SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 issue2Social capital: a theory of social structure and actionRazões e ficções do desenvolvimento / Brasil, México, África do Sul, Índia e China: diálogo entre os que chegaram depois author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo Soc. vol.16 no.2 São Paulo Nov. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702004000200015 

RESENHAS

 

Guilherme G. de F. Xavier Sobrinho

Doutorando em sociologia na USP, bolsista do CNPq e sociólogo da Fundação de Economia e Estatística (RS)

 

 

J. Rogers Hollingsworth & Robert Boyer (orgs.), Contemporary capitalism: the embeddedness of institutions. Cambridge, Cambridge University Press, 1997, 492 pp.

Lançada em 1997, esta obra se constitui em um rico e diversificado conjunto de contribuições teórico-analíticas a algumas das discussões centrais que estão na agenda da chamada nova sociologia econômica. O tempo transcorrido desde sua publicação impõe, hoje, certo distanciamento em face de aspectos circunstanciais que deixaram sua marca em muitos dos artigos. É o caso das preocupações com a recente dissolução do bloco do Leste ou com o iminente aprofundamento da integração européia. O aspecto mais relevante, entretanto, sob esse prisma, é a construção, pelos autores, do campo teórico e político antagonista. Interpela-se, com proporcional radicalidade e, até por isso, com alguma simplificação, uma geração de free-marketers — como são evocados os apólogos do primado absoluto do mercado como mecanismo de coordenação da atividade econômica —, a qual, certamente, era bem menos sofisticada do que a que a sucedeu. Cabe destacar que o alvo dessa investida se encontra, sobretudo, em personagens do debate público — elites políticas de diferentes nações, quadros de instituições multilaterais etc. —, já que, no plano teórico, os organizadores destacam que boa parte dos argumentos mobilizados no livro para expor os limites das abordagens neoclássicas de racionalidade econômica e de equilíbrio de mercado provém de avanços da própria teoria microeconômica neoclássica ou encontra apoio neles.

Composta com o aporte de quinze estudiosos, a obra tem sua fisionomia fortemente marcada pela dupla de organizadores, os quais, juntos ou separadamente, assinam seis dos textos, entre os quais merecem destaque as densas introdução e conclusão gerais. Nelas, a relativa diversidade de enfoques e de orientações teóricas que o livro abriga dá lugar a uma impressão de organicidade que revela engenho. Ainda assim, Robert Boyer, economista de notória relevância no debate da escola francesa da regulação, e J. Rogers Hollingsworth, sociólogo com sólida tradição em economia política, confluem para erigir uma abordagem um tanto particular dentro do vasto campo de estudos associado à sociologia econômica contemporânea, permitindo que se identifique aquilo que Richard Swedberg (nesta edição) classifica de path-dependency intelectual.

Ultrapassando a motivação mais evidente de contestar a suposta supremacia dos mercados e de restituir a eles o caráter de instituições sociais dentre outras — alternativas ou complementares —, a problemática central do livro poderia ser descrita, muito sinteticamente, como a da governança de "sistemas sociais de produção" (SSPs). Essa categoria, por sua vez — fundamental nas elaborações dos organizadores e adotada por outros colaboradores, como William Coleman e Benjamin Coriat —, captura muito da "embocadura" dessa linha analítica.

O conceito de SSP toma por base países ou regiões — constituídos assim como unidade primeira de análise — e alude ao modo como, em cada um deles, "integram-se em uma configuração social", uma pluralidade de "instituições ou estruturas", entre as quais são listados o sistema de relações de trabalho, o sistema de treinamento de trabalhadores e gerentes, a estrutura interna das firmas, as relações interfirmas e várias outras. Embora, encerrando o longo rol, compareçam dimensões culturais, como os "costumes e tradições idiossincráticos de uma sociedade, assim como as normas, os princípios morais, as regras, as leis e as prescrições para a ação", o enfoque aqui é claramente sistêmico e estrutural, centrando-se na dimensão econômico-produtiva, a qual subordina o escopo da análise institucional(Hollingsworth e Boyer, cap. 1, p. 2).

Não obstante, uma pluralidade significativa de matizes teóricos sobressai dos diversos textos, que estão estruturados em três blocos. O primeiro, "A variedade dos arranjos institucionais e sua complementaridade nas economias modernas", inicia-se com Boyer, que enfrenta consistentemente a discussão conceitual sobre o mercado, repertoriando os múltiplos e escorregadios usos da categoria, e sugere que a ideologia do livre-mercado demonstra ser contraproducente para o "uso racional" dos mercados. Jerald Hage e Catherine Alter enfocam relações interfirmas, destacando o quanto redes e alianças com características inovadoras vêm assumindo funções que até há pouco eram cumpridas pela integração vertical das empresas. William Coleman aborda as associações — empresariais — e seu papel na governança de setores econômicos, em diferentes contextos competitivos, demarcando que o alcance delas, tradicionalmente nacional ou subnacional, é desafiado no contexto da globalização, mas não de forma irreversível. Charles Sabel discute o conceito de ordem constitucional para dar relevo a formas de governança que, baseando-se na confiança, "estouram" a dicotomia mercados versus hierarquias. A análise, embora abstrata, disseca exemplos tempestivos, como a fidelidade entre clientes e fornecedores ou o desenvolvimento regional.

A segunda parte, "Como e por que mudam os SSPs?", inicia-se com o trabalho de Wolfgan Streeck, objeto, nesta revista, de questionamentos e réplica. O autor evoca Durkheim e Polanyi para sustentar que restrições socialmente institucionalizadas ao comportamento maximizador preconizado pelo voluntarismo racional, mais do que legítimas, podem elevar a performance econômica. Paul Hirst e Jonathan Zeitlin recolhem e buscam refutar as críticas à conceitualização de especialização flexível. Sem considerá-lo inexorável, procuram demonstrar que esse paradigma já se encaminha para uma posição dominante, deslocando a produção em massa. Benjamin Coriat trata da globalização, que traria, na comparação com a precedente "internacionalização", novidades — multiplicidade de métodos inovativos com origens geográficas diversas, competição multidimensional e um grau muito maior de incerteza —, associando-se a uma nova configuração de SSP, o regime da variedade. Hollingsworth parte de uma caracterização dicotômica de produção em massa e produção flexível e analisa os SSPs a partir de exemplos nacionais contrastivos — Japão, Alemanha e Estados Unidos —, para afirmar as singularidades institucionais e a path-dependency das transições de sistemas específicos, questionando as teses de convergência.

Na terceira parte, "Níveis de coordenação espacial e o enraizamento (embeddedness) das instituições", Wyn Grant, a partir da caracterização das "firmas sem Estado", qualitativamente diferenciadas das tradicionais companhias multinacionais, aborda a necessidade de mecanismos de governança no âmbito transnacional. Cético quanto à sistemática de "conferências" à la G-7, reconhece que o desafio é criar formas de coordenação sem a presença de uma autoridade soberana, marca da governança nos contextos nacionais. Paul Hirst e Grahame Thompson contestam que se tenha constituído, ou que tenha probabilidade de se constituir, algo como uma globalização da economia. Haveria, sim, uma economia internacional, com escassos instrumentos de coordenação e governança, na qual têm vantagens as nações mais capacitadas por suas políticas domésticas, pela coesão de suas sociedades e outros fatores similares. Lorraine Eden e Fen Hampson transitam por um campo semelhante, mas, com orientação bastante distinta, tratam de "falhas políticas e de mercado" (politicomarket failures) que se apresentam nas transações econômicas supranacionais e que requereriam a intervenção de "regimes internacionais" e de "estruturas internacionais de governança", que podem combinar a intervenção de Estados e de firmas, em uma pluralidade de modalidades tipologizadas e problematizadas no artigo. Philippe Schmitter, por fim, explora a diversidade das instituições que, em cada país europeu, governaram, historicamente, o capitalismo, para discutir o potencial impacto da integração continental (então restrita a doze países). Aponta para o risco das estratégias centradas no mercado e assumidas apenas pelos governos, contrapondo a elas a possibilidade de consolidação de uma "sociedade civil européia" que sustente formas intermediárias e setoriais de governança.

Numa longa sessão conclusiva, Hollingsworth e Boyer recuperam muitos dos resultados desse conjunto de estudos, emprestando-lhes um tanto de suas próprias inclinações. Aqui, o eixo institucional na constituição dos SSPs é fortemente valorizado, o que compreende desde uma revisitação à abordagem regulacionista do fordismo até uma discussão sobre as tendências de convergência dos arranjos institucionais das diferentes sociedades contemporâneas, passando, uma vez mais, pelos limites dos mercados como mecanismos de coordenação ou, ainda, pela dupla pressão — supra e subnacional — que desafia os modos de regulação ancorados em uma matriz eminentemente nacional.

Sem deixar de acionar a "hipótese do enraizamento" (the embeddedness hypothesis) de Mark Granovetter — posição, aliás, abraçada desde o título da obra —, os organizadores não resistem a avançar mais uma metáfora: nestedness, que deriva de nest, "ninho" em inglês. Propõe-se algo como o "aninhamento" ou uma "complexa estrutura de ninho" para os arranjos institucionais, em lugar do enraizamento (embeddedness) nacional que teria marcado a etapa precedente. Hollingsworth e Boyer dizem aludir, com isso, a uma "causalidade multifacetada", que entrelaça múltiplos níveis espaciais (região subnacional, nação, zona ou bloco, economia global), uma pluralidade de instituições, sem uma autoridade única, e que torna a política econômica e a mudança institucional mais difíceis do que nunca. Dessa forma, em vez de convergência, a perspectiva seria a de uma persistente diversidade de modos de governança atravessando, em coexistência, os vários níveis das sociedades. As incertezas finais aludem à capacidade que se terá de gerar formas democráticas de gerir esse "ninho".

Como alegoria, o ninho não parece ter feito boa carreira, a julgar pela sua pouca difusão. Mas trata-se de uma boa imagem para o próprio livro que Boyer e Hollingsworth organizaram, no qual, além de contribuições autorais consistentes e provocativas, demonstraram um especial talento em interligar os heterogêneos gravetos, recolhidos a trinta mãos, para avançar no entendimento de um quadro tão complexo.