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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.12 no.2 São Paulo Nov. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702000000200001 

NOTA DE APRESENTAÇÃO

 

Homenagem José Carlos Bruni

 

 

"...um acontecimento vivido é finito (...) ao
passo que o acontecimento lembrado é sem
limites, porque é apenas uma chave para
tudo o que veio antes e depois."

(Benjamin, Imagem de Proust)

"Precisamos de história, mas não como
precisam dela os ociosos que passeiam no
jardim da ciência."
(Nietzsche, Vantagens e
desvantagens da História para a vida)

Este número de Tempo Social dedica um caderno especial de homenagem a José Carlos Bruni, nosso amigo e colega de tantos anos. As razões para tal lembrança podem ser encontradas na confluência oportuna de dois motivos: a passagem recente de seu sexagésimo aniversário e o fato de ter sido ele o Editor fundador desta revista.

Há 11 anos, Bruni escrevia na apresentação de nosso primeiro número os princípios que deveriam nortear Tempo Social:

" ... fidelidade a certos valores e ideais orientadores da vida universitária: reflexão incessante sobre os princípios e os pressupostos do conhecimento, cultivo das formas mais elaboradas de pensamento, empenho na análise e compreensão de todas as expressões da vida humana, diálogo prudente e permanente com a modernidade, independência frente às solicitações mais imediatas das várias forças sociais e políticas, crítica serena mas firme perante as injustiças de toda ordem"¹.

Nada mais parecido com o pensamento de Bruni do que o expresso por estas palavras. Esta revista e este Departamento devem a ele esta concepção intelectual do que deveria ser o trabalho científico em todas as suas problemáticas dimensões, o que colocaria a sociologia e a revista como momentos das ciências humanas e humanidades, perfil diferenciador em relação às outras publicações da área em nosso país. Estes princípios fizeram com o passar do tempo que Tempo Social se transformasse em uma revista de referência nas humanidades, justamente por não pensar as áreas de investigação como segmentos estanques, hierárquicos e herméticos uns em relação aos outros.

Sem o Bruni esta revista não existiria. Além de seus princípios intelectuais, foi dele também a proposta de seu nome e de seu logotipo, a espiral. Tempo Social é a expressão de uma problemática sobre a qual o pensamento de Bruni se voltava com afinco. Como pensar a sociologia e as ciências humanas sem se perguntar sobre as diferentes formas que assume(m) a(s) sua(s) temporalidade(s)? Como pensar o tempo histórico sem questionar o momento em que a sociedade com ele se identifica, buscando suas diferenças e rupturas com as formas sociais que a antecederam, momento este que possibilita o próprio surgimento da sociologia enquanto ciência? Em suas próprias palavras, "não se trata apenas de constatar quais as representações que a sociedade passa a ter sobre o tempo, mas trata-se antes de compreender que ela se identifica, se nomeia como tempo"².

Além disso, devemos também nos lembrar do esforço de tornar a idéia de uma revista uma verdadeira publicação, com todas as demandas práticas que tal empreitada exige. Se é evidente que em todos estes momentos outros colegas o auxiliaram, não podemos deixar de reconhecer que sem a sua decidida participação esta provavelmente teria sido mais uma idéia que acabaria por morrer em si mesma. Temos que reconhecer também que, naqueles momentos difíceis, foi fundamental o apoio institucional prestado pelo então chefe do Departamento de Sociologia, a Profa. Eva Blay, o que permitiu que ela se viabilizasse na prática.

Esta coleção de textos é fruto do acaso e da amizade, da lembrança e da necessidade de resgatar a memória, tarefa cada vez mais árdua em uma universidade que no afã de se ver como moderna acaba, na maioria das vezes, recusando-se a olhar para o seu próprio passado, esquecendo-se de suas próprias origens em vez de problematizá-las. Neste momento, em que a operacionalidade do pensar e do fazer científico se tornam cada vez mais dominantes no mundo acadêmico e em suas instituições, nada mais apropriado do que nos lembrar novamente daquela introdução inaugural, onde Bruni dizia "que a nossa relação com a tradição não pode ser concebida simplesmente em termos de continuidade linear, nem como seu oposto, de ruptura total. Na verdade, a preservação de um certo estilo de trabalho, nossa herança maior, deverá nos inspirar para que os desafios radicais do presente possam ser enfrentados com o mesmo pensamento radical que é a marca distintiva de toda criação e descoberta" 1.

Os textos aqui presentes relacionam-se com o pensamento de Bruni por lados diversos, expressando de maneira carinhosa o respeito de seus autores pelos princípios que com ele compartilham.

Paulo Menezes
Editor responsável

 

 

1 José Carlos Bruni. (1989) Apresentação. Tempo Social, São Paulo, 1(1): 5, 1º semestre.
2 José Carlos Bruni. (1991) Tempo e trabalho intelectual. Tempo Social, São Paulo, 3(1-2): 155-168.

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