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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.20 no.1 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702008000100017 

RESENHAS

 

 

Rosangela Carrilo Moreno

Doutoranda em Educação do Grupo de Estudos sobre Instituição Escolar e Organizações Familiares – Focus na Faculdade de Educação da Unicamp

 

 

Christian Baudelot e Roger Establet. Quoi de neuf chez les filles? Entre stéréotypes et libertes. Paris, Nathan, 2007, 141 pp.

A obra Quoi de neuf chez les filles? Entre stéréotypes et libertés discute as mudanças e as permanências na construção da definição do que é ser homem e ser mulher na sociedade ocidental nos últimos 35 anos.

Como fio condutor, os autores partem da pesquisa pioneira de Elena Gianini Belotti, publicada sob o título Du cotê des petites filles em Milão em 1973 e logo depois traduzida em diversos países. Nessa pesquisa, a autora mostra como os processos de socialização a que são submetidas as crianças desde a mais tenra idade compõem um sistema eficaz na construção de uma representação e interiorização do que é ser menino e do que é ser menina. Particularmente, e nisso estava a grande novidade, Gianini Belotti mostrou de modo convincente não só como a socialização poderia explicar certas condutas vistas como típicas das meninas, mas também como tais condutas podem ser classificadas como típicas dos oprimidos. Entre essas, a autora citava a autodisciplina, a docilidade corporal e a necessidade de ser aprovada que faz com que as meninas se reportem constantemente às autoridades. Além disso, a autora indicava que essas condutas tinham um efeito concreto sobre a relação que as meninas estabeleciam com a escola: cadernos sempre arrumados, uniformes impecáveis ou quase, autocontrole corporal, atenção às orientações da professora. Tratava-se de comportamentos em tudo diferentes dos encontrados entre os meninos com seus cadernos sempre bagunçados, suas roupas em desordem, suas correrias e estouvamentos, e a pouca importância que atribuiam à professora. Para Belotti, à época, esses comportamentos dos meninos indicavam uma maior disposição para a invenção e para o desafio do status quo.

Se isso acontecia na década de 1960, como estamos agora?

Baudelot e Establet mostram que a pertinência da pergunta resulta do fato de que muita coisa mudou no jogo social com relação ao lugar destinado às meninas e aos meninos. Assistimos ao alongamento da escolarização, à difusão das escolas mistas, ao crescimento do número de mulheres em atividade profissionais, à ampliação da participação dos pais nas atividades domésticas. Nesse novo contexto, em que medida as análises propostas por Belotti, especialmente no que tange à dominação masculina, se mantiveram ou se alteraram?

Para efetuar essa avaliação, o livro está organizado em forma de perguntas e respostas e pretende apresentar o estado dos nossos conhecimentos sobre a questão. Para isso, os autores fazem um amplo e minucioso levantamento dos estudos realizados no período por diferentes disciplinas das ciências sociais e biológicas que examinam o comportamento dos familiares diante dos meninos e das meninas, o desempenho escolar, os jogos, as brincadeiras, os livros e os manuais infantis, a iniciação sexual, as atividades de lazer, a entrada no mundo profissional, a divisão das tarefas no seio familiar. Vejamos o que constatam.

Maiores evidências da construção social da diferença entre meninos e meninas

Conhecem-se melhor hoje a natureza das diferenças anatômicas entre homens e mulheres e as diferenças nos modos de funcionamento cerebral. Descobriu-se que cada sexo mobiliza diferentes áreas do cérebro para realizar as mesmas operações. Além disso, descobriu-se também que os homens desenvolvem-se predominantemente em atividades de orientação espacial, enquanto as mulheres destacam-se na área de linguagem, estimulando regiões neurológicas diversas.

No entanto, demonstrou-se com maior precisão a plasticidade do cérebro, inclusive na construção dos circuitos neurológicos. Pesquisas em neurociências permitem mostrar como a experiência pessoal e social de cada indivíduo afeta a construção de determinadas estruturas cerebrais que guiam os diferentes modos de agir e de se comportar dos indivíduos dos sexos feminino e masculino. Portanto, se os meninos orientam-se melhor no espaço e ativam o hipocampo esquerdo do cérebro e as meninas utilizam melhor a linguagem, desenvolvendo mais o córtex frontal direito, essa distinção é construída quando, por exemplo, os meninos são estimulados a jogar futebol e as meninas a brincar de boneca.

A escola libera as meninas, a família aprisiona

Um exemplo de mudança na família moderna que afetou diretamente a socialização de meninos e meninas é a valorização do sucesso escolar de meninos e meninas em todos os grupos sociais, traduzida no crescimento do número de crianças na escola. No entanto, apesar de as meninas apresentarem melhor performance escolar que os meninos, inclusive fracassando em menor número em áreas predominantemente masculinas, como a matemática, à medida que avançam na sua escolarização elas estão em maior número na área de literatura, em menor nos estudos de cultura científica e estão quase ausentes no campo da matemática. Essa é uma regularidade observada em todos os países ricos, como sublinham os autores.

A conseqüência dessa escolha distinta entre meninos e meninas durante o período escolar será observada também no mundo profissional, uma vez que o valor social do diploma, tanto em termos de remuneração como de prestígio, é diferente para cada área.

Entretanto, se as meninas possuem melhor desempenho escolar, mesmo em áreas predominantemente masculinas, por que elas orientam seus estudos e carreiras profissionais para áreas de menor prestígio social? Inspirando-se ao mesmo tempo em Bourdieu e em Gary Becker, os autores entendem que se trata de uma "má gestão do capital humano" por parte das meninas, explicável pela "causalidade do provável". Eles pensam em escolhas e explicam tais escolhas em função das antecipações e dos projetos que meninas e meninos percebem como possíveis e adequados para si. O julgamento que fazem do seu futuro não é dado pelo que os meninos e as meninas são, ou pelo que a instituição escolar julga deles, mas por aquilo que eles gostariam de ser, ou o que é esperado deles, por conseqüência, naquilo que eles investem mais fortemente.

A forte influência dos adultos e a força da figura materna contemporânea

Os autores, mostrando a importância dos processos de socialização na construção da identidade de gênero assim como de todas as categorizações, hierarquias, diferenças e desigualdades que são atribuídos aos sexos feminino e masculino, definem tais processos como algo parecido com um jogo que os adultos estabelecem com a criança que, ao longo dessa interação, encontra prazer e aprovação em atender às expectativas dos adultos.

Nessa perspectiva, a explicação para o maior sucesso escolar das meninas não está, sustentam os autores, no fato de que as meninas sejam dóceis, submissas e obsessivas, como pensava Elena Belotti. A explicação mais consistente para essa performancesuperior deveria ser buscada na relação das crianças com os adultos. A vantagem das meninas sobre os meninos na escola reside no fato de que elas, identificando-se com a figura materna, acabam desenvolvendo comportamentos e atitudes que favorecem a obtenção de melhores resultados escolares, assim como índices mais elevados de diplomação em relação aos meninos.

A figura materna contemporânea merece ser mais bem explicitada. Em primeiro lugar, apesar de os "novos pais" assumirem cada vez mais tarefas nas atividades domésticas e no cuidado dos filhos, o tempo que eles ficam com as crianças é bem menor em relação ao tempo que as mães disponibilizam para ficar com seus filhos. Em segundo lugar, os próprios estímulos dados pelas mães e pelos pais às crianças são distintos. Elas valorizam atividades que tenham finalidades didáticas capazes de manter a atenção dos filhos mesmo à distância, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo da criança; já os pais valorizam os estímulos físicos, com maior movimentação e atitudes desestabilizadoras, favorecendo o desenvolvimento social de seus filhos.

Pais e mães agem e esperam atitudes distintas de meninos e meninas. Eles são menos vigiados, e portanto são mais livres para saírem e terem suas próprias experiências de aprendizado, assim como espera-se que eles se envolvam em atividades físicas e esportivas, já que a força é valorizada como característica distintiva no homem. As meninas, por sua vez, são educadas para esperar, realizar atividades com menor movimentação corporal, e desempenhar atividades de cunho cultural, o que tende a mostrá-las como mais solícitas no cumprimento de regras e obrigações e as aproxima dos valores reconhecidos pela escola.

Esses comportamentos têm efeitos concretos sobre o desempenho escolar de ambos, e são construídos não apenas nas relações parentais, mas por meio de jogos e brincadeiras, atividades de lazer destinadas a reforçar a divisão entre meninos e meninas.

Ao final, os autores reposicionam a questão, mostrando como "a questão científica sobre a construção das identidades sexuais mobiliza os saberes fundamentais de todas as disciplinas: história, psicologia, psicanálise, biologia, sociologia, demografia, geografia, economia, antropologia. No entanto, ela é carregada por interrogação ética e política: a questão da igualdade entre homens e mulheres".

Além dos escritos destes dois pesquisadores, o livro apresenta ainda, sob oportuno título "D'autres voix" [Outras vozes], uma seção que reúne três artigos escritos por mulheres de formação distintas. Colette Chiland, psiquiatra, em "Les filles: hier, aujourd' hui, demain" [As meninas: ontem, hoje, amanhã], constatando a multiplicação dos movimentos associativos que congregam os homossexuais e mesmo os avanços científicos que permitem a produção de úteros artificiais, pergunta se tais mudanças poderão provocar a negação das diferenças entre os corpos e a obtenção de direitos iguais. O artigo da socióloga Catherine Marry, "Celles qui dérongent..." [As que não se comportam], chama a atenção para o fato de que a elevação formidável dos resultados escolares das meninas e da participação das mulheres no mercado de trabalho deve ser atribuída também à cumplicidade intergeracional feminina que vai "da ajuda ao trabalho de casa à guarda dos netos, passando por longas conversas íntimas" (p. 128), sublinhando, assim, que as mães não se constituem apenas no vetor imutável da permanência da dominação masculina. Por sua vez, Joëlle Beaucamp, historiadora, confronta a difícil pergunta sobre os processos de mudança. Focalizando a questão dos efeitos da difusão do cristianismo sobre a posição social das mulheres, seu artigo intitulado "Vues de Byzance" [Vistas de Bizâncio] sublinha a dificuldade de se atribuir algum valor explicativo à difusão do cristianismo, dada a complexidade da rede de causalidades que interage na definição das normas e das práticas sociais.

Esses artigos suplementares aprofundam e desafiam as discussões e as análises levadas a cabo pelos autores nessa obra de leitura obrigatória aos estudiosos das relações entre educação e construção dos gêneros masculino e feminino.