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Tempo Social

versión impresa ISSN 0103-2070

Tempo soc. v.15 n.1 São Paulo abr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702003000100010 

AULA INAUGURAL

 

O Clube da Quarta-feira

 

 

José de Souza Martins

 

 


RESUMO

Crônica sobre a vida num dos mais antigos Colleges da Universidade de Cambridge (Inglaterra), o Trinity Hall, e o encontro com um dos mais antigos fellows do College, o educador Lionel Elvin, que foi professor de Raymond Williams e de Robin Maugham e conviveu com Karl Mannheim, Harold Laski, R. H. Tawney e John Maynard Keynes.

Palavras-chave: Grã-Bretanha; Universidade de Cambridge; Educação; Lionel Elvin.


ABSTRACT

A chronicle of the life of Trinity Hall, one of the oldest Colleges of the University of Cambridge (England), and of the meeting with one of its oldest fellows, the Educator Lionel Elvin, who taught Raymond Williams and Robin Maughan and who socialized with Karl Mannheim, Harold Laski, R.H. Tawney and John Maynard Keynes.

Key words: Great Britain; University of Cambridge; Education; Lionel Elvin.


 

 

Conheci o Professor Lionel Elvin quando me tornei fellow de Trinity Hall, um dos mais antigos colleges de Cambridge, fundado em 1350. Uma das portas monumentais de acesso ao College é mais antiga que o Brasil. Ir para Cambridge foi, certamente, uma das melhores coisas que aconteceram em minha vida acadêmica. Inesperadamente, como é praxe nesse caso, recebi um telefonema num dia do final de 1992, às seis horas da manhã. Numa escolha em que não há candidaturas e os cogitados não sabem que estão na lista dos prováveis, fui informado de que, na véspera, o comitê encarregado de indicar o professor da cátedra Simón Bolívar do seguinte ano acadêmico (1993-1994) me havia eleito. Desejavam saber se eu aceitava a indicação para que meu nome pudesse ser enviado ao Senado para aprovação. Pedi alguns dias para organizar as idéias e a vida e preparar-me para permanecer um ano numa das mais antigas e mais importantes universidades do mundo. No meio tempo, o Master de Trinity Hall, o lingüista Sir John Lyons, enviou-me uma carta para me informar que eu também havia sido eleito fellow do College. Em Cambridge, universidade e colleges são instituições independentes entre si. Professores e alunos são membros da universidade e de um college, ao mesmo tempo. O vínculo com o college, de certo modo, é para sempre.

Tudo correu muito rápido. No dia 12 de outubro de 1993, numa cerimônia solene na bela e antiga capela do College, os 39 fellows com suas becas e insígnias, os estudantes de pós-graduação em seus lugares, fui recebido no altar, pelo Master, como novo fellow de Trinity Hall. Depois, em procissão, com outros colegas, fui conduzido ao Hall, um refeitório muito antigo, para a high table, o jantar solene dos colleges.

Fui informado que tinha privilégios e obrigações. Um dos privilégios era o de pisar na grama dos jardins do College. Vivendo num país em que não raro os professores "pastam", como se costuma dizer, pisar na grama era, sem dúvida, um indício de enorme progresso. É evidente que nunca desfrutei desse privilégio: não tive coragem. Entre as obrigações, estava a de participar do corpo governativo, que me valeu uma experiência muito interessante de como se pode tomar rapidamente decisões muito sensatas com a totalidade dos professores presentes e também a comissão de representantes dos alunos, em relação a assuntos muito mais complicados do que os das nossas insolúveis pautas acadêmicas, puramente burocráticas. E lá se decide sobre um patrimônio de milhões de libras esterlinas, sobre o destino de raríssimos alunos relapsos: a reprovação numa única disciplina do currículo implica desligamento da Universidade e do College. Ao corpo governativo cabe julgar apelações. O meio para as decisões rápidas e seguras é marcar a reunião do corpo governativo para exatamente uma hora antes do almoço ou do jantar. É infalível, pois nem almoço nem jantar podem atrasar, servidos em horários precisos, com base nos quais todo o serviço do College é organizado. Essas reuniões são assembléias em que os que falam costumam proferir apenas o essencial e ninguém precisa se exibir ou defender interesses que não sejam os do próprio ensino e do College.

Sendo o fellow mais recente, cabia-me, também, de beca, servir o café aos outros fellows e convidados na Combination Room, onde nos reuníamos após o jantar, ao redor de comprida mesa, para conversar, tomar o clarete ou o vinho do Porto, beliscar biscoitos e frutas e, aqueles que o quisessem, fumar. Havia sobre a mesa várias caixas de prata com cigarros, charutos, fumo para cachimbo e rapé. Solícito e educado, Mr. Abdul, o mordomo, ensinou-me como cumprir apropriadamente o ritual, de que lado servir, por quem começar, que na Combination Room quem preside é o Vice-master, mesmo que o Master esteja presente etc. Descobri depois, ao ser servido pelo próprio Master num jantar que me ofereceu na Master's Lodge, que quem serve o café é o anfitrião. Servir o café era obrigação que me fazia uma espécie de dono da casa. Tanto que, a primeira coisa que ocorreu, quando me apresentei no College no final de setembro, foi que me entregaram a chave que abria todas as portas e o portão do Jardim dos Fellows.

Eu praticamente almoçava e jantava no College todos os dias, a não ser quando almoçava na própria biblioteca da Universidade. Tornei-me um freqüentador regular do jantar das quartas-feiras, não raro servido na pequena Sala Robin Hayes, uma sala medieval, com lareira, muito acolhedora, para um grupo de quando muito dez pessoas. Esse era o jantar dos membros idosos do College, que se reuniam há décadas nesse dia para jantar, tomar bons vinhos e conversar. Geralmente, cinco ou seis pessoas, mais algum dos outros fellows, como eu. Era regra que um fellow da ativa, como era o meu caso, consultasse os idosos no almoço e, se estivessem dispostos, avisasse o mordomo que naquela noite haveria jantar. Fiz isso muitas vezes, com grande prazer. É que a esse fellow cabia apagar as velas, apagar a lareira e desligar os aparelhos elétricos, além de trancar a porta, ao término da ceia e da conversação.

Esse grupo chamava a si mesmo de Clube da Quarta-feira. Conversavam em civilizada voz baixa e da conversa participavam todos os presentes ao jantar. Ali não se tratava de convencer ninguém do que quer que fosse. Apenas se conversava. Antes que o jantar fosse servido, nos reuníamos para o sherry e começávamos informalmente a trocar idéias. Nesse bate-papo surgia espontaneamente o tema que poderia articular a conversa e aglutinar os interesses de todos. Era tacitamente proibido que se falasse de doenças e assuntos de rua ou do cotidiano ou se contasse anedotas. O objetivo era o prazer de conversar. No grupo havia pessoas de várias especialidades e cada qual podia falar sobre seu tema ou outro tema paralelo ou mesmo assuntos distantes da própria profissão. Geralmente a conversa começava com uma pergunta de alguém, pergunta de quem quisesse ouvir a opinião de um conhecedor do assunto.

Foi aí que conheci o professor Lionel Elvin. Ele não gosta de falar de si mesmo e muito menos gosta de ser consultado sobre o passado (nasceu em 1905!). Não quer ser considerado arquivo histórico, apesar de ter tido importante papel nos rumos humanísticos da educação britânica. É socialista e esteve ligado a grandes nomes da intelectualidade de esquerda na Inglaterra. Vem de uma família de trabalhadores e envolveu-se em atividades para que os trabalhadores e seus filhos tivessem acesso à grande cultura acadêmica1 . Tem orgulho de suas raízes proletárias. Às vezes, quando jantávamos juntos, ou almoçávamos, na conversação com os demais, dizia carinhosamente, referindo-se a nós dois, "nós, os proletários" e assinalava algum positivo traço próprio da condição operária. Recusou o título de Sir, que lhe seria concedido pela rainha.

Logo num dos primeiros almoços após nos conhecermos, explicou-me educadamente que os fellows do College eram calados no almoço e tagarelas no jantar, para que eu não estranhasse a fala monossilábica na primeira refeição e a quase proibição do silêncio na segunda. É que no almoço muitos fellows preferem ler o jornal a conversar, abrindo sobre a mesa larga, ao lado do prato, um dos jornais do dia.

Quando professor em Cambridge, Lionel Elvin freqüentava o Clube de Economia Política, organizado por John Maynard Keynes, do King's College, o pai da Teoria do Emprego, influente durante muito tempo, mesmo aqui na América Latina. Nesse seminário, discutia-se questões econômicas e sociais. Keynes gostou de um seminário de Elvin sobre a psicologia do sindicalismo. O mesmo clube era freqüentado por Sir Dennis Robertson, que tinha idéias diferentes das de Keynes. Robertson é autor de um fascinante livro sobre o dinheiro, em que as idéias sociais e sociológicas aparecem como contraponto nas epígrafes extraídas dos dois livros mais famosos de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas e Alice do outro lado do espelho (cf. Robertson, 1963).

O professor Elvin teve oportunidade de conhecer e conviver com um grande número de pessoas notáveis, e de ser amigo de algumas delas, como Karl Mannheim, Robin Maugham (seu aluno e membro do College, filho do Lord Chancelor e sobrinho do escritor Somerset Maugham, tornou-se também ele escritor, muito provavelmente estimulado por Elvin), Raymond Williams (de quem foi orientador), T. H. Marshall (famoso pelo discurso que fez em Cambridge em favor do reconhecimento da sociologia como disciplina que deveria integrar o currículo da Universidade), R. H. Tawney, Harold Laski, entre outros.

No Clube da Quarta-feira havia outras figuras muito interessantes. Uma delas, Sir Graham Storey, que fora Vice-master, e estava trabalhando na edição completa das cartas de Charles Dickens. Outra era Mr. Robinson, especialista em linguagem simbólica e em escritas ideogramáticas. Fora decifrador de códigos durante a Segunda Guerra Mundial. O mais idoso era o Dr. Jacobson, pediatra, alemão de nascimento, fugira da Alemanha, já médico, em 1933, quando Hitler se tornou chanceler do Reich. Radicou-se em Cambridge, e trabalhou toda a vida no Addenbrook Hospital, da Universidade.

O grupo acolhia visitantes, novos fellows, geralmente professores ou pesquisadores que se integravam na Universidade por um período definido e menor do que a longa década e meia da permanência média de um fellow no College. Um desses acolhidos foi Terry Waite, assessor e emissário do Arcebispo de Canterbury, Lorde Runcie2 , nas negociações com o Hezbollah, no Líbano, para libertação de dois reféns ingleses. Terry fora capturado e feito refém, também ele, permanecendo confinado durante quase cinco anos. Ao ser libertado e retornar à Inglaterra, foi acolhido em Trinity Hall, onde escreveu as memórias de seu cativeiro. Conversamos mais de uma vez sobre o extraordinário feito acadêmico que era o Clube da Quarta-feira, de que se tornara freqüentador, e que fora fundamental na sua ressocialização para a liberdade3 .

O Clube da Quarta-feira foi um maravilhoso exercício de sociabilidade intelectual vitoriana, no que tinha de melhor, que se materializou de muitos modos, como os clubes de livro e de leitura, de um dos quais, aliás, Lionel Elvin fez parte, um modo de tornar o livro acessível às classes trabalhadoras.

O Clube da Quarta-feira começou a extinguir-se com o falecimento do professor Jacobson, quase centenário. Não está extinto, mas seus membros já não se reúnem, embora se visitem e conversem. Na última vez que encontrei o professor Elvin foi na visita que lhe fiz no Addenbrook Hospital, internado para exames em virtude de uma pequena queda em casa. Conversamos longamente. Quando ia me retirar, perguntei-lhe se precisava de alguma coisa que eu pudesse levar-lhe. Sua disposição e seu estado de espírito revelaram-se uma vez mais na resposta: "De um corpo novo", disse-me ele rindo, com a disposição de quem tem fôlego para mais cem anos!

 

Referências Bibliográficas

ELVIN, Lionel. (1987), Encounter with education. Londres, Institute of Education, University of London.         [ Links ]

CARPENTER, Humphrey. (1996), Robert Runcie: the reluctant archbishop. Londres, Hodder & Stoughton.         [ Links ]

CRAWLEY, Charles. (1992), Trinity Hall: the history of a Cambridge College, 1350-1992. Cambridge, printed for the College.         [ Links ]

ROBERTSON, Sir Dennis. (1963), A moeda. Rio de Janeiro, Zahar (trad. Waltensir Dutra).         [ Links ]WAITE, Terry. (1993), Taken on trust. Londres, Hodder & Stoughton.         [ Links ]

 

 

José de Souza Martins é professor titular do Departamento de Sociologia (FFLCH-USP); fellow de Trinity Hall e professor titular da Cátedra Simón Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994); membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário das Nações Unidas contra as Formas Contemporâneas de Escravidão.
1. Narrada com modéstia, a autobiografia de Lionel Elvin é um documento esclarecedor so- bre a história de um refinado intelectual originado da classe trabalhadora, de seu fascínio pela educação como meio de emancipação do ser humano, do clima democrático e criativo numa das melhores universidades do mundo, não obstante fosse uma época em que os alunos tinham até mesmo valet-de-chambre, um serviçal para ajudá-los nas questões cotidianas! (Cf. Elvin, 1987). Outros aspectos da vida do professor Elvin e de alguns de seus colegas e alunos podem ser encontradas em Crawley (1992).
2. Runcie fora deão de Tri- nity Hall e se casara com Lindy, filha de Cecil Turner, Senior Fellow e Bursar do College. Mesmo depois de tornar-se líder da Igreja Anglicana, como é da tradição, mantivera estreitas relações com Trinity Hall, onde tinha muitos amigos. Essa foi, provavelmente, a razão da ida de Terry Waite para o College. Sobre Runcie e sua vida em Trinity Hall, ver Carpenter (1996).
3. Em suas memórias, Terry Waite faz referência ao Clube (cf. Waite, 1993).