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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.6 no.1-2 São Paulo enero/dez. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/ts.v6i1/2.85114 

ARTIGOS

A questão do herói-sujeito em cabra marcado para morrer filme de Eduardo Coutinho

The problem of the subject-hero in twenty years later (cabra marcado para morrer) - Film by Eduardo Coutinho

PAULO ROBERTO ARRUDA DE MENEZES1 

1Professor do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP


RESUMO

Realizado em três etapas, 1964, 1981 e 1983, o filme procura resgatar os acontecimentos trágicos que levaram à morte João Pedro Teixeira, presidente da liga camponesa de Sapé, no interior da Paraíba, em 1964. Cortado pelo Golpe de Estado, teve suas filmagens retomadas 17 anos depois. O artigo procura destrinchar a articulação do discurso de Eduardo Coutinho como discurso da verdade por se colocar o tempo todo como um documentário, e portanto neutro, que retrataria os descaminhos e a violência da política brasileira da época. Ao analisar as imagens e sua montagem, associadas ao discurso do narrador, procura mostrar que aí se construiu uma nova interpretação acerca dos fatos tomados como pano de fundo, que muito mais tem a dizer sobre uma certa visão acerca do campesinato brasileiro e de uma forma de se fazer política, e conseqüentemente história, do que sobre os fatos em si que, em princípio, se estaria narrando. Essa flutuação faz com que quem deveria surgir como sujeito troque de lugar o tempo todo, acabando por reforçar os mesmos artifícios que, primordialmente, o filme se esforçaria em denunciar.

Palavras-Chave: cinema brasileiro; relação sujeito-objeto; esquerda brasileira; linguagem; fotografia; violência; dor; ilusão; tempo; espaço

ABSTRACT

Run in three stages, 1964, 1981 and 1983, this film is an attempt to redeem the tragic events which provoked the death of João Pedro Teixeira, president of Sapé Peasant League, Paraíba state, in 1964. Interrupted by the 1964 military coup, shooting was resumed 17 years later. The article is an attempt at disentangling the articulation of Eduardo Coutinho's speech as the discourse of truth for, from beginning to end, it is posed as a documentary, and neutral as a result, which would portray the excesses and violence generated by Brazilian politics at that time. By analyzing the images and their editing in connection with the narrator's speech, the article tries to show that a new interpretation of facts taken as background has been made, and such interpretation surely has much more to say about a certain view on the Brazilian peasantry and a way of making politics - and therefore history - rather than about the narrated facts as such. As a result of that fluctuation the subject-character keeps changing places all the time, thus confirming the very same tricks the film primarily strives to denounce.

Key words: Brazilian filmmaking; subject-object relationship; brazilian left wing; visual language; photography; violence; pain; time; space

Texto completo disponível em PDF.

1Colchetes meus.

2Em seu estudo, Gombrich nos mostra que existe uma diferença fundamental entre o que vemos e os artifícios que utilizamos para representar o que vemos. Segundo ele, as referências utilizadas na representação dizem muito mais a outras formas de representar, que o artista já conhece, do que a elementos tirados de uma observação direta, que ele procuraria duplicar em seu trabalho.

3Desde seus anos iniciais, fotógrafos como Carjat e Nadar, responsáveis por dois dos mais belos retratos que se conhecem de Baudelaire (1863) e Sarah Bernhardt (1859), bem como Emerson e Stieglitz entre outros, dirigiram seus esforços em uma direção mais marcada pela pintura. Da mesma forma que as imagens de decomposição de movimentos feitas por Marey e Muybridge vão exatamente na direção oposta de uma reprodução "fiel"de qualquer coisa. Todos eles vão nos mostrar não o que os olhos podem ver mas, ao contrário, precisamente o que eles não conseguem ver dentro das coisas que normalmente olham.

4O que normalmente confunde o espectador é o fato de que o termo ficção, na linguagem corriqueira, remete diretamente a um discurso imaginário sobre o futuro, ou o passado, não importa, ou então à transposição para o mundo das imagens de alguma estória imaginada por alguém, mas sempre relacionado com o fato evidente de ser uma invenção. A relação entre estes dois termos é forte e evidente em sua própria raiz latina, o que nos faz perder de vista que fictio é também ação de modelar, formação e criação, além de invenção e suposição.

5Introduzido por mim.

6Grifo meu.

7Este termo era muito utilizado por alunos desta universidade que desenvolviam levantamentos junto aos camponeses do Vale do Ribeira no fim da década de 70. A expressão foi cunhada de maneira jocosa para se referir a essa peculiaridade curiosa, aos olhos desses estudantes, de que uma simples afirmação feita por eles pudesse, de maneira tão radical, mudar completamente o rumo de uma conversação sem que houvesse do camponês uma reafirmação de sua própria opinião.

8Estes últimos grifos são meus.

9Para um interessante estudo da importância do imaginário do cinema e das imagens na guerra, ver Virílio (1993).

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Recebido: Abril de 1995

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