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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. v.17 n.2 São Paulo nov. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702005000200001 

Juventude(s) e transições

 

 

Heloísa Helena T. de Souza Martins; Maria Helena Oliva Augusto

 

 

A organização, neste número da revista Tempo Social, de um dossiê sobre juventude tem o objetivo de retomar um tema que esteve presente nas preocupações de dois dos mais importantes sociólogos de nosso Departamento de Sociologia. O pequeno mas significativo estudo de Octavio Ianni, O jovem radical, e as pesquisas de Marialice Foracchi sobre o estudante universitário e o movimento estudantil evidenciam a preocupação de compreender a sociedade brasileira tomando a categoria juventude como referência para estudar as transformações decorrentes do processo de desenvolvimento, a crise social e o papel político do jovem. Ainda hoje, depois de vários anos de relativa ausência do tema juventude nos espaços acadêmicos, a contribuição desses dois autores destaca-se pelo pioneirismo e pelas questões teóricas que levanta. Nesse sentido, o artigo de Maria Helena Oliva Augusto procura dar conta de parte dessa tradição, analisando o trabalho de Marialice e vinculando-o a discussões contemporâneas sobre alguns dos temas que ela focalizou.

A recente retomada dos estudos sobre juventude, contudo, orienta-se menos pela visão do jovem como ator político do que pela preocupação de situá-lo diante das diferentes dimensões da vida em sociedade, como o trabalho, a religião, a família, os valores, o lazer, tendo como referência as transformações do mundo globalizado e suas conseqüências para os indivíduos. Nesse sentido, é importante o artigo de Irene Cardoso, na medida em que mostra a inadequação de análises sobre a geração dos anos de 1960 construídas apenas a partir de uma imagem da juventude que a caracteriza pela experiência da revolta, o que permite supor que o apego a esse mito não transforma os jovens de hoje em herdeiros da "geração 68"; ao mesmo tempo, e em conseqüência, os estudos sobre juventude acabam por abandonar o interesse pelos movimentos políticos juvenis atuais - cujos contornos não são os mesmos dos que surgiram naqueles anos - ou deixam até mesmo de enxergá-los.

O conjunto de artigos aqui reunidos procura responder a algumas das indagações sobre os jovens contemporâneos, tentando compreender como vivem, o que pensam e como reagem aos problemas que os atingem e, enfim, o que é ser jovem no início deste século. Esses estudos põem em discussão muitas das interpretações de senso comum construídas a respeito da juventude e dos jovens - e reproduzidas também em análises acadêmicas -, que acentuam seu individualismo, o desinteresse pela política - e sua negação - e pela religião, a recusa do trabalho, o consumismo e o hedonismo. É essa imagem construída pelo negativismo, como aponta Hebe Signorini em seu artigo, que os textos de Machado Pais et al., Cecília Mariz, Iram Rodrigues e Heloisa Martins visam a esclarecer, rompendo com explicações correntes, destacando a diversidade que caracteriza a juventude e questionando algumas interpretações. Baseados em pesquisas atuais, discutem, entre outras questões, se a noção de individualismo pode ser aplicada à juventude, qual o papel da família, da escola, da religião e do trabalho na vida dos jovens, e principalmente como eles administram de maneira criativa a transição para a vida adulta em um contexto social e econômico marcado por incertezas e riscos.

Dois outros autores, José Guilherme Magnani e Antonio Sergio Spagnol, discutem questões que aparecem como centrais nas representações a respeito do jovem. Magnani analisa as práticas culturais e de lazer e as redes de sociabilidade juvenis, que traçam circuitos na cidade de São Paulo. Uma das contribuições do artigo é a crítica feita ao uso da expressão "tribos urbanas" para referir-se aos grupos de jovens nas cidades, oposto ao sentido do termo "tribo" nos estudos etnológicos. Da mesma forma, Spagnol questiona a utilização do conceito de gangues no estudo das práticas criminosas de jovens. No artigo, a violência que lhes é constantemente associada, seja quando ocupam o lugar de vítimas, seja na condição de autores, aparece de forma assustadora nas falas dos delinqüentes entrevistados, quando expressam o prazer provocado pelo ato de matar.

Salvatore La Mendola, ao abordar o perigo como condição imanente da vida individual e social, propõe-se a esclarecer por que o tema do risco é uma questão eminentemente juvenil. O senso comum e a mídia estabelecem ligação entre risco/emoção e juventude. Assim, a referência a essa categoria faz emergir de certa forma questões vinculadas à cultura do risco, à qual é associada, em virtude do que, na busca de realizações e sucesso, o jovem é visto como mais exposto aos perigos e mais disposto a enfrentá-los. A experimentação dos limites e a carga de destrutividade no enfrentamento do perigo são aspectos significativos dessa abordagem.

Carmem Leccardi mostra em seu artigo como a reflexão sobre o tempo, que permite articular a discussão da vivência juvenil com as mudanças e os conflitos sociais, ganha relevância nos estudos sobre juventude. Em seu belo texto, a socióloga italiana focaliza o significado contemporâneo de futuro e o caráter de incerteza que assumiu, depois de ter sido considerado, na emergência da sociedade moderna, como tempo de experimentação e de abertura de possibilidades; ela mostra também de que forma esse novo sentido interfere nos projetos de vida e nas biografias juvenis.

As constantes referências à fragilidade das condições de vida dos jovens sugerem a necessidade de uma intervenção pública, com o estabelecimento de políticas que visem a atenuar os problemas e a situação desses indivíduos. É esse o tema do artigo de Marilia Sposito e Maria Carla Corrochano, que analisam algumas políticas dirigidas à juventude estabelecidas nos níveis federal, estadual e municipal. Essa análise crítica aponta os conflitos em torno das orientações e programas, a precariedade e especialmente os desencontros entre as iniciativas e as expectativas (e necessidades) dos jovens.

Finalmente, este número traz o artigo de Maria da Graça Setton, bastante próximo da discussão sobre juventude, e o de Leonardo Mello e Silva et al., cujo tema é o trabalho, além das resenhas de publicações de interesse para a temática da juventude.

Como organizadoras, sentimos-nos afortunadas pela excelência das contribuições dos autores e pela satisfação trazida pela possibilidade de publicar a entrevista com Paul Willis. Autor que se firmou como referência importante nos chamados Cultural Studies, pela contribuição aos estudos sobre cultura popular e o subsídio à utilização do método etnográfico na pesquisa, produziu também reflexão relevante sobre as culturas juvenis. A entrevista foi feita em dois tempos. Em 1998, foi concedida a Roger Martínez e publicada na revista Estudios de Juventud, n. 64; nela são expostos seu ponto de vista sobre o estudo da cultura comum dos jovens e sua experiência como participante da criação dos Estudos Culturais no Centre of Contemporary Cultural Studies (CCCS) de Birmingham. Em setembro e outubro de 2005, a entrevista foi atualizada por Melissa de Mattos Pimenta, e nela se manifesta a visão atual do autor a respeito desses temas, com destaque especial para o entendimento sobre a juventude.

Esperamos que o conjunto desses artigos contribua para a discussão e o conhecimento do estado das pesquisas sobre a juventude e estimule a emergência de novas investigações sobre o tema.

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