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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.23 no.2 São Paulo Nov. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702011000200013 

DOSSIÊ - CRÍTICA LITERÁRIA
NECROLÓGIO

 

Ralf Darendorf (1929-2009): réquiem para um sociólogo liberal*

 

Ralf Dahrendorf (1929-2009): requiem for a liberal sociologist

 

 

Antonio Carlos Dias Junior

 

 


RESUMO

O necrológio visa apresentar e discutir a biografia e a bibliografia do sociólogo liberal inglês de origem germânica Ralf Dahrendorf, falecido em 2009. As principais obras e passagens mais marcantes de sua rica trajetória pessoal e intelectual são examinadas de modo a fornecer elementos à compreensão do conjunto de seu pensamento.

Palavras-chave: Ralf Dahrendorf (1929-2009); Sociologia política; Pensamento liberal; Sociologia contemporânea.


ABSTRACT

The obituary looks to present and discuss the biography and bibliography of the liberal English sociologist of German origin, Ralf Dahrendorf, who died in 2009. His principal works and the most remarkable passages of his rich personal and intellectual life are explored as a means to understanding his thought as a whole.

Keywords: Ralf Dahrendorf (1929-2009); Political sociology; Liberal thought; Contemporary sociology.


 

 

Introdução

Faleceu na Alemanha em junho de 2009, pouco depois de ter completado 80 anos, o intelectual inglês, cuja origem germânica era prontamente denunciada pelo sobrenome, Sir Ralf Dahrendorf. Filósofo de formação e sociólogo por ofício, o autor teve sua profícua trajetória teórica enriquecida pelas experiências na vida pública cotidiana, primeiramente na Alemanha da década de 1970 e depois na Alta Câmara do Parlamento Britânico.

Talvez o título deste necrológio (que não é exatamente um elogio fúnebre, mas uma homenagem) não faça jus ao autor, visto que Dahrendorf não gostava de rótulos. Não obstante, o liberalismo social, ou socialismo liberal (sem paradoxo entre os termos), era a forma como ele definia, ainda que contrariado, seu tipo particular de liberalismo. Desta vertente liberal que floresceu no século XX, em que as liberdades individuais foram pensadas em conjunto com a agenda de reformas sociais, Dahrendorf derivou com rara profundidade e coerência suas convicções teóricas, políticas e existenciais.

Do epíteto liberal nunca discordou, sobretudo como filiação antípoda aos regimes políticos contrários às liberdades individuais, mas desde que do liberal fosse exigida a tarefa igualmente essencial de cumprir a agenda dos direitos sociais. Se me fosse cobrada uma definição sucinta de seu pensamento, diria que Dahrendorf foi um intelectual que duvidou das certezas patentes e divisou a boa sociedade como aquela em que a liberdade é o bem supremo a ser alcançado e preservado, sob qualquer circunstância ou regime político.

Os temas com os quais trabalhou representam uma espécie de aprimoramento contínuo, não no sentido evolutivo do termo, e sim cumulativo. O próprio autor admitiu em diversas passagens que sua teoria foi constituída como reflexo, em grande parte, do percurso biográfico e intelectual, e por isso ela não pode ser (e o liberalismo que postulava também não o era) estacionária, imune aos acontecimentos históricos e à realidade concreta das sociedades.

Filho de seu tempo e de seu século, Dahrendorf desenvolveu, assim como a geração de intelectuais que experimentou o terror do nazismo, verdadeira repulsa a qualquer espécie de totalitarismo de Estado. Neste particular, sua pena não distinguiu colorações políticas ou ideológicas. Dahrendorf criticava com a mesma verve o regime hitlerista e o totalitarismo soviético, bem como a opressão exercida atualmente, de maneira tão pungente, pelo mercado e seus tentáculos.

As passagens abaixo, embora longas, mostram como esse anelo claustrofóbico se constituíra.

A minha experiência antifascista foi a de um militante muito jovem. Pertenço a uma família social-democrata. Meu pai foi deputado social-democrata durante a República de Weimar e exerceu atividades políticas durante toda sua vida. Pertenceu à resistência ao nazismo, foi preso pela primeira vez em 1933, depois em 1938 e, novamente, em 20 de junho de 1944. Nessa época, iniciei, com alguns amigos, uma espécie de associação estudantil. Tinha apenas 15 anos e talvez a minha atuação tivesse apenas a metade da gravidade que meus olhos de adolescente captavam. O que fizemos foi distribuir panfletos sobre os campos de concentração, e que atacavam o Estado da SS e faziam propaganda pelo fim da guerra e do regime nazista. Tudo caiu aos olhos da Gestapo e, assim, em novembro de 1944, eu e um amigo fomos presos e depois enviados a um campo de concentração, de onde fomos soltos por decisão da própria SS, no dia em que os russos chegaram.

Essa experiência foi muito importante para mim. Jovem como era, senti a experiência do protesto e oposição contra o totalitarismo e, subitamente, compreendi o que significa estar preso, principalmente durante o período de solitária e que, como é óbvio, não foi particularmente agradável. Estou certo de que essa experiência influiu muito sobre minha formação liberal, apesar de poder dizer que a suportei bastante bem, pois, como disse, vinha de uma família empenhada na defesa dos valores da democracia. Um dos frutos que colhi é que, hoje, pertenço ao grupo dos que sustentam que os maiores perigos para a democracia podem vir da direita e não da esquerda (Dahrendorf, 1981a, p. 1).

E ainda:

[...] o campo de concentração era de fato uma experiência muito diferente: na penumbra da manhã, filas sob o congelante vento do leste, à espera de um prato de sopa aguada; o brutal enforcamento de um prisioneiro russo, por ter roubado meia libra de margarina; fatias de pão passadas sub-repticiamente a um doente ou um velho, talvez uma lição de solidariedade e, acima de tudo, a sacralidade das vidas humanas. Mas foi durante estes dez dias de confinamento solitário que se gerou um anelo quase claustrofóbico pela liberdade, um desejo visceral de não ser cercado, nem pelo poder pessoal dos homens, nem pelo poder anônimo das organizações (Dahrendorf, 1979, p. 13).

As passagens também sugerem a precoce predileção liberal de Dahrendorf - e daí a crítica que elaborou ao nazismo, e que elaboraria mais tarde ao comunismo soviético e aos regimes autoritários da América do Sul. No nível teórico, o autor erigiria crítica sistemática àquelas teorias que considerava estruturantes e unívocas, resistentes ao conflito e, segundo sua argumentação, por natureza homogeneizantes da realidade social (no campo sociológico, o funcionalismo e o marxismo).

Daí também sua acolhida ao individualismo metodológico weberiano, à metafísica kantiana, à lógica popperiana, e a predileção por nortes teóricos que não consideram a realidade social apreensível e inteligível como um todo. No campo da teoria sociológica específica, Dahrendorf percorreu diversos caminhos. Muitos o conheceram nos meios intelectuais como o teórico do conflito, e outros não hesitaram em imputar-lhe a distinção de teórico da sociedade industrial.

Estudiosos (que, diga-se, são poucos) de sua produção mais recente afirmam ter sido ele o teórico neoliberal das reivindicações igualitárias, do liberalismo social/institucional. Todos têm razão, acrescentaria. Seu percurso intelectual, acadêmico e também como político de ofício é exemplo da versatilidade que marcou sua trajetória para além da carreira teórica, de acordo com o que buscarei mostrar nas linhas que se seguem.

 

Formação e primeira produção intelectual

Ralf Gustav Dahrendorf nasceu em 1929, na cidade de Hamburgo. Aos 18 anos de idade ingressou no Partido Social-Democrata alemão (SPD), e escolheu para isso a data simbólica de 1º de maio de 1947 (dia de seu aniversário). Na mesma época ingressava na Universidade de Hamburgo, onde estudaria letras clássicas, latim e grego, além de filosofia como matéria optativa. No último ano da graduação, mudou definitivamente para a filosofia e defendeu a tese de doutorado sobre Karl Marx1. Nos anos entre 1952 e 1954, Dahrendorf estagiou na London School of Economics (LSE), onde obteve outro doutoramento com uma tese sobre o trabalho não especializado na indústria britânica.

Nessa época já era autor de ensaios de fôlego sobre teoria social. Deixou a London School para ingressar no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, então dirigido por Teodor Adorno e Max Horkheimer, no qual permaneceu por pouco tempo: "fiquei lá exatamente oito semanas; depois de quatro, compreendi que reinava uma atmosfera opressiva e autoritária, que não me agradava. Na realidade, como liberal, não aceito as verdades patentes" (Dahrendorf, 1981a, p. 10).

De Frankfurt, Dahrendorf mudou-se para a Universität des Saarlandes, em Saarbrücken. Lá ficou por alguns anos e terminou de escrever a versão que seria publicada de As classes e seus conflitos na sociedade industrial (1982)2, obra que marcou sua produção, dando-lhe grande notoriedade e destaque nas ciências sociais. A publicação do livro marca o início da primeira fase de sua produção teórica.

Alguns autores, como Alberto Izzo (1991) e Sérgio Adorno (1996), com os quais concordamos, entendem que há certa divisão (ou mesmo um corte de ordem epistemológica) em duas etapas na obra teórica do autor: um primeiro momento em que estão agrupados os primeiros escritos, realizados entre meados da década de 1950 e a primeira metade da década de 1970; e um segundo, que compreende a produção a partir de meados da década de 1970.

O primeiro Dahrendorf compreende o período em que o autor contestou de uma só vez e de maneira sistemática os fundamentos da teoria do consenso social de Talcott Parsons, bem como produziu uma espécie de atualização da teoria do conflito e da teoria de classes de Karl Marx. Esse conjunto de trabalhos compreende duas coletâneas de ensaios publicadas no Brasil: Sociedade e liberdade (1981b)3 e Ensaios de teoria da sociedade (1974)4, além de As classes e de outras obras menores derivadas de palestras e conferências. Datam dessa época também sua própria teoria do conflito e os primeiros escritos que versam especificamente sobre a temática da liberdade.

No texto mais importante do período, As classes e seus conflitos na sociedade industrial, Dahrendorf partiu da premissa de que muitas das previsões de Marx foram refutadas pelo desenvolvimento das sociedades industriais no século XX, e de que a teoria do conflito em Marx não foi capaz de cobrir a complexidade das sociedades contemporâneas nem seus conflitos, que estão deslocados da esfera da produção.

Dessa forma, o desenvolvimento das forças sociais justificaria que a teoria de classes em Marx fosse colocada em xeque quando confrontada a observações empíricas, bem como a própria teorização marxiana do proletariado como agente histórico-social portador da possibilidade de emancipação. Dahrendorf apontava ainda para outra lacuna: a necessidade da elaboração de uma teoria do conflito que fosse aplicável não apenas à sociedade capitalista, mas às sociedades industriais em geral.

Paralelamente à crítica a Marx, Dahrendorf propôs censura sistemática à teoria do consenso social de Parsons. Seu principal argumento residia no fato de a teoria parsoniana supostamente rejeitar a função dos conflitos nas sociedades, constituindo sistemas interpretativos fechados e utópicos. Para Dahrendorf, o modelo estrutural-funcionalista de sociedade não admite qualquer tipo de mudança, uma vez que se baseia na ideia de que cada indivíduo desempenha um papel definido e funcional ao equilíbrio social, não havendo, pois, espaço para o conflito, suposto aspecto estruturador e norte da teoria dahrendorfiana.

Partindo da crítica dessa não possibilidade (em relação ao conflito social), Dahrendorf propôs sua própria tese. O conflito seria funcional - no sentido não funcionalista do termo - à sociedade, na medida em que é o próprio motor transformador da história. Para o autor, uma sociedade baseada no modelo estrutural-funcional, no qual tudo segue uma marcha para a perfeição, evoca um quadro terrível, já que tal pretensa estabilidade estende-se invariavelmente à realidade sociopolítica concreta, tornando-a totalitária. "[...] quem quiser conseguir uma sociedade sem conflitos, tem que fazê-lo pelo terror e pela força policial; pois só a representação de uma sociedade sem conflitos é um ato de violência cometido contra a natureza humana" (Dahrendorf, 1981b, p. 84).

Segundo sua argumentação, no conflito repousaria, portanto, o próprio caráter histórico-antropológico das sociedades humanas, pois as respostas divergentes garantem que o homem, através de suas inquietações e incertezas, busque sempre soluções divergentes às situações e aos desafios que se apresentam cotidianamente. Para Dahrendorf, no conflito, na mudança e na multiformidade da realidade social repousa o caráter de incerteza intrínseco ao ser humano.

Sobretudo, conflito social representa, no registro liberal de Dahrendorf, a caução a todos os modelos amorfos de sociedade; significa a não possibilidade de haver respostas possíveis para tudo, vale dizer, que a instabilidade é a marca distintiva da realidade social e do próprio homem como ser histórico. Para o autor, "[...] os conflitos são indispensáveis, como um fator do processo universal da mudança social [...] exatamente porque apontam para além das situações existentes, são os conflitos um elemento vital das sociedades, como possivelmente seja o conflito geral de toda vida" (Idem, p. 82).

Em 1957-1958, Dahrendorf esteve no Centro de Estudos Avançados em Ciências Comportamentais de Palo Alto, nos Estados Unidos, permanecendo por um ano apenas, porém muito profícuo, pois lá se encontrava Parsons, com quem polemizava agudamente. Nos Estados Unidos, tomou contato mais íntimo com o liberalismo inglês e norte-americano, sobretudo de John Stuart Mill, o que acabaria moldando sua própria visão política e teórica.

Esse foi realmente um período de intensa atividade intelectual. O ano de 1957 marca também a produção de um dos textos mais clássicos de Dahrendorf: Homo sociologicus (1969)5, no qual o autor discute o conceito de papel social. No conjunto de sua obra, Durkheim tratou de estabelecer os papéis como fatos sociais elementares. Ingressamos nas relações sociais não como indivíduos crus, mas sim envolvidos por roupagens que nossa posição na sociedade nos confere.

Nossa herança como seres sociais e sociáveis nos lega um conjunto de posições (políticas, participação social, preferências pessoais etc.) que nos são ensinadas, passadas e apreendidas. Se as transgredimos, há sanções que nos fazem lembrar os nossos deveres. O Homo sociologicus, argumentava Dahrendorf, é o portador de tais papéis; mais que isso, a sociedade é vexatória, isto é, aliena de si o Homo sociologicus.

Utilizando-se de linguagem kantiana, argumenta que há um indivíduo moral que pode e deve ser visto em separado dos papéis sociais, possuindo, portanto, um caráter empírico e outro inteligível (ou moral), cabendo a ele ser estimulado a lutar contra as imposições da sombra sociológica do homem. Deliberadamente dialogando com Max Weber (1989) e a busca pela neutralidade axiológica (e também a distinção entre a ética da responsabilidade e a das convicções), Dahrendorf propunha que o sociólogo como tal não deve ser um político, no sentido de utilizar sua posição para tal fim, nem tampouco deve abster-se por completo da realidade política que o cerca.

Seu Homo sociologicus, com efeito, vive em permanente conflito entre a sociedade, que jamais é intrinsecamente moral, e o social. Em sua visão, esse conflito não pode ser solucionado no plano da teoria, mas deve sê-lo na prática. Disso decorre que aqueles que se dedicam ao estudo da sociedade, bem como aqueles que exercem funções políticas, não devem jamais negligenciar sua função crítica como intelectuais.

Após essa rápida passagem pelos Estados Unidos, Dahrendorf regressa à Alemanha, a Saarbrücken, onde permaneceria por alguns anos. Em pouco tempo estaria de volta à vida política ativa, conciliando-a com a acadêmica. Em 1960, então precoce professor, foi convidado a proferir oficialmente uma palestra no congresso do SPD na cidade de Bad Godesberg sobre o governo representativo e as mudanças sociais. Na ocasião Dahrendorf salientou que o desenvolvimento da Alemanha no pós-guerra deveria ser pautado cada vez mais na insistência dos direitos individuais e do bem-estar do indivíduo, bem como na liberdade e consequente diminuição do papel do Estado como elemento essencial do desenvolvimento social.

Ao final de sua fala, defendeu de forma explícita que o êxito do SPD (historicamente o partido radical de esquerda na Alemanha) seria garantido somente se houvesse pronta transformação aos moldes liberais. Além de vaias, essa afirmação gerou um posicionamento oficial do partido de não compartilhamento das palavras e ideias do emergente palestrante. Dahrendorf, por sua vez, ainda no púlpito, respondeu que portanto, provavelmente, jamais tinha pertencido àquele partido. Data desse dia seu desligamento formal do SPD e dos socialistas.

O afastamento da vida política perdura, no entanto, apenas até o ano de 1967, quando ingressa no Partido Liberal Alemão (FDP). Segundo Dahrendorf, a adesão foi motivada primeiramente por decisão estratégica, uma vez que o Partido Liberal, embora com posições excessivas à direita, opunha-se à Grande Coalizãode Kiesinger e Brandt6. Em sua apreciação, tal coalizão, que aglutinava cerca de 90% do eleitorado e dos parlamentares, configuraria um retrocesso à ideia tradicional alemã - segundo a qual o conflito é um mal, de modo que é preciso estar de acordo sobre todos os assuntos e construir um amplo consenso, que representaria, portanto, um "retorno perigosíssimo a uma perspectiva política profundamente antiliberal, no sentido de contrária à liberdade" (Dahrendorf, 1981a, p. 3).

Dahrendorf oferecia uma vez mais sinais claros de pouca tolerância à homogeneização. Àquela altura, dizia, o FDP representava o único partido de oposição, com cerca de quarenta dos 520 deputados alemães, e sua adesão ter-se-ia dado por dois motivos: primeiro, a tentativa de romper o círculo de consenso e fomentar a dialética própria entre governo e oposição e, também, findar com os vinte anos ininterruptos de regime democrata-cristão, a fim de verificar a capacidade da democracia alemã de mudar sem o recurso da violência. A tentativa obteve êxito. Nas eleições de 1969, o FDP conseguiu superar, ainda que minimamente, os 5% exigidos como condição de sobrevivência aos partidos na Alemanha (obteve 5,8% dos votos).

Em 1968, Dahrendorf seria eleito deputado no Parlamento de Baden Wurttemberg. Nesse mesmo ano a coalizão chega ao fim, e os social-democratas unem-se aos liberais, saindo vitoriosos nas eleições de 1969. Dahrendorf ocupou o cargo de subsecretário do Exterior da República Federativa Alemã e tornou-se membro da Comissão Executiva da Comunidade Econômica Europeia entre 1970 e 1974, ano em que ingressou como reitor na London School of Economics, onde ficaria até 1984, afastando-se, com isso, do dia a dia da vida política alemã, sem no entanto dela desligar-se por completo.

Essa fase na London School of Economics coincide diretamente com sua mudança de paradigmas teóricos. O período em que viveu o dia a dia da política e das relações institucionais, e também refletiu sobre as possibilidades reais de aplicar os preceitos e ideais teóricos à realidade concreta, serviu-lhe de base aos escritos que se sucederam. Essas experiências, somadas à mudança de paradigmas teóricos, conferiram as características da segunda fase de sua produção intelectual.

 

Liberalismo e obras da maturidade

Por segundo Dahrendorf, ou Dahrendorf mais recente, entende-se um momento de redirecionamento das preocupações, deslocadas doravante para a percepção e a crítica da natureza dos conflitos contemporâneos, bem como das novas oportunidades advindas do alargamento daquilo que denominou chances de vida. A essa fase pertencem, substancialmente, suas obras A lei e a ordem (1987)7, O conflito social moderno: um ensaio sobre a política da liberdade (1992)8, Reflexões sobre a revolução na Europa (1991) e Após 1989: moral, revolução e sociedade civil (1997). As duas primeiras são as mais importantes e representativas desse período, ao passo que a terceira se constitui em um ensaio crítico sobre o desfecho do modelo soviético em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Já Após 1989 (cujo prefácio da edição brasileira foi escrito por Fernando Henrique Cardoso) reúne um conjunto de conferências, todas da década de 1990, em que Dahrendorf expõe caracteristicamente as preocupações - e convicções - da fase madura de sua reflexão.

Dos textos de teoria sociológica e política, em que, nos moldes acadêmicos, analisava teorias das quais discorda, o autor passa paulatinamente a escrever sobre a conjuntura concreta das sociedades em que vive, produzindo textos propositivos e de intervenção política. Não é sem propósito que, desde a década de 1970, quase a totalidade de seus escritos tenha sido elaborada na forma de conferências, pronunciamentos e artigos em periódicos, em especial jornais de grande circulação.

Não estamos afirmando que Dahrendorf escrevia, em sua primeira fase, sobre um mundo irreal, ou que sua produção tenha se metamorfoseado da água para o vinho. O fato, no entanto, é que, se suas preocupações não mudaram na essência - a defesa da sociedade aberta, o papel do liberalismo e o caráter central dos conflitos -, o discurso eminentemente sociológico deu lugar em definitivo ao político do dia a dia e à preocupação com o futuro imediato das sociedades ocidentais. Com isso, buscava deliberadamente se afirmar como intelectual na acepção mais fina que o termo poderia ter para ele: aquele que pensa a sociedade a fim de torná-la um lugar melhor e mais próspero para tantas pessoas quanto possível.

Essa passagem marca também uma mudança de foco: as conjunturas econômicas, com seus conceitos, definições e especificidades, assumem papel central, vale dizer, o signo da economia em expansão (e sua posterior crise) são fatores considerados por Dahrendorf como centrais e que permitem vislumbrar o futuro das sociedades abertas. Seguramente os textos da década de 1970 são os mais otimistas; os posteriores apresentam-se carregados de cores sombrias.

Em 1985, três anos antes da publicação de O conflito social moderno, lançava-se A lei e a ordem, fruto de quatro conferências. Embora seja um estudo que muito se aproxima a um ensaio, portanto de cunho mais descritivo, nele Dahrendorf oferece um texto erudito e fortemente argumentado sobre o futuro da ordem social e da liberdade (cf. Adorno, 1996).

O maior obstáculo para efetivar a política da liberdade seria, em sua argumentação, a erosão da lei e da ordem, cujo principal sintoma diria respeito à incapacidade do Estado de cuidar das pessoas e dos bens e de punir de maneira sistemática e eficaz as infrações às normas. As principais consequências desse cenário seriam a escalada do crime e a generalização do sentimento de insegurança na contemporaneidade.

Podemos dizer que A lei e a ordem é peça seminal para a compreensão do diagnóstico sobre a sociedade contemporânea empreendido por Dahrendorf, pois revela os limites da ordem social em sua argumentação, ao passo que a publicação de O conflito social moderno, a nosso ver sua magnum opus, representou o coroamento de sua carreira intelectual.

Nessa obra Dahrendorf ofereceu ao leitor acuradas análises sobre a conjuntura do pós-guerra e seus desdobramentos. A evolução das economias centrais e seus dados macroeconômicos, o avanço do emprego, as novas faixas de estratificação social e seus componentes, além de uma enormidade de outros fatores são amiúde discutidos e problematizados, mostrando claramente que, para ele, sem dados empíricos comprobatórios aliados às tendências estruturais a teoria se perde no vazio da especulação.

Da crítica sistêmica dos modelos que considerava utópicos (o marxismo e o parsonianismo), caminha-se para uma mudança na orientação teórica, agora moldada pelas questões da legalidade, da sociedade civil e cidadania, da lei e da ordem e do conflito (não mais o puramente de origem classista em termos antagônicos, mas, antes, o conflito resultante da luta pelo poder configurado em termos de autoridade).

Contudo, a temática da sociedade aberta(ou do liberalismo institucional) representa o fio condutorque confere unidade à obra, vale dizer, uma espécie de escopo que a permeia. No final das contas, o arsenal crítico de Dahrendorf apontou constantemente para alvos precisos: toda espécie de historicismo ou de teleologia histórica.

Em 1987, e pelos próximos dez anos, Dahrendorf seria decano/reitor do St. Anthony's College, na Universidade de Oxford. Em 1988, adotou a nacionalidade britânica, e foi feito Lord pela rainha Elizabeth II, adentrando a Alta Câmara do Parlamento Britânico em 1993 com o título de Barão Dahrendorf de Clare Market.

Data de 1990 o já citado ensaio Reflexões sobre a revolução na Europa, texto no qual, à maneira de Edmund Burke e seu Revoluções sobre a revolução na França (1982), Dahrendorf - escrevendo uma missiva fictícia a um amigo também fictício polonês - expõe apaixonadamente suas opiniões teóricas e filosóficas sobre o colapso do comunismo. O annus mirabilis de 1989 anunciava para Dahrendorf o "fim do vale de lágrimas" rumo à sociedade aberta. Trata-se, talvez, de seu texto mais popperiano. O argumento central no texto é o de que os acontecimentos que culminaram em 1989 representaram mais que um marco ideológico e histórico do triunfo das sociedades democrático-liberais. Apontaram, antes, para a derrota de todos os sistemas contrários à sociedade aberta, de todos os sistemas contrários à liberdade.

O caráter intrinsecamente caótico e incerto da realidade social constitui o legado maior do pensamento de Popper ao liberalismo de Dahrendorf. Embora devamos fugir das afirmações categóricas, e tendo em vista o conjunto de sua produção, ao que tudo indica foi realmente o liberalismo popperiano e sua sociedade aberta (cf. Popper, 1957, 1974) a influência mais aguda na obra do autor. A cultura extremamente individualista presente em Popper serviu-lhe, contudo, de visão de mundo, de filosofia da história, mas não de panaceia.

Em Dahrendorf, o alargamento das chances de vida, e com ele o futuro das sociedades democráticas, depende visceralmente tanto da exuberância econômica e da pluralidade política como do espraiamento do acesso aos bens por parte das populações fragilizadas, inclusive por medidas estatais, desde que estas não busquem o nivelamento das formas de vida. Com efeito, o tipo de liberalismo presente em Dahrendorf pouco tem a ver com Hayek, Mises ou Friedman. Ele se alinha, antes, com o pensamento liberal de autores como Laski, Bobbio ou Aron, à medida que busca as mesmas condições de partida com vistas a diferentes pontos de chegada. Nisso difere substancialmente, inclusive, de Popper.

Dahrendorf teve a honra, segundo suas próprias palavras, de escrever a história oficial da London School of Economics, numa edição comemorativa (1995). Vivia na Inglaterra e desenvolvia profícua colaboração intelectual em universidades espalhadas pelo mundo na condição de palestrante, além de colaborar regularmente com o diário espanhol La Vanguardia. Nos últimos anos foi também presidente do grupo Newspaper Publishing, que publica os jornais The Independent e The Independent on Sunday.

Recebeu em julho de 2007 o Prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, ao qual concorreu, por indicação, ao lado de nomes como o do filósofo alemão Rüdiger Safranski e o do linguista búlgaro Tzvetan Todorov. Era membro da Sociedade Anglo-Alemã, da Academia Britânica, da Real Sociedade das Artes Britânicas e da Sociedade Americana de Filosofia, entre outras instituições. Possuía diversos títulos honoríficos concedidos por universidades e instituições dos mais diversos países.

Em muitos de seus ensaios e conferências, Dahrendorf exaltava com orgulho a opção que fizera pela Grã-Bretanha. Não que renegasse sua origem germânica, mas asseverava que os ares britânicos, por assim dizer, preenchiam-lhe a vida com seus costumes e sua tradição política eminentemente liberal. Para Dahrendorf, há na história da Inglaterra uma tradição constitucional profundamente arraigada e protegida por costumes e instituições que confere a certeza de que ali qualquer um jamais será posto sob o jugo de governos arbitrários.

Isso teria a ver, na Grã-Bretanha,

[...] com a ausência da agourenta nuvem negra da dúvida, ou até mesmo do medo, que obscurece tanto da vida de outros países, por lembrar às pessoas as violentas tormentas do passado [...] é a folha corrida do país, principalmente a certeza [de] que, quaisquer que forem os sentimentos antiliberais que venham a se infiltrar nos debates e no comportamento, ao final, as pessoas não permitirão que a destruição da ordem liberal aconteça" (Dahrendorf, 1997, p. 112).

Alguns dizem que o autor foi seduzido pela formalidade britânica e seus charmes, bem como pela pompa e garbo característicos àquele que é feito Lord. Quando questionado, preferia definir-se apenas como um londrino.

Aqueles que sabem uma ou outra coisa sobre mim podem estar pensando: mas por que teria essa ave rara vindo hoje a Weimar? Um lorde britânico, mas com um nome obviamente alemão que há vinte anos vem dirigindo universidades em Londres e Oxford, um viajante que circula entre países e atividades diferentes. [...] Devido a todas estas mudanças, alguns me descrevem como o "epítome do europeu", o que não é totalmente incorreto. [...] Ao mesmo tempo, descrever minha vida particularmente europeia demonstra uma certa falta de imaginação. Afinal, não me mudei para a Inglaterra para passar alguns anos em outro país, na condição de um europeu alemão, mas sim porque me sentia em casa na cultura da vida britânica, como me sinto até hoje. Nunca neguei minha germanidade. [...] Venho, pois, aos senhores, como alguém que traz dentro de si duas culturas e, o que é mais, duas culturas inteiramente diferentes (Idem, pp. 215-218).

 

Considerações finais

Embora nunca tenha sido um teórico incurável (tal qual a imagem que Parsons tinha de si mesmo), Dahrendorf, que começou seus estudos nas letras clássicas e na filosofia, adentrou o discurso propriamente sociológico mesclando rara habilidade em trabalhar conceitos e aportes teóricos com dados empíricos. Afeito às análises estruturais, com aptidão ímpar em relacionar os processos históricos e políticos às suas posições teóricas, erigiu obra de grande envergadura.

Seu percurso intelectual, bem como o biográfico representam um testemunho de convicção política aliada à mais pura responsabilidade intelectual, constituindo, com efeito, obra orgânica permeada por temas que, embora aparentemente distantes, possuem um fio condutor, com especial ênfase para os textos da maturidade: a permanente construção de uma ordem social liberalem consonância com os desafios da sociedade contemporânea.

Dahrendorf foi um liberal reformista, e talvez a verdadeira emancipação do homem não fosse assunto de sua teoria e de suas preocupações, pois ele assumiu a perspectiva social e filosófica em que não há soluções finais em se tratando de sociedades humanas; o máximo a ser feito, sob o risco de cair na utopia ou no totalitarismo, são arranjos provisórios de maneira a domesticar, na linguagem kantiana que costumava evocar, a "insociável sociabilidade do homem" (Kant, 1986).

Muitas críticas foram elaboradas à teoria e ao liberalismo de Ralf Dahrendorf, inclusive de minha parte. Contudo, gostaria de deixar registrado aqui a admiração e o mais profundo respeito intelectual e humano, e ressaltar a grandeza de sua obra, cujas características mais notáveis são a coerência e o agudo senso humanístico.

Jactava-me de ter feito a primeira tese no Brasil, que em breve virá a lume em livro, sobre o conjunto da obra de um filósofo e sociólogo liberal inglês de origem germânica que, ainda por cima, estava vivo. Não está mais...

 

Referências Bibliográficas

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Texto recebido em 5/7/2010 e aprovado em 15/8/2011.

 

 

Antonio Carlos Dias Junior é doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente realiza estágio doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales - Paris. E-mail: <acdiasjr@gmail.com>

 

 

* Este texto baseia-se, com alterações, em fragmentos dos capítulos 1 e 2 da dissertação de mestrado O liberalismo de Ralf Dahrendorf (2007), Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp. Encontra-se no prelo, pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, o livro O liberalismo de Ralf Dahrendorf: classes, conflito social e liberdade.
1. Trata-se de um estudo vertical sobre a ideia de justiça e de verdade em Marx, intitulado, no original, Der Begriff des Gerechten im Denken von Karl Marx (O conceito do justo no pensamento de Karl Marx), depois convertido no livro Marx in persppektive (Die Idee des Gerechten im Denken von Karl Marx), sem tradução para o português.
2. A edição original em alemão,Soziale Klassen und Klassen-Konflikt in der Industriellen Gesellschaft, é de 1957. O próprio Dahrendorf fez a tradução/revisão/ampliação para a edição em inglês (de 1959), da qual a tradução brasileira é fruto. Cabe ressaltar que Dahrendorf escreveu a obra em 1954-1955, como licenciamento na Universität des Saarlandes, em Saarbrücken, aos 26 anos, dois anos antes, portanto, de sua primeira edição, ampliada.
3. A edição original da obra em alemão Gesellschaft und Freiheit: Zur sociologischen Analyse der Gegenwart é de 1961.
4. A edição original em inglês Essays in the Theory of Society é de 1968.
5. Outra tradução deste texto está coligida em Ensaios de teoria da sociedade (1974).
6. Trata-se da Grande Coalizão de governo na Alemanha, em dezembro de 1966, entre o bloco democrata-cristão (Christlich-Demokratische Union, de Kiesinger, e Christlich-Soziale Union, de Strauss) e o Partido Social-Democrata de Brandt.
7. A obra foi apresentada inicialmente em inglês, sob o título Law and order em 1985.
8. Tradução para o português do original em inglês The modern social conflict: an essay on the politics of liberty, publicado em 1988.