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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.23 no.1 São Paulo  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702011000100015 

RESENHAS

 

 

Nicolau Dela Bandera

Mestrando em Sociologia – USP

 

 

Ana Maria Fonseca de Almeida. As escolas dos dirigentes paulistas: ensino médio, vestibular, desigualdade social. Belo Horizonte, Argvmentvm, 2009, 192 pp.

 

O mercado escolar paulista: as lutas simbólicas entre as frações da classe dominante

A sociologia da educação realizada por Ana Maria Almeida é a porta de entrada para uma sociologia da dominação e das classes dominantes no Brasil, um país fraturado por uma enorme desigualdade cultural e econômica que tende a se reproduzir por mecanismos sutis e dissimulados: a educação familiar, a educação escolar, as amizades realizadas em círculos seletos, os estilos de vida etc. Para capturar sociologicamente esses mecanismos sorrateiros, a autora utiliza os mais variados materiais de pesquisa – tais como a análise estatística, entrevistas, documentos históricos (relatos de memória), fotografias, projetos de arquitetura das escolas –, revelando como os detalhes e as diferenças entre os colégios, as famílias e o espaço social significam e demarcam as fronteiras entre os grupos sociais. A autora demonstra ainda muita habilidade no manejo de um rico repertório teórico, cujo tom principal é ditado pela sociologia francesa, principalmente a partir da leitura aguçada de um livro de Pierre Bourdieu só recentemente descoberto pelos sociólogos no Brasil (ainda sem tradução), La noblesse d'État (Paris, Minuit, 1989), com o cuidado de não transpor mecanicamente os conceitos e as explicações do sociólogo francês para a realidade brasileira.

No excelente prefácio de Letícia Canêdo, o leitor é apresentado a uma agenda de pesquisa que serve de mote ao livro de Ana Almeida, a saber: quais são os mecanismos sociais e as estratégias que (re) produzem a elite dirigente nacional. Dirigente, aqui, não se refere apenas aos detentores do poder político – significado que, por vezes, tendemos a atribuir à palavra, talvez em decorrência do peso do Estado em nosso imaginário social –, mas também àqueles encarregados de ocupar posições dominantes nas diversas esferas sociais: empresários, artistas, profissionais liberais, funcionários públicos de alto escalão etc. Para existir socialmente, os dirigentes precisam, antes de tudo, acreditar na legitimidade de sua dominação e, talvez o mais importante, transparecer para o restante da sociedade que sua dominação não é arbitrária, mas sim alicerçada em qualidades sociais raras tidas como naturais, monopolizadas por eles a partir da socialização familiar e do acesso privilegiado a determinadas instituições escolares.

A autora parte do pressuposto de que as famílias das classes médias e dominantes buscam matricular seus filhos nas escolas particulares que melhor correspondam aos valores e visões de mundo que professam (p. 24). Há, portanto, uma correlação quase mágica, e que requer explicação, entre as expectativas inscritas na história do grupo social ao qual pertencem as famílias dos alunos e os projetos pedagógicos diferenciados dos colégios. Cada colégio possui, portanto, um estilo – descrito pela autora a partir do endereço do estabelecimento, das falas dos diretores (inclusive na situação de entrevista, já que eles tentam transmitir para a pesquisadora uma imagem oficial do colégio), da história da instituição, da representação que os fundadores construíram do colégio, do destino social dos ex-alunos e da prática de ensino – que o diferencia dos demais em um mercado extremamente concorrido na cidade de São Paulo dos anos de 1990.

A semelhança que une os colégios particulares considerados de alto nível é a relativa autonomia pedagógica, alguns mais, outros menos, em relação às pressões familiares; autonomia que só é conquistada de forma heterônoma por meio do vestibular: ao prescrever o ensino propedêutico e o conteúdo necessário para o acesso às universidades públicas prestigiadas, o vestibular autoriza o trabalho pedagógico dessas escolas que conseguem um alto índice de aprovação, sendo classificadas nos rankings não oficiais da imprensa paulistana entre as melhores da cidade. Contudo, as similitudes terminam aí, na superfície, e o que interessa de fato para a autora são as respostas diferentes que os colégios encontram para as alterações ocorridas nos últimos vinte anos nos principais vestibulares de São Paulo, cuja tendência foi deixar de lado a denominada "memorização de conteúdo" para incluir cada vez mais questões tidas como de interpretação. A autora escolheu três diferentes colégios particulares de ensino médio considerados de alta qualidade, localizados em diferentes regiões de São Paulo, que expressam sua clientela potencial: o Colégio São Tomás, no Alto de Pinheiros; o Colégio Santo Estevão, no Tatuapé; e o Colégio Ipiranga, na Vila Mariana (os nomes dos colégios são fictícios, apesar de, para os entendidos, a identificação não ser difícil).

O Colégio São Tomás caracteriza-se, primeiramente, pela negação da dimensão escolar do trabalho pedagógico e da urgência do ensino pautado na aprovação do vestibular, atendendo a uma parcela expressiva das famílias tradicionais da elite cultural da capital paulista. A autora revela a relação específica com a cultura alardeada pelo colégio a partir de uma descrição que poderia parecer desprovida de pertinência sociológica se não estivesse envolvida em uma trama de relações que lhe dão sentido: o grandioso espaço destinado aos jardins, sem nenhuma utilidade aparente, a não ser o bate-papo descontraído dos jovens, em uma das regiões onde o metro quadrado é um dos mais caros de São Paulo. Na verdade, tal espaço inútil do ponto de vista material possui uma utilidade social e simbólica: ele produz a eufemização do trabalho pedagógico realizado pelo colégio, reforçando a ideia da imaterialidade da obra que ali se desenvolve (p. 96) e, o principal, a incorporação nos jovens da legitimidade dos campos sociais onde o valor do desinteresse, da inutilidade material, em suma, da arte pela arte, é reconhecido.

Esse é o único colégio dentre os três pesquisados pela autora que recusa explicitamente o vestibular como parâmetro de avaliação de sua qualidade, um dado que ganha sua pertinência quando associado a outra característica do colégio, a saber: a forma de ensinar a norma culta da língua portuguesa que visa à formação de jovens que mantenham uma relação de criação com a cultura e a escrita, e não de submissão ou de consumo. O conteúdo da disciplina de português incorpora a história da música, do teatro, assim como das artes plásticas. A professora do colégio possui contatos com vários artistas, museus e galerias; dessa forma, seus alunos acabam participando do circuito de produção cultural, não somente como frequentadores, mas também como criadores. Não há espaço no currículo do colégio para a gramática: "A transmissão das normas consideradas cultas se dá através da prática de escrita, sem sistematização. [...] o estilo é ensinado [segundo uma professora do colégio] 'praticamente por osmose'" (p. 110). Como os jovens chegam ao ensino médio do Colégio São Tomás com um domínio prático da norma culta do português, os professores não se dão ao trabalho de corrigir ao ensinar a língua, já que eles a incorporaram durante a lenta e precoce socialização familiar. O trabalho pedagógico somente realiza a confirmação da competência inculcada na tenra idade.

O segundo colégio pesquisado, o Santo Estevão, também católico, está localizado na Zona Leste de São Paulo, no Tatuapé. O colégio atende, principalmente, as famílias das novas classes médias que ascenderam socialmente com o crescimento dessa região; famílias que, nos termos de Wright Mills, deixaram recentemente de ser proprietárias de pequenos negócios, na geração dos avós dos alunos, para se tornarem profissionais e empregados de escritórios na geração dos pais, mas que ainda não possuem muito capital cultural. Diferentemente do Colégio São Tomás, os jovens do Santo Estevão mantêm com a cultura uma relação de submissão, retratada pela autora por meio da descrição da arquitetura e da disposição interna do espaço do colégio – muito apertado, sem áreas verdes, com uma arquitetura que lembra um shopping center (aliás, um dos lugares mais frequentado por esses jovens) – e pela forma como a norma culta da língua é ensinada, por meio da repetição de exercícios de composição de redação e de gramática. A sistematização não se refere apenas ao conteúdo pedagógico, mas também à disciplina comportamental dos jovens: o rigor exigido dos alunos em termos de disciplina contrasta com o relativo laxismo presente no Colégio São Tomás. No Santo Estevão, segundo a autora, "o sucesso do projeto educativo [...] é atribuído à obediência aos mandamentos disciplinares. A disciplina é altamente codificada: os uniformes são cuidadosamente prescritos, a presença nas aulas é objeto de controle estrito, a pontualidade é regulada nos mínimos detalhes" (p. 145). Os alunos que procuram o colégio são aqueles já dispostos a se submeter a essas exigências disciplinares, motivados de antemão a sofrer a correção pedagógica e disciplinar; o rigor é valorizado pelas famílias – não sem produzir alguns ruídos e descontentamentos em algumas delas. Não é fortuito que dois terços do colégio sejam formados por meninas, já que os meninos dos mesmos grupos sociais tendem a recusar – devido à socialização que os direciona precocemente a assumir os negócios da família, como demonstram os estudos de Roberto Grün sobre os armênios em São Paulo e de Maria Alice Nogueira sobre os filhos de empresários de Belo Horizonte – a submissão a um programa ascético e de constantes sacrifícios necessários para vencer o jogo escolar.

Por fim, o último colégio pesquisado pela autora, o Colégio Ipiranga, caracteriza-se por atender os filhos de famílias de profissionais liberais que ocupam posições intermediárias e dominantes no espaço social, porém que ascenderam a essas posições recentemente, a uma ou duas gerações. A principal característica do colégio é a competição entre os alunos, vista como princípio pedagógico que submete o trabalho escolar à urgência do vestibular. As condições extremamente competitivas do vestibular são reproduzidas no interior do colégio: "Cada aluno recebe no seu boletim bimestral uma escala com a sua posição em relação aos seus colegas de classe e de série. No final do ano, esses resultados definirão a turma na qual cada um deles será colocado na série seguinte" (p. 170). A gramática, no caso do Colégio Ipiranga, é ensinada, porém com ressalvas. Os alunos esboçam criações artísticas, mas em gêneros não tão reconhecidos como aqueles praticados pelos alunos do São Tomás: a confecção de uma agenda, pequenos vídeos etc. Outra característica do colégio é se dizer moderno: ele possui vários laboratórios de informática, de ciências, de audiovisual. O colégio é credenciado ainda a realizar o PSAT (Preliminary Scholastic Aptitude Test) – o processo de seleção para universidades norte-americanas. Os alunos, contudo, são vistos mais como consumidores da cultura legítima do que seus criadores.

A autora consegue comprovar a hipótese lançada no início do livro de que há no mercado escolar paulistano uma escola sob medida para as expectativas das famílias das diversas frações das classes dominantes, ou seja, há um alto grau de concordância entre os anseios e as estratégias escolares das famílias e os estilos dos colégios. Além disso, a autora deslinda alguns dos mecanismos essenciais na produção das qualidades requeridas para aqueles que tendem a ocupar as posições dirigentes, dentre elas: a administração das relações sociais com as quais são confrontados, o domínio prático da linguagem, o senso de legitimidade de sua posição, o senso das fronteiras simbólicas que os separam dos outros grupos sociais etc. Fica porém uma questão levantada pelo material empírico da própria autora: um caso paradoxal, e que talvez pudesse ser mais bem explorado, de um aluno que não se adapta ao colégio e o abandona depois de ser reprovado (irmão de uma das alunas entrevistadas, p. 144). Uma questão interessante seria, portanto: quando a adequação quase mágica dos jovens à escola não funciona, quando o casamento entre as expectativas familiares e o estilo do colégio é desfeito, o que acontece? A autora esboça uma resposta a essa pergunta a partir das desigualdades de gênero, mencionadas acima. Porém, seria interessante refinar e especificar a teoria das homologias estruturais entre o ethos familiar e o mercado escolar a partir desses casos empíricos, revelados pela qualidade da pesquisa e da exposição da autora. Os casos de exceção não anulam a teoria habilmente construída para explicar as regularidades que produzem as desigualdades no sistema de ensino brasileiro, mas lançam desafios teóricos para futuras pesquisas, para uma agenda de trabalhos na sociologia sobre o mercado educacional de ensino médio e as elites brasileiras que avançou muito com a publicação desse livro de Ana Almeida.