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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.19 no.1 São Paulo June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702007000100006 

DOSSIÊ - HISTÓRIA SOCIAL DOS INTELECTUAIS LATINO-AMERICANOS

 

Ciências sociais no Cone Sul e a gênese de uma elite intelectual (1940-1965)

 

Social sciences in the Southern Cone and the birth of an intellectual elite (1940-1965)

 

 

Alejandro Blanco

 

 


RESUMO

Este trabalho reconstrói o processo de constituição e ascensão de uma nova classe de produtores intelectuais, a dos cientistas sociais, detentores de uma competência intelectual e técnica exclusiva, e depositários de uma formação acadêmica inovadora. De um lado, são examinadas as distintas iniciativas e os principais dispositivos culturais e institucionais de difusão e implantação da sociologia moderna em alguns países da América Latina, assim como as trajetórias intelectuais de seus principais protagonistas; e, de outro, o contexto intelectual e político mais geral em que ocorreu esse processo, em especial o papel desempenhado por uma série de organismos regionais e internacionais na formação de uma rede intelectual.

Palavras-chave: Ciências sociais; Institucionalização; Elite intelectual; Trajetórias intelectuais; Organismos internacionais.


ABSTRACT

This work reconstructs the formation and rise of a new class of intellectual producers, the social scientists, owners of an exclusive intellectual and technical expertise, and recipients of an innovative form of academic training. Firstly, the text examines the distinctive initiatives and the main cultural and institutional devices used in the spread and implementation of modern sociology in a number of Latin American countries, as well as the intellectual careers of its main protagonists. Secondly, it looks at the overall intellectual and political context in which this process occurs, especially the role performed by a series of regional and international institutions in forming an intellectual network.

Keywords: Social sciences; Institutionalization; Intellectual elite; Intellectual careers; International institutions.


 

 

Em meados dos anos de 1960, Gino Germani reconhecia com satisfação que na América Latina

[...] havia aparecido um novo tipo de sociólogo, o "cientista social" [...] dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de sua disciplina [e que] havia começado a substituir nas universidades mais importantes do continente o antigo professor, advogado, político, administrador, para quem a cátedra universitária era o apêndice honorífico de sua profissão principal [...] (Germani, 1964, p. 1).

Nesse momento, as ciências sociais haviam se autonomizado no sistema de educação superior, a partir do estabelecimento de carreiras e cursos de sociologia (de graduação e pós-graduação), e, com isso, uma nova classe de produtores intelectuais, a dos cientistas sociais, detentores de competência intelectual e técnica exclusiva, depositários de formação acadêmica inovadora e auto-representados como uma elite intelectual moderna, ingressava na vida pública e intelectual das sociedades da América Latina.

Quais foram as condições gerais e específicas que possibilitaram a emergência dessa nova categoria de produtores culturais? Em que contexto ocorreu essa renovação intelectual e quais foram os dispositivos institucionais que lastrearam essa nova atividade intelectual? Quem constituiu essa nova elite intelectual? Em torno de quais lideranças se formou a nova ciência social? Quem patrocinou a implantação desses novos empreendimentos intelectuais?

Em princípio, a emergência dessa nova elite intelectual resultou da conjunção de uma série de iniciativas domésticas desses novos produtores culturais a favor de uma renovação radical das ciências sociais e da pressão exercida por uma série de organismos internacionais e regionais, em defesa da modernização da educação superior em geral e da ciência social em particular. Com efeito, e como soe ocorrer com toda inovação intelectual e institucional relevante, o reconhecimento público de que gozou por um tempo a "sociologia científica" na América Latina – tanto que seria invocada aqui e ali como o modelo da sociologia tout court – deveu-se à conjunção singular de quadros de recepção mais ou menos favoráveis e ao esforço, militante e denodado, de autopromoção por parte de seus principais impulsores. Mas o fenômeno foi menos o resultado de uma ação concertada ou planejada do que o fruto de uma série de iniciativas locais, regionais e internacionais, de diferentes operações culturais, assim como de projetos de diferentes atores com interesses políticos, cognitivos e institucionais diversos, que gradualmente, e em virtude de uma série de condições políticas e institucionais, resultaram convergentes e alcançaram um importante grau de articulação.

Este trabalho explora, então, o processo constitutivo e a ascensão desse segmento das elites intelectuais, por meio de uma reconstrução das distintas iniciativas e dos principais dispositivos culturais e institucionais de difusão e implantação. Ainda que o título deste artigo remeta às ciências sociais, a investigação terá como foco, a rigor, a sociologia. Entre outras razões porque no período estudado foi essa disciplina que liderou o movimento de renovação intelectual. Uma segunda delimitação concerne à área geográfica. Como seu título indica, o trabalho focaliza a experiência que teve lugar no Cone Sul e deixa um pouco de lado outras igualmente importantes – sobretudo a mexicana e a brasileira.

 

Institucionalização

É bem conhecida a implantação precoce do ensino de sociologia nas universidades de alguns países da América Latina. Em 1877, foi criado na cidade de Caracas, Venezuela, um Instituto de Ciências Sociais e, anos mais tarde, em 1882, a Universidade de Bogotá abriu o primeiro curso de sociologia no mundo, antecipando-se assim em dez anos ao inaugurado em Chicago em 1892. Daí em diante, esse processo se expandiu: 1898 em Buenos Aires; 1900 em Assunção; 1906 em Caracas, La Plata e Quito; 1907 em Córdoba, Guadalajara e Cidade do México. Até os anos de 1920, o ensino de sociologia já estava estabelecido em quase todos os países da América Latina, em várias universidades (cf. Poviña, 1941).

Contudo, é em torno dos anos de 1940 que a sociologia experimenta, ainda que com ritmos e intensidades desiguais, um processo mais firme de institucionalização. Aparecem os primeiros centros de ensino, as primeiras instituições especializadas em estudos sociológicos, as primeiras publicações oficiais, as primeiras coleções de livros e, também, algumas organizações formais da disciplina. Ainda que no Brasil a implantação do ensino de sociologia tenha sido um fenômeno relativamente tardio, de 1930 em diante, a disciplina cresceu mais rápido do que em outros países da região. Em 1933, foi criada em São Paulo a primeira escola de sociologia, a Escola Livre de Sociologia e Política, antecipando-se em mais de vinte anos às que apareceram em outros países, e, em 1934, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. No México, Lucio Mendieta y Núñez pôs em funcionamento o Instituto de Pesquisas Sociais na Universidade Nacional Autônoma do México (1939) e, no ano seguinte, na Argentina, foram criados o Instituto de Sociologia, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, e o de Investigações Econômicas e Sociológicas, na Universidade Nacional de Tucumán, dirigidos por Ricardo Levene e Renato Treves, respectivamente.

Também nesses anos foram editadas as primeiras publicações especializadas: Sociologia, em São Paulo (1939), Revista Mexicana de Sociología (1939), Revista Interamericana de Sociología de Caracas (1939) e Boletín del Instituto de Sociología, da Universidade de Buenos Aires (1942), entre outras. Também as primeiras coleções de livros: "Sección de Obras de Sociología", editada pela Fondo de Cultura Económica, sob a direção de José Medina Echavarría, "Biblioteca de Sociología", da editora Losada, dirigida por Francisco Ayala, "Ciencia y Sociedad" e "Biblioteca de Psicología Social y Sociología", ambas sob a direção de Gino Germani, nas editoras Abril e Paidós, respectivamente. Constituem-se no período, ainda, algumas das organizações formais da disciplina, como a Academia Argentina de Sociologia, a Sociedade Brasileira de Sociologia e a Sociedade Mexicana de Sociologia. A criação, em 1950, da Associação Latino-Americana de Sociologia, a primeira associação regional do mundo, selou esse primeiro capítulo de institucionalização da sociologia, uma vez que garantiu ao processo um forte acento regional – que logo seria amplificado pela nova geração (cf. Blanco, 2006).

O estabelecimento do ensino é, portanto, anterior ao da "sociologia científica". Vejamos como isso ocorreu. Em princípio, e na falta de um estatuto independente, o ensino da disciplina, com exceção da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, não pretendia formar sociólogos, mas oferecer a estudantes de outras carreiras uma espécie de complemento cultural relativo ao conhecimento dos fenômenos sociais. Nesse sentido, a inserção da sociologia no contexto universitário não era a de uma disciplina autônoma, mas "auxiliar" das – ou subordinada às – disciplinas já estabelecidas, fundamentalmente o direito e a filosofia. Uma rápida análise morfológica revela que a maioria dos professores de sociologia era formada em direito. Além disso, o ensino era, freqüentemente, apenas uma atividade secundária. Algumas trajetórias indicam, também, que a carreira intelectual não se dissociava da carreira política. Os sociólogos podiam ser profissionais da sociedade ou professores universitários, mas não se esperava que realizassem investigações empíricas. A maioria deles desconfiava da sociologia empírica, identificada com a sociologia norte-americana, tida como "aplicada", "naturalista" ou "como mero catálogo de fenômenos sociais", mas sempre negativamente. Também a produção intelectual dessa geração de sociólogos revelava seu perfil intelectual: o ensaio político, a história das idéias, o manual e o tratado tornaram-se os gêneros mais difundidos.

Foi nesse contexto que se manifestaram os primeiros sinais de insatisfação intelectual, a favor de uma renovação radical no âmbito da sociologia. Formou-se um movimento intelectual que pretendia constituí-la como ciência empírica. Nos meios de língua espanhola, o livro pioneiro nessa direção foi Sociología: teoría y método, de José Medina Echavarría, publicado em 1941, obra que Germani saudaria décadas mais tarde como a que teria iniciado "a onda da sociologia científica na América Latina". No prólogo à primeira edição, Medina Echavarría escrevia:

Uma ciência sociológica não pode existir sem teoria e sem técnica de pesquisa. Sem uma teoria, isto é, sem um quadro de categorias depurado e um esquema unificador, o que se chama sociologia não apenas não será uma ciência como carecerá de significação para a investigação concreta e a resolução dos problemas sociais do dia. Sem uma técnica de pesquisa definida, submetida a cânones rigorosos, a investigação social não apenas é infecunda, mas convida à ação sempre disposta do charlatão e do audaz. [...] A sociologia tem sido sempre castigada pela improvisação, e esta deve ser cortada pela raiz (1941, p. 8).

Como exemplo bem-sucedido dessa nova situação, Medina Echavarría mencionava o caso da "sociologia norte-americana" no capítulo "A investigação social e suas técnicas". Essa referência remota à experiência norte-americana é muito significativa em um contexto em que a sociologia alemã constituía o universo de referência quase exclusivo entre os praticantes da disciplina (cf. Blanco, 2004). Poucos anos depois, a referência à sociologia norte-americana tornar-se-ia um dispositivo central de legitimação na renovação da disciplina.

Na Argentina, os primeiros sinais dessa mudança foram sentidos no Instituto de Sociologia de Buenos Aires, por meio da figura de Gino Germani. Aqui também a renovação da disciplina associou-se a esse duplo movimento presente em Medina Echavarría: fazer da sociologia uma ciência empírica e aplicada, tomando como referência principal a sociologia norte-americana. Em um ensaio desses anos, ao tratar das relações entre sociologia e planificação, Germani sustentava que "a sociologia não pode deixar de ser uma ciência empírica e indutiva se verdadeiramente pretende cumprir sua função orientadora em uma sociedade que se encaminha para a planificação" (Germani, 1946a). Essa declaração adotou a forma de um argumento mais sistemático em um ensaio inédito redigido em 1946, Teoría e investigación en la sociología empírica (cf. Germani, 1946b), voltado precisamente ao exame da "possibilidade de uma ciência empírica da realidade social", e cujos argumentos seriam reunidos dez anos mais tarde em La sociología científica: apuntes para su fundamentación, uma espécie de manifesto do movimento de renovação. Com efeito, o texto reunia os pontos que aqui e ali haviam sido assinalados como parte dessa reforma radical dos ideais intelectuais da disciplina, fundamentalmente o de incorporar a investigação social e suas técnicas às tarefas da sociologia, sublinhando ao mesmo tempo a relevância da teoria na investigação social.

Isolados inicialmente, todos esses sinais de renovação adquiriram, até a segunda metade dos anos de 1950, a forma de um movimento mais amplo e sistemático. José Medina Echavarría, Florestan Fernandes e Gino Germani foram, talvez, suas figuras mais expressivas, mas não as únicas. Luiz de Aguiar Costa Pinto falaria do "variado contingente de aventureiros" para destacar o campo da pesquisa social e, do Chile, Eduardo Hamuy lamentava-se pelo fato de que "o ambiente de nosso país considera o sociólogo um ser acadêmico ou um aficcionado entusiasta no lugar de um investigador sério e científico dos problemas sociais" (Brunner, 1985). Expressões semelhantes seriam pronunciadas por ocasião do V Congresso Latino-Americano de Sociologia, ocorrido em Montevidéu no ano de 1959, por C. A. Campos Jiménez, da Costa Rica, J. R. Arboleda, da Colômbia, e J. A. Silva Michelena, da Venezuela. Finalmente, do México, Pablo González Casanova iniciava um protesto parecido na Escola Nacional de Ciências Políticas e Sociais. Por meio dessas figuras, e no transcurso de poucos anos, teria início a montagem de uma aliança fundada na reconhecida necessidade de uma reorganização intelectual e institucional da disciplina.

De todo modo, iniciou-se uma disputa entre os que reclamavam a identidade de sociólogos. O conflito dividiu o campo em duas facções: a dos "sociólogos de cátedra" e a dos "sociólogos científicos". Ambos lutavam pelo controle desse campo intelectual, almejavam para si a identidade de sociólogos e aspiravam representar nacional e internacionalmente a disciplina. Aos olhos dos renovadores, os já estabelecidos tinham uma formação paroquial e antiquada, limitada ao conhecimento enciclopédico das principais tradições e escolas de sociologia. Os novos, diferentemente, declaravam-se portadores dos rudimentos da "nova ciência" (que alguns haviam assimilado nos Estados Unidos e outros adquiriram por seus próprios meios e de maneira artesanal em seus ambientes de origem) e lutavam contra a velha geração de sociólogos – daí em diante tratados de forma pejorativa como ensaístas ou amadores da sociologia –, munidos do conhecimento das novas metodologias e técnicas da investigação social.

Certamente, a emergência daquelas lutas deve ser compreendida em função de um novo contexto internacional, caracterizado por uma profunda transformação intelectual na cultura das ciências sociais, assim como pelo surgimento de uma série de organizações e instituições consagradas à promoção e ao estabelecimento das ciências sociais no sistema cultural em geral e no sistema de educação superior, em particular.

A partir do segundo pós-guerra, as ciências sociais experimentaram uma série de mudanças significativas como parte de uma transformação mais ampla na cultura intelectual. Em termos muito gerais, tais mudanças caracterizaram-se por "um declínio da reflexão especulativa e filosófica e um otimismo generalizado acerca dos resultados que seria de se esperar, dado que se logrou um firme fundamento científico e empírico" (Bernstein, 1982, p. 27). A convicção de que as ciências sociais diferem apenas em grau, mas não em gênero, das ciências naturais começou a difundir-se entre os cientistas sociais e cresceu a expectativa por grandes avanços, uma vez que as técnicas que se haviam mostrado eficazes para o entendimento científico da natureza foram imitadas, modificadas e adaptadas ao universo das disciplinas que se ocupam da sociedade (cf. Wallerstein, 1996). O desenvolvimento dos métodos e técnicas de pesquisa, especialmente das técnicas quantitativas, ampliaram aquelas expectativas e colocaram pela primeira vez as ciências sociais no centro da atenção e da esperança públicas (cf. Bell, 1984). A pesquisa adotou um caráter marcadamente interdisciplinar. As vinculações da sociologia com a história, a antropologia e a psicologia tornaram-se mais fluidas do que no passado e o centro ou instituto de investigação foi adotado como matriz institucional para o desenvolvimento da investigação social.

Tais mudanças afetaram de modo significativo a tradição da sociologia. As tradições clássicas da sociologia formaram-se em torno dos anos de 1920 nos países europeus que naquele momento ocupavam o centro da vida intelectual: Alemanha, França e Inglaterra. No segundo pós-guerra, no entanto, e por diversas razões, a sociologia norte-americana tornou-se central e a sociologia européia, periférica. Em princípio, tal mudança seria favorecida pela precoce e sólida institucionalização alcançada pela sociologia nos Estados Unidos durante as primeiras décadas do século XX, em oposição ao que ocorreu nos países europeus, nos quais ela continuou ocupando um lugar marginal no sistema acadêmico das universidades. Seu epicentro foi a Universidade de Chicago, mas rapidamente se estendeu a grande parte do sistema universitário, em especial Columbia, Harvard e Berkeley, que se converteram nos novos centros das ciências sociais e no lugar de assimilação de seu métier (cf. Shils, 1970).

 

Trajetórias e lideranças intelectuais

Quem tomou parte dessa nova elite intelectual? Em torno de quais lideranças se constituiu a nova ciência social? Se bem que algumas tenham sido mais expressivas do que outras, o processo que conduziu à implantação das modernas ciências sociais articulou-se em torno de certas figuras intelectuais que exibiram, algumas mais do que outras, uma enorme capacidade de liderança intelectual e organizacional, essencial para esse empreendimento acadêmico.

Curiosamente, alguns líderes foram estrangeiros, ainda que dois deles, Gino Germani e José Medina Echavarría, residissem havia certo tempo na Argentina e no México, respectivamente. O primeiro, de origem italiana, chegara à Argentina em 1934; o segundo, nascido na Espanha, aportara no México em 1939. Outros dois, mais jovens, Peter Heintz e Johan Galtung, eram respectivamente suíço e norueguês. Nesse sentido, essa parte da história das ciências sociais na América Latina pode ser lida também como outro capítulo do importante papel jogado pela "imigração intelectual" européia na implantação das ciências sociais no século XX.

Foi parte dessa geração de sociólogos que, nas décadas de 1950 e 1960, produziu uma profunda renovação das ciências sociais na América Latina, combinando a tradição mais empírica, norte-americana, com a da "grande teoria", do velho continente. José Medina Echavarría e Gino Germani foram, talvez, seus representantes mais destacados. A trajetória da maioria deles está associada à criação, em alguns casos, ou ao impulso, em outros, das principais instituições das ciências sociais da América Latina. Alguns foram verdadeiros construtores de instituições. A custa de talento e perseverança em um meio muitas vezes pouco hospitaleiro aos seus empreendimentos, edificaram algumas das instituições culturais decisivas para a implantação e a legitimação das ciências sociais na América Latina: editoras e publicações especializadas, escolas de sociologia e centros regionais de ensino e pesquisa.

Dois deles foram editores e tradutores exemplares. Em 1939, com a derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola, Medina Echavarría emigrou para o México e assumiu a direção da coleção "Sección de Obras de Sociología", do Fondo de Cultura Económica, uma editora fundada por Cosío Villegas em 1934. Em muito pouco tempo, o Fondo se consolidaria como uma das editoras de maior prestígio em ciências sociais na América Latina, com sucursais na Argentina, no Uruguai, no Chile, no Peru, na Colômbia, no Brasil e na Venezuela (cf. Díaz Arciniega, 1996). Até a primeira metade dos anos de 1940, teria coleções de "Economia" (1935), "Política e Direito" (1937), "Filosofia" (1942) e "Antropologia" (1944). Por intermédio de sua coleção, Medina Echavarría disponibilizou aos leitores latino-americanos inúmeros textos sociológicos. Editou Weber, Mannheim, Tönnies, Veblen, Pareto, Mac-Iver, Lundberg, Znaniecki e Linton, entre outros. Na segunda metade dos anos de 1950, quando Gino Germani viabilizava a primeira carreira de sociologia na Argentina, José Luis De Imaz, um dos primeiros aspirantes, comunicou-lhe sua intenção de estudar sociologia e, diante da pergunta de Germani a respeito do que sabia ou havia lido, De Imaz respondeu: "Disse que havia lido todo o Fondo de Cultura Económica. Ou seja, a coleção de ciências sociais que o Fondo havia publicado. Era uma maneira de simplificar, mas também uma definição" (De Imaz, 1977, p. 125).

Nessa época, Germani fez o mesmo na Argentina. Desenvolveu um imenso trabalho de difusão intelectual como diretor das coleções "Ciencia y Sociedad", na editora Abril, e "Biblioteca de Psicología Social y Sociología", na editora Paidós. Traduziu e escreveu prólogos e estudos preliminares a obras estrangeiras e se converteu no importador de uma literatura relativamente desconhecida nos meios intelectuais locais. Com ela, dotou a disciplina em particular e as ciências sociais em geral de um novo "quadro de referências". Fromm, Mead, Horney, Malinovski, Popper, Parsons e Mills foram alguns dos que integraram esse novo quadro. Seu esforço editorial operou como um poderoso agente cultural de difusão e legitimação de novas idéias, de novos vocabulários e de novos esquemas conceituais. Ampliou as fronteiras da disciplina em comparação com o modo como ela havia sido concebida até então, ampliando seu escopo por meio de diferentes tradições, intelectuais e disciplinares (cf. Blanco, 2006).

Nos anos de 1940, alguns deles – especialmente José Medina Echavarría, Gino Germani e Luiz de Aguiar Costa Pinto – foram decididamente mannheimianos em sua concepção de ciência social, pensada como "saber de orientação". Durante um bom tempo, Karl Mannheim foi uma referência central e uma das mais importantes fontes formadoras das concepções do mundo moderno encampadas por todos eles. Medina Echavarría foi seu tradutor e principal divulgador. Em 1943, reuniu um conjunto de ensaios com um título obviamente mannheimiano, Responsabilidad de la inteligencia: estudios sobre nuestro tiempo. Com esse viés, que supunha uma ciência social consagrada às tarefas da "planificação social" – fórmula que pouco depois seria destacada na expressão "desenvolvimento econômico" –, essa geração de sociólogos latino-americanos encontrou um modo de atribuir um papel histórico à sociologia como técnica social em condições de intervir e submeter ao controle racional os processos de mudança social, como um modo de disputar a autoridade intelectual com a elite em nome de uma nova competência intelectual. A centralidade de Mannheim nessa geração foi, sem dúvida, um elemento importante no nascimento de uma tradição da ciência social que asseguraria aos cientistas sociais o lugar da intelligentsia do mundo moderno.

Todos eles avaliavam de maneira positiva a sociologia norte-americana – e estavam relativamente familiarizados com ela – e, desde muito cedo, haviam enfatizado sua importância. Na segunda metade dos anos de 1930, José Medina Echavarría havia planejado estudar sociologia nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas o início da Guerra Civil frustrou seus planos. Em um ensaio redigido nesses anos, dizia: "[...] é evidente que o centro da produção sociológica em língua inglesa corresponde, neste momento do século, aos Estados Unidos, onde a sociologia alcança um desenvolvimento extraordinário e tem uma significação positiva na cultura e na educação" (Medina Echavarría, 1940). Em Sociología, teoría y técnica avaliou a sociologia norte-americana, apesar de certas limitações, como um exemplo bem-sucedido de atualização da disciplina na direção de uma moderna ciência empírico-analítica. Os primeiros escritos de Gino Germani na metade dos anos de 1940 revelam que tinha um conhecimento profundo, não usual entre os sociólogos de então, da sociologia norte-americana (cf. Blanco, 2006). Em Teoría e investigación en la sociología empírica, dedicou um capítulo extenso à sociologia norte-americana; em 1957, esteve por três meses em visita a universidades e centros de pesquisa do exterior, em sua maioria norte-americanos, examinando alternativas de organização da disciplina. Entabulou relações com Talcott Parsons, Robert Merton, Paul Lazarsfeld, e com uma série de pesquisadores e professores que, pouco depois, seriam convidados a lecionar no brilhante departamento de sociologia por ele fundado. Descontente com o ensino de sociologia no Chile naquele momento, limitado à exposição e ao comentário dos grandes sociólogos dos séculos XIX e XX, Eduardo Hamuy decidiu emigrar para os Estados Unidos, mais precisamente para a Universidade de Columbia, então um dos centros acadêmicos mais expressivos no desenvolvimento dos métodos e técnicas modernos da investigação social. Nos anos de 1940, Luiz de Aguiar Costa Pinto conheceu Donald Pierson, mas suas intenções de doutorar-se na Universidade de Chicago foram frustradas pela embaixada dos Estados Unidos, que se recusou a lhe conceder o visto de entrada no país (cf. Chor Maio e Villas Bôas, 1999). Como professor da Flacso, Peter Heintz, que se havia formado em sociologia na Alemanha sob a orientação de René König, um dos sociólogos alemães do pós-guerra mais abertamente partidários de uma sociologia entendida como "ciência empírica" e bastante receptivo à influência da sociologia norte-americana, foi praticamente o primeiro a difundir a concepção mertoniana da sociologia, entendida como uma disciplina composta de teorias de médio alcance (theories of the middle range). Antes de seu ingresso na Flacso, Johan Galtung, discípulo de Paul Lazarsfeld, havia ensinado metodologia de pesquisa na Universidade de Columbia.

Todos eles compartilhavam um horizonte comum de preocupações intelectuais, relativo às necessidades de uma modernização radical da sociedade; unia-os, igualmente, uma visão comum da ciência social como ciência empírica (não obstante as diferenças de grau entre suas perspectivas) e um comum rechaço a todas as formas do ensaísmo e da filosofia social: o abandono de uma forma cultivada de exposição em nome da precisão das idéias foi um artigo de fé doutrinário que agitaram contra a geração predecessora. Escolheram o radicalismo científico como forma de proteção e auto-afirmação intelectual, e legitimaram a reivindicação ao monopólio próprio e autônomo do conhecimento em nome da ciência e da "solução racional" aos problemas sociais. Procuraram deliberadamente distinguir-se dos grupos intelectuais tradicionais, defendendo um novo padrão de trabalho intelectual, regido por normas, procedimentos, valores e critérios acadêmicos e científicos de validação (cf. Miceli, 1989). Em pouco tempo, articularam-se para criar seus próprios centros de treinamento e aprendizagem intelectual e profissional, e também circuitos e instituições de intercâmbio intelectual. Todos eles cultivaram (ou aspiraram a cultivar) o trabalho intelectual como um fim em si mesmo, isto é, como uma atividade profissional permanente de docência e pesquisa. A universidade constituiu o centro de suas realizações pessoais, o espaço de sociabilidade intelectual, a instância decisiva de reconhecimento do mérito científico e intelectual, o horizonte último, por fim, de suas expectativas, e o centro de sua vida pessoal (afetiva e profissional). Pela possibilidade dessa vida acadêmica, esses novos produtores culturais fundaram sua posição e sua imagem como uma nova elite intelectual.

 

As primeiras operações

Em meados dos anos de 1950, Eduardo Hamuy, no Chile, e Gino Germani, na Argentina, encontraram um terreno favorável para a renovação do ensino da disciplina. Cada um a sua maneira logrou estabelecer os primeiros dispositivos institucionais de difusão e implantação da "sociologia científica" no Cone Sul. Pouco depois, e com a colaboração de organismos internacionais distintos, essas iniciativas locais adquiriram dimensão continental a partir dos primeiros centros regionais de ensino e pesquisa.

Sem dúvida, o ingresso da "sociologia científica" no Chile associa-se aos esforços e iniciativas de Eduardo Hamuy. Ele estudara direito e filosofia na Universidade do Chile e, no final dos anos de 1940, dirigiu-se à Universidade de Columbia para completar sua formação em sociologia. Apesar de não ter concluído o doutorado, freqüentou cursos que tratavam exclusivamente de métodos de pesquisa. "Não estava interessado nos problemas teóricos porque poderia estudá-los sozinho" – recordaria mais tarde – "[...] queria aprender os métodos de investigação social que não podiam ser assimilados nos livros [...] queria saber como conduzir uma pesquisa social" (Fuenzalida, 1983). Ao mesmo tempo, foi designado professor-visitante no City College de Nova York, onde realizou tarefas de docência e de investigação, dirigindo uma pesquisa sobre as condições de vida dos porto-riquenhos em Nova York (o que implicou uma estadia em Porto Rico). Finalmente, entre 1950 e 1951, passou uma temporada na Universidade de Wisconsin como assistente de pesquisa. Quando regressou ao Chile, seu projeto de implantação de uma "sociologia científica" encontrou um contexto favorável na Faculdade de Filosofia e Educação da Universidade do Chile, e em especial da parte de seu decano, Juan Gómez Millas, que o colocou à frente do Instituto de Sociologia em 1952 (cf. Brunner, 1985).

A nomeação de Hamuy foi duramente criticada por aqueles que até então haviam controlado o ensino de sociologia no Chile. Seus oponentes o acusavam de ser apenas um "estatístico", de praticar a "agrimensura social", de encher o instituto de classificadores (sorters) IBM e, por fim, de pretender introduzir no Chile um tipo de sociologia que, como a norte-americana, era vista como técnica, e não como ciência. Em todo caso, em muito pouco tempo Hamuy transformou um velho instituto – que até então só existia no papel – numa moderna instituição de pesquisa. Garantiu sua estrutura, equipamentos e uma biblioteca, que, na opinião dos observadores, chegou a ser considerada a melhor da América Latina (cf. Rodríguez Bustamante, 1957). No final da década de 1950, o instituto assinava 140 revistas especializadas dos Estados Unidos, Europa, Japão, Índia e de agências das Nações Unidas.

Em torno de Hamuy, reuniu-se o primeiro núcleo de sociólogos científicos. Do grupo inicial, Hernán Godoy e Raúl Samuel, seus mais próximos colaboradores nesse projeto, foram à França para estudar sociologia e psicologia social, respectivamente. Mais tarde, Hamuy patrocinou a saída de Orlando Sepúlveda e Danilo Salcedo para os Estados Unidos, seguidos por Guillermo Briones. Finalmente, Luis Ratinoff foi para a Inglaterra. A esse grupo inicial se juntaram outros, como foi o caso de Enzo Faletto, que realizaria sua pós-graduação na Flacso. Na metade da década de 1950, o instituto começou a publicar suas primeiras pesquisas e, nesse momento, Hamuy já havia conseguido estabelecer uma rede de contatos e relações acadêmicas com universidades, centros de pesquisa e associações profissionais de nível internacional, em especial com o Centre d'Études Sociologiques de Paris. Fruto da ligação com este último foi a investigação conjunta iniciada em 1956 sobre a consciência dos trabalhadores de duas companhias chilenas em Lota e Huachipato, da qual participaram Alain Touraine, Jean-Daniel Reynaud, Lucien Brams e Torcuato Di Tella (cf. Di Tella, 1967).

Em 1940, depois de concluir seus estudos de filosofia na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, Gino Germani começou a colaborar no Instituto de Sociologia recentemente criado pelo historiador Ricardo Levene. Teve a seu cargo a seção de pesquisas de tal instituição, onde empreendeu uma pesquisa empírica pioneira sobre a classe média em Buenos Aires. Na segunda metade dos anos de 1940, entretanto, a violenta intervenção na universidade por parte das autoridades políticas que haviam recém-assumido o poder mudou o clima até aquele momento relativamente favorável, e as atividades do instituto praticamente cessaram.

A partir de então, e até meados dos anos de 1950, Germani desenvolveu intensa atividade intelectual em espaços não oficiais, como editor, tradutor e professor de sociologia e psicologia social no Colegio Libre de Estudios Superiores, uma instituição central da frente cultural de oposição ao peronismo. O desenvolvimento dessas atividades permitiu-lhe estabelecer uma importante rede de relações e obter legitimidade e reputação no campo cultural. Estreitou laços com instituições e figuras intelectuais como José Luis Romero e Risieri Frondizi, que seriam chaves no processo de reforma universitária pós-peronista e que, de algum modo, patrocinaram a incorporação da disciplina ao sistema universitário.

A modernização universitária iniciada após a queda do peronismo criou as condições favoráveis para a prédica de Germani a favor da "sociologia científica". Suas "credenciais" antifascistas o posicionaram de maneira favorável em relação à intelligentsia antiperonista. Em 1955, ele assumiu a direção do Instituto de Sociologia e, anos mais tarde, fundou o primeiro departamento e a carreira de sociologia na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. A disciplina, ensinada até então como matéria auxiliar de outras carreiras, tornava-se autônoma.

O desenvolvimento do programa enfrentava, entretanto, uma grave dificuldade: a falta de professores competentes, especialmente para o ensino das técnicas de pesquisa social. Para enfrentar esse problema, Germani utilizou duas estratégias. Empreendeu um programa intensivo de cooperação com professores e pesquisadores norte-americanos e europeus. Assim, no transcurso de poucos anos, desfilaram pela instituição uma vintena de professores do exterior – Alain Touraine, Aaron Cicourel, Kalman Silvert, Irving Horowitz, Peter Heintz, Bernard Rosemberg, entre outros –, convertendo o departamento em uma instituição semelhante a um centro internacional de estudo e pesquisa. A especialização no estrangeiro foi o segundo caminho adotado para a formação do corpo docente e de pesquisa. A viagem aos Estados Unidos constituía uma etapa importante na assimilação do métier que Germani considerava compatível com a nova cultura intelectual. Em poucos anos, quase todos os membros do novo departamento dirigiram-se ao exterior para se aperfeiçoar. A maioria foi para os Estados Unidos, outros foram para a Inglaterra e, alguns, para a França.

Em pouco tempo, Germani colocou em dia a disciplina, em termos intelectuais e institucionais. Garantiu a ela um repertório bibliográfico inovador e incorporou ao seu ensino a aprendizagem de técnicas de investigação social. Converteu o tradicional Instituto de Sociologia em um moderno centro de pesquisa, ensino, aprendizagem e experimentação das diferentes teorias, métodos e técnicas de investigação sociológica. Adaptou a disciplina ao padrão internacional de desenvolvimento que já havia começado a manifestar-se em todo o mundo nos primeiros anos do pós-guerra. Além disso, ampliou a pesquisa sociológica em função de uma nova série de objetos: a estratificação social, a imigração, a mobilidade social, o preconceito, o autoritarismo, a secularização, a urbanização, o desenvolvimento econômico e a modernização.

 

Um novo cenário internacional

Todas essas iniciativas foram favorecidas por um novo cenário internacional. Com efeito, a transformação experimentada pelas ciências sociais coincidiu com a campanha ativa e uma forte pressão de uma série de organismos internacionais – a Divisão de Ciências Sociais da União Panamericana, o Departamento de Ciências Sociais da Unesco, o International Social Science Council e agências filantrópicas como Ford e Rockefeller – determinados a difundir o modelo de um sistema intelectual moderno, voltado sobretudo ao desenvolvimento das ciências e da pesquisa empírica, especialmente das ciências sociais. Tratava-se de um programa de modernização do ensino e da pesquisa nas ciências sociais que deveria incluir, fundamentalmente, reformas nos planos de estudo e nos métodos de ensino, projetos de atualização bibliográfica e de unificação do vocabulário, criação de organizações profissionais das distintas disciplinas, e de centros e institutos de pesquisa. A campanha apoiou-se na reivindicação da necessidade de formar especialistas em ciências sociais que fossem capazes de levar a cabo investigações empíricas nas diferentes áreas de problemas enfrentados pelos países em vias de desenvolvimento.

A Unesco cumpriu a esse respeito um papel de grande importância. Em 1946, com o objetivo de outorgar às ciências sociais um estatuto independente das ciências naturais, foi criado o Departamento de Ciências Sociais. Em poucos anos, o efervescente departamento, comprometido com uma perspectiva internacional sobre as ciências sociais, promoveu a criação de associações internacionais das diversas disciplinas, de centros nacionais e internacionais de pesquisa e de um sistema de publicações de caráter internacional. A coroação de todos esses esforços de criação institucional foi a fundação do International Social Science Council, por volta de 1954 (cf. Lengyel, 1966; De Franz, 1969).

No caso específico da América Latina, as primeiras iniciativas provieram da União Panamericana que, em 1948, criou a Divisão de Ciências Sociais com o intuito de promover um programa "voltado a contribuir com o desenvolvimento dessas ciências [...] principalmente na América Latina, por ser esta uma região na qual as ciências sociais têm evoluído de forma mais lenta do que outras disciplinas" (Crevenna, 1951, p. 54). A nova agência pretendeu promover a interconexão dos cientistas sociais da região, apoiar o desenvolvimento dos aspectos técnicos e científicos dessas disciplinas, estimular a preparação dos cientistas sociais em centros de treinamento e fomentar a aplicação das ciências sociais para a formulação de soluções para os problemas sociais da região (cf. Crevenna, 1952). Dois anos mais tarde, a agência lançou o primeiro número de Ciencias Sociales, uma publicação bimestral dirigida por Theo Crevenna que se constituiu num dos agentes de difusão mais importantes dos novos rumos e perfis adquiridos pelas ciências sociais a partir do pós-guerra, e empreendeu um estudo, pioneiro em seu gênero, sobre a classe média na América Latina. Esta última empresa, dirigida pelo mesmo Crevenna, reuniu monografias de mais de trinta cientistas sociais norte-americanos e da América Latina e foi editada pela Unión Panamericana em seis volumes (cf. Crevenna, 1950).

Em 1947, foi criada a Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), um organismo das Nações Unidas com sede em Santiago do Chile por cujo intermédio a questão do desenvolvimento se converteu, mais ou menos na metade dos anos de 1950, no grande tema das ciências sociais na América Latina. Sob a liderança intelectual e organizacional de Raúl Prebisch, que assumiu a direção da instituição em 1950, a Cepal tornou-se o principal centro de influência teórico-doutrinária sobre a questão do desenvolvimento. O mesmo ocorreu com a sua concepção de ciência social. Sem tal influência, com efeito, sem esse conjunto de idéias, crenças e atitudes diferenciadas, é difícil pensar o extraordinário desenvolvimento e impulso que as ciências sociais conheceram na América Latina durante o período. Nesse ano (1950), foi publicado El desarrollo económico de latinoamérica y sus principales problemas, algo como o manifesto da nova instituição, que de algum modo propiciou o "descobrimento" socioeconômico da América Latina (cf. Hirschman, 1980).

Logo que assumiu a direção da Cepal, Prebisch reuniu um pequeno grupo de pesquisadores jovens, a maioria economistas, mas também alguns sociólogos – Víctor Urquidi, Jorge Ahumada, Aníbal Pinto, Cristóbal Lara e Celso Furtado, entre outros –, que constituiu uma espécie de "seita sociológica", com nexos pessoais muito intensos e animados por uma empenhada "missão" (cf. Hodara, 1987). Entre os sociólogos estava José Medina Echavarría, que se vinculou ao organismo em 1952, exercendo grande magnetismo nessa geração de cientistas sociais. Prebisch conhecera Medina Echavarría no México em 1944, durante as jornadas organizadas pelo Centro de Estudos Sociais do Colégio do México, então dirigido por Echavarría (cf. Lida e Matesanz, 1990). "Logo me cativou sua personalidade, pela profundidade de seu pensamento, pelo ar diáfano de sua expressão, pela força e vigor que tinha...", recordaria Prebisch anos mais tarde (cf. Cardoso, 1982, p. 15).

Em todo caso, foi essa ênfase, tão típica da Cepal, na importância dos fatores sociais e institucionais no processo de desenvolvimento, assim como sua perspectiva focada mais na experiência histórica do que nos modelos dos manuais de macroeconomia, que permitiram que se estabelecesse essa aliança entre economistas e sociólogos, tão característica da produção sociológica do período e marcada também pela posição de relevo dos sociólogos, preocupados com as questões sociais vinculadas ao desenvolvimento econômico. De acordo com essa nova posição, os problemas do desenvolvimento econômico latino-americano só podiam ser pensados em relação às características do sistema político, da estrutura social, do sistema de estratificação, da composição de suas elites políticas, econômicas, sociais e intelectuais, da natureza dos sistemas educativos e das taxas de crescimento da população, entre outros fatores. Daí em diante, a exploração dos "fatores favoráveis" ou "desfavoráveis" ao desenvolvimento tornar-se-ia praticamente uma obsessão de sociólogos, economistas e antropólogos. De qualquer modo, a implantação da problemática do desenvolvimento econômico não apenas arrancou as ciências sociais do isolamento no qual havia permanecido até então, como propiciou uma unificação de temas e programas na sociologia, que veio a conectar-se com uma expectativa ao mesmo tempo política e intelectual: o projeto de modernização da sociedade e de edificação de uma ciência do desenvolvimento e da mudança planificada.

Desde então, a situação das ciências sociais nos países da América Latina estaria no centro da atenção dos principais organismos internacionais. Nessa direção, em 1949, uma missão do Social Sciences Research Council enviou à América do Sul o antropólogo norte-americano Ralph Beals com o objetivo de verificar o estado das ciências sociais nessa parte do continente e avaliar as possibilidades de seu desenvolvimento (cf. Beals, 1950). No ano seguinte, o Departamento de Ciências Sociais da Unesco encarregou o sociólogo americano John Gillin de percorrer seis países da América Latina com o mesmo fim (cf. Gillin, 1953). Em 1952, por sua vez, o International Social Science Bulletin, editado pela Unesco, consagrou um número inteiro à situação das ciências sociais na América Latina (cf. ISSB, 1952), e durante esses anos o Departamento de Ciências Sociais da Unesco, dirigido então pelo sociólogo britânico T. H. Marshall, planejou uma série de seminários sobre ensino e pesquisa em ciências sociais na América Latina.

A conferência relativa aos países do Cone Sul, celebrada no Rio de Janeiro em 1956, seria decisiva para o futuro das ciências sociais na região. Nessa reunião, com efeito, ficou acordada a criação de dois centros, um deles dedicado ao ensino e o outro à pesquisa (cf. Cavalcanti, 1956), acordo que seria coroado no ano seguinte, quando uma conferência intergovernamental, que reuniu os representantes de dezenove países latino-americanos, aprovou a criação da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em Santiago do Chile, e do Centro Latino-Americano de Pesquisa em Ciências Sociais (Clapcs), no Rio de Janeiro. Este último começou a funcionar no mesmo ano de sua criação, sob a direção do sociólogo brasileiro Luiz de Aguiar Costa Pinto. No ano seguinte, foi iniciada a publicação de América Latina, o primeiro boletim regional em ciências sociais. A Flacso entrou em vigência no ano seguinte, a partir da criação da Escola Latino-Americana de Sociologia (ELAS), inicialmente sob a direção de José Medina Echavarría e depois do especialista da Unesco Peter Heintz. Assim teve início o primeiro curso regional de sociologia, uma criação institucional francamente inovadora, que transcendia os limites nacionais ou territoriais, com um programa nitidamente internacional, quer em relação aos estudos realizados e ao recrutamento dos professores, quer no que diz respeito à composição do corpo docente e à coordenação de suas atividades, inclusive o treinamento dos alunos. A renovação das ciências sociais e a correlativa emergência dessa nova elite de produtores culturais devem ser compreendidas, então, no cruzamento destes processos: o de uma institucionalização gradual porém firme das ciências sociais na região e o da adoção de um padrão internacional de desenvolvimento.

 

Infra-estrutura regional e formação de uma rede intelectual

A criação da Flacso e do Clapcs articulou e proporcionou um estatuto regional a uma série de iniciativas limitadas até então aos espaços nacionais. O comitê diretivo conjunto de ambas instituições foi formado por Gino Germani (Argentina), Orlando Carvalho (Brasil), Eduardo Hamuy (Chile), José Rafael Arboleda (Colômbia), Oscar Chavez Ezquivel (Costa Rica), Lucio Mendieta y Núñez (México), Isaac Ganón (Uruguai) e Salcedo Bastardo (Venezuela). Em 1959, Lucio Mendieta y Núñez foi substituído no comitê da Clapcs por Pablo González Casanova. Gustavo Lagos Matus e Luiz de Aguiar Costa Pinto foram designados diretores da Flacso e do Clapcs, respectivamente.

A Flacso era essencialmente um instituto de pós-graduação. Sua finalidade era a formação de especialistas em ciências sociais, com o propósito de complementar a formação oferecida pelas universidades da região. Com efeito, dada a escassez de fundos e a falta de recursos qualificados, as universidades nacionais não estavam, naquele momento, em condições de constituir centros nacionais de pós-graduação. A criação da Flacso foi pensada precisamente para superar esse obstáculo, e foi concebida como uma instituição interdisciplinar (sociologia, economia, administração pública, ciência política etc.), ainda que durante o período aqui considerado, e por razões de ordem financeira, suas atividades tenham ficado limitadas ao ensino de sociologia no âmbito de sua Escola Latino-Americana de Sociologia (ELAS) – já em 1965 seria criada a Escola Latino-Americana de Ciência Política e Administração. A ELAS, cujos objetivos centrais giraram em torno da "implantação de uma metodologia notadamente científica no exercício da disciplina na América Latina" e de uma "visão integral do desenvolvimento econômico e social", oferecia um curso de dois anos em sociologia para latino-americanos, articulado em torno de três pilares: teoria sociológica; metodologia geral e técnicas de pesquisa; aspectos sociológicos do desenvolvimento econômico e social. Dois princípios articulavam em termos pedagógicos o ensino: integração da metodologia e da teoria com a pesquisa.

A ELAS, que rapidamente converteu-se em um poderoso centro internacional e destino quase obrigatório de muitos aspirantes a uma formação pós-graduada em ciências sociais, cumpriu a esse respeito um papel notável na formação das primeiras gerações de sociólogos modernos ou científicos e, por conseguinte, na formação dessa nova elite intelectual. Proporcionou a seus aspirantes treinamento em pesquisa empírica e formação teórica, o que tornou possível a realização de investigações sofisticadas. Com uma vintena de formados por ano, essa escola contou com uma equipe reduzida de docentes: três professores em tempo integral, da categoria "pessoal docente superior", e dois em tempo parcial, da categoria "pessoal docente médio". O ingresso de alunos novos ocorria a cada dois anos, em função do número reduzido de professores. Durante os primeiros anos, e com o objetivo de desenvolver programas de cooperação científica, estabeleceu-se uma série de convênios com distintos centros universitários europeus e norte-americanos, em especial com a École Pratique des Hautes Études, com a Universidade da Carolina do Norte e com o National Opinion Research Center, da Universidade de Chicago.

O mentor do programa da ELAS foi Peter Heintz, que se havia formado em economia política na Universidade de Zurique e, mais tarde, em sociologia na Universidade de Colônia. Em 1957, já na condição de especialista da Unesco, elaborou um informe fortemente negativo sobre o ensino da disciplina nos principais países da América Latina (cf. Heintz, 1957). Segundo ele, o caráter predominantemente humanista desse ensino – que dificultava uma formação científica –, a crescente desvinculação entre o ensino universitário e a investigação científica, e a falta de preparação dos professores nos modernos métodos e técnicas de pesquisa aconselhavam uma urgente e "fundamental reorientação" do ensino da disciplina, que devia ser empreendida, segundo Heintz, pelas agências cujas atividades estavam diretamente dirigidas à "difusão de uma sociologia moderna nessa área do mundo" (Heintz, 1957, p. 75).

Em 1958, Heintz incorporou-se à Escola e, entre 1960 e 1965, assumiu sua direção. Filiado à concepção mertoniana da sociologia como ciência teórica e empírica, que seria refletida em seu Curso de sociologia (1960), a idéia geral do programa consistia em oferecer modelos de investigação com o fim de prover projetos de pesquisa relativamente simples para serem usados por todos os professores de sociologia da América Latina, como meios para um treinamento intensivo dos estudantes na "pesquisa empírica teoricamente orientada", e testar em contextos socioculturais diferentes uma série de hipóteses tomadas da literatura contemporânea sobre teoria sociológica (cf. Heintz, 1963). Os modelos de investigação de Heintz faziam referência a dez tópicos: orientações valorativas, expectativas crescentes das massas, socialização familiar, industrialização, urbanização, organização rural, potencialidades políticas das classes médias e baixas, organização racional, inovação tecnológica e novas elites.

O programa, segundo Heintz, devia combater a desconfiança em relação à teoria que havia sido gerada com a introdução da sociologia moderna na América Latina como rechaço ao predomínio da especulação ou da "filosofia social". A conseqüência imediata desse rechaço era a preferência por surveys ou por inventários meramente descritivos que, por não estarem precedidos nem seguidos de considerações teóricas explícitas, careciam de valor explicativo ou de predição. Contra isso, Heintz sublinhava que "a sociologia moderna é uma ciência empírica e teórica". Em tal sentido, os modelos de investigação estavam destinados a combater essa tendência refratária à teoria na sociologia e restabelecer um novo equilíbrio entre teoria e pesquisa empírica (cf. Idem, 1963).

Outra figura influente na ELAS foi o sociólogo e matemático norueguês Johan Galtung. Discípulo de Paul Lazarsfeld, sua principal especialidade era a metodologia da investigação social. "Foi nosso mentor" – disse Edelberto Torres Rivas, um de seus alunos na ELAS – "e, sem dúvida, o que mais influenciou naquele momento a formação de várias gerações de latino-americanos" (apud Bataillon, 2006). Em 1966, a seção de sociologia da editora Eudeba, assessorada por Germani, publicou em dois volumes suas aulas na Flacso, Teoría y métodos en la investigación social.

A experiência dos dois centros foi relativamente bem-sucedida. Durante a primeira década, a Flacso ofereceu cursos avançados em sociologia a 163 jovens licenciados, em sua grande maioria provenientes dos países do Cone Sul (43 do Chile, 32 da Argentina, 25 do Brasil e entre oito e doze do México, Peru, Colômbia e Uruguai). Nesse mesmo período, o Clapcs chegou a empreender 37 projetos de pesquisa vinculados a problemáticas distintas da América Latina, algumas delas iniciadas pelo próprio Clapcs e outras a pedido de outras instituições ou em colaboração com elas.

A Escola de Sociologia da Flacso não se limitou a articular esforços e iniciativas preexistentes, mas estimulou e promoveu em boa medida o cultivo das ciências sociais onde a infra-estrutura institucional era muito incipiente. Assim, por exemplo, a expansão e a institucionalização que a sociologia experimentou no Uruguai durante esses anos se beneficiaram enormemente do espaço institucional gerado em torno da Flacso e do Clapcs. Em princípio, Isaac Ganón, um dos principais animadores da sociologia no Uruguai, integrou o comitê diretivo de ambas instituições, e como parte dessa gestão Montevidéu foi incluída como uma das capitais investigadas na pesquisa sobre estratificação e mobilidade social. Além disso, a primeira geração de sociólogos uruguaios formou-se na Flacso (cf. De Sierra, 2005).

Numa perspectiva histórica, portanto, esses centros emergentes, tanto de planificação e desenvolvimento, como de ensino e pesquisa, cumpriram um papel estratégico no desenvolvimento e na expansão das ciências sociais na região. Não apenas contribuíram para a legitimação das ciências sociais nos diferentes países do Cone Sul, como também constituíram os espaços de formação de uma nova cultura intelectual em ciências sociais e de funcionamento das redes intelectuais e institucionais que operaram como um importante dispositivo institucional de promoção e difusão da sociologia científica ou moderna, e de articulação dessa nova elite de produtores culturais. Além disso, e quando a sociologia ainda possuía um caráter marcadamente regional antes da renovação, os centros também contribuíram para garantir esse caráter regional e ao mesmo tempo promoveram uma nova agenda de debates sobre a situação da América Latina: a estratificação e a mobilidade sociais, o autoritarismo, o desenvolvimento econômico e a modernização.

Em pouco tempo foi tecida uma poderosa rede de intercâmbio intelectual e de atividades conjuntas entre todas essas instituições e alguns de seus membros. Hamuy teve uma participação importante na organização dos aspectos referentes ao ensino nos primeiros anos da Flacso. Ademais, a própria sede da Flacso no Chile foi implantada propositadamente nas cercanias do Instituto de Sociologia dirigido por Hamuy. Ao que parece, foi também Hamuy quem convenceu José Medina Echavarría a assumir a direção da Escola Latino-Americana de Sociologia da Flacso. Em 1958, o Clapcs incluiu em seu programa de investigações uma pesquisa sobre estratificação e mobilidade social em quatro capitais da América Latina (Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santiago e Montevidéu), da qual participaram Gino Germani, Eduardo Hamuy, T. Pompeu Accioly, Isaac Ganón e um observador da Cepal, Gustavo Durán. Mais ainda, o documento de trabalho inicial, redigido em 1957 por Gino Germani, foi discutido esse ano em uma reunião celebrada no Instituto de Sociologia da Universidade do Chile, dirigido por Hamuy, aproveitando a participação de muitos dos que estiveram presentes no IV Congresso Latino-Americano de Sociologia, realizado no Chile.

O intercâmbio alcançou também atividades de ensino, formação de recursos e publicações. Muitos deles – Peter Heintz, Lucien Brams, José Medina Echavarría, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Gino Germani, Alain Touraine, George Friedmann – participaram indistintamente em atividades de ensino e de pesquisa na Flacso, no Departamento de Sociologia de Buenos Aires, no Clapcs e no Instituto de Sociologia da Universidade do Chile. Em Buenos Aires, Gino Germani promoveu na editora da Universidade de Buenos Aires, Eudeba, a edição de dois cursos da Flacso, o Curso de sociología, de Peter Heintz, editado originariamente por Andrés Bello no Chile, e o de Johan Galtung, Teoría y métodos en la investigación social (1966). Em sua própria coleção, Germani incluiu dois títulos de Luiz de Aguiar Costa Pinto, La sociología del cambio y el cambio de la sociología (1963), dedicado a Eduardo Hamuy e a Gino Germani, e Estructura de clases y cambio social (1964).

A realização, ao longo desses anos, de uma série de encontros internacionais, organizados e auspiciados pelos distintos organismos regionais e internacionais (ONU, Cepal, Flacso, Clapcs), não somente ampliou esse circuito de intercâmbio intelectual, como também operou como uma rede de organização e de programação da agenda temática que daí em diante dominaria o debate nas ciências sociais: a estratificação e a mobilidade social, a urbanização, o desenvolvimento econômico, a mudança social e política, entre outros.

Em 1961, durante a Conferência Interamericana sobre Pesquisa e Ensino de Sociologia, realizada em Palo Alto, Califórnia, a "sociedade intelectual" desses novos produtores culturais alcançou um momento expressivo com a criação do Grupo Latino-Americano para o Desenvolvimento da Sociologia. A reunião foi promovida pelo Social Science Research Council, o que mostra o importante grau de articulação internacional alcançado. Os argumentos formulados na declaração de propósitos, que foi firmada por Guillermo Briones, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Peter Heintz, Gino Germani e Orlando Fals Borda, eram os mesmos que se vinham repetindo nos diversos foros internacionais. Com efeito, se justificava a necessidade de adaptar a disciplina aos padrões internacionais de desenvolvimento e de promover a elevação do nível acadêmico e científico por meio de uma formação especializada e da dedicação exclusiva a docência e pesquisa. Apoiada pela Cepal e pela Flacso, a declaração contou, ademais, com a adesão de Florestan Fernandes, Eduardo Hamuy, José Silva Michelena, Lucien Brams e Pablo González Casanova. Ainda que não se tratasse de uma associação de caráter formal, o novo agrupamento funcionou como um meio de comunicação alternativo aos já existentes, como a Associação Latino-Americana de Sociologia e as sociedades nacionais de sociologia, a maioria delas controladas pelos representantes da "sociologia de cátedra", e havia de constituir um componente a mais desse circuito institucional emergente, igualmente alternativo, constituído por organismos regionais como Cepal, Flacso, Clapcs e Unesco.

 

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Texto recebido em 16/3/2007 e aprovado em 16/3/2007.

 

 

Tradução de Luiz Carlos Jackson
Alejandro Blanco é formado em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires, é mestre em Sociologia da Cultura e Análise Cultural pela Universidade Nacional de General San Martín e doutor em História na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. É membro do Programa de História Intelectual da Universidade Nacional de Quilmes e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet). É autor de Razón y modernidad: Gino Germani y la sociología en la Argentina (Buenos Aires, Siglo XXI, 2006). E-mail: ablanco@unq.edu.br.