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Tempo Social

versión impresa ISSN 0103-2070

Tempo soc. v.15 n.1 São Paulo abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702003000100009 

AULA INAUGURAL

 

Sobre a sustentabilidade das associações voluntárias em uma comunidade de baixa renda

 

 

Breno Augusto Souto-Maior Fontes

 

 


RESUMO

Este artigo tem por objetivo analisar a relação entre o desenho das redes egocentradas de uma comunidade de baixa renda e os prováveis efeitos sobre o desempenho das associações voluntárias (associações de moradores e organizações não-governamentais) do bairro. Perguntamo-nos sobre que fatores poderiam explicar o fato de alguns moradores passarem do papel de simples consumidores de serviços oferecidos pelas organizações do bairro para o de participantes na gestão dessas entidades. Maior ou menor engajamento na participação em associações voluntárias freqüentemente tem sido explicados ou por características psicossociais dos participantes (que resultaria em níveis diversos de motivação), ou em características oriundas de atributos individuais (sexo, idade, estado civil, renda etc.). Penso que características do desenho das redes egocentradas (centralidade, multiplexidade, predominância de relações fracas ou fortes, territorialidade dos laços sociais etc.) são também elementos importantes a serem considerados. Admitimos, portanto, que a sustentabilidade de uma organização comunitária - isto é, o fato de essas organizações terem um forte apoio da comunidade - seria em parte função da estruturação das redes de seus participantes. Essas hipóteses são testadas empiricamente a partir de informações extraídas das redes egocentradas de habitantes da Comunidade de Chão de Estrelas, em Recife. Foram aplicados 250 questionários, a partir de amostra aleatória simples de um universo de 1.131 domicílios.

Palavras-chave: Redes sociais; Associações voluntárias; Recife.


ABSTRACT

To analyze the relationship between the format of the networks of a low-income community and the probable effects on the performance of district voluntary associations (community groups and NGO' s). How can we explain why some inhabitants start as simple consumers of the services offered by the district associations to later become participants in the management of those organizations. The explanation for the amount of involvement in these voluntary groups has frequently been attributed to, either psychosocial features of the people taking part (which would lead to different levels of motivation) or to characteristics to do with individual attributes (sex, age, marital status, income, etc.). I argue that features concerning the networks' design (centrality, multiplexity, predominance of strong or weak relations, territoriality of social ties, etc.) are also important elements to be taken into consideration. Thus, the sustainability of a community organization - i.e. the fact that these organizations have a strong support from the community - would in part be due to the structuring of the participant network. These hypotheses are tested empirically based on the information extracted from the networks of inhabitants of the Comunidade Chão de Estrelas, in Recife. Two hundred and fifty questionnaires were applied, on a random sample from a total of 1131 households.

Key words: Social networks; Voluntary associations; Recife.


 

 

Introdução

Este artigo tem por objetivo discutir a participação dos moradores de Chão de Estrelas nas associações voluntárias existentes na comunidade e os possíveis determinantes de êxito dessas organizações derivados de sua prática.

As associações voluntárias urbanas estão estruturadas em um ambiente bastante competitivo, com um número relativamente elevado de organizações disputando recursos. Algumas obtêm êxito, outras não. Afora os fatores presentes no desenho das redes de seus líderes, muito importantes para a mobilização dos recursos externos às comunidades (Fontes, 1999), questionamos a possibilidade de existirem outros elementos que também sejam importantes, mas que se encontram no interior da própria comunidade.

Estamos admitindo que as associações voluntárias são resultado de uma rede articulada de atores sociais que, como afirma Melluci (1996, p. 116), produzem solidariedade. Além do fato de que essas redes sociais são o instrumento mais importante de recrutamento dos que participam em uma associação voluntária (Popielarz e Mcpherson, 1995)1 , elas produzem estruturações de sociabilidade particulares, conseqüência de uma combinação bastante rica de diversos fatores sociais, resultando um ambiente de sociação2 único.

Pretendemos discutir os determinantes da participação em associações voluntárias. A participação política em abstrato tem sido bastante analisada. Constitui-se no cerne do vigor das democracias modernas. O envolvimento cívico dá vitalidade aos regimes democráticos e os "vacina" contra quaisquer tentações autoritárias. Essa discussão, fundamental nas décadas de 1950 e 1960, voltou à tona recentemente. Questiona-se sobre a vitalidade das democracias ocidentais, baseando-se no fato de que os indivíduos não teriam envolvimento tão importante nas instituições políticas como antigamente. A participação nos partidos políticos, nos sindicatos, nas associações voluntárias em geral, estaria decaindo. Na comunidade acadêmica norte-americana, essa discussão está na agenda dos cientistas sociais. Pesquisadores como Putnam têm argumentado que o engajamento cívico dos cidadãos norte-americanos tem diminuído bastante. E isso se reflete principalmente na decadência das associações voluntárias. O país dos joiners estaria mudando. As pessoas estariam jogando boliche sozinhas3 . A tese de Putnam não encontra unanimidade entre os pesquisadores norte-americanos4 , mas recoloca na agenda de discussão questões sobre participação política, engajamento cívico e associativismo. Questões que, como vemos, remetem a discussões mais amplas da teoria política.

A literatura sobre participação quase sempre se apóia em questões relacionadas a características dos indivíduos (motivações psicológicas, explicações que se centram nas características socioeconômicas), ou aquelas em que eles respondem racionalmente aos apelos institucionais à participação (Bratton, 1999, p. 551)5 . Sem desconsiderar a relevância desses modelos interpretativos, aqui esboçamos uma análise centrada nos processos sociais em que os indivíduos se apóiam, a construção das sociabilidades cotidianas. O que define a participação são, acreditamos, as motivações individuais a participar; no entanto, essas motivações não são resultantes exclusivas dos atributos dessas pessoas, mas da natureza das relações que estabelecem na construção de seu cotidiano. As redes sociais nas quais os indivíduos estão inseridos têm papel central na determinação de sua trajetória de participação. Aqui compartilhamos de tendências interpretativas da esfera pública, que creditam às redes sociais informais o papel central na estruturação da sociedade civil, a partir do engajamento cívico em associações voluntárias (Cohen, 1998).

Especificamente em relação ao que estudamos - associações voluntárias com forte estruturação territorial -, a noção de comunidade tem forte poder explicativo. A comunidade é a base territorial onde se compartilham experiências que contribuem intensamente para a construção do mundo da vida6 . Embora se tenha argumentado recentemente que as fronteiras territoriais dos laços comunitários estejam cada vez mais fluidas, e que os próprios laços que estruturam as comunidades se afrouxem cada vez mais (Wuthnow, 1998) - o que não discutimos para certas esferas da sociedade -, a trajetória dos pobres urbanos é bastante marcada pelo pertencimento ao hábitat, ao lugar onde mora e compartilha o cotidiano.

Essa expressão é genericamente definida como lugar de pertencimento de um grupo. Nas populações de baixa renda, como afirma Touraine, o pertencimento, que estrutura a identidade, é dado pelo sentimento de partilhar um destino comum. Quer dizer, independentemente de vinculações de classe, étnicas ou religiosas, as pessoas se ligam umas às outras por estarem em um lugar (aqui o conceito de território é importante), fazendo parte dele de forma bastante inclusiva: boa parte dos assentamentos populares urbanos é construída pela comunidade (aqui é importante ressaltar que o acesso à terra - indispensável para a construção da moradia - é estruturado para populações de baixa renda a partir de ocupações/invasões; e que a principal garantia de permanência dessas populações se dá pela resistência). O hábitat é o território, a vizinhança, os espaços construídos. O manejo do meio ambiente, a sua reprodutibilidade, dá-se a partir da comunidade, tanto no que diz respeito a bens simbólicos (lugares de pertencimentos, espaços compartilhados de situações do cotidiano - clube, bar da esquina, campo de futebol, festas de rua, situações de convívio entre vizinhos etc.), como em boa parte no que diz respeito à infra-estrutura. A provisão de bens públicos assume coloração política muito mais visível na reivindicação desses bens do Estado e também na autoprovisão (são incontáveis os casos de organização auto-sustentada da comunidade para a provisão de bens públicos). Nesse sentido, a gestão do meio ambiente construído é muito mais ampla do que a gestão ambiental.

Existiriam características das redes egocentradas dos indivíduos que seriam mais ou menos favoráveis à sua participação em associações voluntárias? A participação dos moradores seria uma garantia ao bom funcionamento de uma associação? Como medir sua sustentabilidade?

Sustentabilidade é um conceito emprestado do ecodesenvolvimento. Refere-se à possibilidade de um desenvolvimento sem prejuízo aos recursos existentes, quer dizer, uma possibilidade de completar o ciclo de reprodução mantendo-se relativamente estáveis as condições ambientais. Nesta análise, empregamos esse conceito para expressar algo como "autonomia" da comunidade em relação a outros atores da sociedade civil. Não significa uma posição isolada, excluindo-se a possibilidade de interlocuções e alianças com outros atores fora da comunidade, mas a possibilidade de a comunidade desenvolver ações que lhe garantam uma reprodutibilidade independente de apoio ou suporte externo. A comunidade seria capaz de, manipulando recursos nela existentes, promover ações com êxito, como, por exemplo, uma comunidade com razoável grau de autonomia (ou nível de sustentabilidade adequado) conseguir empreender com êxito ações na promoção do desenvolvimento do seu hábitat, de forma independente. As articulações necessariamente existentes entre outros atores se dariam na forma cooperativa, significando alianças entre pares. Essa questão, como se percebe, liga-se a dois fatores: (a) relação entre as organizações comunitárias e outras associações de fora (ONG, Igreja, partidos políticos, entre outras); (b) articulação entre as associações voluntárias do bairro e a comunidade de origem.

A questão mais importante a ser ressaltada diz respeito à organização das associações voluntárias. Qual o nível de relação dessas associações com a comunidade de origem? Isso implica fatores tais como: recrutamento, mobilização de recursos, liderança. Uma associação voluntária com alto grau de envolvimento com a comunidade de origem - e que, portanto, garante respostas favoráveis a ações de mobilização de recursos para empreender ações coletivas - seria a princípio uma associação com grandes possibilidades de empreender ações sustentadas.

 

A comunidade de Chão de Estrelas e sua vida associativa7

A comunidade de Chão de Estrelas originou-se no início da década de 1980 de um reassentamento de pessoas que habitavam à margem do rio Beberibe e foram retiradas do local para permitir serviços de alargamento de sua calha. Após intensas negociações entre moradores e órgãos do Estado, as pessoas foram alojadas em uma área próxima, com casas construídas pela Companhia de Habitação do Estado. Assim, há uma certa uniformidade no que diz respeito ao padrão construtivo das casas, ao padrão urbanístico do desenho do bairro e à trajetória comum de seus moradores.

Malgrado a existência de alguns moradores que ainda ocupam as margens do rio Beberibe8 e que, portanto, têm condições de construtibilidade diversa da maioria, a comunidade apresenta razoáveis condições urbanísticas, tanto em relação à qualidade do material construtivo das casas (basicamente todas as casas são de alvenaria), como no que se refere a equipamentos urbanos básicos (água encanada, luz elétrica, ruas calçadas). A maioria dos moradores (72,9% dos entrevistados) habita o bairro há mais de cinco anos e veio, provavelmente, dos antigos assentamentos localizados à margem do rio Beberibe (Figura 1).

 

 

Os que chegaram depois de consolidado o assentamento não apresentam uma significativa diferença de nível de renda ou de situação de domicílio em relação aos antigos. A relação entre tempo de moradia e situação da casa apresenta uma correlação positiva de 0,267, considerando como variável dependente a situação da casa9 , que sugere que os novos moradores ocupam mais casas alugadas ou cedidas. Não existe, entretanto, nenhuma indicação de que a área tenha passado por um processo de substituição do padrão socioeconômico de seus habitantes. Aparentemente, os novos moradores - em número minoritário - têm o mesmo padrão socioeconômico dos que chegaram antes.

A situação econômica dos moradores é característica de populações de baixa renda do Recife. Com efeito, 80% dos entrevistados informaram renda mensal entre um e três salários mínimos; a grande maioria das pessoas ocupadas emprega-se no setor informal ou em ocupações de baixa qualificação e apresenta baixo nível de escolaridade (59,7% dos entrevistados cursaram apenas a educação fundamental).

Essa população, como vimos, mora há bastante tempo no local e tem origem principalmente na Região Metropolitana do Recife - RMR (70,7% dos entrevistados nasceram em algum município da RMR). São pessoas que têm, portanto, uma experiência de vida urbana. Ainda assim, verifica-se que existe uma correlação positiva entre idade e local de nascimento (0,329)10 , sugerindo que, entre os mais antigos encontram-se pessoas que migraram para a RMR. Das 56 pessoas que nasceram em outros municípios do estado de Pernambuco, 69,64% têm mais de 45 anos; das 16 pessoas que nasceram em algum estado do Nordeste, fora de Pernambuco, 43,75% também têm mais de 45 anos. Esses dados confirmam o que já se demonstrou para o município do Recife: que o processo migratório se esgota a partir dos anos de 1970 (cf. Fontes, 1986). Em seu lugar, hoje ocorrem movimentos intra-urbanos envolvendo a RMR. Isso se deve, primeiro, ao fato de o Recife ter passado nos últimos vinte anos por um processo de esgotamento de sua capacidade física de receber novos habitantes - o crescimento médio tem sido significativamente menor que o dos demais municípios da RMR -; e segundo, o município ter passado por um processo de segregação social bastante intenso, com o deslocamento de populações de baixa renda para outros municípios da RMR.

Assim, é possível constatar que a comunidade de Chão de Estrelas apresenta uma origem comum: além de a maioria das pessoas ter vindo do antigo assentamento à margem do rio Beberibe, os habitantes são originários principalmente da RMR. Essas informações, bem como o tempo de moradia, serão de grande importância, sobretudo quanto à estruturação das redes sociais na comunidade e das relações entre os moradores (e suas redes egocentradas), dado ao fator territorialidade, comum a boa parte dos habitantes (Figura 2).

Chão de Estrelas apresenta uma tradição associativa bastante forte. A própria existência do bairro deve-se, como vimos, ao fato de os moradores organizarem-se quando de sua remoção das margens do rio Beberibe. Encontramos hoje um número bastante expressivo de organizações comunitárias (horta, posto de saúde, grupos de dança, de cultura popular, movimentos ecológicos, entre outras), o que confere uma dinâmica intensa à vida associativa no bairro. Entretanto, a comunidade não participa de modo uniforme, e, poderíamos dizer, o modelo de participação tem certa similaridade com o que encontramos em outras comunidades do Recife (Fontes, 1996). Com efeito, mesmo que 48,7% dos entrevistados afirmem conhecer uma associação de moradores, sua participação não se dá de forma efetiva; em geral, apenas procuram a associação como uma instituição prestadora de serviço. Embora 67,5% dos moradores afirmem que uma associação de moradores tem por objetivo básico solucionar os problemas da comunidade11 , não é significativo o número de pessoas da comunidade que contribua para o seu funcionamento.

A sustentabilidade de uma associação de moradores, definida pela capacidade que a comunidade dispõe para garantir seu pleno funcionamento por meio de recursos (financeiros, humanos, organizacionais, por exemplo), normalmente é bastante limitada. O que se constata é uma grande dependência das associações em relação a recursos externos (ONGs, entidades financiadas por políticos, Igreja, entre outros) na estruturação de suas atividades cotidianas.

As atitudes das pessoas em relação à prática comunitária, evidentemente, não são uniformes. Existem fatores relativos ao status do indivíduo (educação, renda, idade, sexo) ou à sua biografia pessoal (experiência anterior em práticas associativas, ambiente familiar favorável a discussões políticas, influências diversas etc.) que estruturam as disposições e as práticas associativas. Regra geral, poderíamos talvez definir um padrão participativo a partir das características de indivíduos potencialmente mobilizáveis. O simples estado de carência, como tem afirmado insistentemente a literatura sobre o assunto, não é decisivo, embora, de certa forma, seja condição necessária à emergência de movimentos comunitários. Existiriam, então, outros fatores que motivam os indivíduos a participar. Se considerarmos os determinantes estruturais, isto é, as características adquiridas pelo indivíduo mediante sua inserção no tecido social (educação, renda, naturalidade), além de outras referentes ao status adscrito (sexo, raça, idade), alguns padrões de comportamento poderiam ser observados em indivíduos que compartilham características semelhantes. Mas, esses fatores observáveis nos atributos individuais não explicam totalmente o engajamento das pessoas em práticas participativas. Estamos considerando o fato de que o desenho das redes egocentradas é importante na explicação do fenômeno de participação política. Existiriam, também, estruturações de redes mais favoráveis a processos de sociabilidade, estimuladores de práticas de participação.

Os dados de que dispomos não nos permitem estabelecer generalizações definitivas, nem indicar de forma conclusiva quais fatores e que peso relativo exercem influência sobre a disposição dos indivíduos em participar de um movimento associativo. Aqui, apontaremos, com base nos dados dos questionários, algumas correlações que podem ser constatadas sem, entretanto, ousarmos estabelecer inferências definitivas. Importa observar que, como veremos no decorrer deste artigo, os atributos dos indivíduos certamente ainda são importantes para a explicação dos processos associativos. Mas - e esta é nossa principal contribuição - algumas questões ainda permanecem sem respostas se somente considerarmos essas variáveis. Introduzimos as variáveis relacionais, referentes aos processos de sociabilidade, explicando algumas questões ainda não totalmente claras. Além disso, o desenho das redes egocentradas é um fator importante a ser considerado, como veremos, na explicação dos processos associativos.

Embora a população da área seja relativamente homogênea quanto à renda, à ocupação e aos padrões educacionais, há certa diversidade em relação às práticas de participação nas associações comunitárias existentes no bairro. Essas práticas diversas, como veremos, estão ligadas, em primeiro lugar, às trajetórias particulares das biografias pessoais dos moradores; em segundo, pela inserção das pessoas em redes sociais e suas estruturações singulares. Dessa forma, estamos admitindo, como o faz Wellman (1998, p. 20), que laços sociais estabelecem padrões de alocação de recursos. Uma associação conta com diversos tipos de membros, consoante seu engajamento: militantes, participantes ocasionais, líderes. O tipo de engajamento do indivíduo em uma associação decorre de diversos fatores, inclusive de suas inserções em redes sociais, o que lhe permite alocar recursos úteis na instrumentação de sua vida cotidiana.

As associações em Chão de Estrelas são relativamente bem conhecidas por seus moradores, pouco variando em relação ao sexo. Com efeito, 50,8% das pessoas do sexo masculino e 48,7% do sexo feminino afirmam conhecer pelo menos uma associação. As características dos indivíduos estão também em estreita relação com o fato de conhecerem associações de moradores (Tabela 1).

 

 

Embora o percentual de pessoas que conhecem associações de moradores em Chão de Estrelas seja relativamente o mesmo entre homens e mulheres (com uma diferença de apenas 2,1 pontos percentuais em favor dos homens), quando correlacionamos essa variável com atributos dos entrevistados e controlamos por sexo, verificamos que existe maior afinidade desses atributos individuais entre as pessoas do sexo masculino. Quer dizer, indivíduos do sexo masculino apresentariam maior variabilidade no que diz respeito ao fato de conhecer ou não uma associação de moradores. Haveria, portanto, maior probabilidade, por exemplo, de pessoas do sexo masculino que moram há mais tempo na comunidade conhecerem uma associação de moradores. Para as mulheres, os atributos individuais, embora apresentem alguma relação, não são tão importantes quanto para os homens. Isso significa que a probabilidade de conhecer uma associação de moradores é relativamente mais homogênea para qualquer pessoa do sexo feminino, independentemente de seus atributos individuais.

Não há na literatura uma explicação plausível sobre a relação entre gênero e conhecimento de associações de moradores. O que se procura explicar é simplesmente a categoria gênero, independentemente das variações existentes no interior dos sexos. Quer dizer, existiria uma diferença importante em comportamentos segundo o gênero do indivíduo considerado12 . No que diz respeito à participação política - supondo-se também que o conhecimento de associações pode estar relacionado à participação do indivíduo na entidade - alguns estudiosos sustentam a hipótese de que os homens teriam atividades em espaços públicos mais intensas que as mulheres, uma vez que elas ocupam predominantemente o espaço doméstico. Da Matta (1997), por exemplo, ilustra um aspecto importante na formação da nossa cultura política: a presença de uma clivagem bastante grande entre a casa (o mundo doméstico) e a rua (o espaço público). Ainda informa que o mundo da rua é ocupado predominantemente por homens. Da mesma forma, Freyre (1981) documenta de maneira exaustiva a arquitetura e a disposição dos cômodos do sobrado, uma estruturação que permitiria processos de sociabilidade bastante particulares: desde a sala de visitas (uma área intermediária entre a intimidade do lar e o espaço público), passando pela cozinha, espaço por excelência da dona de casa e de seu universo, até a alcova, local de exclusiva privacidade do núcleo familiar. Dessa forma, haveria maiores possibilidades entre os homens de conhecimento de associações de moradores, visto que teriam mais permeabilidade ao espaço público.

Contudo, as diferenças entre sexo não são tão significativas: apenas uma vantagem de 2,1 pontos percentuais para os homens. De fato, se houver alguma relação entre conhecer uma associação comunitária e participar dela, a literatura também aponta que, para o caso dos movimentos de bairros, a participação feminina é significativa, visto que, de qualquer forma, os problemas que normalmente constituem a agenda da associação, inscritos na esfera da reprodução, são essencialmente "femininos". Com efeito, como nos mostra Foweraker (1995, p. 54):

O grau sem precedentes de mobilização fez com que a participação da mulher fosse dominante na maior parte dos movimentos sociais urbanos. Em virtualmente todos os casos, a expressão política dos movimentos estava ligada a questões relacionadas à reprodução do cotidiano. Aí as mulheres eram ativas em reivindicar escolas, creches, clínicas, serviços de saúde, títulos de terras, transportes e serviços básicos para as favelas.

Há aqui um fato interessante: a relação entre conhecer uma associação de moradores e sexo dos entrevistados é relativamente igual. No entanto, a variação entre indivíduos do mesmo sexo, no tocante a conhecer associações, é bastante maior entre os homens. Isso significa que os padrões de sociabilidade masculinos são mais heterogêneos em relação a chances de participação em associações voluntárias. As mulheres, aparentemente, teriam padrões de sociabilidade relativamente homogêneos no que diz respeito especificamente à prática participativa, considerando que existe relação entre conhecer uma organização comunitária e a opinião a respeito do que deve fazer uma associação13 .

Se considerarmos, por exemplo, a relação entre tempo de moradia e conhecimento da associação de moradores (0,416 e 0,108 para os indivíduos dos sexos masculino e feminino, respectivamente), a ligação existente entre essas duas ordens de fatores poderia ser facilmente explicada a partir do fato de as pessoas mais antigas serem provavelmente originárias dos antigos assentamentos à beira do rio Beberibe. Como vimos, a comunidade de Chão de Estrelas teve sua localização garantida após intensa mobilização desses habitantes ribeirinhos. Dessa forma, provavelmente, os moradores mais antigos têm uma lembrança bastante significativa daquela época, associada a uma intensa mobilização comunitária. O mesmo pode ser dito em relação à ligação existente entre a idade dos moradores e o fato de conhecerem uma associação de moradores (0,311 e 0,164, para os indivíduos do sexo masculino e feminino, respectivamente). Contudo, isso não explica a enorme discrepância existente entre homens e mulheres.

Podemos também considerar o fato de que os atributos dos indivíduos (sexo), bem como suas condições de inserção na estrutura social (estado civil, escolaridade, renda) têm influência nas opiniões sobre o movimento associativo. No questionário que aplicamos nos moradores de Chão de Estrelas havia uma pergunta sobre o que deve fazer uma associação de moradores, a qual se distribuía entre cinco respostas fechadas: (a) representar a comunidade (5,7%); (b) promover festas/eventos (7,2%); (c) solucionar os problemas da comunidade (64,9%); (d) conscientizar a população (5,7%); (e) outras respostas (12,8%). Essas respostas, se interpretadas segundo o grau de autonomia dos entrevistados em relação ao movimento ou segundo o nível de consciência sobre a importância de uma associação, podem nos fornecer algumas sugestivas linhas de análise14 . Se pensarmos que um modelo adequado de organização comunitária fosse aquele que lutasse pelos interesses de seus representados, e que estes tivessem grau suficiente de influência e autonomia em relação a possíveis manipulações por parte de seus líderes, as respostas referentes ao papel de "representar a comunidade" e "conscientizar a população" seriam mais representativas. O fato de a grande maioria dos entrevistados responder que o principal papel de uma associação é o de solucionar os problemas da comunidade sugere que a expectativa dos moradores de Chão de Estrelas se orienta no sentido de uma associação pautada em trabalhos de cunho assistencial e de intermediadores entre a comunidade e o setor público. Quer dizer, o caráter de representação, compreendido como o que instrumentaliza a vontade de seus membros, parece-nos enfraquecido.

Os dados não estão distribuídos uniformemente segundo o sexo. Com efeito, como mostra a Tabela 2, há uma distância considerável entre os indivíduos dos sexos masculino e feminino quanto à resposta "representar a comunidade": as mulheres apresentaram quase o dobro de respostas nesse item. Essas respostas parecem indicar que haveria uma maior proximidade na representação das pessoas ao ideal típico de uma organização comunitária, o de representar os seus associados. No caso da resposta "conscientizar a população", existiria entre os entrevistados uma consciência de que a comunidade não teria informações adequadas sobre o papel de uma associação, o que demonstra também, de certa forma, uma opinião orientada no sentido de atribuir uma importância ao movimento associativo próxima da sua concepção típico-ideal.

 

 

Conhecer uma associação de moradores não explica muita coisa. É preciso pensar sobre as diversas inserções dos indivíduos nos contextos sociais; delinear o perfil desses indivíduos, investigando que características são ressaltadas em relação a atitudes e representações sociais por eles expressadas. A Tabela 3 apresenta as relações estatísticas entre as características dos indivíduos e suas opiniões sobre o que deve fazer uma associação de moradores, tendo por variável de controle o sexo15 . Nessa tabela, encontramos correlações entre todos os atributos investigados com a opinião sobre o que deve fazer uma associação de moradores. Curiosamente, as associações são, regra geral, mais fortes entre os homens do que entre as mulheres16 , o que de certa forma confirma a tendência observada nas relações entre os atributos dos indivíduos e o fato de conhecer uma associação de moradores. Resta-nos explicar qual seria a natureza desses imbricamentos.

 

 

Os imbricamentos mais relevantes são relativos ao bairro de moradia do entrevistado antes de chegar a Chão de Estrelas (0,574 para homens e 0,343 para mulheres), à escolaridade (0,529 para homens e 0,455 para mulheres) e à naturalidade (0,435 para homens e 0,408 para mulheres)17 .

Em relação ao tempo de moradia dos entrevistados, verificamos que as respostas "representar a comunidade" e "conscientizar a população", consideradas a expressão da opinião de pessoas mais bem informadas a respeito do real papel de uma associação de moradores, localizam-se predominantemente entre os indivíduos com maior tempo de moradia no bairro. Com efeito, 100% das respostas entre indivíduos do sexo masculino, relativas à resposta "representar a comunidade", encontram-se entre as pessoas que moram há mais de dez anos no bairro. Para o caso das mulheres, a porcentagem é de 46,15%. A totalidade das respostas "conscientizar a população" dos indivíduos de sexo masculino concentra-se nos que moram há mais de cinco anos no bairro (75% para quem mora de cinco a dez anos e 25% para quem mora há mais de dez anos); para as mulheres, o número é de 54,54% (18,18% para as que moram de cinco a dez anos e 36,36% para as que moram há mais de dez anos).

Na variável "onde morava antes", as duas respostas mais representativas ("representar a comunidade" e "conscientizar a população") quanto ao papel de uma associação de moradores foram dadas por pessoas que moravam antes em outro bairro do Recife ou da RMR: 100% dos indivíduos do sexo masculino que deram a primeira resposta e 75% dos que deram a segunda moravam em algum bairro do Recife; as mulheres tiveram números semelhantes, 91,66% e 8,33% (para a primeira resposta) moravam em um bairro do Recife ou em outro município da RMR, respectivamente; para a opinião "conscientizar a população", 88,88% e 11,11% moravam em outro bairro do Recife e em outro município da RMR, respectivamente.

Situação semelhante ocorre quando se trata da naturalidade dos entrevistados: a maioria dos que nasceram no Recife ou em outro município da RMR acredita que uma associação deva "representar a comunidade" ou "conscientizar a população". Assim, 50% dos homens que acreditam que a associação deva "representar a comunidade" nasceram no Recife; para as mulheres, esse número chega a 69,23%. No que se refere à opinião de que uma associação deva "conscientizar a população", 75% dos homens e 72,72% das mulheres nasceram no Recife.

Tais dados nos mostram que há uma relação bastante forte entre os entrevistados terem experiência urbana e expressarem opiniões consistentes a respeito do papel de uma associação de moradores. Tal fato provavelmente se deve a vivência mais intensa em processos associativos18 .

A influência da variável "escolaridade" nas opiniões dos entrevistados é a seguinte: 50% dos homens e 30% das mulheres que opinaram por "representar a comunidade" têm o segundo grau, tendo em vista que, do total dos entrevistados, somente 20,31% dos homens e 19,37% das mulheres têm esse grau de escolaridade. A opinião "conscientizar a população" marcou 25% das respostas dos homens e 45,5% das respostas das mulheres com o segundo grau ou curso universitário19 .

Os dados são bastante interessantes. Atributos que indiquem diferenciação social como renda20 e escolaridade não são importantes na representação "adequada"21 do papel de uma associação de moradores. Parece-nos que o elemento mais importante na definição do perfil do morador que participa em uma associação22 é a experiência em processos associativos, vividos a partir de momentos de crise que exigem uma ação coletiva. É o caso da comunidade de Chão de Estrelas, cuja constituição foi resultado de uma mobilização popular. Assim, as pessoas que vivenciaram esse processo, independentemente do grau de participação, teriam representações mais favoráveis ao movimento associativo. Da mesma forma, também os dados nos informam que a experiência urbana (provavelmente vivida em áreas onde a ação coletiva se faz indispensável para a provisão de serviços urbanos) é um elemento importante para o entendimento dos processos de participação em associações de moradores. Acreditamos que os atributos ligados à diferenciação social (renda e escolaridade, por exemplo) têm também destaque na determinação do nível de participação, mas a experiência em processos associativos resultantes de ameaças à comunidade (no caso, ameaça de remoção das casas) é o elemento que mais substancialmente está presente na comunidade de Chão de Estrelas.

Se levarmos em conta as opiniões dos entrevistados sobre as associações que conhecem23 , algumas informações são bastante esclarecedoras. Os entrevistados citam, em média, 2,67 associações comunitárias, com 76,9% dos moradores indicando até três entidades. Foram citadas 35 entidades24 . A freqüência das entidades citadas distribui-se de forma bastante irregular. Poucas associações são reconhecidas por um número expressivo de entrevistados. A Associação de Campina do Barreto, o Centro de Organização Comunitária e o Posto de Saúde foram os mais citados, com 25,1%, 9,1% e 8,4% dos entrevistados, respectivamente, fazendo alusão a essas entidades. A maior parte das entidades citadas tem um percentual irrisório (22 delas não alcançam 1% das respostas).

Em Chão de Estrelas existe um número significativo de associações que competem por uma mesma clientela, o que faz, de um lado, com que essas associações tenham de oferecer diferenciais para garantir a adesão, e, de outro, que se verifique um turnover maior entre os participantes, dado pela ampla possibilidade de escolhas. Com efeito, como nos mostra Popielarz e Mcpherson (1995, p. 704):

Associações voluntárias competem pela atenção de seus membros. Evidências empíricas sugerem que processos de recrutamento de membros para associações voluntárias se dêem a partir de redes com alto grau de homofilia. Os novos membros originam-se a partir de nichos no espaço social. Competição entre as associações voluntárias ocorre quando os nichos se sobrepõem - quando grupos recrutam o mesmo tipo de membros. Quanto mais grupos recrutarem indivíduos na vizinhança em um espaço social, maior a ocorrência de competição entre as organizações. Há o risco de um indivíduo em uma área de espaço social, onde os nichos de duas ou mais organizações se sobrepõem, ser recrutado por cada uma das organizações. Surgem, dessa forma, conflitos na competição intergrupal, o que leva a um menor tempo de participação dos indivíduos em associações por causa do caráter da soma zero na relação entre o tempo dos membros e outros recursos [...], como resultado, há um aumento de turnover entre os membros de associações.

A intensa competição faz com que haja uma especialização crescente das associações que oferecem serviços e atividades diferenciadas, tentando conquistar segmentos da população (jovens, mulheres, negros, por exemplo). A distribuição das entidades citadas pelos atributos dos entrevistados nos fornece informações interessantes. Nos grupos mais citados, as diferenças entre os sexos não são significativas, porém alguns grupos têm a preferência das mulheres (é o caso do grupo de mulheres, clube de mães, creche, curso de cabeleireiro, escola), outros são preferidos por homens (grupos folclóricos diversos, padaria comunitária, rádio comunitária)25 .

Os atributos idade, escolaridade e renda também não nos mostram diferenças significativas entre os entrevistados. Algumas faixas etárias indicaram preferência por algum tipo de entidade (como é o caso dos jovens entre 18 e 25 anos, que apontaram um conhecimento proporcionalmente maior de grupos lúdicos - maracatus, grupos folclóricos, forrós); também se constata o fato de que pessoas com mais de 35 anos indicaram maior número de associações. A escolaridade também tem certa influência na indicação dos grupos (como é o caso dos entrevistados de nível universitário que se concentraram em quatro grupos), mas, aparentemente, os dados não se mostram significativos no sentido de afirmar que existe uma importante correlação entre nível educacional e conhecimento de grupos organizados na comunidade.

Os itens naturalidade e tempo de moradia são efetivamente os que mais influenciam o conhecimento. À primeira vista, o atributo naturalidade, considerado isoladamente, não nos informa nada de significativo. Embora as pessoas nascidas no Recife tenham citado um maior número de entidades, as nascidas em algum município da RMR, fora o Recife, não apresentam um número de entidades citadas maior do que, por exemplo, aquelas nascidas em algum estado do Nordeste além de Pernambuco. Isso significa que não podemos inferir - a partir desses dados - que uma experiência urbana maior seja importante para a participação em movimentos associativos26 . Esses dados, entretanto, devem ser analisados com cautela. Sabemos que o movimento migratório para o município do Recife diminuiu consideravelmente a partir dos anos de 1960. Portanto, pessoas nascidas fora da RMR provavelmente devem morar há mais tempo no município. Com efeito, as pessoas de mais idade têm maior probabilidade de ter nascido fora da RMR: 69,64% dos entrevistados que nasceram em outros municípios de Pernambuco e 43,75% dos entrevistados que nasceram em algum estado do Nordeste têm mais de 45 anos, enquanto 19,52% das pessoas que nasceram no Recife estão incluídas nessa faixa etária. Das pessoas que nasceram em outros municípios de Pernambuco e em algum estado do Nordeste, 42,85% e 50%, respectivamente, moram há mais de dez anos na comunidade. O fato, portanto, de que pessoas que nasceram em algum estado do Nordeste fora Pernambuco tenham um conhecimento significativo de entidades na comunidade pode simplesmente indicar que elas, embora não tenham nascido no Recife ou na RMR, morem há muito tempo em Chão de Estrelas.

Na verdade, existe uma relação positiva entre tempo de moradia e entidades citadas pelos entrevistados, o que nos confirma a hipótese de que o elemento territorialidade tem um peso bastante significativo em relação ao nível de conhecimento dos entrevistados sobre as entidades existentes no bairro. Quer dizer, a experiência associativa está estreitamente relacionada com o sentimento de pertencer a uma comunidade territorial, a um destino comum. E os moradores mais antigos vivenciaram a experiência da luta empreendida por um lugar para construir suas casas após terem sido despejados de suas antigas residências. Com certeza, isso contribui positivamente para o conhecimento de alguma entidade.

Resta-nos comentar sobre o tipo de envolvimento dos entrevistados nas entidades citadas. Quando perguntados sobre como as conheceram, os entrevistados informaram que os amigos foram os que mais contribuíram nesse sentido (61,9% das associações citadas foram apresentadas por amigos). Estes também são mais importantes para as mulheres na divulgação (67,4% contra 46,9% dos homens); para as pessoas de mais idade (84,2% para pessoas de mais de 45 anos contra 45% entre 18 a 25 anos); para pessoas solteiras (84,8%); e para as pessoas com renda mais baixa (84,1% dos que têm rendimentos até 1 salário-mínimo e 11,1% entre 3 e 5 salários-mínimos).

A divulgação das entidades também aparece como um elemento marcante (43,2% das associações citadas foram conhecidas a partir da divulgação). Essas respostas, se desagregadas por atributos das pessoas entrevistadas, mostram-nos que o tipo de conhecimento varia segundo o perfil do entrevistado. Isso pode refletir tipos de inserções diferentes em redes sociais. Os homens, por exemplo, conheceram entidades no bairro principalmente a partir da divulgação (71,9% das entidades citadas), enquanto as mulheres, a partir de informações obtidas por amigos (67,4% das entidades citadas). Quando observamos os dados por faixa etária, vemos que a divulgação atinge de maneira uniforme todas as faixas (com uma ligeira concentração nas pessoas entre 25 e 45 anos), o que quer dizer que os mecanismos de propaganda existentes nos grupos organizados têm impacto uniforme em todas as faixas etárias, não obstante atingir com mais intensidade pessoas do sexo masculino (71,9% contra 32,6%) e pessoas com nível de renda mais alto (71,1% das entidades citadas para pessoas com renda de mais de 5 salários-mínimos contra 27,3% com renda de até 1 salário-mínimo).

Os laços de vizinhança e de parentesco apresentam manifestações diversas quando consideramos os atributos dos entrevistados. O peso da vizinhança é maior que o do parentesco para o conhecimento de uma entidade. Entretanto, distribuem-se desigualmente. Os homens têm dos parentes mais informações (18,8% contra 10,5%), enquanto as mulheres encontram nos vizinhos maior fonte de conhecimento (33,7% contra 9,4% dos indivíduos do sexo masculino). No que diz respeito à idade, em todas as faixas etárias, as pessoas têm nos vizinhos a fonte de informação mais importante (30,% para os vizinhos contra 20% das pessoas que, entre 18 e 25 anos, conheceram uma associação por intermédio de parentes); da mesma forma, os vizinhos são mais importantes do que os parentes quando consideramos o estado civil (30,4% dos casados contra 6,5% dos solteiros) ou a renda (25% e 11,48% para pessoas com renda de até 1 salário-mínimo e 35,7% e 14,3% para pessoas com renda maior do que 5 salários-mínimos, para o caso de vizinhos e parentes, respectivamente).

Igualmente, há diferenças entre os entrevistados tanto em relação aos quesitos conhecimento das entidades de Chão de Estrelas e forma de conhecê-las, como em relação ao nível de participação. A Tabela 4 apresenta alguns pontos relativos ao tipo de participação dos entrevistados nas entidades mencionadas. A maioria deles conhece as entidades citadas há mais de dois anos. Fato interessante é que as mulheres têm conhecimento das entidades em média há mais tempo do que os homens. O simples fato de conhecer, entretanto, não significa uma maior participação. Quando comparamos a participação nas entidades citadas por sexo, verificamos que não existem diferenças significativas. Com efeito, embora os homens indiquem uma participação em algumas das atividades que tenham contribuído para o bom funcionamento das entidades (31,7% contra 22,3% para as pessoas de sexo feminino)27 , quando perguntadas sobre a freqüência das reuniões ou sobre a participação em alguma das comissões em funcionamento, os números não divergem muito em relação ao sexo dos entrevistados. A maior parte dos entrevistados não participa de forma intensa, apenas ocasionalmente. Não há difernção entre os sexos no que diz respeito a uma participação de relativa assiduidade.

 

 

Grande parte dos entrevistados afirma não fazer uso constante dos equipamentos ou dos serviços oferecidos pela entidade, embora para a maioria deles o consumo dos equipamentos oferecidos é o principal motivo de participação. Também observa-se um relativo consenso de que a colaboração dos moradores para o bom funcionamento das organizações não é adequada (é interessante o fato de os entrevistados considerarem as entidades bem conhecidas pela comunidade). Admite-se, contudo, que os serviços oferecidos por elas seja bom e que os membros de suas diretorias trabalhem adequadamente.

As variações sobre como conheceram as associações são significativas quando examinamos os atributos dos entrevistados. Embora ainda não possamos identificar claramente quais fatores estruturam as preferências, bem como, quais direcionam para um maior conhecimento de uma organização comunitária, já temos uma idéia clara de que existe diferenciação.

Os dados sobre participação e avaliação dos serviços oferecidos nos informam que os entrevistados consideram adequados os trabalhos desenvolvidos pelas organizações citadas, mas que a participação da comunidade é reconhecidamente pequena; que, embora conheçam as entidades mencionadas há algum tempo, reconhecem não ter um envolvimento maior com elas no sentido de uma colaboração mais efetiva para o seu bom funcionamento.

Quanto à relação entre a comunidade e as organizações comunitárias existentes no bairro, podemos nos perguntar: Qual a importância dos moradores para a existência dessas organizações? Que motivações poderiam existir entre os moradores para que passem do status de simples consumidores para o de efetivos participantes na gestão dessas entidades? Sabemos que o movimento associativo em Chão de Estrelas é muito importante para a comunidade, tanto no que diz respeito aos processos reivindicativos que resultaram na origem do bairro, como nas experiências inovadoras que vêm se gestando na produção de serviços organizados de forma não estatal (farmácia, horta e padaria comunitárias, atividades lúdico-recreativas diversas etc.). Sabemos também que essas entidades dispõem de redes bastante articuladas com a esfera local e que, com certeza, seu sucesso depende das articulações estabelecidas com atores diversos fora da comunidade. Mas o que nos interessa é saber que elementos explicam o maior ou o menor engajamento da comunidade nas ações associativas existentes em Chão de Estrelas. Já vimos que a diversidade de atributos resulta em tipos particulares de inserção em processos participativos.

Um dos possíveis grupos de variáveis que poderiam explicar as formas de recrutamento, nível de engajamento e, conseqüentemente, vitalidade das associações voluntárias seria o desenho das redes egocentradas dos indivíduos. Estamos admitindo que existiriam desenhos de redes mais "funcionais" à participação das pessoas em associações voluntárias, isto é, haveria um padrão de sociabilidade que resultaria em uma maior probabilidade de os indivíduos serem recrutados por alguma associação voluntária28 . É o que pensa, por exemplo Marwell e Olivier (1993) que, quando comentam a existência de uma massa crítica de ativistas necessária ao deslanchar de uma ação coletiva, levantam o problema do recrutamento como central para o estudo das ações coletivas. E, como também outros autores já demonstraram inclusive empiricamente29 , que as redes sociais são um fator explicativo bastante importante no processo de recrutamento de participantes do movimento.

As redes egocentradas dos moradores de Chão de Estrelas apresentam algumas características que poderíamos estender a qualquer comunidade de baixa renda na América Latina30 , além de outras que seriam mais específicas a essa comunidade. Há ainda outras características de redes egocentradas que, de todo modo, estariam presentes em quaisquer outras redes semelhantes e que seriam funcionais ao recrutamento de participantes de associações voluntárias. A literatura aponta uma série de características funcionais à mobilização, das quais, as mais importantes são: (a) territorialidade; (b) laços fracos e fortes; (c) tamanho das redes/densidade/posição dos atores nas redes.

Territorialidade refere-se ao fato de existirem fatores presentes na sociabilidade cotidiana associados ao hábitat, lugar de reprodução social, espaço de moradia, lugar de reconhecimento simbólico do espaço construído, como parte de sua existência cotidiana. Para o caso das associações voluntárias que lidam com a reprodução do cotidiano (vinculadas à reprodução doméstica como, por exemplo, questões de infra-estrutura urbana e equipamentos sociais), a ligação do indivíduo ao território é um elemento indispensável para a compreensão dos processos de recrutamento. Há, segundo Sampson (1991, p. 45), uma intensidade de pertencimento a um espaço residencial associado positivamente ao fato de os indivíduos envolvidos terem maior participação em assuntos públicos da comunidade.

A localidade, segundo Leeds (1975, p. 33), pode se constituir em ponto nodal de interação, caracterizando-se por

[...] uma rede altamente complexa de diversos tipos de relações. Os laços de parentesco mais ativos - aqueles da família nuclear, e, freqüentemente, aqueles com parentes próximos, serão amplamente encontrados na localidade, especialmente nas pequenas. As amizades mais próximas, numerosas e vivas tendem a existir na localidade. A maior parte da parentela ritual de alguém tende a existir na localidade, onde pode ser mobilizada mais ou menos instantaneamente. Os vizinhos que podem ser chamados para várias finalidades, existem por definição na localidade [...]. Uma pletora de grupos informais tais como gangues, grupos de trabalho e outros semelhantes, bem como pequenas organizações cujos interesses e amplitude de ação são necessariamente bastante limitados (uma banda de município ou uma escola de samba), são fenômenos de localidade.

Essas estruturações de redes de sociabilidade fundadas na territorialidade podem ser bastante propícias ao recrutamento e à participação de alguns tipos de associações voluntárias, aquelas que se ocupam de assuntos comunitários. Com efeito, principalmente no que se refere às camadas de mais baixa renda, os ingredientes necessários à boa qualidade de vida e que são de responsabilidade do Estado (infra-estrutura urbana - coleta de lixo, água, esgoto, luz elétrica, serviços de saúde, de educação e de assistência) muitas vezes são providos pela comunidade ou é o resultado de um longo processo reivindicativo levado a cabo pelas associações locais. Essas organizações recrutam seus membros na comunidade onde estão instaladas e estruturam suas agendas sobretudo a partir de questões relacionadas à construção do hábitat31 .

Encontramos nos dados levantados na comunidade de Chão de Estrelas alguns indicadores que poderiam corroborar a hipótese da importância do fator territorialidade na organização das associações voluntárias. Tal como verificamos nos dados relativos aos atributos dos indivíduos, o tempo de moradia é um fator marcante na determinação do fato de o indivíduo conhecer uma associação de moradores. Há uma relação positiva (0,204) entre o tempo de moradia e o número médio de associações conhecidas pelos entrevistados32 ; se controlada por sexo, os homens apresentam maior relação que as mulheres (0,310 contra 0,169, respectivamente).

Esses fatores em si ainda não são conclusivos a respeito da importância do elemento "territorialidade" na determinação do recrutamento. Simplesmente sugerem que o fato de as pessoas morarem há mais tempo na localidade influi positivamente no conhecimento (e provavelmente na participação) de associações voluntárias e na determinação de laços de sociabilidade ancorados territorialmente. As pessoas que moram há mais tempo no lugar têm mais chances de ter em seu círculo social pessoas que morem no bairro.

A literatura, de um lado, informa a existência de padrões de sociabilidade característicos, ancorados territorialmente nessas redes. Haveria, por conta dos intercâmbios constantes observados no cotidiano das pessoas, uma forte tendência de se estabeler laços de sociabilidade territorialmente orientados - entre vizinhos, por exemplo, laços que resultariam em intercâmbios sociais caracterítiscos. Scott (1997, p. 81), por exemplo, comentando uma pesquisa de Wellman sobre uma comunidade em um subúrbio de Toronto, Canadá, afirma que "estas redes pessoais, densas [como as ocasionalmente construídas entre vizinhos], são fontes importantes de ajuda" e que existiriam também padrões de solidariedade gerados desses laços de sociabilidade particularizados pelo sexo de quem participa dessas redes. As mulheres, por exemplo, seriam mais passíveis de estabelecimento de laços ancorados em intercâmbios mais "domésticos" do que os homens. Assim, assuntos sobre comunidade, família e condições gerais da reprodução doméstica seriam mais recorrentes entre as mulheres.

Por outro lado, existem características particulares das associações voluntárias com ações orientadas territorialmente. É o caso, por exemplo, de essas associações terem uma "clientela" bastante vinculada à comunidade, o que faz com que padrões de recrutamento e estabelecimento de agendas se estruturem a partir desse fato. Verba et al., no clássico livro sobre atividade política entre os norte-americanos, mostra-nos que devemos considerar as dimensões particulares das redes de recrutamento segundo características dessas associações e também das redes sociais dos envolvidos (ativistas e novos membros em potencial):

Nós consideramos três dimensões onde essas redes de recrutamento podem ser estruturadas. A primeira é o grau de conexão entre os que recrutam e os que são recrutados. As solicitações vêm de pessoas que são conhecidas pessoalmente ou de estranhos acessando listas feitas por computador? O segundo aspecto de redes de recrutamento é a sua localização no espaço cotidiano do indivíduo. Os requerimentos para envolvimento vêm da vizinhança, dos locais de trabalho, ou a partir de membros seguidores das organizações? Uma questão final remete à demografia das redes de recrutamento. As pessoas que fazem apelos compartilham a raça, o sexo ou a etnia daqueles que procuram recrutar? (1995, p. 139).

Assim, para o caso de associações voluntárias ancoradas territorialmente, os participantes em potencial são pessoas que têm interesse em discutir questões relacionadas à comunidade, questões que, com certeza, são discutidas em círculos sociais localizados no bairro, como é o caso de vizinhos, colegas de Igreja, ou participantes de rodas de cerveja ou de jogos de futebol. Não são, entretanto, todos os laços de sociabilidade ancorados territorialmente que induzem à participação, nem são os mesmos os padrões de sociabilidade observados entre homens e mulheres, jovens e adultos. As redes sociais, como já observamos, têm um grau muito alto de homofilia33 , o que pode significar que padrões de sociabilidade se localizem relativamente segregados segundo atributos de seus participantes.

Ainda sem considerarmos os diversos padrões organizativos das redes egocentradas segundo atributos de seus participantes, de imediato podemos constatar o fato de que, em Chão de Estrelas, há uma forte relação entre as práticas de sociabilidade, que indicam a construção de agendas associativas territorialmente ancoradas e o conhecimento de associações de moradores. Entre os diversos círculos sociais encontrados em Chão de Estrelas, aqueles nos quais seus participantes discutem mais freqüentemente assuntos comunitários são os que têm maior relação com o fato de conhecer organizações. Verificamos associações em círculos sociais que conversam sobre34 política local (0,172), política em geral (0,157), assuntos de comunidade (0,167), meio ambiente/lixo (0,116) e religião (0,118)35 .

Onde se localizam esses círculos sociais? Não temos indicações precisas, apenas algumas pistas. Já observamos antes que, em Chão de Estrelas, os laços sociais fortes36 são importantes para o recrutamento das pessoas em associações (Tabela 5). Amigos, parentes e vizinhos, aparentemente, contam mais que o recrutamento por divulgação, mala direta ou outra informação de segunda mão (veiculada em imprensa ou por fonte que indique laços fracos), o que parece ser uma regra para o caso das associações com forte vínculo territorial. É o que afirma Mcpherson et al. (1992, p. 158):

A intensidade dos laços afeta tanto o recrutamento como o processo de retenção no grupo, desde que os laços fortes liguem o ego e o alter ego de maneira estreita, a probabilidade de atividades comuns entre eles cresce, como a participação em grupos. Se o ego e o alter são membros de um mesmo grupo, quanto maior o laço entre eles, maior a tendência de permanecerem no grupo.

Haveria, dessa forma, diversos círculos entre os moradores da comunidade de Chão de Estrelas, entre os quais alguns mais favoráveis ao recrutamento. Resta-nos saber qual o perfil dessas pessoas que se encontram nesses círculos sociais favoráveis.

Afirmamos anteriormente que haveria uma diferença importante entre os gêneros masculino e feminino no que diz respeito ao fato de conhecer ou não uma associação de moradores e que os atributos individuais seriam menos importantes para as mulheres na explicação do fato de conhecer ou não uma dessas associações. Acreditamos que existam características particulares presentes no desenho das redes sociais das mulheres que participam de associações de moradores37 .

Os dados disponíveis permitem-nos afirmar que o desenho das redes egocentradas das mulheres que participam de associações de moradores é bastante estruturado em laços fortes e territorialmente ancorados. Há uma relação positiva (0,208), por exemplo, entre o fato de a entrevistada ter tomado conhecimento do grupo por intermédio de amigos e o número de entidades mencionadas38 , embora não se verifique relação entre vínculo familiar39 e participação em associações voluntárias. Pessoas de ambos os sexos que tomaram conhecimento de associações voluntárias por intermédio de parentes estão no intervalo entre 0-2040 . Por outro lado, verificou-se a base territorial do círculo social das pessoas entrevistadas quando comprovamos a relação entre assuntos de conversas e número médio de entidades mencionadas. Há uma relação importante - principalmente entre as mulheres - de assuntos de conversa que remetem ao território (conversas sobre política local: 0,168 para os homens e 0,173 para as mulheres; conversas sobre assuntos de comunidade: 0,067 e 0,205 para os homens e mulheres, respectivamente). Quando a conversa remete ao espaço público mais amplo (pessoas da rede que conversam sobre política em geral), a relação com o número médio de entidades mencionadas é mais significativa para os homens (com uma associação de 0,212, contra 0,126 para as mulheres). Só para o caso da religião é que verificamos uma correlação importante entre espaços institucionais (conseqüentemente públicos e mais propensos a laços fracos) e gênero feminino. Com efeito, na relação entre pessoas do círculo social que conversam sobre religião41 e o número médio de entidades mencionadas há uma relação significativamente maior para as mulheres: 0,163 contra -0,006 para os homens.

Dessa forma, o caráter de territorialidade estaria mais presente nas redes egocentradas das mulheres, que são mais funcionais à participação em associações voluntárias, fato que pode ser indiretamente confirmado a partir de alguns indicadores. Em primeiro lugar, como já vimos, embora homens e mulheres conheçam aproximadamente o mesmo número de associações, a forma pela qual eles adquirem conhecimento parece variar de acordo com desenho de suas redes. O desenho das redes mais "funcionais" ao conhecimento e à participação em associações voluntárias dos indivíduos do sexo masculino não é exatamente o mesmo que o do sexo feminino. O elemento de territorialidade, por exemplo, manifesta-se, no caso dos homens, de forma significativa somente para os que habitam há mais tempo o bairro e que presenciaram (muitas vezes participando intensamente) o processo de luta dos antigos moradores ribeirinhos que culminou na formação do bairro de Chão de Estrelas. Contudo, os homens teriam um desenho de suas redes egocentradas mais aberto ao espaço público, a partir de maiores inserções institucionais42 . Esse fato pode ser observado, de um lado, pelo tipo de conversa mais corrente entre as pessoas participantes das redes dos indivíduos do sexo masculino entrevistados (questões mais ligadas à esfera pública e não estritamente associadas ao território do bairro); de outro, pelo fato de a divulgação ser o instrumento mais eficiente entre os homens do que entre as mulheres.

É também significativa a relação entre o número médio de pessoas mencionadas pelos homens e o conhecimento de associações voluntárias. Embora o tamanho das redes egocentradas não varie muito se considerarmos o sexo dos entrevistados, menos pessoas da rede dos indivíduos do sexo feminino servem de intermediárias para o possível recrutamento. Isso significa que, provavelmente, os homens também sejam recrutados para a vida associativa por membros de sua rede que necessariamente não fazem parte de relações mais estreitas. Quer dizer, é bem provável que os laços fracos (cf. Granovetter, 1973) sejam mais importantes entre os homens do que entre as mulheres, se considerarmos como as pessoas são recrutadas.

 

Conclusão

Os dados sobre a comunidade de Chão de Estrelas, suas redes egocentradas e as práticas associativas da comunidade nos permitiram realizar uma abordagem bastante original de processos de participação em associações voluntárias, embora ainda com muitas lacunas a preencher. Esses fatores indicam, em primeiro lugar, que, ao se introduzir a noção de rede social, surgem questões que não são evidentes quando se analisam somente os atributos dos entrevistados. Constatamos que a associação entre alguns atributos masculinos e o fato de conhecer ou não uma associação de moradores é bem maior entre os homens do que entre as mulheres. Em outras palavras, as variações nos atributos individuais dos homens (idade, escolaridade, situação no emprego, por exemplo) são determinantes para sua participação. Quanto às mulheres, há certa indiferença no que diz respeito à diversidade de seus atributos individuais e sua participação em associações de moradores. O fato de a escolaridade pouco influir no conhecimento das associações43 é um exemplo interessante.

Introduzindo a noção de redes, verificamos que existem desenhos de redes mais favoráveis à participação em associações comunitárias, e que esses desenhos apresentam particularidades quando comparamos grupos de homens e de mulheres. Há entre as mulheres, por exemplo, uma tendência de os laços fortes serem mais importantes na explicação de suas práticas participativas. E também interesses ligados ao bairro (provavelmente por conta de as carências de infra-estrutura serem mais sentidas pelas mulheres, que se ocupam da reprodução doméstica) são visivelmente mais importantes nos círculos femininos. Para os homens, observa-se (embora sem descartar a importância dos laços territoriais e dos círculos de amizade) uma abertura maior para o espaço público, o que remete a uma relevância cada vez maior dos laços fracos como "detonadores" de contatos mais favoráveis à socialização de práticas participativas em associações voluntárias. Haveria também "relés" sociais44 que acionariam contatos com associações particulares para homens e mulheres. Para o círculo feminino, por exemplo, verificamos uma associação entre conversas sobre religião e conhecimento de associações voluntárias, o que sugere que os círculos sociais localizados em instituições religiosas são ambientes favoráveis à formação de relés que acionam práticas participativas.

As redes são, dessa forma, importantes instrumentos para o conhecimento de práticas participativas em associações voluntárias. E, com certeza, a estruturação de redes mais "funcionais" a essas práticas resultaria em maior vitalidade das instituições. Com o conhecimento mais detalhado dos desenhos de redes egocentradas talvez pudéssemos inferir sobre a relação entre as posições sociais diversas dos indivíduos na estrutura social e as práticas participativas. Talvez, ainda, pudéssemos observar relações bastante interessantes entre a formação de estoques de capital social no nível do indivíduo (que, com uma estrutura de redes egocentradas mais ricas resultaria em maior capacidade de mobilizar recursos) e aquele observado de forma mais ampla em comunidades, como foi sugerido por Putnam (1992) ao se referir à Itália. Quer dizer, haveria padrões de sociabilidade que resultariam em maior bem-estar, visto que esses indivíduos e suas comunidades teriam mais capacidade de mobilizar recursos de diversas ordens45 .

 

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Breno Augusto Souto-Maior Fontes é professor adjunto do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.
1. Discutimos em outro texto (Fontes, 2001) a determinação das práticas associativas a partir do desenho das redes egocentradas dos participantes.
2. Segundo a expressão de Simmel (1993, p. 165), sociação significa "a forma, realizada de incontáveis maneiras diferentes, pela qual os indivíduos se agrupam em unidades que satisfazem seus interesses".
3. Em alusão aos clubes de boliche, tão populares nas décadas de 1950 e 1960.
4. Cf. Fontes (1999) sobre recente discussão do assunto.
5. Cf. também, a respeito, Wuthnow (1998), Rosenstone e Hansen (1993), Verba et al. (1995), Desai (1995).
6. Compreendido como "um reservatório de tradições e conteúdos do qual se nutrem os membros de um grupo social nas suas vidas diárias" (Costa, 1994, p. 41).
7. Os dados aqui comentados são oriundos de pesquisa com moradores da comunidade de Chão de Estrelas. Foram aplicados 263 questionários, amostra aleatória de um universo de 1.131 domicílios. Sobre esse assunto, cf. Fontes (1998).
8. Pessoas que posteriormente ocuparam áreas na beira do rio.
9. O tipo de medida de correlação é Eta; situação da casa refere-se ao status de ocupação do morador em relação à sua propriedade (própria, alugada, cedida).
10. Considerou-se o índice Eta e a variável local de nascimento foi a dependente.
11. Observe-se que apenas 5,9% têm opinião de que o objetivo principal de uma associação é o de representar a comunidade. Esse número é menor do que o dos que opinam que a associação de moradores deve organizar festa/eventos (7,5%).
12. Embora se admita que outros atributos individuais sejam importantes, o simples fato de ser homem ou mulher já ofereceria uma explicação plausível para a diferença, por exemplo, em práticas de participação política.
13. De fato há relação entre essas duas ordens de fatores (0,244 para o sexo masculino e 0,175 para o sexo feminino, medida a partir do indicador de correlação Phi ou Cramer's V), sugerindo o fato de que o conhecimento de uma associação de qualquer forma influencia a opinião sobre o papel dessa instituição. As informações, entretanto, ainda não estão claras.
14. Essa assertiva, evidentemente, terá de ser confirmada a partir de outros dados.
15. A variável de controle sexo permite-nos observar se há diversidade nos processos de inserção social dos indivíduos devido à diferença de gênero e também pelo fato de a amostra ter proporcionalmente maior número de mulheres que de homens, e, ainda, controlar uma possível influência do grupo dominante da amos- tra sobre os resultados das análises estatísticas.
16. Embora com uma variabilidade menor que a encontrada no quesito sobre o conhecimento de uma associação de moradores.
17. Os índices de correlação variam segundo o nível de mensuração das variáveis. Nesse caso, com variáveis nominais, utilizou-se o índice Eta.
18. Lembremo-nos de que as pessoas que moram há mais tempo em Chão de Estrelas provavelmente conviveram com o período de maior mobilização da comunidade, quando da remoção das áreas ribeirinhas para o bairro.
19. Apenas 3,125% e 0,52% dos homens e mulheres, respectivamente, têm nível universitário.
20. Apenas 20% e 10% das pessoas do sexo masculino e feminino, respectivamente, que indicaram que o papel da associação deva se "cons- cientizar a população" têm rendimentos acima de cinco salários mínimos por mês; a totalidade das pessoas do sexo masculino e 77% das mu- lheres que afirmaram que uma associação deva "representar a comunidade" têm rendimentos até três salários mínimos.
21. Estamos pressupondo que as respostas "representar a comunidade" e "conscientizar a população" indiquem maior grau de importância que o entrevistado atribui ao membro de uma associação, que a relação entre líderes e comunidade se oriente no sentido de uma representação legítima, enfim, que essas respostas indiquem uma opinião mais próxima ao tipo ideal de uma associação de moradores. Tais conclusões serão testadas a partir de outros indicadores (entrevistas, por exemplo).
22. Isso quando se considera que representações favoráveis impliquem práticas concretas de participação.
23. Solicitou-se aos entrevistados que indicassem até nove associações de moradores que conhecessem, e que informassem uma série de questões sobre entidades citadas, por exemplo: qual a sua participação e como tomou conhecimento da entidade.
24. As entidades citadas são as mais diversas possíveis, desde associações de moradores até "grupos políticos" (provavelmente, grupos patrocinados por políticos).
25. Essas informações não nos dizem sobre preferências, apenas indicam quais associações foram citadas. Curiosamente, o clube de mães foi citado por 6,2% dos homens e somente por 3,5% das mulheres.
26. Nesse caso supomos que maior conhecimento de entidades signifique maior probabilidade de participação.
27. Essa participação implica, na maior parte dos casos, ajuda ocasional, sem um nível maior de comprometimento. Com efeito, em 14,36% das entidades citadas pelos entrevistados, a participação resume-se a uma ajuda eventual.
28. Alguns autores acreditam que o elemento ex- plicativo mais importante em uma ação coletiva é o processo de recrutamento de seus membros. Para além de questões relativas à natureza dos indivíduos (fatores motivacionais presentes em sua natureza idiossincrática), haveria também os de natureza estritamente social como, por exem- plo, o acesso a informações sobre as associações voluntárias, que seria da- do a partir da posição des- ses indivíduos em nichos de informação.
29. Marwell cita, entre outros, Oberschall (1973), Tilly (1978), Fireman e Gamson (1979), Snow et al. (1980), Walsh e Rex (1983) e Cohn (1985).
30. Cf. Fontes (2001) sobre desenhos de redes sociais em comunidades de baixa renda.
31. Entendido aqui co- mo espaço de reprodução doméstica.
32. Solicitou-se ao entrevistado que citasse até nove associações voluntárias que conhecia e que atuava na comunidade de Chão de Estrelas. O número médio mencionado foi de 1,575 para os entrevistados do sexo masculino e de 1,436 para os do sexo feminino.
33. Homofilia diz respeito ao fato de membros de redes egocentradas apresentarem características sociais bastante homogêneas. Para o caso de Chão de Estrelas, por exemplo, encontramos uma associação entre os membros das redes egocentradas em relação a sexo (0,58), educação (0,59), ou idade (0,35).
34. Solicitamos ao entrevistado que indicasse quais tipos de conversa mantinha com os membros de sua rede. As conversas variavam desde assuntos ligados à esfera pública (política, assuntos comunitários) até questões de natureza mais íntima (sexo, casamento, família). Os índices de correlação utilizados são os de Pearson.
35. Existem indicações na literatura (embora com referência a outros países, devendo-se, portanto considerar a diversidade cultural) de que o envolvimento em grupos religiosos é um fator importante na explicação do engajamento das pessoas em atividades associativistas. Para o caso norte-americano, ver, por exemplo, Curtis et al. (1992).
36. Sobre laços sociais fracos e fortes, ver Granovetter (1973).
37. Isso não significa que entre os homens não exista em Chão de Estrelas o desenho de redes mais funcional à participação. Apenas afirmamos que entre as mu- lheres haveria uma determinação mais forte na relação entre o desenho de rede e a participação em associações voluntárias.
38. Essa relação entre os homens é de - 0,117. Porém, os homens apresentam uma relação fortíssima entre o fato de ter tomado conhecimento do grupo por divulgação e o número de entidades mencionadas (0,752 para os homens e 0,300 para as mulheres).
39. Fato importante a ser assinalado é que grande parte dos parentes dos entrevistados que fazem parte de sua rede egocentrada mora fora do bairro.
40. Isso significa que os entrevistados citaram apenas até 20% das pessoas do seu círculo que são parentes e que os introduziram na vida associativa.
41. No questionário apli- cado não há pergunta específica sobre a religião do entrevistado. Supomos que pessoas que conversem mais sobre religião também freqüentem mais instituições religiosas.
42. Exceção no que diz respeito à participação em instituições religiosas que, para as mulheres, seriam mais funcionais do que a participação em associações voluntárias. Essas instituições serviriam de "pontes" para a passagem das mulheres à vida associativa.
43. Entre os homens analfabetos, por exemplo, 75% não conhecem nenhuma associação, ao pas- so que entre os que têm o segundo grau completo, apenas 28,57% não têm conhecimento de associações. Para as mulheres, a escolaridade pouco influi, com os índices de conhecimento próximos à média de 50% (56% das analfabetas não conhecem; 45,94% das que têm segundo grau também não).
44. Conforme expressão cunhada por Ohlemacher (1992, 1993, 1999), relés são redes que funcionam como contexto para redes egocentradas. Os relés sociais produzem e divulgam a mobilização para novas redes.
45. A esse respeito existe toda uma literatura (cf. Granovetter, 1973; Banfield, 1958).