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Tempo Social

versión impresa ISSN 0103-2070

Tempo soc. v.18 n.2 São Paulo nov. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702006000200001 

Apresentação

 

 

Antonio Sérgio Alfredo Guimarães

 

 

As desigualdades sociais sempre marcaram as Américas. A conquista do território por colonizadores europeus e a conseqüente incorporação subalterna dos indígenas às novas sociedades em formação, assim como, mais tarde, a importação de africanos escravizados para o trabalho nas grandes plantações, instituíram a desigualdade como fundadora das nações americanas surgidas a partir do século XVIII. Mas, enquanto no norte do continente as sociedades cindiam-se racialmente entre uma nação branca de tradição européia e uma nação de cor, ao sul, as novas nações latino-americanas formavam-se mestiças. Lá, o racismo traçava a linha da desigualdade social, aquela que não seria superada, seja pelo melting pot, seja pelas oportunidades do novo mundo; aqui, a miscigenação e a tolerância racial dariam lugar a ordens políticas, sociais e culturais vistas pelas elites intelectuais como tortas e incompletas, bastardas e infelizes, marcadas pela injustiça e pelas desigualdades. Não haveria racismo, mas pobreza cultural e subdesenvolvimento econômico, que teriam selado o destino da região. Seria mesmo isso, ou estaríamos diante de duas formas de racismo a gerar desigualdades de diferentes tipos?

Este número da Tempo Social começa com um artigo utilíssimo e muito instigante de Kelly Hoffman e Miguel Centeno, que fazem um balanço extensivo dos estudos sobre as desigualdades sociais na América Latina. O título do artigo, "Um continente entortado", expressa muito bem o modo como se representa a região no pensamento sociológico. Seus autores são extensivos ao passar em revista as diferentes fontes de desigualdade, tal como retratadas pela literatura, da troca desigual dos mercados internacionais às discriminações raciais e de gênero; ou seja, dos estudos que privilegiam a reprodução capitalista global e a acumulação desigual até aquelas que estudam os mecanismos cotidianos de distribuição de riqueza no interior dos diferentes países, a partir de mecanismos de monopolização de posições e status sociais e de estigmatização grupal.

Publicamos, em seguida, um novo artigo de Charles Tilly, que faz alguns anos vem se dedicando à teoria das desigualdades. Nesse texto, o autor está interessado em entender o acesso desigual das nações ao conhecimento científico, e, para tal, recorda do papel central desempenhado pela produção de categorias; elas moldam as desigualdades e as identidades, estabelecendo fronteiras entre os "de dentro" e os "de fora", entre os nossos e os outros.

Medidas de desigualdade racial, entretanto, como bem reconhece Devah Pager, apenas teoricamente se constituem em boas medidas de discriminação, ou seja, de comportamento efetivo. A discriminação presumida pela teoria é apenas, e isso já é realmente muito, a melhor explicação teórica para as desigualdades observadas. Assim sendo, como enfrentar o desafio de mensurar discriminações? Em seu artigo, Pager explora os pontos fortes e as fraquezas de diversas técnicas de medida, muitas das quais são ainda incipientemente utilizadas por nossos cientistas sociais.

Ademais, o que dizer das desigualdades que não são percebidas, dada a inexistência de fronteiras de identidade; ou seja, como pensar os mecanismos de produção das desigualdades que não são nomeados? Ao não serem reconhecidas pelos agentes, não terão conseqüências? Estaria a pobreza latino-americana, por exemplo, isenta de relações raciais de exploração e subordinação pelo simples fato de que não se fale em raças? Seria sua existência apenas posterior à nomeação? Daria ela lugar a um novo tipo de racismo?

A versão portuguesa do artigo de Juliet Hooker sobre as novas formações nacionais na América Latina no pós-1970 discute como e por que nações que se imaginavam mestiças e homogêneas passam a se definir como multiculturais e multirraciais. Ao fazê-lo, dá pistas sobre como responder a essa questão. A participação decisiva de movimentos sociais na conformação e na operação dos novos Estados-nação, tal como neste artigo se documenta, talvez seja sua contribuição mais valiosa aos termos do debate que se pretende propor por meio deste dossiê temático.

Os artigos que se seguem procuram justamente analisar, em localizações geográficas distintas, o embate das políticas de identidade e do multiculturalismo no mundo atual. As críticas de Neville Alexander às ações afirmativas na África do Sul atual devem-se, principalmente, à incapacidade dessas políticas de atingir a massa da população sul-africana e agir, em conseqüência, como transformadoras de uma ordem social profundamente injusta e desigual. Num país em que 90% da população é potencial beneficiária das políticas afirmativas, o escopo limitado delas não deixa de ser chocante. Entre nós, no Brasil, não correremos risco parecido, caso os movimentos negros não assumam também a responsabilidade de propor políticas mais abrangentes e de maior alcance demográfico? Para compreender as razões de Alexander é necessário conhecer melhor o debate sul-africano, e é sobre ele, em perspectiva comparativa perante o que se passa no Brasil, que Graziella Silva se debruça. Ela aceita o desafio de responder (ou ao menos propor respostas alternativas) perguntas instigantes, elaboradas na área de interseção entre os temas da difusão cultural e da formação institucional. Como as bandeiras do movimento negro, principalmente a das cotas nas universidades, ganharam o apoio de políticos, tecnocratas e autoridades universitárias? Por que o multiculturalismo se torna uma ideologia dominante em várias esferas do Estado?

Edward Telles escreve em resposta a Samuel Huntington, que vem assumindo uma postura de defesa conservadora e intolerante da especificidade da civilização americana e européia, mobilizando o medo de que as imigrações descaracterizem os valores sobre os quais as sociedades ocidentais estão fundadas. Os argumentos e a demonstração empírica de Telles sobre a integração dos mexicanos nos Estados Unidos demonstram quanto tal medo é irracional, nutrindo sentimentos de intolerância, às vezes xenófoba, às vezes racista. De Didier Fassin publicamos uma reflexão ainda quente, pois se trata de uma fala feita na Escola de Altos Estudos em ciências sociais, em janeiro deste ano, sobre os distúrbios de novembro de 2005 na França. Estaria o sistema francês de integração republicana em crise? Seria o multiculturalismo a resposta adequada ao sentimento de exclusão racial dos jovens descendentes da imigração africana? Como os franceses reagiram à discriminação sistêmica de negros e árabes? Muitos intelectuais, na Inglaterra e nos Estados Unidos, viram nos distúrbios das banlieues a falência do assimilacionismo e das políticas universalistas francesas. Será mesmo o caso? Publicamos também, para completar o nosso olhar sobre a conjuntura internacional de desigualdades raciais, um artigo bastante inovador de Michel Agier sobre os refugiados criados pelo avanço das novas cruzadas civilizatórias em diversas partes do mundo.

Os últimos artigos do dossiê voltam-se para o Brasil, refletindo mais especificamente sobre o futuro da nossa democracia e da nossa tradição de tolerância e integração, cultural e racial. Enquanto Muryatan Barbosa escreve sobre Guerreiro Ramos, um dos intelectuais negros mais brilhantes, que nos anos de 1950 e 1960 deu vida ao ideal de democracia racial, Ronaldo Sales Jr. extrema a crítica atual à democracia racial, apontando o caminho que está sendo trilhado por muitos jovens intelectuais negros brasileiros.

Fiz questão de entrevistar Carlos Hasenbalg, um dos pioneiros dos estudos de desigualdades raciais no Brasil, atualmente residindo em Buenos Aires. Há anos Carlos não se manifestava sobre assuntos de desigualdades raciais. Consegui extrair dele respostas a apenas três perguntas, mas foi um excelente começo (ou recomeço), como os leitores poderão conferir. Na pauta, um debate atualíssimo: os elos causais entre racismo e desigualdades raciais no Brasil, e os modelos de intervenção e de políticas públicas para corrigir tais desigualdades.

No final, à guisa de epílogo, comento mais demoradamente algumas das idéias e discussões que animam este dossiê.