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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo Soc. v.17 n.1 São Paulo jun. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702005000100009 

SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA

 

Depoimento sobre Les Héritiers*

 

Witness about Les Héritiers

 

 

Yvette Delsaut

 

 


RESUMO

Les Héritiers, les étudiants et la culture, escrito em parceria por Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, e publicado em Paris em 1964 (Éditions de Minuit), resultou de uma pesquisa feita por meio de questionário, com base em amostra de estudantes de letras de Paris e de algumas outras universidades francesas. Pierre Bourdieu ensinava sociologia na Universidade de Lille (Norte): o depoimento aqui publicado relata as condições de realização da pesquisa em Lille, sob sua direção, e retraça a história da obra, desde sua elaboração no âmbito do Centro de Sociologia Européia, até sua recepção dentro e fora do ambiente da pesquisa universitária.

Palavras-chave: Pierre Bourdieu; Sociologia da educação; Movimento estudantil; Centro de Sociologia Européia; Confrontos de orientações intelectuais.


ABSTRACT

Les Héritiers, les étudiants et la culture, written by Pierre Bourdieu in partnership with Jean-Claude Passeron and published in Paris in 1964 (Éditions de Minuit), was the result of research done through a questionnaire, based on a sample of students of Letters, in Paris and from a few other French universities. Pierre Bourdieu taught sociology at the University of Lille (North): the statement published herwith tells about the conditions under which the research was undertaken in Lille, under his supervision, and retraces the history of the work, from its elaboration at the European Sociology Centre, to the reception inside and outside university research environment.

Keywords: Bourdieu; Sociology of education; Student Movement; European Sociology Centre; Conflict of intellectual supervision.


 

 

Gostaria de tentar reconstituir uma parte do contexto de produção de Les Héritiers1, adotando um ponto de vista um pouco pessoal. Eu era estudante na Faculdade de Letras de Lille e me aproximava dos estudos de sociologia quando, em outubro de 1961, Pierre Bourdieu foi nomeado chargé d'enseignement2 nessa disciplina, em Lille. Embarquei então na aventura dos Héritiers - sem ter consciência disso naquele momento - e, paulatinamente, em toda empresa intelectual de Bourdieu, já que, um pouco mais tarde, segui-o até Paris para integrar o Centre de Sociologie Européenne, como membro primeiro do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique), depois da École Pratique des Hautes Études (EPHE). Naquela época, era possível fazer uma carreira de pesquisador na prática, por etapas: aprender o ofício ocupando um posto de auxiliar técnico; depois se firmar como chefe de trabalho (o que implicava a tarefa de enquadramento dos técnicos) e, finalmente, ocupar a função de pesquisador. Passei por todas as etapas na seqüência de minha iniciação em Lille, isto é, como prolongamento direto dos trabalhos que serviram de base às análises de Les Héritiers. Além disso, durante certo tempo, trabalhei na reconstituição da história do Centre de Sociologie Européenne, o que me deu a oportunidade de olhar de perto os arquivos do laboratório.

É preciso lembrar, antes de mais nada, o que eram os estudos de sociologia no começo dos anos de 1960. É claro que podemos datar de modo preciso a criação da graduação em sociologia, instituída em 1958, mas manter-se fiel a uma cronologia conduz freqüentemente, sem que queiramos, a imaginar uma decisão administrativa sob a forma de um ato inaugural, cujos efeitos são imediatos e manifestos. Na realidade, se um diploma em sociologia foi criado em 1958, ele existia, até essa data, apenas em Paris. As universidades da província irão instituí-lo mais tarde: a Universidade de Lille inclui a sociologia em seus programas somente em outubro de 1961, no começo do ano letivo. Como todos os títulos na área de letras3, o de sociologia compreende quatro diplomas (preparados, geralmente, em dois anos), dos quais três são obrigatórios ("Sociologia geral", "Psicologia social", "Economia política e social"); o quarto oferece em princípio uma escolha, mas esta depende invariavelmente da oferta local. Em Lille, no ano de 1961, o quarto diploma, que completará os três outros, será para todos o de "Demografia".

No começo do ano letivo de 1961, momento em que Bourdieu chega a Lille, a nova disciplina incluída no programa, "Sociologia", que apenas começa a ter um espaço, possui somente seis ou sete matrículas regulares. Como o diploma em psicologia, o de sociologia não é uma "licenciatura para ensino" (não conduz à Capes [Certificat d'Aptitude au Professorat de l'Enseignement Secondaire] nem à agrégation4) - o que descarta a princípio os bolsistas - e, ao contrário da psicologia, não possuíamos senão uma idéia muito vaga do seu conteúdo e das perspectivas que ela podia oferecer. De fato, o grupo reduzido de estudantes-sociólogos era pequeno e também heteróclito. Alguns se inscreveram em sociologia por falta de opção, na impossibilidade de poder fazê-lo em etnologia, que não era uma disciplina ensinada em Lille. Outros o fizeram por acaso: havia, por exemplo, um padre missionário que buscava aperfeiçoar sua cultura humanista; um jovem inspetor de trabalho; uma professora que tencionava mudar de vida; um ex-aluno da Escola de Jornalismo. Essa pequena coorte, da qual eu fazia parte, não estava diante de um ensino concebido especificamente para ela, pois o grupo ainda era muito reduzido. Os poucos "sociólogos" eram integrados às turmas já constituídas em cada uma das matérias que deveriam cursar, de acordo com os diplomas escolhidos: a turma dos filósofos (que preparavam o certificado "Moral e sociologia" e seguiam as aulas magnas ministradas por Bourdieu), a dos psicólogos (que possuíam em seus cursos um certificado de "Psicologia social"), a dos economistas (na Faculdade de Direito, cujo edifício era mais afastado em relação ao da Faculdade de Letras). Por toda parte, os poucos sociólogos eram intrusos, agrupados no fundo das classes. É esse pequeno grupo, que se desenvolveu progressivamente no correr dos anos, que Bourdieu encontra como aprendizes de sociólogos quando de sua chegada a Lille. Somente alguns cursos isolados reúnem esses alunos em torno de temas práticos.

É provável que um arranjo provisório de tipo semelhante tenha permitido aos universitários (pessoas do interior) trabalhar enquanto esperavam o aumento do número de alunos de sociologia. O caso de Lille é entretanto particular. No início do ano letivo de 1961, no quadro do Departamento de Filosofia, dirigido por Eric Weil, dois professores ficaram encarregados do ensino especificamente sociológico: Jean-René Tréanton (já parte do corpo docente) e Pierre Bourdieu, nomeado uma vez mais. Acontece que esses dois professores, unidos pela missão de inaugurar a nova disciplina, encarnam duas correntes perfeitamente identificáveis em sociologia, que poderíamos qualificar ambas de "modernas", ainda que muito distintas. Jean-René Tréanton, antigo aluno do Instituto de Ciências Políticas e diplomado em direito, provém do Centro de Estudos Sociológicos, que agrupava pesquisadores formados na metodologia norte-americana, quer dizer, em uma sociologia muito empírica, que apresentava todos os contornos de um aggiornamento ideológico, já que supunha a exigência de um novo tipo de universitário que Lazarsfeld designava pelo termo managerial scholar. (Jean-René Tréanton será o responsável, em 1964, pela criação de um diploma de "perito-sociólogo", que acabou não sendo instituído, mas que pretendia ser como o diploma de "perito-geógrafo", que existiu durante um tempo na mesma época, espécie de brevê relativo à qualificação profissional capaz de permitir o acesso a outras carreiras que não a pesquisa e a docência.) Pierre Bourdieu, normalien5 e agregé em filosofia, por sua vez, apresentava as características mais prestigiadas para um jovem intelectual (vinha da Sorbonne, onde, no ano anterior, havia sido assistente de Raymond Aron), com uma particularidade suplementar: ter feito trabalho de campo como etnólogo na Argélia, em um momento em que a etnologia, por muito tempo uma disciplina "menor", se vê de alguma forma valorizada pela emergência do estruturalismo e da notoriedade de Lévi-Strauss.

Para reconstituir de modo exaustivo o contexto dos Héritiers, é preciso evocar a situação particular do sindicalismo estudantil, muito ativo durante os anos da guerra da Argélia, e que continua a mobilizar após a assinatura dos acordos de Evian, em 1962, devotando seu ardor militante à ação reivindicativa interior: uma quantidade de dossiês são elaborados pela imprensa sindical estudantil, ou pelo MNEF (Mutuelle Nationale des Étudiants de France), por meio dos quais todos os aspectos da "condição estudantil" são contemplados, desde saúde e lazer, até o conteúdo do ensino, a autonomia da universidade, o orçamento estudantil, mas sempre em nome da reivindicação da categoria, quer dizer, em nome de uma categoria social que se supõe independente, a dos estudantes, para a qual a UNEF (Union Nationale des Étudiants de France) preconiza que seja paga uma soma de recursos por título, como garantia de seu status ao mesmo tempo autônomo e homogêneo. O tema que Pierre Bourdieu, em Lille, e Jean-Claude Passeron (que o sucedeu no posto de assistente de Raymond Aron), em Paris, elegem como objeto de seus estudos, os estudantes de letras, adapta-se com perfeição ao clima da época (a FGEL [Fédération des Groupes d'Études de Lettres], que agrupa os estudantes de letras, é uma das instâncias mais ativas no seio da UNEF). É talvez por pragmatismo que suas pesquisas se voltem, dentro de suas respectivas faculdades, para os estudantes de sociologia e filosofia, com os quais Bourdieu e Passeron estão diretamente envolvidos: mas o que seria uma limitação acaba por revelar um caráter quase experimental, já que as duas disciplinas se opõem por uma série de características. A necessidade de ampliar o espectro da investigação, sobretudo no que diz respeito à representação dos sociólogos, irá mobilizar uma rede, fazendo de alguns professores dos institutos de sociologia do interior do país uma equipe de apoio para a aplicação dos questionários (com a colaboração de Paul de Gaudemar, em Toulouse; de Marcel Maget, em Dijon; de Guy Vincent, em Lyon, e ocasionalmente de Raymond Boudon e François Bourricaud, em Bordeaux; de David Victoroff em Caen; de Paul-Arbousse Bastide em Rennes; de Pierre Lantz em Besançon; de Marcel Lesne em Nancy; de Henri Hatzfeld em Strasbourg; de José Luis López Aranguren em Madri; e de Jean-Claude Pariente e Henri Joly, que não eram sociólogos mas amigos pessoais e antigos discípulos de Bourdieu na École Normale Supérieure (ENS) e que aplicaram o questionário em um grupo de normaliens). Assim, ao longo de dois anos universitários, o grupo de estudantes desses professores será submetido a uma série de questionários, voltados cada vez a um tema preciso: o vocabulário, o uso do tempo, o conhecimento das matérias culturais etc.

Guardo dessas sessões de aplicação coletiva dos diferentes questionários uma recordação um pouco sombria. Em Lille, os trabalhos tinham lugar, em geral, por ocasião dos cursos mais concorridos, nos quais o público era mais numeroso, quer dizer, durante o curso magno de sociologia ministrado por Bourdieu no quadro do certificado de "Moral e sociologia": o auditório era constituído essencialmente de estudantes de filosofia, entre os quais eram recrutadas as lideranças políticas, sindicais e intelectuais da faculdade, aqueles que conduziam as manifestações, os que promoviam os cineclubes etc. Lembro de uma atmosfera bastante tensa: os filósofos mais em evidência consideravam os questionários grosseiros e redutores, enquanto outros estudantes penavam para responder e não conseguiam escapar da idéia de que estavam sendo submetidos a uma forma de controle de conhecimento (penso no questionário sobre o domínio da língua), que poderia trazer prejuízos no caso da omissão de uma resposta ou de uma resposta errada. Apesar do silêncio reinante, os estudantes tentavam fornecer as informações, assinalando, algumas vezes, uma hostilidade declarada em relação ao professor. Bourdieu, que não desejava parecer um professor autoritário e dar ao exercício uma conotação escolar muito estreita (o contexto por si só já reforçava em muito essa idéia), mantinha-se sentado em sua mesa durante o tempo em que os questionários eram aplicados, ostensivamente mergulhado em seus papéis, erguendo a cabeça de vez em quando, com um olhar distraído, que não focalizava lugar algum e que poderia ser interpretado como de divertimento, o que contribuía para fazer pesar ainda mais a atmosfera. O exame detido do questionário sobre o emprego do tempo, do qual participei mais tarde, era revelador desse ponto de vista: os estudantes eram convidados a registrar suas atividades dia a dia, durante uma semana, e é evidente que o modo algumas vezes cuidadoso demais com o qual eles relatavam suas rotinas e gestos, mesmo os mais privados (mencionando a atividade sexual ou intestinal, por exemplo), com a estimativa minuciosa do tempo transcorrido, de sua cronometragem e do resultado obtido, só podia ser interpretado como provocação. Paradoxalmente, acredito que foi devido a seu status elevado na hierarquia acadêmica tradicional (filósofo, normalien, agregé e parisiense não residente no local) que Bourdieu pôde impor procedimentos que feriam as convenções intelectuais do meio.

Mas os poucos estudantes de sociologia possuíam, em relação a seus condiscípulos filósofos, um regime distinto quanto à pesquisa realizada. Ao mesmo tempo que eram pesquisados, estavam também associados à organização desse amplo trabalho de campo. Eles foram estimulados a escolher, em Lille e em Paris, temas para um aprofundamento particularizado, como por exemplo a ansiedade nos exames, a ideologia política, as inter-relações entre os alunos. Além disso, faziam entrevistas sobre seus temas de eleição com os estudantes conhecidos, tomando como guia os questionários já respondidos por escrito em outro lugar, o que permitia a eles controlá-los e comentá-los. Difícil saber se estávamos diante de trabalhos práticos ou de investigação pessoal, mas tratava-se simultaneamente, e todo o tempo, de uma pequena "cozinha" permanente e de um grande projeto. Foi acumulado um material difícil de ser explorado porque reunido e construído pouco a pouco. Li no artigo que Philippe Masson publicou na Revue Française de Sociologie (cf. Masson, 2001) o depoimento de Michel Eliard sobre o desenrolar da análise de todo esse material no Centre de Sociologie Européenne (fundado e dirigido por Raymond Aron, e do qual Bourdieu foi secretário geral a partir de 1962): Eliard era então colaborador técnico nesse laboratório e eu me identifiquei imediatamente com o seu relato, no qual ele conta que os questionários eram armazenados em um armário, semi-explorados, em estado bruto se poderia dizer, e é assim um pouco desordenadamente que eles retornam à ordem do dia, na falta de uma prioridade mais urgente. Uma vez recomeçado o trabalho, era preciso consolidar a amostra assim isolada, situando-a no universo estudantil mais amplo: daí o recurso ao trabalho estatístico, a partir dos dados do INSEE (Institut National de la Statistique et des Études Économiques) e do BUS (Bureau Universitaire de Statistique), que fornecia balizas numéricas e permitia apoiar a refutação da tese da existência de uma classe de estudantes com expectativas e interesses unificados, para além da demonstração por exemplos específicos.

É possível que os autores tenham, eles mesmos, num primeiro momento, duvidado do alcance de sua obra, ou mais ainda de sua dignidade universitária, tributária das regras tradicionais do meio. O manuscrito foi proposto, em primeiro lugar, às edições Rocher, estabelecidas em Mônaco, o que não era uma estratégia de valorização da iniciativa. Rocher recusou-o: "Ao final de uma análise que apresentou avaliações contraditórias", escreve o responsável, "dividindo as pessoas consultadas em partidários do assunto que vocês nos submeteram e adversários de seu estilo considerado muito hermético para o nosso público, achei melhor enviar a M. [...], diretor da coleção Idées [Gallimard], os diversos documentos de que disponho", e acrescenta em um postscriptum, à mão, "sem mencionar a eles, entretanto, o fato de que esta obra foi aqui recusada". Os autores retiraram imediatamente os originais depositados na Gallimard, e que depois seriam publicados nas Éditions de Minuit, primeiro na coleção Grands Documents, reservada preferencialmente aos depoimentos e aos textos de intervenção (Bourdieu já havia publicado aí, com Abdelmalek Sayad, Le Déracinement), depois como carro-chefe da nova coleção Le Sens Commun, dirigida por Pierre Bourdieu. Há outros indícios que mostram as dúvidas dos autores sobre seu próprio livro. Tive, por exemplo, a ocasião de ler a dedicatória que acompanha o exemplar dirigido a Louis Velay, que era um dos administradores da sexta seção da EPHE, instituição ligada ao Centre de Sociologie Européenne, e que, nessa condição, favoreceu a participação do laboratório de cartografia na elaboração dos gráficos da obra: "Para M. L. Velay, como homenagem respeitosa, este ensaio em que expomos os resultados de nossas pesquisas nos quadros da École e também reflexões mais gerais, mais ou menos objetivas, pelo menos a nossos olhos". Outro exemplo, ainda mais impressionante, é a carta dirigida a Georg Lukács (que estava em conversações com as Éditions de Minuit para a tradução de algumas de suas obras, e que Jean-Claude Passeron havia encontrado em Viena), acompanhando um dos exemplares de Les Héritiers:

Trata-se de um ensaio resultante de pesquisas empíricas que não pretende um verdadeiro rigor metodológico, mas que revela sobretudo tentativas por meio das quais procuramos um método de sociologia do conhecimento e da cultura que permita integrar as técnicas empíricas da pesquisa. Diante disso você julgará com indulgência essa obra que não é ainda característica da sociologia que nós desejamos praticar.

Naquele momento preciso, o que fiquei sabendo sobre as reações provocadas pelo livro me impressionaram. Em Lille, não fomos avisados do projeto de publicação de um volume a partir dos questionários. Sua aparição nos surpreendeu, mas sobretudo no sentido, creio, de que nos parecia estranho que um verdadeiro livro pudesse nascer a partir de nossas sessões do curso de trabalhos práticos (TP). E não somente um verdadeiro livro, mas um livro sobre o qual muito se falou. Todos tinham algo a dizer sobre ele. Essas reações não foram nem totalmente espontâneas nem totalmente solicitadas: tendo os autores divulgado amplamente a obra (às pessoas "da rede", mas também aos condiscípulos da ENS e aos colegas universitários), os destinatários responderam, algumas vezes felicitando-os, mais freqüentemente argumentando, e encontrando, ao mesmo tempo, a suscetibilidade dos autores que pareciam propensos a superproteger o livro pelo fato de que ele parecia particularmente exposto à crítica. Um deles fez a seguinte observação, ao escrever a Bourdieu: "Gostaria, antes de tudo, de me entender com você e com Passeron [...]. Mas peço que reconheçam que existe uma discussão possível a partir da reação das pessoas e que talvez vocês estejam [...] um pouco sensíveis demais e muito propensos a ver mais do que de fato existe". Em todo o caso, a impressão geral é de uma recepção muito mitigada no ambiente da pesquisa universitária. Se alguns se reconheceram nas análises dos Héritiers, outros criticaram os autores por não terem tido o cuidado de fazer uma recuperação sociohistórica capaz de dar conta do surgimento e da evolução do sistema de valores que eles descreveram, ou ainda por terem falado demais do ideal padrão do estudante de letras, ou finalmente por não terem aplicado o método quantitativo multivariado. Polêmicas desse tipo se desenvolvem, discordâncias se sucedem. Entre esses dissensos, um consternou-me mais que os outros, a saber, aquele que opôs Bourdieu e Jean-René Tréanton. Com o passar do tempo, compreendo que Tréanton pudesse criticar Bourdieu por essa incursão um pouco rápida no domínio da análise empírica, que era a sua especialidade. Ele também foi testemunha direta das pesquisas realizadas entre seus próprios alunos, em Lille, e provavelmente gostaria de ser parte ligada ao empreendimento, que ele apoiou com ativa cumplicidade6. Numa nota dirigida a Bourdieu (que, na época, é ainda seu colega em Lille), Tréanton sublinha as divergências, recalcula as probabilidades condicionais mostradas nos quadros, fala dos coeficientes de ponderação, propõe um modelo de cálculo de um índice de relegação, um outro de segregação diferencial: lendo essa nota, não podemos deixar de ficar tocados pelo mal-estar que seu autor sentiu ao redigi-la, sobre uma pequena máquina de escrever, com barras de fração, expoentes, as operações transcritas a mão; a seriedade e a aplicação investidas na argumentação são tocantes. Ele conclui: "As cifras de Bourdieu-Passeron se traduzem 1. por sobreestimar sistematicamente algumas probabilidades e 2. por subestimar outras". É Alain Darbel, administrador do INSEE e redator da nota de metodologia estatística em Les Héritiers (com quem Bourdieu já havia trabalhado na Argélia) que se encarrega de respondê-lo, numa carta irônica, ao mesmo tempo longa e bem argumentada, começando nos seguintes termos: "O senhor me colocou alguns problemas estatísticos a partir de sua leitura dos Héritiers. Vou tentar não me mostrar muito indigno da honra que o senhor me concede". Naturalmente, ele não está de acordo com nada, faz a lição e conclui, falsamente modesto: "Mas uma falsa evidência talvez me impeça de ver e aguardo com impaciência os esclarecimentos que o senhor poderia fazer para continuar este debate". Não há dúvidas de que os reparos de Tréanton serão cuidadosamente apresentados de forma especial, como observações a serem inseridas em notas de rodapé ("É preciso se proteger de...", "Para evitar dar um peso desproporcional a...", "Os números entre os quadros tal e tal não estão de acordo..."), com vistas a serem integradas numa reedição eventual (que acabou não ocorrendo, ao menos como previsto)7.

Outro conflito, fruto da publicação de Les Héritiers, terá repercussões muito mais profundas: refiro-me àquele que irá separar, secretamente a princípio, Bourdieu e Raymond Aron. A ligação entre eles datava de alguns anos: Bourdieu teve que voltar subitamente da Argélia em 1960, em função das ameaças de morte que recebeu da OAS (Organisation Armée Secrete), e foi por recomendação de Clémence Rammoux, antiga condiscípula de Aron na ENS e chargée d'enseignement na Faculdade de Algers (onde Bourdieu foi assistente), que Raymond Aron (que acabava de tomar uma posição contra a guerra da Argélia) lhe propôs o cargo de assistente na Sorbonne. No momento da publicação dos Héritiers, eles trabalhavam juntos havia mais ou menos quatro anos, que haviam sido particularmente favoráveis para a carreira profissional de Bourdieu. Além do ensino na Sorbonne, ele participara, pouco a pouco, das iniciativas intelectuais de Aron, como o Centre de Sociologie Européenne que ele acabava de fundar ou a revista que dirigia, os Archives Européennes de Sociologie. Quando da criação de um diploma de sociologia em Lille, em 1961, Eric Weil (que dirigia o departamento de filosofia, como vimos) recorreu a Aron, patron de sociologia da Sorbonne, para o recrutamento de um profissional especializado8: primeiro ele propôs Claude Lefort, talvez porque fizesse uma tese sobre Maquiavel, um dos domínios de Weil, mas não houve acordo. Aron propôs então seu próprio assistente, Pierre Bourdieu, cuja carreira ficava, com isso, praticamente assegurada: a Universidade de Lille foi, durante muito tempo, uma espécie de trampolim para Paris, em postos elevados. Em seguida, Aron defendeu a candidatura de seu antigo assistente (que se mantinha ativo no seu centro de pesquisas, já que a função em Lille exigia de Bourdieu apenas um deslocamento semanal a Lille, onde seus cursos eram agrupados em uma tarde e uma manhã do dia consecutivo) a um posto de diretor de estudos na EPHE (sexta seção), que ele integrou de fato em 1965, após uma segunda tentativa de ingresso. Considera-se, de modo geral, que a discórdia entre Aron e Bourdieu está relacionada com as tomadas de posição divergentes por ocasião de Maio de 1968; do meu ponto de vista, Maio de 1968 não faz senão conferir realidade pública a uma dissensão preexistente.

Aron ficou decepcionado com Les Héritiers: viu nele a denúncia da última moda em termos de desigualdade, quer dizer, uma forma de oportunismo político. Anteviu um sucesso de ocasião para o livro, movido pelo escândalo, e alertou Bourdieu contra o que considerava uma inclinação perigosa. Ele mesmo havia publicado, em 1962, um artigo sobre "Alguns problemas das universidades francesas", cujo tom inseria-se na tradição do comentário especulativo, que não visava a informar mas tratar o tema mobilizando seu conhecimento, sua cultura e capacidade de raciocínio. A convivência entre Aron e Bourdieu tornou-se problemática a partir da revelação súbita desse antagonismo e da suspeita de Aron em relação ao oportunismo de Bourdieu. É preciso lembrar que Bourdieu era não somente o adjunto de Aron na direção do Centre de Sociologie Européenne, mas também seu aluno, já que, como Jean-Claude Passeron, havia se inscrito como seu orientando (a tese intitulava-se "Teoria crítica da cultura" e teve lugar após uma primeira tentativa de orientação com Canguilhem sobre o tema da "Fenomenologia da vida afetiva"). A desaprovação do orientador da tese era redibitória e equivalia, a partir daquele momento, a um desfecho de não-recebimento do trabalho. O sucesso do livro no plano da difusão "profana", do qual se beneficiou desde sua aparição em novembro de 1964, em função da volta do movimento estudantil ao primeiro plano durante o ano universitário de 1963-1964 (marcado por uma tentativa de ocupação da Sorbonne em fevereiro de 1964, cerco policial, mobilização midiática etc.), obedecendo à "funesta" profecia de Aron (Les Héritiers será mesmo levado ao palco, com a colaboração dos autores, e montado pelo grupo de teatro da ENS, l'Aquarium, logo antes da explosão de Maio de 1968), não fez outra coisa senão fortalecer Aron em sua atitude de rejeição, com todas as conseqüências conhecidas após a crise de 1968 e, in fine, a divisão radical do laboratório de pesquisas.

O julgamento de Aron sobre o caráter de "vulgarização" dos Héritiers devia-se à idéia que ele fazia da reflexão acadêmica ("não há verdade senão no equilíbrio de verdades parciais"), e também ao fato de que a obra expõe ostensivamente os resultados, chegando às vezes a esquematizá-los (no sentido próprio do termo), sem levar em consideração o exame crítico do método sociológico sobre o qual se apóia. Entretanto, encontrei anotações feitas por ocasião de um seminário que Bourdieu deu durante o ano de 1964-1965, ou seja, contemporâneas à aparição dos Héritiers: as anotações abaixo, extraídas desses registros, permitem ver com clareza o trabalho de sua reflexão, que se nutria de um movimento incessante entre a sociologia e a estatística, a intuição e o objetivismo:

§ O sistema de relações sociais não é redutível à consciência que dele possuem os sujeitos. Mas os próprios sociólogos podem ser vítimas da ilusão da compreensão imediata. A tentação primeira do sociólogo é a postura intuicionista, que é o prolongamento da sociologia espontânea.

§ O desvio pelo objetivismo é um desvio imposto pela natureza do sistema. Podemos fazê-lo por meio da estatística, ou do método estruturalista, que é o equivalente da estatística. Mas os dois desvios exigem sua própria ultrapassagem.

§ A estatística fragmenta as totalidades intuitivas, que ela analisa sob diferentes aspectos, que serão relacionados. Por isso, foi preciso romper este primeiro centro relacional que é o indivíduo.

§ Perdemos alguma coisa passando da intuição à estatística (alguma coisa que é ligada à linguagem, à postura, à cosmética, ao vestuário...). Um dos preceitos é dar à análise o que vem da intuição, em vez de se proteger dela como se fosse perigosa. Não existe oposição entre intuição e análise abstrata.

§ Existe uma boa e uma má abstração. A boa abstração é quando a estatística toma o lugar da experimentação, precisamente onde a experimentação não é possível. Nas ciências da natureza, podemos fazer experiências em recipientes fechados. A estatística realiza a simplificação dos dados que a realidade não permite, e o isolamento de uma variável entre muitas cria um recipiente fechado fictício, ou vários recipientes fechados, que ela coloca em relação.

§ Os estatísticos vêem na noção de variância (índice de dispersão em torno de uma média) uma característica das sociedades modernas. A variância é no fundo um déficit de informação: numa sociedade ideal típica tradicional, a variância é nula.

§ O etnólogo apreende os indivíduos no interior de grupos reais. Vemos somente o que as amostras podem fazer esquecer, a saber, que a relação entre o sujeito e a sociedade é mediada pela relação que ele mantém com o grupo e pela relação que o grupo mantém com outros grupos.

§ O questionário é uma abstração. É uma ferramenta operatória elaborada para construir um objeto. Não se pode esquecer que ele é abstrato. Ele é perigoso na medida em que esquecemos que ele é abstrato.

§ A estatística é uma ciência do acaso, que luta continuamente contra o acaso. É preciso, primeiro, trabalhar com uma amostra escolhida ao acaso, depois é preciso que as relações observadas sejam diferentes do que seriam se fossem escolhidas ao acaso. O x2 permite dizer: "não é um acaso", que a diferença não é devida ao acaso. A estatística carrega relações ao acaso.

§ Mas a significação pode ser estatística e não sociológica. A patologia metodológica é medir o que podemos medir, no lugar de medir o que vale a pena ser medido. As relações mais significativas estatisticamente nem sempre são significativas quanto ao sentido.

§ A noção de tipo ideal. Se é verdade, de um lado, que a sociologia explicativa e compreensiva deve reintroduzir a significação dos modelos estatísticos nos modelos de conduta que ela constrói; se é verdade que a sociologia não pode considerar suas análises fundamentadas senão quando elas têm uma validade no domínio da precisão, segue-se que o tipo ideal é uma ferramenta, um instrumento que permite compreender a realidade. O tipo ideal, que é um limite, não é um conceito aristotélico. O tipo ideal pode ter uma forte existência quanto ao sentido e uma frouxa existência estatística. A função do tipo ideal é fornecer um instrumento pelo qual o sociólogo reintroduz o sentido nas relações estatísticas.

§ A constituição do tipo ideal permite controlar técnica e cientificamente a intuição, que se perde ao ser colocada em fichas perfuradas. O tipo ideal é um sujeito que totaliza a totalidade fornecida pela análise (mas ele não é visto como totalidade senão após a análise; ele não permanece um "caso impressionante", o que teria sido antes da análise). O resultado da análise de conteúdo é reencontrar essa totalidade segunda, que toma o lugar da totalidade primeira. Por exemplo, as classes sociais são obtidas quando do estabelecimento de relações entre os elementos determinantes, como as condições de existência, as atitudes, os gostos etc. Essas totalidades não são percebidas pela intuição. Mas, em seguida, a percepção amparada por essas totalidades permite reencontrar uma intuição imediata, que é o indivíduo: como as relações objetivas são vividas no nível do indivíduo? A retomada dessa totalidade é o objeto mesmo da sociologia. Mas a totalidade do sociólogo não é a do sujeito vivendo o sistema.

§ Não podemos privar a análise da abstração. Tendo recuperado a subjetividade objetivada, é preciso também recuperar a objetividade subjetivada. A educação é o aprendizado das regras do jogo. Se toda a sociologia deve operar um duplo movimento, para retomar a subjetividade objetivada, reciprocamente, o fim último de toda sociologia é uma sociologia da educação.

Confesso ter ficado um pouco satisfeita, mas chocada no fundo, ao ler num número recente de Libération (26 de março de 2002) o retrato de Jean-Marc Lech, atual chefe do Ipsos, antigo diretor do IFOP (Institut Français de l'Opinion Publique)9, no qual aparece, em filigranas, um estranho retrato de Bourdieu: "Lech está no pólo oposto [da seriedade acadêmica]. Ele é sociólogo. Não estatístico. Se pretende adepto de Bourdieu mas persegue as curvas. Mais publicitário que matemático. Mais camelô que aficcionado por informática"; adiante Libération cita a opinião de um cliente do Ipsos, que afirma preferir Giacometti (diretor do Ipsos-França, mais afeito a fornecer elementos de cálculo) a Lech porque, segundo ele, "temos necessidade de matéria primeira, não de elocubrações". É paradoxal, antes de mais nada, ver nos dados numéricos a "matéria primeira" e, em seguida, imaginar que existe uma incompatibilidade de fundo entre a pesquisa à la Bourdieu e a precisão estatística. Após a publicação de Les Héritiers, o Centre de Sociologie Européenne lançou-se em um vasto programa de sociologia da educação, com o cuidado particular de situar as pesquisas no contexto de um quadro bastante controlado do ponto de vista de sua sistematicidade. As pesquisas foram realizadas por meio de questionários nas faculdades de medicina, ciências, letras e direito, em relação direta, desta vez, com os responsáveis pela matrícula nesses estabelecimentos; outra pesquisa, com os professores de desenho, foi realizada por meio dos organismos sindicais da profissão; outra ainda, visando a estabelecer uma comparação entre o corpo docente nas classes preparatórias e no 1º ciclo das universidades, efetivou-se por meio de contrato com a DGRST (Délégation Générale à la Recherche Scientifique et Technique). A pesquisa sobre os estudantes das grandes escolas, que requeria que os pesquisadores entrassem nas classes para a aplicação dos questionários, implicou autorizações administrativas e hierárquicas dos altos escalões. Se todos esses protocolos de investigação permitiam cobrir com precisão uma população nitidamente definida, ao mesmo tempo se traduziam, na realidade, em constrangimentos, engajamentos, em prazos a seguir, com a necessidade de ter sempre em mente os limites do direito do solicitante (financeiro ou administrativo) sobre a pesquisa e de saber respeitar os aspectos relativos ao que eles facilitaram, obtendo deles, por sua vez, o respeito em relação à autonomia do sociólogo e que soubessem se contentar com as respostas que este podia fornecer.

No Centre de Sociologie Européenne, o gosto pelas grandes pesquisas acabará por topar com uma última e curiosa experiência. Tratava-se de um empreendimento de envergadura, de uma consulta relacionada à demanda da "Associação para a expansão da pesquisa científica" para testar as reações do conjunto dos franceses às reformas escolares decorrentes de Maio de 1968. Um questionário foi distribuído por via impressa (nacional e regional) de junho a setembro de 1968, e mais de 15 mil respostas chegaram ao laboratório que havia aceitado - dividindo um financiamento bem pequeno - elaborar esse questionário, assegurar o mais depressa possível o seu exame minucioso e análise e ainda redigir um relatório final. Ao fim de um trabalho considerável, esse relatório mostrou-se, entretanto, incapaz de produzir, tal como esperado pelo solicitante, uma contagem das opiniões e seus comentários, e isso não devido ao número e à heterogeneidade de respostas mas, ao contrário, devido à sua surpreendente homogeneidade10, que obrigava a formulação de uma questão de fundo: o que é uma amostra espontânea? O relatório contentou-se em apresentar verdades prudentes. Retrospectivamente, entretanto, podemos pensar que o reflexo da expectativa era sem dúvida a única resposta cientificamente aceitável, dado o estado das coisas. O que é preciso considerar como meritório é que, apesar de uma demanda pouco exigente sobre os fundamentos teóricos da demonstração (pois uma fotografia da opinião, mesmo imprecisa, poderia ser suficiente, e era fácil dar e receber, a mais, todas as gratificações cabíveis), a censura intelectual triunfou. O que se manifestava na realidade por meio das respostas suscitadas pela pesquisa era um grupo de pressão, o mesmo que orientou, por um tempo, toda a evolução ulterior do sistema de ensino, e se tivéssemos tratado as classificações obtidas por ocasião dessa consulta nacional como uma simples pesquisa, teríamos duplicado o erro científico com uma falta política.

De fato, creio que Bourdieu não esperava tirar vantagem de tal ou qual metodologia, ou, mais que isso, penso que ele imaginava corrigir os inconvenientes de uma metodologia com as qualidades da outra. É assim que, reagindo a um relato de Paul Lazarsfeld para o departamento de ciências sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em janeiro de 1968, e no qual a oposição típica entre macrossociologia e microssociologia ocupava um lugar central (cf. Lazarsfeld, 1971), Bourdieu dirige uma carta àquele organismo (em janeiro de 1968) manifestando as suas reticências em relação a essa representação muito simplista da disciplina sociológica. Ele observa que essa distinção

[...] arrisca conferir uma imagem falsa à sociologia, fazendo injustiça [...] tanto às pesquisas que, por terem um objeto preciso e por terem recorrido aos métodos experimentais, não são menos capazes de fundar verdades antropológicas universais, como às sínteses teóricas que, pelos problemas que fazem aparecer, pelos reparos que impõem aos dados e aos domínios fenomenais separados, suscitam fatos científicos radicalmente novos, para os quais uma pesquisa mecanicamente empirista (e não empírica) teria permanecido cega. Ela arrisca além disso aferrar os sociólogos, e sobretudo os não-sociólogos, à convicção de que a sociologia é destinada a oscilar entre a ideografia pontilhista e as vastas sínteses vazias, mas próximas da filosofia da história que da ciência rigorosa. É esta alternativa que busco recusar [acrescenta ele], porque ela acaba atravessada por uma tomada de posição ou por um parti pris e não, no estado atual da ciência sociológica, por uma escolha teórica.

Por meio desses dados contemporâneos aos Héritiers, vemos que a obra deliberadamente não aborda os problemas metodológicos e se atém à exposição de uma certa radicalidade, como se a reflexão teórica não tivesse tido lugar. Esta se desenvolveria, na verdade, em outro plano. A recepção dos Héritiers captará mais as teses que a teoria, dando ao conteúdo e ao seu efeito político primazia sobre a argumentação teórica, investindo a obra de um valor demonstrativo e de um anseio de justiça insuspeitados11. Na continuação que os autores darão a esse mesmo trabalho em 1970 e que intitularão La Reproduction (com um subtítulo eloqüente, Eléments pour une théorie du système d'enseignement), a apresentação da análise teórica tomará o primeiro plano da obra, de uma maneira assaz agressiva, tanto na frieza da linguagem como no rigor lógico da forma. Mas a recepção do livro se caracterizará por um mesmo tipo de deslocamento de sentido, já que só o título da obra funcionará como uma espécie de emblema de um novo paradigma teórico e fornecerá a base de novos debates sem grande relação com o livro. De fato, esse destino estava provavelmente inscrito na ambição claramente explicitada de expor um modelo geral, capaz de dar conta dos mecanismos sociais transplantáveis. Ao menos os autores estavam livres, desse modo, da suspeita de oportunismo científico. A existência dessas duas obras confinou seus autores, durante muito tempo, na rubrica da sociologia da educação, e somente nela. No que diz respeito a Pierre Bourdieu, tendemos a pensar nas pesquisas e nas reflexões que ele empreendia paralelamente em outros domínios (sobre as pesquisas, sobre Max Weber, sobre a percepção artística etc., de maneira muito eclética) e que elas possuíam um tipo de encantamento intelectual, original mas acessório.

Na entrevista que fiz com ele em novembro de 200112, isto é, no final de sua vida, Bourdieu reivindicava claramente esse duplo fantasma, de uma obra que seria infinita, eternamente efervescente e, ao mesmo tempo, estritamente dedutiva e linear13. De minha parte, olhando para trás, vejo em Les Héritiers uma mostra da produção que Bourdieu desenvolverá sistematicamente a partir de 1995, publicando obras desprovidas da aparelhagem crítica com vistas a uma difusão alargada: penso que Bourdieu gostaria que diante do resultado de suas investigações, apresentado sob forma simplificada, fizéssemos crédito da demonstração completa e, em suma, confiássemos nele. É por isso que as críticas que lhe podiam ser dirigidas não eram, segundo ele, de ordem intelectual, mas sim uma recusa à sua pessoa, frias declarações de hostilidade e de desconfiança.

Para concluir, gostaria de dar algumas indicações sobre o destino editorial que conhecemos dessas duas obras, Les Héritiers e La Reproduction, fora da França. Entre as edições estrangeiras, só uma tradução espanhola de Les Héritiers aparecerá antes de 1968, em Barcelona, seguida de outra de La Reproduction, dez anos mais tarde. Na Itália, as duas obras serão editadas quase simultaneamente (1971 e 1972). É verdade que Bourdieu ainda engatinhava no domínio da difusão de sua obra no exterior. É preciso reconhecer também que as traduções alemãs desses livros, das quais Bourdieu se ocupou pessoalmente, não foram um êxito editorial: por meio de Die illusion der Chancengleiheit (Stuttgart, E. Klett Velag, 1971) e Grundlagen einer theorie der symbolischen Gewalt (Frankfurt, Suhrkamp, 1973), publicadas por editoras diferentes com trechos retirados e estranhamente combinados das duas obras francesas, apenas entrevemos, de modo grosseiro, o plano da escrita original, sem esperança nenhuma de reencontrar o seu espírito. Em geral, mesmo amparadas por uma editora enérgica e pronta a tocar seus negócios, como a Suhrkamp14, as traduções alemãs continuaram tão ruins quanto as encomendadas pelas editoras inglesas, com a diferença de que a escrita francesa, e a de Bourdieu em particular, parecia soar de modo mais natural em esquemas da escrita alemã do que nas estruturas mentais inglesas15. Assim, apesar dos primeiros contatos com a University of Chicago Press em 1973, The inheritors só virá à luz em 1979, quinze anos depois de sua edição original francesa (e dois anos depois de Reproduction in education, que é entretanto o seu prolongamento, posterior seis anos) (cf. Bourdieu, 1979; 1977). Tal fato obrigará Pierre Bourdieu a acrescentar um posfácio atualizado para compensar os possíveis efeitos de obsoletismo e para desmentir de antemão a leitura redutora e simplificada que podia encorajar a assimilação desse texto a trabalhos anglo-saxãos bem posteriores (cf. Bowles, 1976; Collins, 1979).

É verdade que o anacronismo na circulação das idéias de um país a outro não está ligado unicamente a uma cronologia desordenada de traduções, mesmo que ela contribua amplamente para isso: quando Penguin, por exemplo, publicou em 1969, em associação com a New Left Review, uma coletânea de textos sobre Student power, problems, diagnosis, action (com edição de A. Cockburn e R. Blackburn), redigidos por estudantes militantes do Maio de 1968 britânico, os trabalhos de Pierre Bourdieu não constavam nas referências francesas, ainda que, além dos Les Héritiers, carro-chefe do Maio de 1968 francês, já tivessem aparecido seus trabalhos sobre desigualdade diante da escola e da cultura, sobre a comparabilidade dos sistemas de ensino, sobre a situação pedagógica e sobre as etapas escolares, não somente nos Cadernos do Centre de Sociologie Européenne, mas também no Les Temps Modernes, por exemplo. Em compensação, outros autores franceses eram aí debatidos: Raymond Aron e Louis Althusser, disponíveis em inglês, para a filosofia da história; Alain Touraine e Michel Crozier, para as análises rápidas sobre as transformações sociais em curso, que eles publicaram, em francês, no começo de 1968, em Le Monde e Esprit. Essas análises foram contestadas, mesmo na França, por uma parte dos estudantes mobilizados, especialmente pela tendência Cohn-Bendit. Parece também que o fato de ocupar, mesmo involuntariamente, uma situação polêmica numa conjuntura conflitiva pode favorecer a exportação das idéias de uma maneira mais decisiva que a mera convicção científica.

 

Referências Bibliográficas

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______. (1977), Reproduction in education, society and culture. Londres/Beverly Hills, Sage Publications.        [ Links ]

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COLLINS, Randall. (1979), The credential society: an historical sociology of education and stratification. Nova York, Academic Press.        [ Links ]

LAZARSFELD, P. (1971), Qu'est-ce que la sociologie? Paris, Gallimard (col. Idées, 238).        [ Links ]

MASSON, Ph. (2001), "La Fabrication des Héritiers". Revue Française de Sociologie, 42-43: 477-507.        [ Links ]

 

 

Texto recebido em 31/1/2005 e aprovado em 28/3/2005.

 

 

Tradução de Fernanda Arêas Peixoto
Yvette Delsaut é pesquisadora no CNRS e na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (ex-Escola Prática de Altos Estudos), no âmbito do Centro de Sociologia Européia, em Paris. E-mail: delsaut@aol.com.
* Esta comunicação (apresentada aqui em versão revista e aumentada) foi realizada em 24 de maio de 2002 no Centro Malher (Universidade de Paris I), por ocasião de um encontro organizado por Jean-Michel Chapoulie sobre o tema "Os herdeiros, a reprodução, a educação". Ver Chapoulie et al. (2005).
1 Trata-se da obra de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Les Héritiers, les étudiants et la culture, editada em 1964 (N. T.).
2 Esta designação fazia referência, na época, aos professores nomeados para um posto de professor no ensino superior, um pouco antes da defesa de suas teses; em seguida, eles eram automaticamente efetivados.
3 A designação lettres no sistema francês faz referência não apenas às letras mas também às ciências humanas e à filosofia (N. T.).
4 A agrégation corresponde ao primeiro título propriamente dito na carreira de professor, que está assim habilitado a lecionar no ensino secundário, em liceus. Capes é também um certificado de aptidão ao magistério no ensino secundário, mas que dá acesso ao ensino em colégios (N. T.).
5 A passagem pela École Normale Supérieure no período marca uma primeira e fundamental etapa de seleção na ascensão profissional, constituindo um título decisivo para toda a carreira (N. T.).
6 Na mesma época, Bourdieu e Tréanton associaram-se, pontualmente, para uma reflexão sobre o sistema universitário. Pouco tempo antes da publicação dos Héritiers, um artigo coletivo apareceu em Esprit, assinado por Émile Boupareytre (1964): uma associação simbólica entre o primeiro nome de Durkheim e, respectivamente, os nomes Bourdieu-Passeron-Reynaud-Tréanton, em ordem alfabética, formando o pseudônimo como sobrenome.
7 As objeções de Tréanton foram publicadas em Sociologie du travail, oct.-déc. 1965, com o título "Dialogue imaginaire sur l'enseignement universitaire et la mobilité sociale".
8 O recrutamento de assistentes da universidade era feito por livre escolha dos professores titulares; a organização das comissões de recrutamento é posterior a 1968.
9 Ipsos e IFOP são dois institutos de pesquisa de opinião na França (N. T.).
10 Fui incumbida pessoalmente de receber os questionários à medida que chegavam e de fazer um primeiro exame com vistas a um melhor conhecimento do material, e ainda de preparar a operação de codificação do conjunto. Fiz esse trabalho tendo em mãos os primeiros quatrocentos questionários, sem preocupação com a sua representatividade: a repartição estatística (relativa às propriedades sociais e civis dos informantes, e também as respostas às questões apresentadas) que caracterizava esse subconjunto revelou ser estritamente a mesma que aquela que será fornecida mais tarde pelo material em seu conjunto.
11 É provável também que sua publicação na coleção Documents, de caráter documental, a qual as Éditions de Minuit reservavam aos textos de testemunho e de intervenção, tenha favorecido uma leitura mais política do que intelectual da obra.
12 Essa entrevista está reproduzida neste número, nas pp. 175-210, sob o título "Entrevista de Pierre Bourdieu com Yvette Delsaut: Sobre o espírito da pesquisa".
13 Cf. P. Bourdieu e Y. Delsaut, "Entretien sur l'esprit de la recherche", Bibliographie des travaux de Pierre Bourdieu (2002).
14 Suhrkamp interessou-se precocemente pelo jovem autor Bourdieu, por intermédio de Jean Bollack (filólogo e helenista que Bourdieu conheceu na Universidade de Lille e que se ofereceu, de bom grado, a passar os questionários de Les Héritiers em seus próprios cursos). A partir de 1970, essa editora publicou um conjunto de textos escritos entre 1966 e 1968 (ver Bourdieu, 1970).
15 É por isso que, uma vez encontrado um bom tradutor, Bourdieu tinha a tendência a não mais deixá-lo, isso em todas as línguas. Os livros citados a seguir podem atestar esse fato.

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