco na prática discursiva: envolve processo de produção, distribuição e consumo textual; 3) Tradição interpretativa ou microssociológica de considerar a prática social como algo que as pessoas produzem ativamente e entendem com base em procedimentos de senso comum partilhados (foco na prática social, considerando as ideologias e hegemonia presente).

 

3. Teoria dos custos de transação

3.1. Origens

Segundo Langlois e Foss (1997), a TCT surgiu com Ronald Coase, que introduziu em seu célebre artigo "The nature of the firm", em 1937, uma nova perspectiva para o entendimento das estratégias empresariais ao mostrar que existem custos, além dos custos de produção, associados ao funcionamento dos mercados: os custos de transação. Segundo Saes (2009, p. 46), neste artigo, "o autor critica a visão da firma como uma função de produção, argumentando que a firma é uma relação orgânica entre agentes, que se efetiva por meio de contratos, sejam explícitos, como os de trabalho, ou implícitos, como parcerias formais".

A partir da visão da firma como um nexo de contratos, como explica Zylberztajn (2009, p. 43), abriuse a possibilidade do "estudo das organizações como 'arranjos institucionais' que regem as transações, seja por meio de contratos formais ou de acordos informais, os primeiros amparados pela lei, o segundo amparado por salvaguardas reputacionais e outros mecanismos sociais". Assim, surgiu uma família de teorias da firma de base contratual, dentre as quais destacamse a Economia dos Custos de Transação (WILLIAMSON, 1985, 1996), Teoria dos Custos de Mensuração (BARZEL, 2002), ambas ancoradas em Coase, Teoria dos Contratos Incompletos (HART, 1995), Teoria com Base nos Recursos (LANGLOIS, 1998), entre outras. O ponto central é que instituições são relevantes, são passíveis de análise, afetam e são afetadas pelas firmas e organizações.

Desta forma, em sua essência, a TCT considera um ambiente com custos de transação positivos, ou seja, existem custos para proteger e capturar direitos de propriedade, que podem ser garantidos tanto por contratos formais como por outras formas de coordenação informais, amparadas por reputação ou laços sociais. Deste modo, a ECT adota a transação como unidade de análise e parte do pressuposto de que a organização deve adotar a estrutura de governança que reduza os seus custos de transação.

3.2. Atributos de transação e pressupostos comportamentais

A TCT trata de uma teoria que permite analisar as organizações e o seu relacionamento com o mercado e as instituições a partir das características das transações e de pressupostos comportamentais dos agentes envolvidos. Desta forma, ao analisar as dimensões significativas das transações e os atributos presentes, é possível prever os arranjos institucionais que serão adotados. Conforme Williamson (1985), os atributos que caracterizam uma transação são três: a frequência, a incerteza e a especificidade de ativos, sendo este último, na visão do autor, o principal determinante da estrutura de governança a ser adotada.

Segundo Williamson (1985), o atributo frequência diz respeito ao número de vezes que os agentes econômicos se encontram para realizar uma transação, considerandose que, quanto maior a frequência, maior a probabilidade de os parceiros desenvolverem reputação, limitando comportamentos oportunistas. Já a incerteza são as mudanças que surgem da complexidade do ambiente econômico, impossibilitando avaliações totalmente precisas. Os ativos específicos, por sua vez, são ativos tangíveis ou intangíveis irrecuperáveis, no sentido de que não podem ser devolvidos para o mercado caso a relação de negócio original seja descontinuada, ou seja, não podem ser reempregáveis em outra transação sem perda de valor.

Além dos atributos das transações, Williamson (1985) afirma que a Economia dos Custos de Transação parte de dois pressupostos comportamentais que a distinguem da abordagem tradicional: o oportunismo e a racionalidade limitada. Para Zylbersztajn (1995, p. 17), "o oportunismo parte de um princípio de jogo não cooperativo, onde a informação que um agente possa ter sobre a realidade não acessível a outro agente, pode permitir que o primeiro desfrute de algum benefício do tipo monopolístico". Segundo o autor, da racionalidade limitada deriva a noção de incompletude contratual, ou seja, devido aos limites cognitivos que caracterizam os agentes, não é possível o estabelecimento de contratos que deem conta de todas as contingências futuras. Sendo assim, quanto maior a racionalidade limitada e a possibilidade de comportamento oportunista, mais integradas devem ser as estruturas de governança utilizadas, ou seja, nesse caso, as organizações devem se proteger por meio de contratos ou de uma estrutura baseada na integração vertical.

Considerando-se o exposto, destaca-se que, a partir dos atributos das transações, dos pressupostos comportamentais, tendo sido identificado o ambiente institucional e definidas as diferentes relações contratuais, pode-se identificar a estrutura de governança apropriada para as diversas transações. As estruturas de governança discutidas na literatura sobre a Economia dos Custos de Transação são apresentadas a seguir.

3.3. Estruturas de governança

Com a finalidade de reduzir custos de transação, os agentes fazem uso de mecanismos apropriados para regular uma determinada transação, denominados estruturas de governança. De acordo com Jacobides e Winter (2005), ao longo dos últimos 20 anos, muito progresso tem sido feito na tentativa de compreender o que impulsiona as estruturas de governança observadas na prática. Uma figura-chave nesse desenvolvimento foi Oliver Williamson (1975, 1985, 1999), que elaborou e operacionalizou o conceito de custos de transação, inicialmente formulado por Coase (1937).

Na percepção de Williamson (1985), as estruturas de governança são mecanismos de coordenação que determinam a maneira como as transações realizadas são configuradas, sendo que podem dar-se de três formas: via mercado, hierarquia (integração vertical) ou por contratos (formas híbridas). De acordo com Williamson (1985), a estrutura de governança via mercado ocorre quando as empresas escolhem comprar o que precisa no mercado livre, ao invés de produzirem internamente ou fazerem contratos.

A integração vertical ou hierarquia, por sua vez, acontece quando a empresa decide fabricar internamente os produtos que precisa ou realizar internamente as atividades, ao invés de comprar no mercado livre, não incluindo, neste caso, parcerias com fornecedores potenciais ou terceiros (WILLIAMSON, 1985). As formas híbridas, conforme Ménard (2004), são as estruturas de ordenação de transações recorrentemente identificadas como distintas das estruturas via mercado e hierarquia, assumindo a forma de contratos e possuindo inúmeras características que as aproximam ou as afastam destes dois tipos de estruturas.

Para Williamson (1985), o mercado é o modo preferido de abastecimento quando a especificidade de ativos não for alta, devido ao "incentivo e deficiências burocráticas de organização interna nos aspectos de controle de custos de produção". No entanto, a organização interna é favorável onde a especificidade de ativos for alta, por causa do alto grau de dependência bilateral que existe nestas circunstâncias. Nesse caso, segundo Poppo e Zenger (1998), a integração vertical é motivada, principalmente, pelo potencial de comportamentos oportunistas.

 

4. Procedimentos metodológicos

A presente pesquisa é de natureza qualitativa, do tipo descritiva e exploratória, com abordagem teórica, recorte transversal com perspectiva longitudinal e fundamentada em dados secundários. A partir de um estudo bibliométrico, focado nos processos de avaliação da produção científica e a necessária indicação de indicadores para esse fim (VANZ e STUMPF, 2010), uma pesquisa de modalidade bibliográfica foi feita com base nos autores que discutem a TCT e a metodologia qualitativa de pesquisa. Os dados secundários foram coletados nos anais dos últimos cinco anos da Sober, contemplando o período de 2007 a 2011. O critério de escolha pelo Congresso da Sober foi por julgamento, já que é considerado por autores expoentes da área (ZYLBERSZTAJN, 2009, SAES, 2009) o principal mecanismo de divulgação no País para temas relacionados ao agronegócio e, mais especificamente, à temática da TCT.

A seleção dos artigos se deu a partir dos CDs de anais do evento dos respectivos anos, utilizandose do critério de busca na opção "Título do artigo" e "Palavras-chaves". Nessas opções, foram inseridas palavras que indicassem referência à TCT, tais como "transação", "custos de transação", "teoria ou economia dos custos de transação". Na sequência, os artigos selecionados foram avaliados individualmente, em termos de tema, referencial teórico, metodologia, análise dos resultados e conclusões, buscando averiguar a maneira como foram elaborados.

Desta forma, a coleta de dados se deu por meio de pesquisa documental e bibliográfica, e o método de análise utilizado foi a análise de conteúdo. Além de buscar identificar as tendências dos textos (BARDIN, 2004), o método de análise de conteúdo foi empregado visando organizar os dados e analisar os resultados obtidos, a partir de categorias identificadas por meio do referencial teórico coletado e da pesquisa documental realizada. A partir das explicações de Bardin (2004), o presente estudo constituiu-se de três etapas básicas: 1) Pré-análise: em que foram definidos o tema, o referencial teórico, os objetivos, a metodologia, bem como a coleta dos dados secundários; 2) Análise descritiva: organização e descrição dos dados coletados, envolvendo a codificação por meio da classificação (intensidade e direção de ideias) e categorização (definição de categorias a serem trabalhadas (Figura 1); 3) Interpretação inferencial: compreensão dos fenômenos a partir dos materiais teóricos e empíricos, busca de respostas às questões de pesquisa levantadas, verificação de contradições e, por fim, realização das conclusões.

Tendo-se em vista o referencial teórico e os dados secundários coletados, o objetivo do artigo foi analisar como são estruturadas as pesquisas de natureza qualitativa que envolvem a temática da TCT nos anais da Sober de 2007 a 2011. Nesse aspecto, a proposta foi identificar, principalmente, os tipos de pesquisa, o recorte temporal, a abordagem, os métodos de coleta, os tipos de dados e os métodos de análise de dados utilizados. Por meio desses enfoques, buscouse considerar a maneira como foram analisados os pressupostos teóricos básicos da TCT, quais sejam os atributos de transação, os pressupostos comportamentais e as estruturas de governança. Esse raciocínio estabeleceu as categorias de estudo da presente investigação, apresentadas na Figura 1 e discutidas a seguir.

 

5. Resultados e discussão: pesquisa qualitativa nos estudos sobre TCT

5.1. Natureza, tipos e recortes de pesquisa

A partir do levantado realizado, foram encontrados 35 artigos referentes ao período entre 20072011 de submissões ao evento da Sober. Entre esses artigos, a maioria é de natureza qualitativa, perfazendo um total de 25 artigos. Dos 10 restantes, sete são de natureza quantitativa e três, mistos (quali-quanti), ou seja, se utilizam de ambas as abordagens para responder ao objetivo proposto. É válido destacar que nem todos os artigos aqui identificados como qualitativos trazem essa informação explícita no corpo do texto. Para efeitos de análise, essa identificação foi alcançada a partir do objetivo de cada artigo e da maneira como os dados foram analisados, que deixou clara a natureza que os autores dão à sua investigação, mesmo que implicitamente. O Quadro 1 apresenta as informações levantadas, sendo que, nos artigos em que a identificação dos aspectos metodológicos não é realizada pelos autores, é utilizada a expressão NC (não consta).

Em relação aos tipos de pesquisa qualitativas, aqui considerados como descritivas e exploratórias (GIL, 2008; TRIVIÑOS, 2008), notouse que a maioria dos artigos não traz essa informação. Entre os 35 artigos selecionados, nove são identificados pelos autores como exploratórios e três, como descritivos. Outra informação que não aparece na quase totalidade dos artigos, com exceção do artigo 1, de 2011, referese ao tipo de recorte temporal utilizado. Não há uma preocupação dos autores em indicar se a perspectiva do estudo é transversal (ou seccional), longitudinal ou transversal com perspectiva longitudinal, conforme apresentado por Richardson (1999), mesmo em pesquisas em que essa diferenciação está diretamente relacionada ao objetivo do artigo. A identificação do recorte temporal de cada artigo é apontada no Quadro 1, com base na análise realizada visando compreender como os artigos foram configurados. Sendo assim, dos 35 artigos avaliados, 31 apresentam corte transversal, dois, corte longitudinal e os outros dois, corte transversal com perspectiva longitudinal.

Outra informação relevante diz respeito à abordagem dos artigos em análise, ou seja, se são teóricos ou teórico-empíricos, conforme definido por Demo (2000). Essa informação pode fornecer bases para se verificar a proporção em que a TCT tem sido aplicada empiricamente nos últimos anos. Dos 35 artigos investigados, 29 são teóricoempíricos, demonstrando notável interesse de aplicabilidade do instrumental teórico da TCT.

Os artigos com essa abordagem utilizam o instrumental da TCT para avaliar as transações intersegmentos, principalmente em cadeias agroindustriais, com destaque para a cadeia da mandioca, da soja, do trigo, do leite, de aves, da cana, entres outras. Os seis artigos restantes são teóricos, cujo enfoque está principalmente voltado para a descrição e discussão do instrumental teórico da TCT ou de sua utilização para tratar outras bases teóricas numa relação de proximidade, complementaridade ou incompatibilidade.

5.2. Métodos de coleta e análise e tipos de dados

Outro aspecto metodológico avaliado nos artigos selecionados diz respeito aos métodos de coleta e análise dos dados. Conforme mapeado no Quadro 2, os principais métodos de coleta de dados empregados nos artigos foram a entrevista, o questionário e a pesquisa documental. Dos 35 artigos selecionados, 10 aplicaram entrevistas, 11, questionários e oito, pesquisas documentais/bibliográfica como métodos de coleta (somente um citou a observação direta como método de coleta empregado). Os seis restantes não indicam nada a respeito de como os dados foram coletados, mas, como são teóricos ou baseados em dados secundários, pressupõese que os autores tenham se utilizado de pesquisa ou análise documental/bibliográfica.

Em se tratando dos métodos de coleta, vale chamar atenção para a maneira como eles são empregados na compreensão do fenômeno em estudo. Conforme pode ser observado, a pesquisa de natureza qualitativa é predominante no tratamento da temática da TCT. Como existem pressupostos comportamentais no arcabouço teórico da abordagem, a pesquisa qualitativa mostrase conveniente para compreender os aspectos subjetivos envolvidos. No entanto, percebeuse predominância razoável de questionários fechados e entrevistas estruturadas na coleta de dados dos artigos em análise, como pode ser observado no Quadro 2, deixando pouca opção de participação para os sujeitos entrevistados. Essa condição contraria a proposta de Triviños (2008) e Denzin e Lincoln (2006) quanto ao uso de esquemas mais livres e menos estruturados nas pesquisas de natureza qualitativa. No mesmo sentido, diverge da afirmação de Richardson (1999) que alega que questionários são mais apropriados para pesquisas de natureza quantitativa, devido à uniformidade e padronização das informações.

Para demonstrar a aplicação de métodos de coleta fechados na busca de compreensão dos pressupostos comportamentais da TCT, podese tomar como exemplo o artigo 6, de 2011. Nesse artigo, os autores destacam: "O questionário foi elaborado em consonância com os pressupostos da TCT, constando de 19 questões fechadas e uma questão aberta, questões essas contemplando aspectos inerentes ao comportamento dos agentes, às características das transações e a Estrutura de Governança na relação transacional" (grifo nosso).

Da mesma maneira, o artigo 7 utiliza como método de coleta "questionário com perguntas fechadas". Os autores explicam: "[...] No sentido de mensurar a importância dispensada por cada elemento às variáveis de pesquisa, foi aplicado um questionário composto por uma escala do tipo Likert de 0 a 10, sendo o 0 a não aplicação da variável, 1, o menor grau para a variável em questão e 10, o maior grau possível para a variável" (2011, p. 11). Nesse caso, além de os autores buscarem a compreensão de aspectos comportamentais por meio de um questionário fechado, e somente dele, chama-se atenção para o tamanho da escala utilizada (0 a 10), o que parece dificultar a interpretação por parte dos respondentes. É possível perceber que esse tipo de abordagem pode prejudicar a interpretação e descrição detalhada do fenômeno, características da pesquisa qualitativa, conforme defendido por Vieira e Zouain (2005), Godoy (2005) e Creswel (2007), dado o instrumento de coleta utilizado.

Em relação aos tipos de dados coletados (primários/secundários), grande parte dos autores não identifica essa informação. Entretanto, ao analisar os artigos foi possível perceber que 19 dos 35 artigos se utilizam de dados primários e secundários, 11 se utilizam somente de dados secundários e três, somente de dados primários. Vale notar que, apesar de alguns autores de artigos teórico-empíricos se embasarem somente em dados secundários para fazerem a análise de dados, a maioria recorre a dados primários por meio de entrevistas e questionários. A realização de entrevistas ratifica um dos aspectos básicos da pesquisa qualitativa, relacionado à busca pela interação com o ambiente de ocorrência do fenômeno e com os atores envolvidos, conforme preconizam Vieira e Zouain (2005); Denzin e Lincoln (2006); Creswel (2007); Triviños (2008).

A partir dos artigos avaliados, percebese, de forma geral, uma indefinição em termos de métodos de análise. Dos 35 artigos analisados, 20 não fazem qualquer referência ao método de análise de dados empregado. Mesmo nos artigos em que essa referência é feita, não há especificações de como ele será utilizado na análise dos resultados ou de um referencial que torne claro em que o método se constitui e a partir de quais autores será trabalhado. Uma demonstração da superficialidade com que o método é tratado pode ser visualizada no artigo 2 (2008). Ao indicarem a maneira como os dados serão analisados no tópico de metodologia, os autores relatam: "As entrevistas foram realizadas em Janeiro/2008 e os dados obtidos inicialmente foram avaliados individualmente e, num segundo momento, de forma consolidada". Percebese não só a ausência de um método de análise concreto, como a superficialidade na explicação de como a análise será conduzida.

Em alguns casos, o método é explicado nos procedimentos metodológicos, no entanto, observou-se que na análise de resultados esse método não é empregado, demonstrando análises mais intuitivas do que baseadas em alguma técnica metodológica específica. Em outros casos, os autores se limitam a identificar o nome do método, como segue: "Nesse artigo, foram feitas entrevistas com 12 produtores rurais, cuja análise está pautada no método de análise de conteúdo" (Artigo 4, 2008).

Outro exemplo dessa situação pode ser dado por meio do artigo 1, de 2011. Ao citarem a análise de discurso e análise de conteúdo como métodos de análise de dados no tópico de metodologia do artigo, os autores não explicam em que consistem esses métodos e não correspondem às orientações requeridas pela sua utilização quando realizam a análise dos dados. Nesse ponto, percebe-se que, ao analisar os dados, os autores se utilizam quase que unicamente da estatística descritiva, não estabelecendo categorias de análise, fundamentais no método de análise de conteúdo, ou buscando significados escondidos nas entrelinhas ou na etimologia das palavras (FAIRCLOUGH, 2001), fundamentais na análise do discurso. Essa conduta é observada na quase totalidade dos artigos qualitativos.

Conforme indicado por Richardson (1999) e Triviños (2008), a validade da pesquisa qualitativa não se dá pelo tamanho da amostra, como na quantitativa, mas, sim, pela profundidade em que a pesquisa é realizada. No caso dos artigos citados como exemplo no parágrafo anterior, a estatística descritiva leva em conta 26 produtores na região noroeste do Paraná (artigo 1, 2011) e 12 produtores rurais de hortaliças (artigo 4, 2008). Sendo assim, tendo em conta que se realiza uma pesquisa qualitativa, os autores puderam decidir intencionalmente o tamanho da amostra, como o fizeram. Por outro lado, apesar de a estatística descritiva demonstrar a realidade da amostra estudada, ela não é suficiente, sozinha, para alcançar a profundidade requerida pela pesquisa qualitativa. Isso porque os percentuais focados considerandose os 26 ou os 14 entrevistados podem perder o sentido ao se considerar a falta de representatividade diante da amostra total. E se outros 26 produtores diferentes tivessem sido entrevistados, seria possível obter os mesmos percentuais?

Qual o sentido de se utilizar percentuais quando não se tem (e não é necessário que se tenha) representatividade da amostra, como é o caso de estudos qualitativos? Em outras palavras, o válido, nesse caso, é interpretar e descrever como o fenômeno ocorre em seu contexto, independente de percentuais baseados em amostras, cuja representatividade não se denota necessária em estudos dessa natureza, principalmente quando elas não têm significância na amostra total.

Considerando a característica fundamental relacionada à profundidade na pesquisa qualitativa (RICHARDSON, 1999; TRIVIÑOS, 2008), vale destacar a sua ausência em alguns artigos avaliados. O artigo 4, de 2011, ilustra essa observação. Nesse artigo, são avaliados 27 produtores de uma população total de 249 produtores agropecuários. Em termos de pesquisa qualitativa, a quantidade de participantes parece ser suficiente para se alcançar a compreensão do fenômeno em estudo. No entanto, das 13 páginas que compõem o artigo, somente duas são destinadas à análise dos resultados e conclusões, sendo que as outras nove são destinadas à revisão de literatura e referencial teórico. Situações similares são observadas em outros artigos de natureza qualitativa avaliados.

Vale notar que esse tipo de exposição pode denotar certa superficialidade na análise, uma vez que a profundidade na compreensão do fenômeno em sua realidade empírica não é alcançada, o que diverge do requerido por pesquisa de natureza qualitativa, conforme defendido por Vieira e Zouain (2005), Godoy (2005), Denzin e Lincoln (2006), Triviños (2008), entre outros. Um resumo dos resultados obtidos a partir da enumeração, categorização e classificação dos dados coletados possibilitou a convergência das informações entre os artigos e a elaboração da Figura 2.

5.3. Observações sobre a aplicação da metodologia qualitativa nos estudos envolvendo a TCT

Ao se considerar a proposta de busca de melhor coordenação entre os agentes como mecanismo para redução de custos de transação, os elementos relacionados aos atributos de transação, pressupostos comportamentais e estruturas de governança configuraram a orientação da TCT para a análise empírica. Nesses termos, a geração de custos de transação, influenciada pela condição do alinhamento entre esses elementos, define o seu caráter preditivo. Sendo assim, as contribuições do referencial teórico analítico da TCT surgem a partir de sua aplicabilidade e predição no mundo real, tornando relevante a análise de como essas pesquisas são realizadas.

A partir dos artigos levantados, percebeuse que a pesquisa qualitativa se apresenta de forma predominante no evento considerado. Os pressupostos comportamentais envolvidos nos aspectos básicos da abordagem indicam a pesquisa qualitativa como adequada para a sua identificação, caracterização e compreensão. Entretanto, percebeuse que a falta de profundidade relacionada, em primeira análise, aos métodos de coleta adotados, não só limita a sua caracterização como a compreensão de como esses influenciam no processo de governança. Da mesma forma, a caracterização dos atributos de transação, muitas vezes, é realizada de forma superficial, o que denota ausência de rigor metodológico.

Outro fator se refere à analise isolada de cada elemento, não focando a compreensão de como sua interação influencia na formação de custos de transação. Os artigos, carentes de uma estrutura de análise concreta, são limitados ao explicar a maneira como surgem os custos de transação, apresentando, simplesmente, a descrição de como cada elemento aparece para determinado setor. Sendo assim, não se entende o mecanismo envolvido na geração de custos de transação, fundamental na discussão da TCT. No mesmo sentido, em alguns artigos, a caracterização das estruturas de governança aparece sem sustentação ou argumentos que demonstrem claramente os fatores que justificam sua configuração.

A possibilidade de construir categorias e de segmentar as informações facilita o processo de análise, notadamente de conteúdo. Entretanto, o que se percebe na análise dos estudos evidenciados é a falta do uso adequado dessas ferramentas para obter a compreensão e estabelecer induções acerca da influência dos atributos nas estruturas de governança, e seus desdobramentos gerencias e operacionais. Nota-se que em nenhum caso, mesmo nos estudos que se utilizaram do método de análise de conteúdo, categorias foram estabelecidas para orientar a análise.

Por outro lado, as tentativas de estabelecer relações causais ou deduções são prejudicadas pela inadequação da metodologia qualitativa adotada nos trabalhos. Percebe-se, assim, que as afirmações, em sua maioria, carecem de sustentação não só pela condição dos dados e informações obtidas quanto pela carência de suporte teórico nas argumentações quando se realiza a análise de resultados. Em algumas análises, a teoria simplesmente é esquecida. Por esse motivo, o formalismo no levantamento e estruturação das informações, tendo como referência as categorias analíticas adequadas aos objetivos de cada estudo, além do rigor na análise e apresentação de induções, é essencial para confiabilidade nos estudos realizados e mostra-se necessário.

Na tentativa de contribuir para uma maior formalização metodológica nos estudos qualitativos envolvendo a TCT, propõe-se, no Quadro 3, uma estrutura mínima a ser contemplada, orientada pelas contribuições dos autores referenciados, de como um estudo qualitativo poderia ser conduzido.

Como a natureza e os tipos de pesquisa direcionam para as definições ou escolhas da abordagem, recorte, métodos de coleta, tipos de dados e métodos de análise, apresenta-se um conjunto de propostas que podem se ajustar aos objetivos definidos nos estudos qualitativos envolvendo a temática da TCT, considerando esses dois aspectos metodológicos. Nota-se que a adequação às opções sugeridas justificaria o uso de métodos qualitativos, conforme sugerido no Quadro 4.

 

6. Conclusão

O objetivo da presente investigação foi analisar como são construídas as pesquisas de natureza qualitativa em artigos que envolvem a temática da TCT, considerando as publicações constantes nos anais da Sober entre 2007 e 2011. O foco foi avaliar, em especial, a natureza e tipos de pesquisa, o recorte temporal, a abordagem, bem como os métodos de coleta, os tipos de dados e os métodos de análise utilizados.

A partir do levantamento realizado nos anais do evento da Sober durante esse período (2007-2011), foram selecionados 35 artigos, cujos autores se utilizaram da TCT em sua abordagem teórica, sendo que grande parte desses artigos (25) apresentam natureza qualitativa. Em se tratando do tipo de pesquisa, menos da metade dos artigos continha essa informação (somente 12), sendo que, entre esses, a pesquisa do tipo exploratória (nove) mostrou-se a mais utilizada. O recorte transversal, por sua vez, foi o empregado em quase todos os artigos avaliados (31), com exceção de quatro que empregaram o recorte longitudinal e o transversal com perspectiva longitudinal.

No que diz respeito aos métodos de coleta, o questionário foi o método mais utilizado (11), sendo normalmente empregados questionários fechados com algumas questões abertas. Nos artigos em que a entrevista foi o método de coleta utilizado (10), grande parte deles se utiliza de entrevistas estruturadas seguidas por entrevistas semiestruturadas. Mais da metade dos trabalhos avaliados se ampara em dados primários e dados secundários (19 artigos se utilizam de dados primários em conjunto com dados secundários). Os métodos de análise, por sua vez, não se apresentam de forma clara em nenhum dos artigos analisados. Três situações puderam ser evidenciadas: a) não são citados; b) são citados, mas não são explicados e observados no momento da análise; c) são citados e explicados, mas na análise não são adotados.

Uma observação detalhada acerca da coerência entre metodologia e resultados obtidos indicou uma fragilidade metodológica desses trabalhos, principalmente quanto aos métodos de coleta e análise. A ausência de rigor nessas fases prejudica o tratamento e análise dos resultados. Isso reduz a possibilidade de contribuição dos trabalhos para consolidação dos pressupostos da TCT, colocando em dúvida os resultados e a condição de predição da teoria. Dito de outra forma, a ausência de rigor metodológico observada nos artigos analisados pode prejudicar o avanço do conhecimento que envolve a temática da TCT.

Nota-se que as limitações desse estudo podem se configurar, inicialmente, pelo método de busca utilizado para localização dos artigos, uma vez que esses podem ter feito uso da TCT sem sua menção no título ou palavras-chaves. Outro ponto refere-se às formas de classificação utilizadas nesse trabalho. Denominações e tipologias diferentes podem ser empregadas no tratamento metodológico, inerente à pesquisa qualitativa, como fazem outros autores, o que não invalida, no entanto, essa proposta. Além disso, a análise se limitou aos pressupostos básicos da teoria, sendo que abordagens inerentes que configuram sua mainstream, relacionadas a custos de agência, direitos de propriedade, instituições, teoria dos contratos, entre outras, não foram consideradas. Orientações metodológicas com capacidade de melhor orientar os estudos relacionados à compreensão das estruturas de governança se mostram válidas como contribuições para futuros estudos.

 

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