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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070On-line version ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.4 no.1-2 São Paulo Jan./Dec. 1992

http://dx.doi.org/10.1590/ts.v4i1/2.84933 

Artigos

PROLEGÔMENO ÀS REVOLUÇÕES RELIGIOSAS NA AMÉRICA LATINA*

David Lehmann** 

**Professor da Universidade de Cambridge.

RESUMO

Nos últimos anos tornou-se cada vez mais clara a decepção daqueles que gostariam de ter visto o catolicismo "progressista" e as idéias associadas à Teologia da Libertação tornarem-se uma poderosa força de mudança na Igreja e na sociedade. Em contraste, o crescimento da variante pentecostal do protestantismo, comumente identificado com a moderna cultura americana, surpreendeu e chocou muitos observadores. Com base em trabalho de campo realizado em Salvador (Bahia), este artigo compara esses dois movimentos e mostra o que os divide e também o que eles têm em comum, à luz do que os aproxima da cultura popular, dos modelos de desenvolvimento que encerram e de sua inserção no fenômeno da globalização.

Palavras-Chave: religiosidade popular; catolicismo; teologia da libertação; pentecostalismo; racionalização; modernização

ABSTRACT

It has become increasingly apparent in recent years that those who would have like to see "progressive" Catholicism and the ideas associated with Liberation Theology become powerful force for change in the Church and in society have been disappointed. In contrast the headlong growth of the Pentecostal variety of Protestantism which is commonly identified with modern North American culture has surprised and even shocked many observers. Based on field work in Salvador (Bahia), this article compares these two movements and shows what divides them and also what they have in common, in the light of their approaches to popular culture, the models of development they embody, and their insertion in the phenomenon of globalization.

Key words: popular religiosity; Catholicism; Liberation Theology; Pentecostalism; rationalization; modernization

Texto completo disponível em PDF.

*Trabalho publicado originalmente em espanhol, em Punto de Vista (Revista de Cultura), ano XV, número 43, Buenos Aires, agosto de 1992, p. 35-41.

1Estas reflexões baseiam-se principalmente num trabalho de campo realizado durante quatro meses de 1991, em Salvador, Bahia (Brasil).

2De fato, é notável a qualidade do projeto arquitetônico de muitas igrejas periféricas de Salvador, sobretudo quando comparadas às ásperas salas quadradas dos protestantes, carentes de qualquer concessão à sensibilidade da vista e do ouvido. Ao mesmo tempo, a austeridade de ambas contrasta, evidentemente, com o barroco às vezes fulgurante das igrejas antigas.

3No nível sócio-econômico, assemelha-se à idéia de industrialização por substituição de importações, em que se espera que a indústria transplantada como um enxerto vá criando as condições de sua própria reprodução. Segundo o modelo neo-liberal, contudo, a abertura dos mecanismos "intersticiais" do mercado, o livre jogo do comércio internacional e das redes sociais e de comunicação, deveria produzir um paulatino, porém mais sustentado processo de desenvolvimento. Do mesmo modo que as economias embarcadas na substituição de importações, neste mundo de subsídios internacionais e de pequenos projetos, a base tende a voltar-se para si mesma.

4Certamente, tanto a teologia da libertação quanto os pentecostais reconhecem na Bíblia uma série de episódios épicos. Mas, enquanto aquela os reinterpreta à luz da realidade cotidiana do povo, estes os lêem simplesmente como gestas. Acontece-me provocar desconforto quando um pastor ou um fiel pentecostal descobre que sou judeu, porque para eles a epopéia dos fdhos de Israel é a história de um povo emblemático e idealizado, perdido na pré-história (ou nas terras longínquas do atual Oriente Médio) e não uma categoria social contemporânea.

5Nas igrejas mais institucionalizadas há menos ruídos e o pastor é menos peremptório, mas também o culto tem a forma que lhe impõe seu critério pessoal, intercalando cânticos, leituras bíblicas (sempre muito curtas) e orações.

6A periodicidade é forte: as "correntes" semanais, cultos diários de "grupos" de oração às 6 h da manhã, etc.

7O catolicismo basista real também faz um discurso racionalizado, mas aplica essa ótica aos temas sociais e os circunda com uma fraseologia marcada pela piedade, pela caridade e pela culpa, por muito que a teologia da libertação, como corpo teológico, trate de afastar-se dessas duas últimas motivações.

8"Jesus dá um jeito na vida da gente, mas a gente também tem que se esforçar", me disse um dia uma jovem de 16 anos.

9No lugar do abismo que separa os fiéis dos sacerdotes consagrados no catolicismo, e que continua existindo, apesar dos esforços reais para criar instâncias intermediárias como nas comunidades eclesiais de base, e a incorporação de diáconos e catequistas.

10Convém lembrar que as Assembléias de Deus acabam de celebrar seu 80. o aniversário no Brasil, enquanto a Igreja Universal tem apenas 15 anos.

11Um sacerdote católico é uma espécie de príncipe medieval em sua paróquia, ainda que pobre: vive do dinheiro arrecadado pela realização de batismos, casamentos e missas de defuntos, e recebe de sua diocese (como é o caso de Salvador, por exemplo) nada além do salário mínimo e as contribuições da previdência social. Às vezes pode beneficiar-se com doações de origem européia: um automóvel, por exemplo, e dinheiro para realizar projetos, como já disse. Os fiéis dificilmente se sentem obrigados a contribuir com mais do que uma quantia simbólica durante o ofertório.

12O contraste com a Igreja Católica, que dedica esforços enormes à formação de sacerdotes em cursos que duram vários anos (ao fim dos quais freqüentam ainda outros cursos), é evidente, como o é também a modernidade das técnicas utilizadas.

13A Igreja Universal produz um programa diário transmitido pela rede "Manchete" em todo Brasil. É dona de numerosas estações locais de rádio e comprou, em 1991, a TV Record, de São Paulo. Outras igrejas têm rádios de todo tipo e transmitem em bairros periféricos por meio de alto-falantes em praças públicas.

14Além disso, os vínculos entre a Igreja Católica e o Partido dos Trabalhadores, no Brasil, têm sido um elemento adicional na rejeição do PT.

15Entretanto, conheço um caso em que o pastor o permite porque espera obter benefícios materiais para a construção de seu pequeno templo.

16Refiro-me à deputada federal fluminense Benedita da Silva.

17A exacerbada tendência a contrapor os interesses políticos e materiais a considerações ideológicas e doutrinárias.

18A Igreja Universal, ao menos, teve conflitos sérios com Collor por ter comprado a TV Record. Esse tema foi exaustivamente tratado na tese de Paul Freston, Protestantes e política no Brasil: da constituinte ao impeachment, tese de doutorado, UNICAMP, Campinas, 1993.

19Sem esquecer que neste ensaio passei por alto pelo fenômeno da "renovação carismática", cuja importância quantitativa, entre os católicos, de nenhum modo é desprezível.

Received: January 1994

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