SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20 issue1Quoi de neuf chez les filles? Entre stéréotypes et libertes author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.20 no.1 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702008000100018 

RESENHAS

 

 

Wilson Mesquita de Almeida

Doutorando em Sociologia na FFLCH-USP

 

 

Josué Pereira da Silva (org.). Os filhos de Dona Silva. São Paulo, Anablume, 2005, 320 pp.

 

A adversidade desperta em nós capacidades que, em
circunstâncias favoráveis, teriam ficado adormecidas.

HORÁCIO

 

Qual o interesse em percorrer depoimentos de seis irmãos sobre uma série de eventos que marcaram suas vidas, abrangendo detalhes sobre a parentela, histórias diversas do tempo de infância, causos, dentre outras situações ocorridas? Em um primeiro olhar, talvez adquiram relevância para a história da família em particular ou para aqueles que com ela tiveram ou têm contato estreito.

Se o próprio ato de ler já seria recompensador, entretanto, o livro Os filhos de Dona Silva vai além. Ao longo da obra somos conduzidos por relatos ricos e densos das experiências só aparentemente "pessoais", posto que a cada instante estamos diante de vários aspectos que aguçam a imaginação sociológica ao entrelaçar, algumas vezes de forma impactante, as trajetórias biográficas e as condições sociais mais amplas.

O livro possui seis capítulos autobiográficos dos filhos de Silvana Pereira da Silva – a protagonista, mulher, negra, de origem humilde, nascida no interior da Bahia. As filhas Rosa e Maria compõem os capítulos iniciais, seguidos pelos relatos dos irmãos gêmeos Antônio e João e, por fim, de José e Josué. Todos iniciam suas histórias com lembranças da vida dura no sertão baiano, discorrem sobre a migração para o Sudeste e, por fim, narram a busca por melhores condições em São Paulo, chegando ao período mais recente de suas existências.

Já nos tempos de sitiantes nos arredores da cidade de Jequié, as condições eram bem difíceis: não havia luz elétrica, nem relógio, nem banheiro. O trabalho era comum a partir dos 4 anos de idade, fosse retirando bagaço de cana nos engenhos, carpindo ou fazendo pequenos serviços. A escola, distante, obrigava-os a acordar bem cedo para ser alcançada com o único meio de transporte disponível: os pés.

A migração começa com o desafio de arranjar dinheiro para a passagem. Plantar roça, fazer farinha, vender e guardar o dinheiro ou pedi-lo emprestado. Prossegue com a viagem que durava de três a seis dias no "pau-de-arara", um caminhão improvisado para transporte de passageiros, em uma estrada sem pavimentação. Para comer, no longo trajeto, carne, farinha e água ou nem isso. A partida de José para São Paulo, reproduzida em parte na orelha do livro, capta, de forma poética e cortante – lembra Graciliano Ramos – o drama dos migrantes que deixam seus familiares em direção à capital paulista. Impossível não se emocionar ao lê-la.

No ideário de grande parte dos jovens pobres nordestinos, a vinda para São Paulo é, até hoje, o caminho para melhorar de vida. O retorno ao local de nascimento possibilita-lhes algo que não estão acostumados a ter: certo dinheiro, alguma "profissão" e, em decorrência, um pouco de prestígio. Não obstante as estatísticas recentes apontarem um refluxo na ida de nordestinos para as grandes metrópoles do Sul e Sudeste, esse processo ainda é significativo.

A vida em São Paulo é marcada por novas dificuldades: saudades dos pais, baixa remuneração que os deslocava para bairros distantes e só lhes permitia alugar acomodações precárias – em um quarto e uma cozinha pequena habitavam dez pessoas –, exploração, preconceito racial impedindo a ascensão profissional, preconceito de classe em relação aos "baianos" e seu sotaque, trajetórias irregulares nas empresas devido à falta de documentação, demissões sucessivas, abandono escolar por falta de dinheiro, fome provocando humilhação e vergonha, seja Antônio ao "contentar-se com um prato de comida", João ao isolar-se dos colegas de trabalho para que eles não percebessem que na sua marmita "só tinha arroz para comer" ou José e Josué, atormentados com apenas água no estômago durante 24 horas. Todos, literalmente, sentindo na pele a falta de capital na capital.

Premidos pela sobrevivência, aproveitaram as oportunidades que apareceram. As privações e os esforços decorrentes para superá-las aparecem como o combustível que, em grande medida, alimentou esses trabalhadores "incansáveis": dentre outros exemplos, aparecem Antônio, que aprendeu multiplicação trabalhando em uma venda, e João, que se tornou marceneiro ao ter que fazer os armários de sua casa. Uma batalha constante por qualquer tipo de emprego, desde os tempos da Bahia, pois o pão de cada dia, o sustento dos irmãos, assim exigia. Um esforço que se transmuta em recurso essencial na vida cotidiana e pressupõe, como base, uma estrutura sólida no universo familiar, evidenciada, entre outros aspectos, no respeito estrito às regras exigidas e levadas a cabo pela rigidez de "punho de ferro" da mãe. Tais habilidades produzidas ao longo de suas vidas não devem ser vistas com uma tonalidade moralista, um dom de indivíduos que sofreram bastante e, no fim, foram agraciados, "venceram na vida". Apropriado seria entendê-las como sendo adquiridas e refinadas nas suas experiências – positivas e negativas, às vezes, frustrantes. Ou seja, são geradas nas múltiplas socializações pelas quais passaram, por isso têm caráter dinâmico e distinto para seus participantes.

A sociologia, sobretudo a que se dedica ao estudo da socialização, ainda não se deteve com mais vagar sobre esse "aprendizado na vida". É preciso olhar com mais atenção as mutações ocorridas nas agências tradicionais (família, escola e trabalho) e compreender o papel exercido pela capacidade dos sujeitos de desenvolverem aprendizados durante suas amplas experimentações sociais, sobretudo aqueles que, previamente, não apresentam capitais classicamente valorizados. Não se trata da diluição e do sentido vago do "aprender na prática", tão corrente. É uma aprendizagem a partir do que vivemos em toda extensão de nossas vidas, nas circunstâncias as mais diversas que passamos e temos que enfrentar, muitas vezes, "de peito aberto", sem suporte e apoio quaisquer. Nessa linha de análise é possível tentar entender, por exemplo, por que alguns alunos de baixa renda conseguem manter bom desempenho em universidades públicas, aqui e no exterior. Somente creditar a certo capital escolar, social ou cultural torna-se insuficiente. Em seus percursos, eles desenvolveram algo a mais que ainda precisa ser mais bem qualificado nas pesquisas. Outro caso pontual pode ser visualizado na trajetória de um expoente da sociologia, Florestan Fernandes. Muitos dos seus insights só foram possíveis graças à combinação do rigor analítico e erudição com o seu aprendizado anterior auferido na necessidade de sobrevivência.

Dona Silva é o centro da obra. É em torno de sua personalidade que giram os elementos essenciais do livro. Tinha o respeito de todos porque reunia características intrínsecas à liderança. Era enérgica na criação dos filhos, generosa ao receber hóspedes e ajudar os demais sitiantes. Mulher de fibra, à semelhança das mães brasileiras espalhadas hoje pelas periferias das grandes metrópoles, que arregaçam as mangas para sustentar seus filhos "sem pai". Não que eles não tivessem um pai, Seu Adelino. É que este se contentou em ser um grande parceiro. No fundo, era visionária: analfabeta, mudou-se para a cidade para que os filhos pudessem estudar, vislumbrando o valor da educação como ferramenta eficaz para uma vida menos bruta. Junto a isso, a determinação. Encorajava-os, ainda que com muito pesar, a irem em busca de melhores oportunidades, pois "se não desse certo [a vida em São Paulo], no mínimo ganhariam experiência". Visão e determinação que propiciaram resultados concretos na vida de filhos e demais descendentes: alguns fizeram cursos profissionalizantes e superiores. Esse papel ativo da mãe, figura tradicionalmente responsável pela educação, pode ser expresso naquilo que a socióloga inglesa Diane Reay – utilizando-se do aparato conceitual de Pierre Bourdieu – denomina "capital emocional", elemento axial para compreender tamanho envolvimento materno de Dona Silva. Um trunfo que lhe permitiu "preparálos" ainda bem cedo para enfrentar, de modo ativo, as adversidades.

Em outros termos, a experiência da pobreza, mais especificamente na condição de migrantes nordestinos, mediada por um conjunto particular de caracteres ligado ao universo familiar desses Silva, formam as bases que lhes permitiram ir em frente e desbravar caminhos bem arenosos.

Nesse contexto, o acesso à educação aparece como um divisor de águas. Ela guarda sua face contraditória inerente a uma sociedade cravada pela desigualdade: a um só tempo está inserida na produção e na perpetuação das diferenças sociais, em que sua falta marca profundamente tais trajetórias, impedindo-os muitas vezes de conquistar melhores empregos, e, por outro lado, é a via pela qual, de certa forma, alguns utilizaram para ascender socialmente. A esse respeito, a figura de Josué, o filho mais novo, organizador do livro, é paradigmática, singular e, às vezes, algo misteriosa. Seu relato deixa entrever muita coisa a respeito: desde a ampliação da leitura feita a partir da literatura de cordel ainda na Bahia até o "passatempo" de aperfeiçoar o domínio das quatro operações no início de sua batalha em São Paulo. O elemento-chave foi a "percepção", o tirocínio de que se o trabalho fixo significa independência e certa estabilidade para quem passou por uma miríade de ocupações precárias, era preciso ir além, buscar certos tipos de emprego – com menores jornadas – para que pudesse estudar. Algumas vezes, até mesmo sacrificar postos com maior salário em prol de mais tempo para avançar na escolaridade e, em conseqüência, descobrir "um novo mundo", bem diferente do que estava acostumado.

Curioso é que Josué, hoje professor universitário em uma das mais renomadas universidades públicas brasileiras, grande especialista no pensamento de André Gorz, tenha sido muito comedido em falar e destacar seu périplo mais recente, optando por uma narrativa bem curta, por exemplo, de sua família – contrastando com seus irmãos que procuraram enfatizar, justamente, a vida que postergaram aos filhos e netos. Deixa transparecer, muito sutilmente, que sua professora de história à época do curso de madureza tornouse sua esposa – uma historiadora que assina a contracapa do livro. Por que tanta concisão nesse terreno? Modéstia? Cuidado para não passar a idéia de "superioridade", o irmão que mais "avançou"? Talvez. Ou será a típica dificuldade de enunciação – a parte estrangeira sempre presente – que atravessa corpo e alma daqueles que, saídos dos meios populares, conseguem atingir espaços distantes de sua origem social, como podemos ver em autores como Hogart, Bourdieu, Tragtemberg, entre outros casos bem ilustrativos?

Não importa, talvez isso seja o algo misterioso que, entretanto, não compromete a importância do livro para a compreensão de experiências que dizem muito sobre nosso país, as profundas desigualdades existentes e o esforço de superação por meio da educação e do trabalho. À frase de Dona Silva "esparramei meus filhos por aqui e acolá, pra vê que dava conta da vida né", podemos enfim dizer: eles deram conta. Fica, porém, uma questão: as trajetórias, certamente vitoriosas, dos filhos de Dona Silva teriam condições de se repetir, no contexto de hoje, marcado pelas altas taxas de desemprego e as exigências cada vez maiores de escolaridade?