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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.18 no.1 São Paulo June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702006000100010 

PERSPECTIVAS EM DEBATE

 

Mutações do trabalho e experiência urbana

 

Mutations of work and urban experience

 

 

Vera da Silva Telles

 

 


RESUMO

Neste artigo, pergunta-se sobre as dimensões societárias das atuais mutações do trabalho, em particular sua desconexão dos dispositivos do emprego sob as formas variadas de trabalho precário e de subcontratação, ou seja: de que modo as novas realidades do trabalho (e do não-trabalho) redesenham o mundo social, as relações de força e os campos de práticas que fazem a tessitura da cidade e seus espaços. As circunstâncias do trabalho precário e intermitente alteram tempos e espaços da experiência social, bem como a própria experiência urbana nos circuitos descentrados dos "territórios da precariedade". Este artigo propõe prospectar essas novas realidades seguindo os percursos e as trajetórias urbanas das novas gerações. Acredita-se que essa pode ser uma via de entrada profícua para a descrição desse mundo social redefinido: a diferença entre as gerações tem hoje a peculiaridade histórica de coincidir com mudanças de fundo no mundo do trabalho e nas dinâmicas urbanas. Por outro lado, essa é também uma maneira de relançar a pergunta sobre os sentidos do trabalho e seus efeitos estruturantes na vida social.

Palavras-chave: Mutações do trabalho; Reconfigurações urbanas; Diferença de gerações; Práticas sociais; Experiência social.


ABSTRACT

This article inquires into the societal dimensions of contemporary mutations of work, in particular their disconnection from employment mechanisms through various forms of casual work and outsourcing. In other words, it asks in what way the new realities of work (and non-work) redraw the social world, the relations of force and the fields of practices that make up the texture of the city and its spaces. The circumstances of casual and intermittent labour alter the time and space of social experience, as well as the urban experience itself in the decentred circuits we can denominate "territories of precariousness". The article proposes to investigate these new realities by following the paths and urban trajectories of the new generations. It suggests that this is a fertile entry point for describing this redefined social world: the difference between generations today has the historical peculiarity of coinciding with deep changes in the world of work and in urban dynamics. This is also a way of re-approaching the question of the meanings of work and its structuring effects on social life.

Keywords: Mutations of work; Urban reconfigurations; Generational difference; Social practices; Social experience.


 

 

Já não é de hoje que se discutem os efeitos excludentes das atuais mutações do trabalho, sob o impacto da reestruturação produtiva em tempos de revolução tecnológica e globalização da economia. No entanto, ainda pouco se sabe sobre as configurações societárias que vêm sendo urdidas nas dobras dessas transformações. Entre, de um lado, os artefatos da "cidade global" sob o foco dos debates entre urbanistas e pesquisadores da economia urbana e, de outro, os "pobres" e "excluídos" tipificados como público-alvo das políticas ditas de inserção social, há todo um entramado social que resta conhecer. E é isso justamente que situa o terreno em que ganha pertinência relançar a discussão sobre os sentidos e os lugares do trabalho na tessitura do mundo social. Se o trabalho não mais estrutura as promessas de progresso social, se os coletivos "de classe" foram desfeitos sob as injunções do trabalho precário, se direitos e sindicatos não mais operam como referências para as maiorias, se tudo isso mostra que os "tempos fordistas" já se foram, o trabalho não deixa de ser uma dimensão estruturante da vida social.

Mas é isso também que abre a interrogação sobre as novas configurações sociais nas quais essa experiência se processa. Não se trata tão-somente da ampliação do mercado informal e do aumento das hostes dos excluídos do mercado de trabalho. Como mostra Francisco de Oliveira (2003), a chamada flexibilização do contrato de trabalho significa que o trabalho "sem forma" se expande no núcleo do que antes era chamado de "mercado organizado". Na base desse processo, diz o autor, está o salto nas alturas da produtividade do trabalho em época de revolução tecnológica e financeirização da economia, de tal modo que o processo de valorização se descola dos dispositivos do trabalho concreto e termina por implodir as distinções entre tempo do trabalho e tempo do não-trabalho, entre emprego e desemprego. É o trabalho abstrato levado a extremos, que captura, mobiliza e transforma processos sociais e atividades as mais disparatadas em sobrevalor. Quebra-se o vínculo entre trabalho, empresa e produção da riqueza, e são outros os agenciamentos e diagramas de relações que se constituem. Zarifian (2003) fala de uma "economia de serviços", que não diz respeito às divisões conhecidas de setores de produção e que, a rigor, as torna irrelevantes, pois tem a ver com a trama de relações materiais e imateriais entre produção e consumo – publicidade, efeitos de marca, ações de marketing, cartões de fidelidade, e tudo o mais que acompanha o produto ou o serviço vendido/consumido, de tal forma que os consumidores terminam por participar da formação do valor apesar de não serem contabilizados como tal. Outros vão lançar mão da noção de "trabalho imaterial" para discutir atividades que não são codificadas como trabalho, que tentam fixar normas culturais, modas, gostos e padrões de consumo (cf. Lazzarato, 2002) ou que capturam e organizam os "tempos da vida" e não apenas os "tempos do trabalho" (cf. Aspe et al., 1996), tornando cada vez mais difícil diferenciar tempo do trabalho e tempo da reprodução.

São mutações de fundo. Mas então é preciso reconhecer que isso altera as relações entre trabalho e sociedade, seja no registro do trabalho que se descola dos dispositivos do emprego para se desdobrar nas formas variadas de trabalho precário, intermitente, descontínuo, e que tornam inoperantes as diferenças entre o formal e o informal; seja no registro das miríades de expedientes de sobrevivência que mobilizam os "sobrantes" do mercado de trabalho, mas que também operam como outros tantos circuitos por onde a riqueza social globalizada circula e produz valor, tornando igualmente indiscerníveis as diferenças entre emprego e desemprego, entre trabalho e não-trabalho. É uma situação que está a exigir um giro em nossas categorias, de modo a construir um plano de referência que permita colocar em perspectiva e figurar esses processos, ressituar os problemas, levantar outros tantos e perceber nas dobras das redefinições e desagregações do "mundo fordista" outros diagramas de relações, campos de força que também circunscrevem os pontos de tensão, resistências ou linhas de fuga pelas quais perceber a pulsação do mundo social.

Por outro lado, esse constante entra-e-sai do mercado em meio aos diversos expedientes de trabalho precário termina por alterar as referências que pautavam e ritmavam a vida social. Se é verdade que a desconexão entre trabalho e empresa já faz parte da paisagem social, isso também significa que os tempos da vida e os tempos do trabalho tendem a se articular sob novas formas não mais contidas nas relações que antes articulavam emprego e moradia, trabalho e família, trabalho e não-trabalho (cf. Bessin, 1999). Eram binaridades que pautavam os ritmos da vida social, tendo por referência as regularidades e os disciplinamentos impostos pelas formas de emprego (cf. Supiot, 1994; 1999). Mas será necessário então se desvencilhar dessas binaridades clássicas, assim como a de formal-informal, para apreender a nervura própria do campo social, que não se deixaria ver se nos mantivéssemos presos a elas na análise do trabalho e do urbano.

Essas questões exigiriam uma discussão mais acurada, impossível de desenvolver nos limites deste artigo. Porém, servem como indicação de que talvez tenhamos que mudar o foco das atenções. Talvez seja preciso um deslocamento do jogo de referências para ressituar o trabalho no mundo social. Não tanto as verticalidades que construíram o trabalho nas formas conhecidas (e suas regulações centralizadas), mas os vetores horizontalizados de relações que articulam trabalho, a cidade e seus espaços, outros agenciamentos sociais e também outros eixos em torno dos quais desigualdades, controles e dominação se processam, afetam formas de vida e os sentidos da vida (cf. Zarifian, 2000).

Também é o caso de se perguntar de que modo as novas realidades do trabalho (e do não-trabalho) redesenham mundos sociais, as relações de força e campos de práticas que fazem a tessitura da cidade e seus espaços1. Ainda: de que modo são redefinidas práticas sociais e as mediações que conformam uma experiência social sob outro diagrama de relações e outro jogo de referências. As circunstâncias variadas do trabalho precário e intermitente redefinem tempos e espaços da experiência social (cf. Sennet, 2000). Alteram, poderíamos dizer, a própria experiência urbana, seguindo os circuitos descentrados dos "territórios da precariedade" (cf. Le Marchand, 2004).

Talvez seja então o caso de prospectar os pontos de clivagem dessas novas realidades seguindo as práticas (e suas mediações) nesses circuitos redefinidos do mundo social. Pontos de clivagem que podem ser apreendidos justamente nos deslocamentos da experiência social e que cavam fundo a diferença entre as gerações. E essa pode ser uma via de entrada para a descrição desse mundo social redefinido. Afinal, a diferença entre as gerações tem atualmente a peculiaridade histórica de coincidir com mudanças de fundo no mundo do trabalho e nas dinâmicas urbanas.

 

Trabalho e cidade: relações redefinidas

Sabe-se que sobre os mais jovens recai todo o peso do desemprego e do trabalho precário. Em torno de suas figuras entrecruzam-se os fios de um mundo social que se vem desenhando nas dobras do "mundo fordista" em dissolução (cf. Beaud e Pialoux, 2003). Justamente por isso são as novas gerações as que abrem uma senda para compreender as mutações do trabalho e de seus significados.

A diferença das gerações é, portanto, algo que precisa ser bem entendido, não para fazer a comparação ponto a ponto (era assim, não é mais), que sempre contém o risco de uma descrição em negativo que termina por falar sempre do mesmo (o trabalho fordista), apenas com os sinais invertidos. O problema aí não é tanto a idealização de algo que, ao menos no caso brasileiro, não tem por que ser celebrado (essa é a crítica mais fácil de se fazer, e que já foi feita por muitos), mas ficar aprisionado num jogo de referências que não permite apreender os sentidos da experiência social que se vem desenhando. E isso exige um trabalho de deciframento do social capaz de captar novos campos de força configurados sob outro diagrama de relações e referências sociais. Para os mais jovens, as circunstâncias atuais do mercado de trabalho não significam uma degradação de condições melhores ou mais promissoras em outros tempos. Eles entraram num mundo já revirado, em que o trabalho precário e o desemprego já compõem um estado de coisas com o qual têm que lidar, e estruturam o solo de uma experiência em tudo diferente da geração anterior. Por outro lado, entram na vida adulta em uma cidade inimaginável para as gerações anteriores. Ponto e contraponto de uma mesma realidade, os capitais globalizados transbordam as muito ricas e modernas fortalezas globais dos serviços de ponta, e fazem expandir os circuitos do consumo de bens materiais e simbólicos que atingem os mercados populares. São fluxos socioeconômicos poderosos que redesenham os espaços urbanos, redefinem as dinâmicas locais, redistribuem bloqueios e possibilidades, criam novas clivagens e afetam a economia doméstica, provocando mudanças importantes nas dinâmicas familiares, nas formas de sociabilidade e redes sociais, nas práticas urbanas e seus circuitos. É também por lá que se encontram os novos e excludentes empregos, no mais das vezes intermediados por agências de trabalho temporário, que vão mobilizando, entre os circuitos urbanos locais, os operadores de caixas registradoras, balconistas, porteiros, faxineiras, empregados para serviços variados.

O fato é que, em uma grande cidade como São Paulo (e, podemos supor, também em outras metrópoles), ao perseguir os trajetos e percursos dos mais jovens (entre 20 e 30 anos, pouco mais, pouco menos), vai se desenhando o perfil de uma cidade também ela muito alterada em relação às décadas anteriores (cf. Telles e Cabanes, 2006). Ou melhor: esse é um ângulo pelo qual a cidade vai se perfilando com todas as ambivalências e as complicações que recobrem os tempos atuais.

Em que pese tudo o que se tem dito sobre fragmentação urbana e dualização social, esses circuitos globalizados operam como importantes pólos de gravitação para as novas gerações. Portanto, será preciso levar a sério a sugestão de Saskia Sassen (1998), de que entender as novas realidades urbanas exige que se desvencilhe do que a autora define como "narrativa da exclusão": uma descrição das cidades globais – ou dos espaços globalizados – que tem como única referência os winners dos altos circuitos do capital. Não por acaso, vale lembrar, no mesmo passo em que esses equipamentos se espalham pela cidade, também vai se proliferando o igualmente muitíssimo moderno trabalho temporário, mediado por agências de emprego conectadas a empresas terceirizadas de prestação de serviços. É também por esses circuitos que os mais jovens fazem seus percursos, sempre descontínuos e sempre instáveis, no mercado de trabalho. E realizam uma experiência da cidade tensionada entre a brutalidade das desigualdades e a sedução encantatória do moderno mercado de consumo, em um jogo ambivalente de possibilidades e bloqueios para o acesso a uma vida urbana ampliada.

Eis o ponto que traz as novas gerações para o centro nevrálgico desse mundo social que se vem configurando. São jovens que se lançam no mundo no momento em que o encolhimento dos empregos e a precarização do trabalho acontecem simultaneamente e no mesmo passo da ampliação e diversificação dos circuitos da vida urbana.

Mas isso nos abre outro feixe de questões. Nesse mundo social redefinido, a experiência do trabalho (e do não-trabalho) entrelaça-se, ou mesmo confunde-se, arriscaríamos dizer, com a experiência da própria cidade. É o caso de se interrogar pelas referências por meio das quais a experiência das desigualdades vem se processando, junto com a vivência dos bloqueios a possibilidades de vida em um tempo que celebra o desempenho, a performance e o sucesso como medidas (aliás inefáveis) de autonomia individual2.

Mas, se é assim, será importante então escapar dessa clivagem, que atravessa o debate contemporâneo, entre, de um lado, a economia urbana e os artefatos da "cidade global" e, de outro, a "exclusão social" e os territórios da pobreza. O que se trata de ver aqui são as relações entre cidade e trabalho. Relações que não podem mais ser consideradas nos termos do debate dos anos de 1980, mas que, por isso mesmo, precisam ser reelaboradas se quisermos escapar de uma visão empobrecida do mundo social reduzido às suas supostas binaridades.

Não se quer, que se diga desde logo, contrapor à "cidade dos muros" – para lembrar a expressão cunhada por Teresa Caldeira (2000) – uma suposta (e falsa) democratização da "nova sociedade do consumo". A questão é outra. O que estamos aqui sugerindo é outro modo de figurar e descrever esse mundo social. Para isso será preciso também ressituar o lugar dos grandes equipamentos de consumo em um mundo atravessado pelos circuitos globalizados do capital, e tomá-los por aquilo que são no movimento mesmo de valorização do capital. Pois nesses tempos globalizados, seguindo os movimentos acelerados de desterritorialização do capital, a riqueza social mobiliza os "artefatos urbanos" (cf. Harvey, 1996) e agencia os espaços da cidade, pedaços globalizados que recortam o mundo urbano, articulando ritmos de consumo e modos de vida com os fluxos da produção e dos capitais (cf. Veltz, 1996), no mesmo passo em que se vai ampliando a inadimplência generalizada. Qualquer um que circule pelos bairros das periferias mais pobres haverá de encontrar a parafernália do consumo moderno e pós-moderno, e haverá de encontrar o morador pobre desses lugares mais-do-que-pobres exibindo, junto com a fatura de uma dívida sempre adiada, as versões populares (ou nem tanto) dos cartões de crédito que também chegaram por lá: é a financeirização do popular fiado. Eis aí os "sujeitos monetários sem mercado", para usar a expressão cunhada por Kurz (1992), ou o "homem endividado", essa figura da "sociedade do controle", como diz Deleuze (1992), que vem substituindo o "homem confinado" da sociedade disciplinar descrita por Foucault.

É bem verdade, diz ainda Deleuze (1992, p. 224), que o capitalismo mantém em escalas sempre crescentes a extrema miséria das maiorias, povos e populações "pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas". Mas, para usar a linguagem do filósofo, os "fluxos urbanos" liberados pela subtração dos dispositivos do trabalho circulam e vão encontrando outros agenciamentos e pontos de cristalização, de que é evidência esse promissor e expansivo mercado representado pelo tráfico de drogas e pelas redes do crime organizado, aliás também eles globalizados e conectados aos circuitos desterritorializados do capital financeiro. Nada mais eloqüente do que o retrato desenhado por Alba Zaluar (1996, p. 55) de um garoto metido no tráfico de drogas no Rio de Janeiro: "com uma AR-15 ou metralhadora UZI, consideradas símbolos de sua virilidade e a fonte de grande poder local, com um boné inspirado no movimento negro da América do Norte, ouvindo música funk, cheirando cocaína produzida na Colômbia, ansiando por um tênis Nike do último tipo e um carro do ano". Isso não se explica, diz Zaluar, e com razão, pelos níveis de salário mínimo ou pelo desemprego: "entender como o ilícito e o ilegal se enraizaram no setor informal para comandar um exército de desempregados e sócios menores é fundamental", até porque tudo isso põe em movimento bens materiais e monetários que entram na circulação de mercadorias do mundo capitalista.

Entre a destituição dos miseráveis e os brilhos faiscantes desse capitalismo pós-moderno, entre o futuro sempre adiado (como a dívida, deixada para o dia seguinte) e o também muito pós-moderno presente imediato do garoto do tráfico, em que tudo isso se conjuga no verso-e-reverso do capitalismo contemporâneo, há todo um entramado de linhas que se cruzam e entrelaçam, e vão montando um socius que ainda será preciso conhecer melhor. E é a própria experiência das novas gerações e seus circuitos, no nervo exposto das complicações atuais, que nos dá as pistas para tentar outra descrição do mundo social.

 

Personagens urbanos e seus percursos

É sob essa perspectiva que tratamos de seguir os percursos dessas novas gerações. São situações traçadas pelos circuitos das trajetórias de seus personagens. Personagens urbanos, podemos dizer. Em seus contextos de referência, essas trajetórias operam como prismas pelos quais o mundo urbano vai ganhando forma em suas diferentes modulações. São esses personagens que tornam práticas urbanas e vetores policentrados perceptíveis, em torno dos quais esse mundo social vem se desenhando (cf. Telles, 2006).

São experiências que se desenrolam em uma região situada na periferia sul da cidade de São Paulo, e que começou a se expandir a partir dos anos de 1970, acompanhando os fluxos dos empregos industriais. Nessa região, que foi o pólo industrial da "cidade fordista", são nítidos os sinais da reconversão produtiva, bem como as recomposições urbano-espaciais da década de 1990, sob o impacto do muito próximo e rico quadrante da modernização globalizada da cidade. Aqui, os fluxos da riqueza e da pobreza se tangenciam o tempo todo, entrecruzam-se nos equipamentos de consumo que atravessam a região e nessa mistura especial de legal e ilegal, regular e irregular, lícito e ilícito de que são feitos os circuitos dos empregos que, a partir do pólo moderno-moderníssimo da economia, vão se espalhando pelas redes de subcontratação e trabalho precário.

A virada dos tempos está cifrada nas inflexões e nas circunstâncias de vida dos que, tendo chegado a São Paulo nos anos de 1970 ou no início dos 1980, fizeram um percurso pelos empregos fabris, chegaram às então distantes e desoladas periferias da cidade, realizaram o "sonho da casa própria" pelas vias da autoconstrução da moradia, se viram às voltas com loteamentos clandestinos e se envolveram nas lutas sociais do período. Ou então se instalaram precariamente no que haveria de se transformar, vinte anos depois, em uma grande favela, na qual, e como contraponto da épica dos movimentos sociais, o clientelismo velho de guerra se faz presente e operante nas dobras e redobras das muitas ilegalidades de que é feito o mundo social.

Para essas famílias, a diferença dos tempos coincide com a diferença das gerações e são sobretudo os jovens personagens dessas histórias que podem informar-nos alguma coisa sobre os vetores e as linhas de força que deslocam os pólos de gravitação da geração anterior (entre o trabalho e as melhorias urbanas locais), e redefinem campos sociais. Seguindo as trilhas dos mais jovens vão se delineando os perfis ambivalentes da modernidade globalizada: uma experiência social que se configura nos limiares e nas passagens entre mundos distintos, entre o universo empobrecido da periferia e os shoppings centers, os lugares prestigiosos de consumo e lazer (referências urbanas inescapáveis para essa geração), os baixos empregos do terciário moderno e os circuitos do trabalho precário que tangenciam os fluxos da riqueza plasmados nos espaços urbanos. São esses limiares e essas passagens (e seus bloqueios) que precisam ser bem compreendidos e bem situados, pois é aqui que se arma uma teia de relações (e tensões) que via de regra escapa às definições modelares de exclusão social ou segregação urbana.

São esses percursos, da segunda ou terceira geração, que nos fazem perceber as conexões entre trabalho e experiência urbana. Não mais as referências que ordenavam a experiência social dos tempos do "trabalho fordista" da primeira geração. Não mais as mediações do trabalho regulado, dos direitos trabalhistas e sindicatos, que ritmavam os tempos da vida e os articulavam com os tempos políticos da cidade. Mas nem por isso o trabalho, mesmo precário e descontínuo, incerto e de futuro mais incerto ainda, deixa de ser um poderoso conector com o mundo social. Outra experiência de trabalho, outra experiência urbana. Outro diagrama de referências e relações que redefine os agenciamentos da vida e das formas de vida, e nos quais e pelos quais é possível apreender a nervura própria desse campo social redefinido.

Maurício e Nair, os jovens empreendedores: nos circuitos faiscantes dos serviços globalizados

Maurício (20 anos) e Nair (17 anos)3 compõem a terceira geração de uma família de operários. Migrante do Paraná, o patriarca Genésio chegou a São Paulo em 1978 (tinha então 45 anos) com a esposa e seis filhos. Alguns dias depois já estava instalado em uma moradia mais do que precária em uma região de ocupação, que, no correr dos anos, transformou-se em uma grande favela. É uma família de operários metalúrgicos. Genésio, hoje aposentado, conseguiu emprego poucos dias depois de sua chegada, e seguiu por dezenove anos nesse mesmo emprego. Quanto aos cinco filhos mais velhos, em pouco tempo também estavam trabalhando em algumas das grandes fábricas da região. Depois, ainda nos anos de 1980, passariam a trabalhar nas pequenas fábricas instaladas nas imediações da favela, e lá se manteriam por todos esses anos, com salários baixíssimos, mas uma estabilidade que as novas gerações já não iriam conhecer.

Os jovens Maurício e Nair estão tentando a sorte nos circuitos faiscantes dos serviços globalizados. Maurício começou a trabalhar em 1999. Tinha então 16 anos e conseguiu, por indicação de conhecidos de seus pais, um emprego de office-boy no Parque Aquático The Waves. Seis meses depois, o parque foi à falência e fechou. No seu lugar foi construído um hipermercado Extra e, ao lado, uma das maiores e mais sofisticadas academias de ginástica, a caríssima Unysis. Depois, trabalhou como office-boy numa agência de emprego, na qual progrediu para auxiliar administrativo. Mas a quantidade de serviço diminuiu e a empresa se afundou em dificuldades financeiras. Ele amargou dois anos de desemprego, com inúmeras e persistentes tentativas de achar trabalho, sem sucesso. Quase sempre em lojas de shoppings centers, algumas de grifes famosas: "Eu queria trabalhar com o público, é isso o que eu gosto, e daí falei – 'vou me dar bem'". Fez entrevista na Ellus, grife conhecida de jeans, mas a concorrência era muito grande – "todo mundo querendo entrar, pessoal que trabalha, pessoal que estava cursando faculdade, tinha até modelo, sabe?". Espalhava currículos por onde passava, sem conseguir nada. Então surge a oportunidade, quando uma vizinha o apresenta para a assessora de imprensa de um escritório de promoção de eventos culturais. A empresa fica no rico bairro do Morumbi, na avenida Giovanni Gronchi. O seu trabalho é atender os telefonemas, cuidar das agendas, marcar entrevistas. Esse emprego joga Maurício em um mundo que seria inimaginável para seus pais. Vez por outra, acompanha os eventos organizados, por exemplo, no Olympia, badalada e prestigiosa sala de shows. Maurício transita pelo "circuito nobre" da cidade: shoppings centers, bares e pontos de encontro no Centro, ou os agitadíssimos bairros de classe média, Moema e Vila Nova Conceição, Pinheiros e Vila Madalena. Diz que começou a transitar pelos circuitos badalados já nos tempos da agência de empregos: fez amigos, passou a freqüentar outros circuitos, conheceu muita gente e vez por outra conseguia entrar de graça nas grandes casas de espetáculo, pelas mãos de "gente conhecida" lá de dentro. "Tenho amigos de São Paulo inteiro", diz Maurício.

É bem possível que o rapaz exagere e haja um tanto de ficção nisso tudo. Mas o fato é que o rapaz já está mirando para outros lugares e de outros lugares. Sonha fazer uma "faculdade de comunicação" e encontrar o seu lugar nesses faiscantes circuitos dos modernos serviços da "cidade global". Acha que tem jeito e talento para isso. É muito provável que esse sonho dourado não vá longe e que o rapaz logo bata de frente nas regras mais do que excludentes dos modernos-moderníssimos circuitos globalizados. Mas os lances da vida já configuraram outro jogo de referências e outros prismas pelos quais a cidade se lhe apresenta: diferente da geração dos seus pais, que valorizam exatamente essa espécie de "mundo à mão" que a favela lhes oferece – a família que está por perto, os empregos ali do lado. Para Maurício, na favela tudo é longe e a periferia não tem nada, os lugares são perigosos e, além do mais, é tudo muito feio: "Aqui não tem nada, não tem nem paisagem agradável para ver".

Nair, 17 anos, prima de Maurício, começou a trabalhar muito cedo e seus percursos dizem algo dos novos circuitos dos empregos da região. Em 1995, aos 11 anos de idade, trabalhava em uma pequena firma terceirizada que montava brinquedos para o McDonald's. Várias meninas suas vizinhas trabalhavam lá. Quem tocava o negócio era uma conhecida da família, na garagem de uma casa em uma rua próxima à avenida Giovanni Gronchi, ponto de ligação entre a pauperizada região em que mora e o riquíssimo Morumbi. No seu entroncamento, ao lado do hipermercado Carrefour, está a loja do McDonald's. Em 1998, trabalhou seis meses numa empresa que monta canetas para propaganda: era ano eleitoral e havia muito serviço. Depois, em um período em que não conseguia nenhum emprego, resolveu montar, junto com a mãe, um negócio de revenda de roupas. Em 2001, aos 17 anos, conseguiu, por meio da indicação de uma amiga, emprego como atendente na Companhia Atlética, no Shopping Morumbi: lugar de ricos e famosos em busca de "saúde e boa forma". Para ela, a boa sorte chegou. É de lá que Nair espera alçar vôo e conseguir empregos mais promissores nas lojas desse luminoso circuito do consumo de alta renda. Nair também pensa em seu futuro: quer aprender inglês, fazer um curso de enfermagem, juntar algum dinheiro nessa profissão, para então realizar o sonho de uma faculdade de fisioterapia. Enquanto espera a boa sorte, Nair acompanha o primo Maurício em suas andanças pela cidade, entre shoppings centers e bares de Vila Madalena, Pinheiros e Moema.

Os dois primos têm em mira outros horizontes. Maurício empenha-se em melhorar de vida: completou o segundo grau e quer continuar os estudos, nunca vacilou na procura do emprego e tenta tirar tudo de si para encontrar um lugar melhor. Enfim, Maurício é um empreendedor, como sua prima Nair. É assim que ele se enxerga, e ela também. E, para ambos, é esse o crivo que faz a diferença com relação a seus amigos de infância e vizinhos. "Também tem gente como eu", diz Maurício, "gente que batalha e quer mudar de vida." Mas avalia: "A maioria fica onde está, vai se acomodando, não quer saber de nada, não tenta outros vôos para suas vidas". Essa é uma clivagem complicada, bem sabemos. O ethos empreendedor do individualismo mercantil está aí bem cifrado, também o sabemos. Mas é nesse código que ele formula as esperanças de construir uma vida plausível. É nessa clivagem que está o nervo (um deles) exposto do mundo. O problema não é morar na favela. São mundos diferentes, mas o domínio dos dois códigos não é excludente, e eles transitam entre um e outro com desenvoltura.

Maurício e sua prima Nair são personagens que esclarecem algo sobre o modo como a dobradura entre os mundos é feita, entre a materialidade da cidade e seus circuitos e a natureza das conexões (e dos conectores) que operam esse jogo de acessos e bloqueios. É aí, nessas dobraduras da vida social, que o drama se configura. Por isso mesmo os percursos desses jovens personagens nos ajudam a compor o quadro das complicações atuais: o mundo dos serviços e seus circuitos modernos, verdadeiro campo de gravitação (referências, possibilidades e também bloqueios) em um cenário de encolhimento dos empregos e de trabalho precário. E ainda: a violência de todos os dias e os "caminhos tortos" da vida que vão capturando muitos de seus vizinhos (como em todos os lugares) nos circuitos do tráfico de drogas e da criminalidade violenta. Tudo isso compõe um conjunto de coordenadas que ajudam a desenhar uma cartografia social, seguindo as linhas de força que atravessam o mundo social e seus pontos de ruptura, suas passagens e também suas ambivalências.

Jorge, o trabalhador precário: no circuito fechado das agências de trabalho temporário

Os percursos desses jovens encantados com os circuitos faiscantes da "cidade global" têm que ser confrontados com outros, com os daqueles que transitam nos circuitos que se alimentam da riqueza da cidade global, sem conseguir romper o círculo de ferro das agências de trabalho temporário. Assim é a história de Jorge, 31 anos, o filho mais novo do patriarca Genésio e tio, portanto, dos jovens empreendedores.

O rapaz tem uma história em tudo diferente dos irmãos mais velhos. Entrou na vida adulta em um mundo já revirado, não encontra alternativas fora do trabalho precário e amarga períodos prolongados de desemprego. Impossível reproduzir a estável trajetória de trabalho de seus irmãos. Mas ele viveu a virada dos tempos também pelo outro lado, o da violência, que em poucos anos dizimou quase todos os seus amigos de infância e adolescência. E liquidou um animadíssimo grupo de som que ele comandava junto com amigos, abastecido com CDs e discos comprados nas famosas galerias do Centro da cidade, ponto de encontro de jovens aficionados do rap e do hip-hop. Como ele conta, alguns foram mortos, outros estão fugidos. Ele também "contrariou a estatística", para evocar o trecho de uma letra de música dos Racionais MCs, grupo de rap que é uma referência importante nas periferias da cidade e certamente um pólo de identificação para Jorge, como para tantos outros (cf. Khel, 2000). Diferente dos sobrinhos empreendedores, as luzes faiscantes dos serviços globalizados não fazem parte de suas cogitações, e ele tampouco sonha em morar em outras paragens. É lá mesmo, na periferia (é ele que usa o termo, "é tudo periferia"), que constrói conexões de sentido de sua vida. Como ele diz, "periferia é isso aí... aquela música dos Racionais diz tudo".

Jorge tem uma trajetória ocupacional errática, não consegue se estabelecer nos empregos e vai seguindo os anos entre períodos de trabalho precário e desemprego. O único traço de continuidade em sua história ocupacional é a intermediação das agências de emprego temporário, e o único traço em comum com seus irmãos mais velhos é a circulação pelo que poderíamos chamar de mercado local. Mas se para estes o raio de circunferência dos empregos foi em grande parte demarcado pelas redes sociais em que circulavam informações e aberturas de oportunidades, no caso de Jorge os tempos são outros e a entrada no mercado se faz em boa medida pela intermediação das agências. São elas que arbitram e decidem a locação dos empregados, e as escalas de distância e proximidade é justamente um dos critérios. Não poucas vezes Maurício viu sua chance de emprego se esvanecer por não morar nas proximidades da empresa.

É verdade que alguns furam o cerco e conseguem emprego. Mas entram então em um circuito fechado, muito difícil de ser rompido. Assim acontece com Marcelo, 22 anos, que mora em um bairro ao lado. Tem o secundário completo, fez curso de informática e outro com o indefinível nome de "técnicas comerciais". Conseguiu um emprego de caixa no Carrefour. Trabalho temporário. Até que se saiu bem e conseguiu ser contratado. Mas, ele pondera, caixa de supermercado não é futuro nem dá futuro para ninguém. No máximo, de caixa a repositor de estoques. Marcelo espera mais da vida. Contudo, ele diz que, uma vez em supermercado, sempre em supermercado – "no que você coloca a experiência de supermercado no currículo, um American Express, uma Xerox, uma firma não vai te chamar, o cara da empresa vai te olhar e vai falar, o cara é supermercado, vai trabalhar em supermercado". Saiu desse emprego e tentou outras entradas no mercado de trabalho: apelou a amigos e conhecidos, espalhou currículos por todos os cantos. Sem sucesso. Depois de algum tempo, foi chamado para trabalhar no hipermercado Extra. "Caí na real", diz Marcelo, "não tem jeito", ou isso ou o desemprego. Quando o encontramos, em 2001, havia sido promovido a repositor de estoques.

Arnaldo, o motoqueiro: nos limiares do legal e ilegal

Se as agências de trabalho temporário parecem circunscrever um estreito perímetro da experiência social, nos percursos de um motoboy outras facetas desse mundo urbano vão se perfilando nos territórios por onde esses rapazes circulam. O fato é que nessa região que se espalha às margens do quadrante globalizado da cidade, os motoqueiros compõem a paisagem urbana e fazem ver os pontos de combustão desse entramado de relações, urdido nas "ligações perigosas" desses fluxos de riqueza e de pobreza que se tangenciam e se entrecruzam o tempo todo. É possível encontrá-los em bandos circulando pelas ruas e avenidas que cortam a região. Navegam nas ondas dos serviços terceirizados que se vão espalhando por todos os lados e que atendem os luminosos circuitos da riqueza globalizada. Como diz um jovem motoqueiro, "quem tem moto está com a faca e o queijo na mão". Com a moto, diz ele, são maiores as oportunidades (oportunidades?) de ser chamado por alguma agência de emprego ou de serviços terceirizados para cobrir a demanda das empresas que circundam a região. E, enquanto a boa sorte não aparece, eles vão se virando como podem, nem que seja para fazer um bico ou outro como entregador de pizza.

Essa é a história de Arnaldo, 22 anos, secundário completo. Ele é filho de um ex-metalúrgico, que, nos agitados anos da década de 1980, esteve na linha de frente das mobilizações operárias do período e igualmente se envolveu em um muito ativo e organizado movimento de moradia no bairro em que então recém se instalara com a família. Arnaldo bem que tentou seguir o exemplo do pai e conseguir um emprego industrial. Mas os tempos já são outros e, de demissão em demissão, tenta se virar como pode fazendo uso de sua moto: o rapaz é um motoboy. Houve um tempo em que Arnaldo acreditava que a moto haveria de abrir as portas do mercado de trabalho. Não deu muito certo. Em 1998, começou a trabalhar de motoboy em uma empresa terceirizada que presta serviços para a Sabesp: entregar aviso de atraso de pagamento das contas de água – "você vai na casa da pessoa, a pessoa tem três contas atrasadas e você vai lá entregar o aviso de corte – a pessoa tem uma semana para pagar, se não pagar vai outra pessoa lá, fecha o registro e lacra o registro". Ficou apenas um ano e saiu em 1999, porque era muito perigoso, além de não ter carteira assinada e tampouco oferecer alternativas promissoras. A descrição de Arnaldo é precisa: sem registrar em carteira, a única "garantia" é um convênio com uma oficina de peças: "[...] se a moto quebra, vai lá, pega a peça e paga no outro mês [...] não tem registro em carteira e, se tem acidente, aí você fica ferrado".

Além do risco de acidentes de trânsito, o perigo maior está na própria natureza do serviço. Ele tinha que circular nas regiões onde as pessoas não pagam as contas de água, ou seja, nos recônditos mais pobres da periferia da cidade. E não poucas vezes, nesse percurso, o motoqueiro voltava a pé, sem a moto:

[...] era muito perigoso... trabalhava com moto, ia em muita periferia... tem um vizinho que trabalha lá, já roubaram a moto dele [...] tenho dois colegas que trabalhavam lá, os dois já perderam moto... é mais periferia, favela, pro lado do Capão, tudo área perigosa. Parque Santo Antônio, Jangadeiro, Capão, Jacira... o pior lugar era o Jacira... esse colega meu roubaram a moto lá no Jacira.

Perspectivas de futuro? Nenhuma, diz Arnaldo, com firmeza: é trabalho para os que já não conseguem mesmo outra coisa na vida: "a maioria é cara que já teve passagem na polícia, não consegue outro emprego, e daí tem que apelar para isso aí. É cara que já foi preso... não dá futuro, não dá nada, acho que não".

O trajeto de um motoqueiro é mais do que eloqüente para se pensar o modo como a experiência do trabalho abre-se ou desenrola-se nas múltiplas facetas da experiência urbana. É como se esse trajeto também fosse percorrendo a linha de intensidade que atravessa os vários mundos sociais que se sobrepõem e compõem a realidade urbana: a empresa pública de saneamento urbano, as novas formas de gestão e as práticas da terceirização, os insolváveis em tempos de "verdade tarifária" imposta pela lógica triunfante do mercado, a pobreza da periferia, e mais a legião dos que foram pegos pela "maldição do destino" e não mais conseguem emprego em canto nenhum, tudo isso misturado com as energias mobilizadas por esse objeto do desejo que são as motos e que também vão constelando referências importantes na sociabilidade cotidiana dos jovens nessa região.

Mas as histórias que circulam são também muito confusas, tão confusas que parecem dar plausibilidade aos rumores e suspeitas de que as empresas de motoboys (assim como os perueiros) são hoje "frente de investimento" do dinheiro sujo. E, ao que parece, essas empresas estão se proliferando nessa região situada nas franjas da "cidade global".

A história de Fernanda, 20 anos, vizinha de Arnaldo, no mesmo bairro, diz alguma coisa a esse respeito. Seu irmão arriscou abrir uma empresa de motoboys. Não foi bem-sucedido e em pouco tempo estava enterrado em dívidas. Mas a garota ajudava o irmão e "ganhou experiência", como se diz. Depois, a sorte a levou a um escritório imobiliário no Centro Empresarial, portal da "cidade global", enclave globalizado incrustado nas imediações, assinalando os limiares de dois mundos contrastados. Era secretária, e sua tarefa era lidar com as empresas de motoboy. Saiu-se tão bem que foi chamada por um motoboy bem-sucedido, que queria montar uma empresa própria em Itapecerica da Serra, município da Grande São Paulo contíguo à periferia sul da cidade e não muito distante dessa região. O rapaz trabalhava em uma empresa que "era bem falada, eu conhecia a maioria dos funcionários, eles iam direto falar comigo... aí eu falei 'tudo bem'". Daí para frente é uma sucessão de promessas não cumpridas, pagamentos não efetuados, cobranças de dívidas atrasadas, enquanto o dinheiro sumia por meandros inexplicados (inexplicáveis, talvez). É uma história muito confusa. Fernanda conta que os planos não eram modestos: montar a parte operacional em São Paulo, com motoboys, perua e ônibus. E, em Itapecerica, o plano era montar pacotes turísticos para as escolas. O rapaz falava em promover excursões até Barretos, no interior de São Paulo. Fernanda logo se pôs a campo e pediu para o irmão providenciar o material gráfico necessário para a divulgação – cartazes, cartões de visita, envelopes com logotipo. Nesse meio-tempo, a família toda de Fernanda já estava envolvida no negócio. A mãe foi chamada para fazer a faxina do escritório, a irmã foi contratada como secretária e havia ainda uma amiga do bairro que ajudava nos serviços internos. Ninguém recebeu pagamento. Os motoqueiros, mais de vinte, tampouco.

A garota tem secundário completo e é muito empreendedora. Além do mais, tem uma família muito articulada, mora em um bairro com uma malha de relações sociais superdensa, tudo muito organizado, ativo e solidário. Em uma palavra: é uma garota portadora, como se diz, de um vasto capital social. Afinal, foi assim que conseguiu o emprego que poucos conseguem, no Centro Empresarial de São Paulo. Apesar da pouca idade, a trajetória ocupacional de Fernanda é notável, uma sucessão razoável de empregos, todos eles obtidos por meio da trama de relações em que circulam informações e as "boas recomendações". Mas é uma trajetória notável também pela instabilidade e vulnerabilidade, sempre nas fronteiras entre o mercado formal e informal – várias arbitrariedades, demissões sucessivas, salários atrasados, direitos desrespeitados. Enfim, nada a estranhar: redes e capital social não deixam de repor as circunstâncias de circuitos empobrecidos de uma região igualmente empobrecida e que acionam empregos precários de um mercado de trabalho, com o perdão da tautologia, precarizado. Mas a empreendedora Fernanda bem que chegou perto de escapar das tramas da precariedade quando, mobilizando seu capital social, conseguiu o promissor emprego no Centro Empresarial, o mesmo capital social que o rapaz da empresa de motoboy tratou de mobilizar para o seu fraudulento negócio. Em pouco tempo, a única coisa que esse capital social acumulado lhe rendeu foram muitas dívidas (contas de telefone e água atrasadas em razão de um salário que nunca foi pago) e compromissos não respeitados (o irmão empenhou o próprio nome para conseguir a impressão dos cartazes, e a conta também ficou para ser paga algum dia), além de muitos sustos, o pior deles quando um "cliente" encolerizado apareceu no escritório para cobrar a "sua parte", de arma na mão, impropérios na boca e ameaças de barbarizar o local. Mas o moço das motos a essas alturas já tinha sumido com os dividendos expropriados do capital social alheio, e ninguém sabia por onde ele andava.

Fernanda e o motoqueiro Arnaldo moram em um bairro que poderia constar do rol dos casos exemplares de capital social e redes sociais atuantes. Mas, como diz Bruno Latour (2000), se o assunto são as redes, é preciso considerar que elas "são mais ou menos longas, mais ou menos conectadas", e também envolvem "boas conexões" e "más conexões". Quer dizer: o problema todo está em saber e compreender o modo como os vínculos operam, já que, sempre situados e sempre territorializados, eles se fazem na composição e na conjugação entre circunstâncias, fatos, coisas e atores. São nesses pontos de junção e conexão da vida social que se torna perceptível a pulsação do mundo urbano. E é justamente isso que o trabalho (e a experiência do trabalho) permite apreender.

Geraldo, o segurança: nos circuitos da segurança privada, em que todos os fios se cruzam

Geraldo, 27 anos, é segurança em um hotel cinco estrelas na avenida Luiz Carlos Berrini, coração globalizado da cidade, pólo de irradiação do chamado terciário moderno de última geração. Vizinho do patriarca Genésio e sua extensa família, Geraldo é também filho de um operário metalúrgico que fez o percurso por uma das grandes indústrias que antes pontilhavam na região. Demitido no final dos anos de 1980, a partir daí seus expedientes de sobrevivência são um tanto obscuros, entre as malhas do clientelismo político e os chamados negócios ilícitos. Foi assim que conseguiu agenciar boa parte das melhorias urbanas locais e é por essas vias que exerce poder e influência nos assuntos e litígios que ocupam e agitam os moradores.

Se o pai se deixou envolver na vida local da favela, entre expedientes obscuros de sobrevivência e as malhas do clientelismo local ao velho estilo, Geraldo sabe muito bem fazer as passagens entre esse mundo e os modernos circuitos da "cidade global". Começou a trabalhar aos 19 anos. Trabalhou como garçom em um flat em Moema, onde ficou apenas três meses. Depois trabalhou por um ano em uma das pequenas fábricas ao lado da favela. Por intermédio de um amigo, conseguiu emprego de fiscal em lojas e circulou em algumas das importantes lojas de departamento e shoppings centers da cidade. Mas era um trabalho instável e Geraldo não conseguia se fixar em canto nenhum. A grande virada de sua vida foi o curso de segurança que fez em 1997. Ele mudou de patamar: entrou no ramo nobre da segurança privada. Apesar de ser um emprego muito instável (está sujeito a todas as inseguranças e também irregularidades das redes de subcontratação), Geraldo está encontrando aí uma chance de escapar da "viração" de todos os dias de muitos de seus vizinhos. E o trabalho o lança nos luminosos circuitos dos serviços modernos.

Como pudemos flagrar em outros lugares, o emprego de segurança é hoje visto como muito promissor. Como nos disse um jovem que mora em um bairro vizinho, também pauperizado e muito mal-afamado por seus altíssimos índices de morte violenta, é "um emprego certo, tem mercado garantido". Sivaldo, 28 anos, também fez um curso de segurança credenciado e regulado pela Polícia Federal. Já trabalhou em agências de alguns dos mais importantes bancos brasileiros e em lojas dos mais sofisticados shoppings centers do rico e globalizado quadrante sudoeste da cidade. Trabalha agora em uma empresa que presta serviços em bingos e casas noturnas. Sivaldo não soube explicar muito bem o estatuto dessa empresa, para ele é pouco claro o modo como os serviços são contratados e remunerados. Muito provavelmente a empresa compõe esse universo amplo e também expansivo, se não dos serviços clandestinos, dos que transitam nas fronteiras pouco claras do legal e ilegal, por conta de expedientes diversos para escapar das regulações oficiais que vigoram nos serviços de segurança (cf. Caldeira, 2000).

Sivaldo começou a trabalhar muito cedo, aos 14 anos. Já foi office-boy, ajudante em barraca de feira e nos mercadinhos locais, coletor de lixo, trabalhou em lava-rápido, montou junto com amigos um bar e depois uma barraca de pastel. Foi também cobrador em peruas clandestinas – foi um bico, diz ele, que arrumou com os amigos perueiros, seus vizinhos no bairro onde mora. Não ficou muito tempo. A perua em que trabalhava foi assaltada, achou que o trabalho era muito perigoso e queria coisa melhor. Tinha então 23 anos e vendeu seu carro para pagar as mensalidades do curso de segurança. É nesse ramo que pretende se fixar e progredir na vida.

Como tantos outros de sua geração, falar dos amigos é fazer a contabilidade das mortes. Dos tempos de infância e adolescência, diz Sivaldo, "só salvou dois ou três". Os outros foram mortos, executados ou sumiram pelos caminhos tortos da vida. Sivaldo conhece bem as "coisas da vida" e talvez seja isso que lhe permite certo distanciamento crítico dessa sua "promissora" atividade. É perigoso, diz Sivaldo, não apenas porque se está exposto aos riscos próprios da profissão. Mas também porque "do lado de cá" a coisa não é fácil. Ele conta que é mais do que freqüente os seguranças serem pressionados pela bandidagem: recebem ofertas de dinheiro, de proteção, e promessas de uma porcentagem no "ganho", ou então são sujeitos ao jogo pesado da pressão aberta para que forneçam o "mapa da mina". Eles querem saber todos os detalhes do modo de funcionamento do local. É assim, diz Sivaldo, a "maldição do dinheiro", pois "tem vigilante que está precisando de dinheiro, que está desesperado, daí eles vão lá, fazem uma reunião na casa do 'grandão', ele passa tudo, eles analisam" e, então, fazem o "serviço".

Mas, diz Sivaldo, o esquema de segurança nos bancos, nos prédios de escritório e nos shoppings centers mais ricos e prestigiosos da cidade está mais do que sofisticado. A entrada nesses domínios está ficando muito difícil, e então os fluxos do crime organizado vêm se deslocando para os lados da periferia pobre da cidade: caixas eletrônicos, supermercados, comércio local ou bingos e casas noturnas que se espalham pelas avenidas que cortam esses pedaços periféricos da cidade. Sivaldo sabe o que está falando: "Quem conhece, quem nasceu e cresceu na periferia, sabe que no final do ano são os alvos do crime organizado, para passar um final de ano bom, né?... Se eles estiverem lá dentro, não há como reagir, é só pegar e pedir a Deus...".

Os seguranças privados são personagens inescapáveis da "cidade dos muros" e fazem parte dos dispositivos de privatização dos espaços públicos (e da cidade), ao mesmo tempo em que são mobilizados em um mercado expansivo, também globalizado, que faz da segurança uma mercadoria vendida sob formas cada vez mais sofisticadas e variadas (cf. Caldeira, 2000). Em torno deles, todos os fios se cruzam: o mercado, as fortalezas globalizadas da cidade e os circuitos faiscantes dos modernos equipamentos de consumo. Mas também o seu transbordamento para as periferias da cidade: o moderno-moderníssimo trabalho precário, as redes de subcontratação e essa mistura ou indiferenciação entre formal e informal, legal e ilegal, que vai seguindo as linhas que fazem as tramas da cidade.

* * *

O que esses personagens (e também os anteriores) nos fazem ver em seus percursos é que essas linhas perpassam as fortalezas globalizadas da cidade, transbordam seus muros ou vazam pelos poros dessas muralhas, e tal como outros tantos fluxos urbanos vão também redesenhando os territórios e seus circuitos. Modo muito peculiar pelo qual se estabelece a relação entre trabalho e cidade pelas vias de uma cadeia de mediações e conexões na qual estão cifradas todas as facetas do mundo urbano atual. Não precisamos lançar mão de nenhum argumento miserabilista, nem denunciar a fome do mundo para ter a medida da tragédia social que está aí cifrada.

Mas isso ainda abre outra questão: afinal, onde situar cada um desses personagens? São pobres infelizes da sorte? Excluídos? Se não, faz algum sentido dizer que são, então, "incluídos"? São personagens que fazem os seus percursos nas tramas do mundo social. Essas categorias (e binaridades) tornam-se estreitas demais para colocar em perspectiva as questões que essas histórias nos abrem. Os campos de força e toda a complicação dos tempos que correm estão exatamente nos pontos de conexão dessas tramas que fazem a tapeçaria do mundo social.

Esses personagens escapam às categorias habituais que pautam os debates recentes. Não correspondem às figuras canônicas do trabalhador regular, tampouco às do mercado informal, e muito menos às tipificações correntes dos "pobres" e "excluídos", público-alvo dos programas ditos de inserção social. No entanto, seus percursos fazem ver a teia de relações e campos de força que se estruturam em torno do trabalho, mas que se esvanecem sob os termos correntes do debate atual.

É justamente isso que está a exigir que se relance a pergunta sobre os sentidos do trabalho e seus efeitos estruturantes na vida social. Retomando questões do início deste artigo, talvez seja preciso então um deslocamento do jogo de referências para ressituar o trabalho no mundo social. Se não mais vigoram as regulações conhecidas do emprego e o feixe de suas mediações políticas e institucionais, então talvez seja o caso de prospectar os vetores horizontalizados que articulam o trabalho, a cidade e seus espaços. Outros agenciamentos entre os tempos da vida e os tempos do trabalho. Outras referências também pelas quais a experiência das desigualdades vem se processando. Se ela não é mais remetida às configurações de classe, talvez esteja sendo configurada nos espaços da cidade e seus circuitos.

Mas, então, será preciso indagar sobre os campos de experiência em suas novas configurações, não mais as "relações de classe" de antes, mas aquelas que ganham forma e pulsam nas situações descritas aqui, e também nas redes de subcontratação e seus intermediários, no trabalho a domicílio que mobiliza relações de proximidade entre familiares e vizinhança, e nas miríades de outras situações de trabalho que hoje compõem o mundo urbano.

Momento oportuno para uma releitura de Thompson (1979), para com ele aprender a escutar os rumores da cidade. Não mais os "rumores da multidão" (ou não os mesmos), com os quais o autor identificou campos de experiência e desenhou o cenário das relações conflitivas e as resistências surdas ou manifestas da Inglaterra do século XVIII. Mesmo quando não ganham superfície, mesmo quando socialmente invisíveis, resistências não deixam de existir como um surdo rumor crítico em busca de referências, mediadores e meios de expressão (cf. Telles e Cabanes, 2006).

 

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Texto recebido e aprovado em 8/5/2006.

 

 

Vera da Silva Telles é professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania, Cenedic (USP). E-mail: tellesvs@uol.com.br.
1 Essas questões estão no centro de uma pesquisa sobre trajetórias urbanas na cidade de São Paulo, desenvolvida sob coordenação partilhada com Robert Cabanes (IRD-França), nos termos de um convênio CNPq-IRD (2003-2006). Também contou com apoio do CNPq e da Fapesp. Este artigo apóia-se em resultados dessa pesquisa. A respeito, ver Telles e Cabanes (2006).
2 Como bem nota Eheremberg (1991), a autonomia não é mais pensada como recusa às subordinações de um mundo disciplinar (ver os movimentos culturais dos anos de 1960), mas é agora figurada à imagem e semelhança da empresa, e o seu princípio é a concorrência e a competição. Da atual celebração do esporte transformado em espetáculo de massa à projeção do empresário bem-sucedido (aliás, também mediatizado e transformado em celebridade) como padrão moral a ser seguido, passando pelo consumo, são essas as figuras do "novo individualismo" que se vêm configurando desde meados dos anos de 1980.
3 Assim como para os outros personagens apresentados a seguir, essas informações referem-se ao ano de 2001, momento em que as entrevistas foram realizadas.