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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.19 no.1 São Paulo June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702007000100004 

DOSSIÊ - HISTÓRIA SOCIAL DOS INTELECTUAIS LATINO-AMERICANOS

 

Sur: uma minoria cosmopolita na periferia ocidental

 

Sur: a cosmopolitan minority on the western periphery

 

 

Maria Teresa Gramuglio

 

 


RESUMO

Este artigo explora as condições e as disposições que tornaram possível o surgimento da revista Sur e a formação do grupo cultural de mesmo nome. Propõe critérios para uma periodização que leve em conta, junto com os indícios materiais, as circunstâncias históricas e culturais cambiantes pelas quais a publicação passou durante sua longa vida (1931-1991). Assinala alguns dos principias temas ideológicos e estéticos que foram abordados em suas páginas. Caracteriza o projeto inicial e as transformações imprimidas pela vontade de sua diretora, Victoria Ocampo, e as mudanças nas relações e problemáticas do campo intelectual.

Palavras-chave: Revista; Grupo cultural; Projeto: Minorias; Envelhecimento social.


ABSTRACT

This article explores the conditions and dispositions that enabled the emergence of the magazine Sur and the formation of the cultural group of the same name. It sets out the criteria for a periodization that takes into account, along with material factors, the shifting historical and cultural circumstances experienced by the publication over its 60-year life-span (1931-1991). The text highlights some of the main ideological and aesthetic themes to have filled the magazine's pages. It describes the original project and the transformations introduced by its chief editor, Victoria Ocampo, as well as the changes in the relations and problematics of the intellectual field.

Keywords: Magazine; Cultural group; Project: Minorities; Social ageing.


 

 

Da revista ao grupo cultural

A revista argentina Sur foi publicada em Buenos Aires de 1931 a 1991. Essa duração, pouco freqüente em revistas culturais, poderia ser indicativa da solidez de um projeto. Não obstante, precisamente essa larga duração exige que se considere as diversas formulações e facetas apresentadas pelo projeto, como também as variações das circunstâncias históricas nacionais e internacionais que a revista atravessou, pois são decisivas para esclarecer as chaves tanto de sua vitalidade como de suas fraquezas e de seu declínio. A prova dessa vitalidade está dada pelo fato irrefutável de que, ainda hoje, Sur e sua diretora, Victoria Ocampo, suscitam polêmicas bastante vivas, algo tampouco freqüente nas publicações culturais. Abordá-la sob a perspectiva de uma história das elites intelectuais da América Latina permitiria reconsiderar de modo novo os dados conhecidos sobre sua constituição e sua trajetória, e começar a projetá-los em um espaço que excede os limites estritamente nacionais, tal como os estudos mais correntes costumam considerar.

Revistas e grupos culturais são reconhecidos como formações características e significativas da vida intelectual nas sociedades modernas. Revelam o pulso do tempo em que se desenvolvem, põem em cena as novidades e os debates da época, protagonizam ou acolhem polêmicas, definem posições no campo intelectual. Essa riqueza potencial de ambas as formações é acompanhada de algumas dificuldades: a insegurança metodológica no trabalho com objetos muitas vezes efêmeros, apesar de as revistas fornecerem por si mesmas uma fonte segura – algo que, no caso de Sur, ironicamente, se complica, dada a abundância e a variedade dos materiais a revisar, a instabilidade e a condição tênue e pouco apreensível dos grupos culturais e de suas formas de sociabilidade, cujo registro fica em muitos casos sujeito a testemunhos retrospectivos, contraditórios ou inverificáveis.

Sur oferece à análise ambas as vias de entrada. De fato, é freqüente encontrar a denominação "Grupo Sur" para se referir a um conjunto de escritores e críticos reconhecíveis, ainda que de linhas nem sempre definidas da mesma maneira. A revista manteve desde sua fundação um núcleo estável que persistiu ao longo de anos, cuidando-se para que ele estivesse presente em todos os números publicados. No primeiro número, a lista incluía um Conselho Estrangeiro, integrado pelo músico suíço Ernest Ansermet, o escritor francês Pierre Drieu La Rochelle, o italiano Leo Ferrero, o norte-americano Waldo Frank, o dominicano Pedro Henríquez Ureña, o mexicano Alfonso Reyes, o espanhol José Ortega y Gasset e o franco-uruguaio Jules Supervielle. Este era logo seguido de um Conselho de Redação, integrado por figuras locais: Jorge Luis Borges, Eduardo J. Bullrich, Oliverio Girondo, Alfredo González Garaño, Eduardo Mallea, María Rosa Oliver e Guillermo de Torre. Se revisarmos a coleção, comprovar-se-á que, salvo muito poucas exceções – como a de Ferrero, morto pouco depois em um acidente, ou a do poeta Oliverio Girondo, que constou apenas no primeiro número –, esses nomes persistem para além das incorporações e da mudança na configuração da revista, que anos depois converteu os dois conselhos em um, consideravelmente mais fortalecido. Esse núcleo esteve, por sua vez, rodeado de um círculo mais amplo e diversificado de colaboradores que nem sempre alcançaram a mesma integração ou a mesma estabilidade, ao qual também se foram agregando alguns novos nomes. Entre os mais destacados do círculo ampliado estão: José Bianco, Adolfo Bioy Casares, Eduardo González Lanuza, Carlos Mastronardi, Héctor A. Murena, Silvina Ocampo, Ernesto Sábato, Juan Rodolfo Wilcock e, já nas últimas etapas, Maria Luisa Bastos e Enrique Pezzoni.

Quais fatores fizeram que aparecessem reunidas pessoas provenientes de âmbitos tão diversos, com trajetórias culturais tão díspares, algumas das quais, como no caso do Conselho Estrangeiro, provavelmente nunca se haviam encontrado? Em primeiro lugar, é decisivo o fato de que esses colaboradores faziam parte da rede de relações pessoais de Victoria Ocampo. No entanto, nem todos tiveram acesso a essa rede da mesma maneira, e isso merece uma atenção mais detalhada do que as que as abordagens mais habituais costumam prestar, se se pretende refletir com certa objetividade sobre a dimensão sociológica da formação dos grupos culturais. No que concerne ao Conselho Estrangeiro, é clara a cooptação feita por Ocampo por meio das relações que arregimentou a partir das visitas de viajantes culturais à Argentina, como Frank e Ortega – que havia apadrinhado suas primeiras incursões ao mundo literário –, de sua atividade nas associações de que fez parte, como a Amigos del Arte, e outras ligadas ao âmbito musical, na qual Ansermet cumpriu um importante papel inovador, e de suas próprias viagens, nas quais conheceu Drieu e os Ferrero. Quanto aos integrantes locais, é inegável a importância dos laços sociais e de parentesco, como os existentes entre Ocampo e seu amigo, o colecionador González Garaño, ou com seus primos Bullrich, ou ainda entre Borges e de Torre, marido de sua irmã Norah. A isso é preciso acrescentar o conhecimento prévio que ligava alguns deles aos membros do Conselho Estrangeiro, como no caso de Mallea e Frank, ou de Oliver em relação a Reyes, a Henríquez Ureña e mesmo a Frank. A partir desses dados, seria fácil concluir que Sur foi o resultado das relações preexistentes num grupo de amigos movidos por inquietações culturais afins. Mas essa conclusão seria errônea. A forma como se teceram algumas dessas relações introduz nuanças significativas numa apreciação tão direta. Assim, María Rosa Oliver conta em suas memórias que, apesar de ter cruzado com Ocampo em algumas ocasiões sociais, entre elas no hall de um hotel em Paris, jamais havia falado com ela até que Frank as pusesse em contato para o projeto da revista. Ocampo conta, por sua vez, em sua autobiografia, que nunca havia reparado em Mallea, naquela ocasião um escritor promissor que em 1926 havia publicado um primeiro livro de contos, até que Frank o tivesse recomendado para trabalhar na revista, e ainda assim não o fez de imediato. Conta também que havia conhecido Borges e outros membros da revista Proa (1924-1926) por intermédio de seu amigo Ricardo Güiraldes. No entanto, mesmo que essas relações tivessem sido mais assíduas, é indubitável que nem todo grupo de amigos se converte em um grupo cultural ativo e reconhecível, como no caso de Sur. Para que essa rede de relações se cristalizasse em um grupo cultural, foram necessários alguns fatores decisivos e específicos: um deles se refere ao projeto da revista que o norte-americano Waldo Frank propôs a Victoria Ocampo. Outro diz respeito à função nuclear que Ocampo assumiu na articulação de ambas as formações, a revista e o grupo cultural. E não menos importante foi a existência, fora dos laços da mera sociabilidade mundana, de um âmbito cultural dinâmico, que desde o início do século havia dado lugar a formações, revistas e projetos editoriais capazes de ampliar e diversificar o público e os espaços de um campo literário relativamente autonomizado.

Neste ponto, pode ser ilustrativo registrar alguns dados complementares sobre os principais membros do grupo local, que permitam perceber a sua diversidade no tocante às condições econômicas e às trajetórias individuais. Nem Ocampo nem Oliver, que com certo exagero proclamaram a si mesmas autodidatas, tiveram uma educação escolar e universitária regular, mas sim preceptores e professores particulares, da mesma forma que Borges em seus primeiros anos. Este realizou, mais tarde, alguns estudos não-sistemáticos em Genebra, e Ocampo assistiu a cursos em Paris, no transcorrer de longas viagens que naquele tempo as famílias tradicionais argentinas costumavam fazer. Mallea fez seus estudos primários em Bahía Blanca – uma cidade do sul da Argentina –, que depois tiveram continuidade em Buenos Aires, e realizou sua primeira viagem à Europa ainda muito precocemente, com sua família. Bianco fez a escola primária e secundária em Buenos Aires, enquanto Mastronardi o fez em Entre Rios, sua província natal. Mallea, Bianco e Mastronardi ingressaram juntos na Universidade de Buenos Aires, onde estudaram Direito, mas não concluíram o curso. Como Borges, participaram de revistas literárias de vanguarda e de outras publicações dos anos de 1920, inserindo-se em ocupações ligadas ao mundo literário. Nenhum deles exercia uma profissão. Todos tinham familiaridade com literaturas e idiomas estrangeiros. Freqüentavam espaços de difusão cultural, como o dos Amigos del Arte, e outros similares. Como se vê, suas origens estão no interior da Argentina ou em Buenos Aires, e, apesar da considerável distância entre suas respectivas posições econômicas, é possível encontrar em meio à diversidade de condições e de trajetórias um perfil indicativo de certas disposições comuns, próprias aos descendentes de famílias educadas e fixadas no país por várias gerações.

Essas semelhanças percebidas em meio às diferenças permitem compreender a razão de algumas inclusões e exclusões do grupo: a mais conhecida delas é a de Samuel Glusberg, com quem Frank havia planejado fundar uma revista interamericana, que seria publicada em Lima, México e Buenos Aires, e da qual participaria também Carlos Mariátegui. Apesar de ser um entusiasta bastante ativo da vida literária, fundador de revistas e editoras, e promotor incansável das visitas de Frank, faltavam a Glusberg aquelas disposições que definiam os membros do grupo Sur em função de sua origem social. Enfocada sob a perspectiva que procura levar em conta as posições no campo literário em suas relações com o habitus e com os capitais culturais e sociais, a análise permite além de tudo ponderar o lugar de destaque que a revista alcançou em seu período inicial, a ponto de a exclusão de Glusberg ter ficado totalmente silenciada na "história oficial" sobre as origens de Sur elaborada por Victoria Ocampo No entanto, esses dados nem sempre são suficientes para dar conta de aspectos mais complexos que constituem as motivações da associação, as rivalidades internas ou aquele elemento a mais que configura afinidades e divergências quanto à sensibilidade e ao gosto, já que os colaboradores de Sur haviam circulado – e continuaram fazendo isso – por outras publicações. Nesse sentido, constituíram-se no interior da revista figuras e subgrupos com diversas feições ideológicas e sobretudo estéticas, que coexistiram de uma forma nem sempre pacífica.

No que concerne às relações externas, os integrantes de Sur, salvo algumas exceções, não pertenceram a instituições estatais nem mantiveram vínculos visíveis com partidos políticos. Por outro lado, tiveram uma forte presença nos meios culturais e na atividade editorial, como nos casos de Borges, tradutor e colaborador de numerosas publicações, e de Mallea, diretor do suplemento cultural do diário La Nación. Ainda que, em virtude de sua posição social, alguns dos integrantes pudessem ter mantido relações fluidas com figuras ligadas ao poder – como Ocampo e o presidente Agustín P. Justo –, até 1955 eles se mantiveram em geral avessos às políticas oficiais. Diversos episódios, como os ataques da revista Criterio e as discussões sobre o fascismo do congresso dos PEN Club nos anos de 1930, a agressão a Waldo Frank sob o regime conservador em 1942, o encarceramento de Ocampo em 1953, por volta do final do primeiro peronismo, revelam as divergências com os setores de direita, com a hierarquia eclesiástica e com o poder político nacional, no marco de uma afinidade com a tradição do liberalismo argentino, cujos limites são, por outro lado, bem conhecidos. Essas e outras comprovações permitem tornar mais complexa a afirmação freqüente de que Sur representaria objetivamente o correlato cultural da classe dominante ou, em outras formulações menos sofisticadas, que se tratou de um empreendimento que serviu às necessidades da oligarquia conservadora que se apoderou do poder com o golpe de 1930. De um ponto de vista menos esquemático, essas comprovações deveriam nos conduzir a refletir com maior sutileza sobre a condição "estruturalmente ambígua", para dizê-lo nos termos de Pierre Bourdieu, dos intelectuais e das formações a que pertencem, resistindo à tentação de considerá-los inexoravelmente presos em uma jaula de ferro de uma dominação sem fissuras.

Sem ignorar, portanto, a relevância e a peculiaridade dos grupos culturais para a análise da vida intelectual, é indispensável considerar que todos os testemunhos, incluindo o da própria Victoria Ocampo, coincidem no destaque dado ao seu protagonismo na fundação e no sustento material de Sur. María Rosa Oliver, em suas memórias, refere-se a Sur como "a revista de Victoria", e pontua claramente a dependência da revista tanto do critério como do dinheiro da diretora. Na correspondência em que ambos discutem as origens de Sur e a escolha de seus colaboradores, Frank atribui reiteradamente a Ocampo, apesar das diferenças de critério, a propriedade exclusiva da publicação. A própria diretora, em um dos balanços de aniversário da revista, declara que Sur pertence e sempre pertenceu "materialmente" a ela. Todavia, Ocampo foi mais que um desses mecenas que, segundo a experiência indica, toda a revista necessita para subsistir. Elegeu os integrantes do conselho de direção entre suas relações pessoais, locais e estrangeiras. Conforme testemunha uma célebre fotografia, quase um retrato de família, tirada em sua residência de Palermo Chico, um dos bairros mais nobres de Buenos Aires, a revista começou a funcionar em sua casa e logo se transferiu para outras propriedades suas ou de sua família. Decidia sobre as colaborações, e ela mesma publicou assiduamente. Apesar de todas as reticências que sua figura suscitou e ainda suscita, não é exagerado afirmar que sem Ocampo não haveria existido Sur, e o que hoje reconhecemos como "grupo Sur" não existiria sem a revista. Em outras palavras: foi a revista que deu nascimento ao grupo, e não o inverso.

 

Periodização

A longa trajetória percorrida pela revista, desde sua fundação até sua lenta desaparição, requer a construção de uma periodização que tenha em vista as transformações das circunstâncias históricas – políticas, sociais, culturais –, para relacioná-las com a história interna da publicação. 1930, o ano de gestação de Sur, cujo surgimento se deu no verão de 1931, é uma data de inflexão na história argentina. À ampla crise transnacional gerada pelo crack de 1929 agregou-se o golpe militar que pôs fim ao segundo mandato presidencial do radical Hipólito Irigoyen e inaugurou a nefasta série de governos autoritários por que passou o país. A década de 1930 conheceu a recessão econômica, a repressão política e a fraude eleitoral. Uma corrente historiográfica tradicional popularizou uma fórmula de impacto para caracterizá-la: "década infame". Ainda que sempre seja bom recordar uma passagem de Borges – "tocou a ele viver, como a todos os homens, tempos difíceis de serem vividos" –, não há dúvida de que esse período foi, em mais de um sentido, infame, e não somente pelas vicissitudes internas: abundam na literatura as referências sobre a miséria material e moral que a crise de 1929 projetou sobre os países ocidentais. Por outro lado, o retrocesso da democracia, o avanço dos regimes totalitários na Europa e na União Soviética, a Guerra Civil espanhola e, finalmente, a irrupção da Segunda Guerra em 1939 seriam suficientes para justificar as avaliações mais sombrias numa dimensão que excede as fronteiras nacionais. No entanto, tais acontecimentos, longe de provocar uma paralisia generalizada, desataram intensas polêmicas e numerosas intervenções de cunho político por parte de vários intelectuais provenientes de todo o espectro ideológico do mundo ocidental, incluindo setores do âmbito argentino, entre eles Sur. Ainda sobre esse contexto, desde meados da década a economia argentina mostrava sinais visíveis de recuperação, que foram modificando a composição dos setores produtivos e deram início a uma série de modificações que criaram as bases para as profundas transformações sociais e culturais trazidas pelo primeiro peronismo, entre 1945 e 1955. Enfim, por mais que se queira insistir na apatia que se apoderara da atividade intelectual nesses anos – vistos como uma terra estéril entre a efervescência da década de 1920, a ascensão das letras em fins dos anos de 1950 e o boom dos de 1960 –, o dinamismo da vida literária na década de 1930 deu lugar a muitas novidades, entre as quais está justamente o surgimento de Sur.

Se, por um lado, não é adequado estabelecer relações mecânicas entre as condições econômicas, políticas e culturais, tampouco o seria ignorar a dinâmica destas. No que diz respeito ao domínio especificamente literário, faz-se necessário lembrar que Sur não surgiu em um vazio, como faria supor o relato sobre suas origens apresentado por Ocampo no primeiro número da revista. Desde o início do século XX, apareceram na Argentina revistas literárias bastante importantes, como Nosotros (1907-1934; 1936-1943), assim como vários empreendimentos editoriais que difundiram obras nacionais e traduções de literatura estrangeira para um público leitor cada vez mais amplo e diversificado, conseqüência da mobilidade social ascendente e das políticas educativas postas em marcha pelo Estado liberal. Na década de 1920, surgiram revistas de vanguarda, das quais a mais conhecida foi Martín Fierro (1924-1927), e outras publicações menos inovadoras, mas igualmente representativas de frações do campo intelectual, entre as quais cabe destacar as pouco estudadas Revista de América (1924-1926), Síntesis (1927-1930) e a católica Criterio (de 1928 até hoje). Por elas circularam freqüentemente as mesmas figuras, muitas das quais depois passaram a colaborar em Sur. Quase todas elas, como as revistas latino-americanas mais conhecidas do período (Contemporáneos, no México; Revista de Avance, em Cuba; Amauta, no Peru; as brasileiras, Klaxon e a Revista de Antropofagia), buscaram abrir-se às correntes européias contemporâneas para dinamizar sua própria arte e sua própria literatura, mantendo a consciência de sua condição especificamente americana.

O impulso da década anterior não se esgotou na Argentina dos anos de 1930, quando apareceram novas flexões da narrativa, no ensaio e na poesia, como provam os nomes de Roberto Arlt, Mallea, Borges, Silvina Ocampo, Bioy Casares, Martínez Estrada e Girondo, as novas revistas e formações culturais, inclusive de esquerda, como Contra e o Teatro del Pueblo – fundado pelo intelectual comunista Leonidas Barletta –, e os novos selos editoriais que cumpriram papel importante entre os leitores de língua espanhola, como Sudamericana e Losada. Assim, a vida artística e cultural continuou renovando-se, ainda que não tenham surgido, na América Latina, outras publicações da envergadura das já mencionadas, ou da própria Sur. Uma visada comparativa com o caso brasileiro, centrando a atenção na diversidade de sua vida cultural – ancorada em particularidades referentes às múltiplas localizações dos centros de poder econômico e cultural, que deram lugar a literaturas regionais marcantes, logo após a eclosão das vanguardas dos anos de 1920 –, permite um contraste com a Argentina, centralizada em torno de um foco de irradiação praticamente único: Buenos Aires.

Sur foi apresentada como revista trimestral, porém, entre janeiro de 1931 e julho de 1934, publicou apenas nove números. Em julho de 1935, após interrupção de um ano, reapareceu com capas coloridas, com preço menor e com nova periodicidade mensal, condição em que se manteve até 1951. Os dois conselhos permaneceram idênticos, até que pouco depois, como mencionei anteriormente, se fundiram no Comitê de Colaboração, que incluiu outros nomes, como os de Amado Alonso e Eduardo González Lanuza. Nenhuma explicação foi dada sobre mudanças tão importantes. Cabe perguntar se a virada de 1935 esteve ligada às políticas culturais promovidas pelo pan-americanismo estadunidense dos anos de 1930. É provável que futuras revisões nos arquivos de Sur permitam encontrar alguma pista fidedigna desse e de outros aspectos sobre os quais não há dados precisos, como por exemplo aquele relativo às finanças da publicação.

Ainda que o indício externo que marca outra reviravolta seja registrado em 1951, caracterizado por uma mudança em direção a um formato mais econômico (menor e com capas brancas, mantido até o final), se considera que o período de esplendor de Sur teria atingido seu ápice ao redor de 1945. Essa é outra data forte por sua dupla significação: assinala o fim da Segunda Guerra, no plano internacional, e o início dos governos peronistas, no plano nacional. Diversas avaliações críticas coincidem em situar o declínio de Sur entre 1945 e 1955, quando se verifica a queda do primeiro peronismo. Esse é um tema controvertido. No que diz respeito à literatura, não se pode afirmar que a revista tenha perdido totalmente, a partir de 1945, sua posição de liderança no campo literário e a capacidade de traduzir e introduzir as novidades da literatura estrangeira, e não somente européia, já que continuou dando a conhecer também autores norte-americanos, asiáticos, israelenses e outros. Tampouco deixou de incorporar novas figuras do âmbito literário local, como Murena, que nos anos de 1950, além de publicar seus ensaios na revista e na editora, dirigiu a importante coleção das letras alemãs, na qual foram publicados pela primeira vez em castelhano textos de Adorno, Benjamin, Szondi, e de outros destacados escritores alemães contemporâneos. A revista incorporou também os universitários María Luisa Bastos e Enrique Pezzoni, nos anos de 1960, que se esforçaram por ampliar o elenco de colaboradores e por absorver autores da nova narrativa latino-americana, sem ignorar, no campo da criação poética, figuras que adquiriram singular relevo, como Alberto Girri e Alejandra Pizarnik.

Para explorar com maior rigor esse ponto, devem ser levadas em conta, no âmbito nacional, as condições culturais e as novas formações que surgiram no campo liberal durante o peronismo, bem como, em seguida, os realinhamentos que se produziram a partir de sua queda, em 1955, nos quais é preciso incluir a autocrítica feita pelos intelectuais com relação a uma suposta incompreensão quanto às verdadeiras dimensões sociais desse movimento, virada de posição a que Sur não aderiu. As revistas Imago Mundi (1953-1956) e Contorno (1953-1959), por exemplo, surgiram como expressões de grupos de universitários. A primeira foi formada por professores excluídos da universidade peronista, decididos a conectar suas disciplinas com as tendências mais contemporâneas do mundo ocidental ignoradas no contexto universitário. Já a segunda formou-se a partir de jovens vinculados à Faculdade de Filosofia e Letras da UBA (Universidade de Buenos Aires), também descontentes com a miséria intelectual que imperava nas aulas. Todos se colocavam contra o peronismo e alguns deles – de José Luis Romero e Jaime Rest a Juan José Sebreli e David Viñas – escreveram também em Sur. Para além da ruptura provocada mais tarde por Contorno, na qual se torna evidente que as diferenças ideológicas se sobrepõem à clássica disputa entre os emergentes por uma posição de domínio no campo intelectual, o que há de mais importante com relação às transformações é, no caso da Imago Mundi, a tendência a um rigor profissional que abandonaria o ensaísmo, característico do estilo de Sur, abrindo caminho para a formação de novos tipos de intelectuais, em especial no âmbito das ciências sociais; e, em relação a Contorno, prevalecia um afã pela renovação da crítica literária e da visão da literatura argentina, sob uma perspectiva de denúncia, própria à figura do intelectual engajado. Neste último caso, nem a necessidade do contato com as literaturas estrangeiras nem a tradução fizeram parte do projeto da revista, que consistia principalmente em realizar "o inventário de nossa situação" para tentar, num primeiro momento, compreendê-la e, em seguida, modificá-la, objetivo que dificilmente poderia ser considerado atingido, a não ser no tocante ao plano específico da revisão da literatura argentina. Apesar dessas diferenças evidentes, a aparição de Crisis y resurrección de la literatura argentina (1954), de Abelardo Ramos, uma tosca contestação panfletária da "cultura europeizante", praticada, segundo o autor, por grupos como Sur, motivou uma agudíssima crítica de Ramón Alcalde, um dos integrantes mais rigorosos de Contorno, que, sem deixar de assinalar e ainda ridicularizar as limitações de Sur e de sua diretora, afirmava com contundência que "nossa cultura é européia e somente no interior da cultura européia podemos nos realizar com características próprias". A relação com a cultura européia constituía um tópico central do pensamento sobre o nacional e o americano para todas as correntes que formavam o campo intelectual dos anos de 1950. Pode-se dizer que foi precisamente durante esse período que se criou, entre os nacionalismos populistas de esquerda e de direita, a demonização desse elemento constitutivo da cultura argentina que é o seu olhar em direção à Europa.

Como complemento a essa abordagem de Sur, sob a perspectiva da história das elites intelectuais, poder-se-ia acrescentar, sem nenhuma pretensão exaustiva, uma referência a uma instituição independente, criada nos anos de 1930 e que perdurou até o princípio da década de 1960: o Colegio Libre de Estudios Superiores. Foi uma espécie de universidade paralela, de tendência liberal, com grande profusão de universitários e outros profissionais destacados pelas suas respectivas posições sociais e trajetórias intelectuais – alguns dos quais participaram também de Sur e de Contorno. Nas cátedras livres eram abordados temas de diversas disciplinas, como economia, filosofia, estudos sociais, história, pedagogia, literatura, psicologia e variados ramos da ciência, com um nível de especialização que rechaçava de forma explícita a mera divulgação. Tratava-se, claramente, de se opor à indigência intelectual e ao antiliberalismo retrógrado da universidade oficial. Independentemente dos projetos políticos dessa instituição, que conheceu momentos de forte expansão e outros de retrocesso, incluído aquele que resultou no fechamento, nos últimos anos do peronismo, de sua sede central em Buenos Aires, é significativa a comprovação de que seu declínio tem início em 1955, ou seja, quando muitos de seus integrantes passam a participar da universidade pública a que haviam tentado substituir, e alguns deles, como José Luis Romero e Gino Germani, ali ocupam cargos na hierarquia acadêmica e diretiva. Assim, o declínio do Colegio foi simétrico e inverso à recuperação da universidade, que a partir de 1956 passou a converter-se em um dos espaços mais prestigiados e dinâmicos do campo intelectual, numa virada que deixava relegado à categoria de diletante, ou amateur, o tipo de intelectual característico de Sur.

Quanto à cena internacional, deve-se prestar atenção nas posições que Sur assumiu durante a Guerra Fria, em particular em suas críticas à União Soviética. É portanto evidente que desde a segunda metade dos anos de 1950 a posição da revista nos debates ideológicos da época perde o consenso de que havia gozado até então, quando liberais e esquerdistas convergiam na denúncia contra o fascismo, o franquismo, o regime nazista e, pouco depois, o peronismo. Se, por um lado, Sur não aderiu à revalorização desse movimento praticado por alguns setores do campo intelectual, por outro lado foi, no período correspondente à Guerra Fria, bastante incisiva na publicação de críticas à repressão nos países que pertenciam à órbita soviética, algo que os setores da esquerda demoraram muito a reconhecer e cuja denúncia era, para eles, inadmissível. Assim, à medida que a parte mais dinâmica da vida intelectual movia-se em direção à esquerda, a desqualificação daqueles que criticavam o regime soviético e que não se haviam entusiasmado imediatamente com a revolução cubana, nem com a nova narrativa latino-americana, contribuiu para o desgaste da posição eminente de Sur no campo intelectual, no qual a problemática americanista havia reingressado em novos termos. Não obstante, a projeção latino-americana da revista manteve-se amplamente registrada nos testemunhos dos escritores do boom, como Guillermo Cabrera Infante, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario Vargas Llosa, que recordavam a avidez com que esperavam a revista em seus países e o acesso à literatura contemporânea obtido graças às traduções de Sur. Em 1971, a revista Casa de las Américas, apesar da notória oposição de Victoria Ocampo à revolução cubana, reconhecia que seria injusto negar o que a América Latina devia ao periódico argentino.

Um trabalho comparativo detalhado com outras revistas latino-americanas e argentinas desses anos, como Orígenes, Marcha, Mundo Nuevo, Casa de las Américas, e as já mencionadas Imago Mundi e Contorno, poderia contribuir para explicar o declínio de Sur, como uma forma do que Bourdieu chamou de vieillissement social. Isto é, não se tratava do mero envelhecimento biológico – algo que certamente afetava o núcleo histórico de Sur –, mas de um envelhecimento de posição, implicado na persistência reiterada numa maneira de ser e num estilo de intervenção, atitude freqüente nas empresas culturais de longa duração, que em geral tendem a se esquivar a mudanças irreversíveis. Isso se verifica em Sur, diante das profundas transformações do campo intelectual, nas décadas de 1960 e 1970. Para fornecer um contra-exemplo relativo a uma trajetória pessoal, poder-se-ia afirmar que Enrique Pezzoni, um dos mais talentosos jovens intelectuais incorporados a Sur na etapa de seu declínio, "rejuvenesce" na sua maturidade, à medida que se separa dos modos de ser de Sur, ainda que sem abandonar os títulos ali adquiridos, e alcança uma posição relevante na universidade da recuperação democrática dos anos de 1980.

O lento processo de declínio de Sur pode ser lido também nos dados da história interna da revista, que teve sua periodicidade diminuída junto com seu tamanho. Até 1970 foi bimensal e, a partir de 1971, bianual. Nessa última data, a revista abandonou drasticamente a busca pelas novidades, limitando-se a publicar números especiais sobre os colaboradores que haviam morrido ou números auto-antológicos em que, numa espécie de eterno retorno, voltava-se sempre para si mesma.

 

Transformações de um projeto

Ocampo atribuiu sempre a Frank um papel decisivo na fundação da revista e na definição do projeto inicial, ligado, segundo anunciava o primeiro número, ao propósito de conhecer e dar a conhecer o potencial da América aos europeus e aos próprios americanos. Contava, para tanto, com o auxílio dos viajantes culturais, como Ortega, Keyserling e o próprio Frank, e com o grupo de amigos que a rodeava. No entanto, como foi dito, a revista que Frank havia imaginado era bastante diferente da que Ocampo efetivamente fundou. A própria escolha do nome, para a qual Ocampo havia consultado Ortega y Gasset, esclarece um indício. Se o nome imaginado por Frank, Nuestra América, sintetizava sua utopia de reunir as partes separadas da América, o eleito por Ocampo, sublinhado por uma seta invertida que foi a marca de Sur, restringia o alcance desse espaço e assinalava a localização que a distinguia, tanto na geografia sul-americana (a área temperada, mais branca e mais modernizada) como no mapa do mundo (um finis terrae). Já no primeiro número, a trama das cartas trocadas entre amigos de ambos os continentes e as notas referentes às expressões da arte contemporânea revelavam uma vocação cosmopolita e modernizadora, característica dos intelectuais de países com menor capital cultural e literário na "república mundial das letras", e precisamente por conta dessa condição periférica a revista poderia ser considerada como, mais do que "americanista", americana.

Não é simples decidir se a problemática americana havia sido um objeto privilegiado das reflexões dos intelectuais argentinos ou um tema subordinado às interrogações sobre sua própria nacionalidade. Mas parece indubitável que, apesar de essa problemática circular com insistência pelo subcontinente a partir de fins do século XIX, em diversas publicações e encontros internacionais, não esteve muito presente entre os integrantes do núcleo histórico de Sur até que as visitas dos viajantes culturais – de Ortega e Hermann Keyserling até Frank, Reyes e Henríquez Ureña – a tivesse tornado ativa. O testemunho de alguém social e culturalmente tão próxima a Ocampo como María Rosa Oliver corrobora esse processo, quando conta em suas memórias que nas conversas com esses três últimos viajantes foi literalmente descobrindo a América e interando-se dos problemas que até então ignorava. Ocampo, por sua vez, fornece uma mostra emblemática na viagem entre exploratória e iniciática que realizou como prelúdio a sua decisão de empreender a publicação da revista: primeiro à Europa e dali aos Estados Unidos, para regressar, finalmente, cruzando o canal do Panamá e costeando o Pacífico. Ali, longe de encontrar "a América do tesouro oculto" que a revista revelaria aos europeus, descobria, em sua correspondência com Ortega, uma paisagem tão árida como a do mundo cultural que a rodeava em Buenos Aires. No entanto, Ocampo comprovava, com sentimentos encontrados ao desembarcar no Panamá, na zona dos bairros pobres onde se falava castelhano, que esses eram seu mundo e sua língua. Distante das tendências otimistas de algumas perspectivas americanistas que se haviam desenvolvido depois da Primeira Guerra, a imagem de um mundo despojado dos bens da cultura e habitado por "desterrados da Europa na América" é uma marca que atravessa a revista e encontra em Murena, de El pecado original de América, um expoente destacado.

A presença da temática americana, no entanto, é inegável nos primeiros números de Sur, e com registros variados que vão desde as mais previsíveis referências de viajantes, como as de Supervielle ou mesmo de Frank, até as de maior densidade reflexiva, sejam perspectivas antropológicas, como as de Alfred Métraux, ou culturais, como as de Ansermet, Reyes e Henríquez Ureña; desde as expectativas otimistas de Frank de fusões de ambas as Américas até o ceticismo precoce de Reyes. A partir de 1935, é possível perceber uma reorientação mais esperançosa, na chave pan-americanista, que culminará, no início dos anos de 1940, em um debate sobre relações interamericanas e em outro de título eloqüente: "As Américas têm um destino comum?". Certamente, com o avanço da década e com o estouro da guerra, a questão americana era capturada pela política da boa vizinhança do presidente Roosevelt, sem que Sur desse a devida conta das desigualdades entre ambas as Américas e muito menos da crítica ao imperialismo. É significativo considerar que a preocupação com a América Latina, praticamente eclipsada na revista, voltará mais uma vez associada a uma preocupação política, em um único número especial de 1965, sem dúvida motivado pelos efeitos da revolução cubana.

Nos primeiros anos de Sur, desponta, junto do americanismo, um tópico não anunciado que terá singular relevância: o da função dos intelectuais em um mundo ameaçado pelo avanço dos totalitarismos e pela massificação da cultura. Ambos os perigos foram tematizados num grande corpo de artigos escritos por colaboradores estrangeiros e locais que, dentro da heterogeneidade das correntes ideológicas a que pertenciam, coincidiam em assinalar: a responsabilidade das elites; a necessidade de lutar contra o fascismo com as armas próprias dos intelectuais, isto é, em nome dos valores universais da moral e da verdade; e o papel que corresponderia às minorias dirigentes na tarefa de manter os altos padrões culturais em face do avanço das multidões. No transcorrer desse tópico, desenha-se a figura ideal de intelectual que prevalece no grupo de Sur. Os nomes de Ortega e de Julien Benda são os que melhor resumem as posições desenvolvidas por figuras tão diversas como Nicolás Berdiaeff, Guglielmo e Leo Ferrero, Aldous Huxley, Archibald Mc Leish, Jacques Maritain, Emmanuel Mounier, Paul Valéry e até Jorge Luis Borges. Ocampo imprimiu nesse tópico uma característica particular, proclamando a necessidade de uma verdadeira pedagogia cultural.

Nessa virada, a figura de T. S. Eliot adquiriu uma dimensão emblemática. Em 1939, uma nota anônima aos leitores de Sur sobre o fechamento de The Criterion, a revista dirigida por Eliot, citava suas palavras:

Neste nada brilhante futuro próximo, e quiçá durante muito tempo, a continuidade da cultura deverá ser mantida por um pequeno número de pessoas – as menos providas de vantagens materiais. Não serão os grandes órgãos de opinião ou os velhos periódicos, mas os pequenos e obscuros diários e revistas (aqueles lidos quase que exclusivamente por seus colaboradores) a conservar vivo o pensamento crítico e alentar os autores com talento original.

Em 1948, por ocasião da entrega do Prêmio Nobel a Eliot, Ocampo repetiu essas palavras com um acréscimo significativo: "E hoje, como antes, mais do que antes, voltamos a citá-las, com a certeza de que também para nós os sinos dobram".

Ambas as datas, 1939 e 1948, falam por si mesmas das condições, num caso internacionais e no outro, locais, que motivavam uma visão tão pouco estimulante do trabalho que, ao mesmo tempo, era considerado irrenunciável. No entanto, os ecos das palavras pronunciadas por Eliot, com larga tradição no interior da crítica inglesa, reaparecerão com freqüência nos textos de balanço que Sur realizava pontualmente em seus aniversários. Três momentos bastarão aqui para mostrar a mudança de direção que Ocampo foi imprimindo à revista, até atingir uma nota de irritação indicativa do desencontro com as novas condições culturais. No primeiro momento, em 1940, a propósito do décimo aniversário da revista:

[...] o que nos inquietava [...] era o problema de um continente cuja união desejávamos. Essa união existia para nós por meio do que, de fato, e obedecendo a uma lei espiritual, está sempre ligado: uma elite de escritores. Aristocracia cujos membros têm sempre parentesco estreito, como as famílias reais em outros tempos.

Em 1950, para o vigésimo aniversário: "Sur tem trabalhado durante vinte anos para criar uma elite futura. [...] Não tem tido outro propósito que o de oferecer ao leitor argentino certa qualidade em matéria literária, e aproximá-lo o máximo possível do 'nível de Henry James'".

Com a referência a Henry James, Ocampo está citando as palavras de James Laughlin, diretor das edições de New Directions, uma formação cultural norte-americana na qual reconhece "estreito parentesco" com Sur. Em 1960, nos trinta anos de fundação da revista, retoma as palavras de Laughlin, identificando-se com outro periódico nos seguintes termos não isentos de ironia: "De fato, apesar de suas colaborações nem sempre merecerem esta desqualificação (e nos lamentamos que assim seja), Sur é uma revista high-brow, decididamente high-brow. Como a Partisan [Review], sofre as conseqüências que esse tipo de aristocracia acarreta num mundo devoto da vulgaridade".

Nessa série de citações, percebe-se como o projeto inicial foi se reformulando, à medida que abandonava as bandeiras da causa americana e omitia toda a referência aos debates suscitados em torno das noções de compromisso e outras afins, que caracterizaram a primeira etapa de Sur, particularmente em relação à responsabilidade moral dos intelectuais diante do avanço dos totalitarismos: em primeiro lugar, em direção ao imperativo de pôr em dia um âmbito cultural que se julgava atrasado e, em seguida, na direção de assumir a missão das minorias intelectuais na formação de uma "elite futura" capaz de apreciar o melhor da literatura e, ainda que em menor medida, do pensamento e da arte, como uma forma de se opor à degradação da cultura provocada pela sociedade de massas. É fácil perceber a marca esnobe dessa escalada elitista – algo de que se encarregou uma vasta bibliografia –; entretanto, deve-se reconhecer que se trata, ao mesmo tempo, de um elitismo democratizador. Nessa reformulação, pesaram alguns modelos de revistas estrangeiras que sustentavam princípios ou projetos coincidentes: Revista de Occidente, Commerce, The Criterion, New Directions, Partisan Review. Da importância que a tradução foi adquirindo em Sur nessa virada, dada a condição do país de receptor de literaturas estrangeiras, própria de culturas como a argentina, dão conta os sumários da revista e numerosos empreendimentos editoriais bastante conhecidos. Se bem compreendida, é possível considerar que essa política cultural era congruente com as idéias que Borges expôs em "El escritor argentino y la tradición": temos direito a todo o patrimônio cultural da literatura universal. Como resultado dessa política, Sur encontrou seus verdadeiros leitores para além de "seus colaboradores", nos círculos cultos de todo o âmbito hispano-americano, nos quais alcançou uma posição de liderança até que as mudanças da maré, a partir dos anos de 1960, deslocaram-na para um lugar marginal.

 

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Texto recebido em 6/3/2007 e aprovado em 6/3/2007.

 

 

Tradução de Fábio Cardoso Keinert
María Teresa Gramuglio é professora associada da Facultad de Filosofía y Letras da Universidad de Buenos Aires (UBA), professora titular da Facultad de Humanidades y Artes da Universidad Nacional de Rosario (UNR) e pesquisadora associada do Consejo de Investigaciones da Universidad Nacional de Rosario (CIUNR). E-mail: mgramugl@fibertel.com.ar.