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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.4 no.1-2 São Paulo Jan./Dec. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/ts.v4i1/2.84932 

Artigos

TRABALHO FEMININO E TECNOLOGIA: A Imagem da Alteridade*

Alice F. Itani** 

**Doutora em Ciências Sociais pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Pesquisadora do Projeto Trabalho e Transportes financiado pelo CNPq.


RESUMO

A introdução de inovações tecnológicas nos sistemas produtivos mantém a divisão de espaços profissionais entre os gêneros e coloca questões às ciências sociais. Uma distinção entre o trabalho feminino e o masculino perpassa as novas competências requeridas, como uma construção social que repousa na representação do feminino como negativo da qualificação. O presente texto baseia-se numa pesquisa realizada no metrô de São Paulo entre 1985 e 1989. Constitui uma tentativa de contribuir para uma reflexão em torno do conteúdo da separação dos espaços profissionais entre trabalho feminino e masculino, acompanhando a oposição à entrada das mulheres no trabalho envolvendo qualificação técnica. A atitude contra a "invasão feminina" que, se representa como uma atitude de defesa de espaços profissionais é também de defesa do coletivo. E, ainda, de resistência à uma re-elaboração do "fazer" enquanto competência profissional concebido no masculino e, por conseguinte, uma atitude de resistência contra o viver a alteridade que a "condutora" representa na subversão da identidade masculina.

Palavras-Chave: trabalho feminino; tecnologia; distinção; gênero; identidade; transportes

ABSTRACT

The labour sexual division remains even technological inovation has been introduced, questionning social science explanations. The discrimination between male and female labor is nowadays based on required knowledge for one's qualification. The social construction lies on discussion that to be female is a negative point in work qualification. This study bases on a research in the São Paulo Métropolitain Enterprise where there is a hard oposition to women employees as tram driver and well as in the technical qualified work. It would be a contribution to reflection on both male and female work place. The atitude against "female invasion" is an attempt to defend work space either individual or colective one.

Key words: woman labour; technology; distinction; gendre; identity; transportation

Texto completo disponível em PDF.

*Texto dedicado a Elizabeth Souza Lobo, que me fez refletir sobre essas mulheres no cotidiano tecnológico.

2Pesquisa realizada entre 1985 e 1989 com operadores diretamente envolvidos com o trabalho nos sistemas automatizados. Ver sobre o assunto "Metroviários et le travail automatisé: rapport au travail dans lo métropolitain de São Paulo". Tese de doutoramento apresentada à l'EHESS, Paris, 1992.

3Imagem verbalizada veiculando a idéia, a noção e a representação socialmente elaborada, conforme concepção desenvolvida por Serge Moscovici (1961) e Denise Jodelet (1989a).

4Cf. concepção de representação social desenvolvida por Serge Moscovici (1961) e Denise Jodelet (1989a).

5Cf. compreensão desenvolvida por François-André Isambert (1982).

6Cf. conceito desenvolvido por Pierre Bourdieu (1979).

7Em 1986 a população ativa masculina era de 66,2% e a femininade 33,8%. A população masculina é repartida em um terço na indústria e um terço nos serviços e a feminina está a dois terços nos serviços e um terço na indústria. Ver sobre isso dados primários do Censo FIBGE.

8Contando funções operativas diretamente ligadas à operação do metrô. As funções operativas são as diretamente envolvidas na operação do metrô, estando os postos de trabalhos locados ao longo das linhas, seja nas salas técnicas das estações, nos trens, nas plataformas ou no centro de controle.

9Cf. estudo desenvolvido por Frida M. Fischer (1986), a propósito do trabalho de bilheteiro no metrô.

10Como pode ser verificado pelo estudo de Ângelo Soares (1989) a propósito do trabalho informático realizado junto aos digitadores dos centros de processamento de dados do Estado de São Paulo.

11Cf. Revista de Transportes Públicos, ANTP, São Paulo, 1986, p. 117-118, extraído do jornal do Comércio, Porto Alegre, 20/01/86.

12Durante a apresentação do estudo realizado pelo DIESAT (Departamento Intersindical de Estudos sobre Saúde e Acidentes de Trabalho) a propósito das condições de trabalho dos condutores de trem do metrô de São Paulo. O estudo foi solicitado pelo sindicato dos metroviários em função da reivindicação da redução da jornada de trabalho dos condutores de trem.

13Quando a imagem do outro é "daquilo que não sou eu ou dos meus é construído numa negatividade concreta", a "imagem pela qual os conteúdos estão estreitamente ligados às práticas sociais, imagem que vai permitir, na interação social, o jogo da diferenciação e o trabalho de alienação" e que desenha as linhas da separação social. Cf. Denise Jodelet (1989).

14Sobre esse mesmo ponto ver o texto de Elisabeth Souza Lobo que desenvolve a análise da cientifícidade biológica (1991).

15Cf. análise de Elisabeth Souza Lobo (1991) baseando-se no estudo de Ruth Milkman (1983) sobre os operários ingleses.

16Mantoux comenta, ainda, "que os salários mais baixos eram, como sempre os das mulheres e crianças; por isso eram preferidas, em detrimento dos homens." (p.435, ed. brasileira), e, por conseguinte, nunca "o trabalho feminino e infantil fôra objeto de uma tal demanda". E, foi essa "utilização, cada vez mais generalizada de uma mão-de-obra inferior e barata" que se torna "um verdadeiro perigo para os operários adultos" (p. 436).

17Cf. prefácio de Serge Moscovici no livro de Denise Jodelet (1989, p. 11-12): "...C'est en effet la différence qui les confronte du matin au soir, tois les jours de l'année. Elle entame l'uniformité des opinions et des experiénces qui aurait pu être la leurs, comme partout ailleurs, ils en ont conscience. Mais une différence qui évoque l'identité, la ressemblance, puisque chacun le sait, la folie du bredin pourrait devenir celle du civil. En cohabitant, pourquoi ne deviendrait-on pas similaire? (...) Mais s'ils voyaient en ces fous leurs semblables, le habitants des villages alentour les considéraient, eux, comme des fous. Voilà ce qui oblige -(...)- a creuser le fossé de la différence."

17Cf. prefácio de Serge Moscovici no livro de Denise Jodelet (1989, p. 11-12): "...C'est en effet la différence qui les confronte du matin au soir, tois les jours de l'année. Elle entame l'uniformité des opinions et des experiénces qui aurait pu être la leurs, comme partout ailleurs, ils en ont conscience. Mais une différence qui évoque l'identité, la ressemblance, puisque chacun le sait, la folie du bredin pourrait devenir celle du civil. En cohabitant, pourquoi ne deviendrait-on pas similaire? (...) Mais s'ils voyaient en ces fous leurs semblables, le habitants des villages alentour les considéraient, eux, comme des fous. Voilà ce qui oblige -(...)- a creuser le fossé de la différence."

18Cf. Denise Jodelet (1989 b, p. 380): "Le travail de communication sociale les a transformées en idées-images (...), en images-mémoire, susceptibles à tout moment et en toute situation de restituer le sens accumulés dans un processus de sédimentation historique. (...) Mots, gestes, attitudes conservent la mémoire du groupe, recèlent un savoir tacite qui n' a plus à être énoncé à chaque instant. De même en va-t-i 1 pour les images d ' organes dont le partage social permet de conserver toute la richesse sémantique sans que pour autant les conceptions et les significations que leur correspondent soient toujours et partout mises en oeuvre, ou à découvert. Ils forment des primitifs représentationnels dont chacun peut faire découler des implications, générer du sens et des contenus représentatifs."

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Recebido: Outubro de 1992

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