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Tempo Social

versión impresa ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.23 no.1 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702011000100001 

DOSSIÊ - SUBJETIVIDADE E CULTURA: O SOFRIMENTO NO SOCIAL

 

Apresentação

 

 

Irene Cardoso

 

 

Os textos incluídos neste Dossiê foram apresentados e discutidos em sua primeira versão no Seminário Temático com este mesmo título, promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo, sob minha coordenação nos meses de setembro e outubro de 2010. O seminário foi organizado por mim, por Luciano Pereira e Nilton Ota, selecionando os temas e os expositores. Esse trabalho de seleção foi importante devido à amplitude do tema "o sofrimento no social". O formato inicial do seminário previa dois momentos para a sua realização. O primeiro, em 2010, seria dedicado inteiramente à discussão sobre o sofrimento produzido nos processos de organização do trabalho em diversos setores sociais e seus efeitos sobre as subjetividades, em especial os problemas de saúde mental. O segundo, em 2011, focalizaria a questão do sofrimento psíquico, a partir da abordagem psicanalítica do mal-estar na cultura, incluindo também a discussão das atuais abordagens psicanalíticas sobre as novas formas de manifestação do sofrimento, os novos sintomas sociais. Nesse segundo momento, seria contemplada, ainda, a questão do sofrimento psíquico no interior das instituições abertas e fechadas, ligadas ao campo da saúde mental e ao campo jurídico.

Essa explicação é importante porque tanto o seminário como o seu resultado expresso neste Dossiê acabaram tomando um formato híbrido que contemplou as duas etapas num único conjunto de menor amplitude, em decorrência das possibilidades de realização existentes naquele momento. Mesmo considerando as especificidades de cada um dos textos, é possível dizer que os três primeiros ("A subjetividade no trabalho em questão", "O trabalho em causa na 'epidemia depressiva'" e "Sale boulot") contemplam a questão do sofrimento no trabalho. O quarto texto ("Corpos em rebelião e o sofrimento-resistência: adolescentes em conflito com a lei") aborda a questão do sofrimento e seus efeitos subjetivos no interior de uma instituição fechada. Os dois últimos são relativos à psicanálise, embora com focos diferentes: "Mal-estar, sofrimento e sintoma" propõe a discussão de uma recontextualização da diagnóstica psicanalítica, abrindo novas perspectivas para pensar as distinções entre sintoma, sofrimento e mal-estar; e "O social e suas vicissitudes na psicanálise lacaniana" aborda a questão da instrumentalização do "sofrimento social" construída a partir das transformações no interior das instituições psicanalíticas contemporâneas.

O tema que propusemos para o seminário e para este Dossiê, "O sofrimento no social", pressupunha, desde as primeiras discussões entre os organizadores, pensar o social como um lugar que produz o sofrimento. Não se trata, portanto, de adjetivar o sofrimento (sofrimento social), mas de procurar dar conta de algumas possibilidades produzidas por determinadas formas de estruturação e domínio do social. Alguma inspiração na construção freudiana do "Mal-estar na cultura" – a produção do sofrimento pela exploração no trabalho, pelo uso sexual, pela humilhação, pela exclusão – esteve, sem dúvida, presente na escolha dos temas do seminário. As formas de estruturação do social que produzem subjetividades dominadas, excluídas, exiladas, imigradas, estrangeiras, confinadas, humilhadas, produzem também um certo tipo de sofrimento que é o foco de nossa discussão.

O seminário e o Dossiê possibilitaram um espaço para que posições teóricas e dimensões diferentes do sofrimento no social fossem expostas e trabalhadas, ainda que não tenha ocorrido uma formulação teórica mais abrangente do conjunto das palestras e dos textos. Os artigos trouxeram, entretanto, elementos importantes para pensar as formas de estruturação contemporânea do social, objeto que vem sendo explorado pelas diversas disciplinas nele configuradas. Além, sem dúvida, da sociologia e da psicologia social, outras disciplinas vêm tomando o social como objeto, num processo de diversificação disciplinar: a psicanálise, a psicodinâmica do trabalho, a medicina social, a saúde mental, o serviço social, a educação, a criminologia, para ficar com algumas referências.