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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.23 no.2 São Paulo Nov. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702011000200014 

RESENHAS

 

 

Luiz Armando Bagolin

Docente e pesquisador do Instituto de Estudos Brasileiros da USP

 

 

Charles Baudelaire. O pintor da vida moderna. Belo Horizonte, Autêntica, 2010, 152 pp.

"O Sr. G. não gosta de ser chamado de artista. Não tem ele um pouco de razão? Ele se interessa pelo mundo inteiro; quer saber, compreender, apreciar tudo o que se passa na superfície de nosso esferoide. O artista vive muito pouco, ou mesmo nada, no mundo moral e político". O Sr. G. a quem Baudelaire se refere no trecho acima citado e a quem elogia ao longo de seu livro O pintor da vida moderna, recentemente publicado em língua portuguesa numa bela edição ilustrada, é Ernest-Adolphe-Hyacinthe-Constantin Guys (1802-1892), artista francês especializado em ilustrações jornalísticas, assim como redator e diretor do Illustrated London News, em meados do século XIX. Tratando-se a si mesmo como "artista, ainda que de contrabando" em carta enviada ao amigo e colaborador Paul Gavarni, Guys declarava seu interesse, sobretudo, pela crônica da vida quotidiana, em detrimento da arte, porquanto esta, da vida verdadeira, na verdade, estava sempre muito distante. Interessaram-lhe, sobretudo, os acontecimentos políticos e mundanos, os bastidores do poder, da jurisprudência, a guerra, a sorte das mulheres fáceis, "manteúdas" - que se propôs a interpretar com a pena e o pincel de modo compendiário -, a linha apenas dispondo rapidamente o assunto que, depois, era inundado por uma aguada pardacenta da qual se sobressaíam alguns toques de cor matizada, vibráteis, amarelos, azuis, lilases.

Baudelaire sabe não se tratar de um artista educado rigorosamente dentro dos moldes da academia francesa, l'Institute, ou o que dele restou e ainda vigia à época, se arrastando pelos salons. É exatamente por isso que se interessa por esse artista sem pretensões, incógnito nomeado pelo cognato g, pela sua figura e posição, ou seja, um artista cuja vida se assemelha à daqueles a quem se propõe a retratar. O que lhe falta em estudo e disciplina sobra-lhe em "curiosidade", o ponto de partida do gênio, para Baudelaire, feliz ponto, do Sr. G.

O seu pensamento volta-se, insaciável, para a busca do sensível, do carnal, do frêmito e da matéria provisória da qual todos nós somos feitos. A curiosidade, propiciada muitas vezes pela "convalescência", vê nascer naturalmente o desejo pela comunhão com o mundo, com a vida exterior, por detrás da vidraça, para longe do leito, com a multidão, com o rosto de um desconhecido, com o afã de retratá-lo, e a tudo. A convalescência aguça a curiosidade que, para Baudelaire, é estado permanente de espírito no Sr. G. Assim como na infância, pois a criança interessa-se vivamente por tudo ao seu redor, na convalescência olha-se a tudo como se fosse esta ocasião a primeira vez, ou a última. Por isso, o gênio, segundo o autor, difere da criança apenas no que concerne à solidez, à resistência do sistema nervoso de ambos, forte no primeiro, fraca no segundo, pois, como diz, "O gênio não é senão a infância controladamente recuperada". O Sr. G. é um eterno peregrino, um viajante que faz quotidianamente a travessia pelo "grande deserto dos homens", embora não possa também, segundo Baudelaire, ser considerado simplesmente um flâneur. Recorrendo a La Bruyère, o autor o categoriza como "puro moralista pitoresco", pois o Sr. G. em sua aversão incontornável ao "reino impalpável do metafísico" também não admitiria ser tratado como um filósofo.

Dotado de uma sensibilidade ativa, não indiferente ao mundo que o cerca e no qual se move, sua profissão consistiria mais "em esposar a multidão" sendo a multidão o seu domínio "como o ar é o do pássaro, a água, o do peixe", expressando o seu olho desejoso, pelo deslocamento do olhar e de seu corpo, a condição inelutável de amante que ama amar a multidão. A luz traz as delícias como de um espetáculo que se apresenta diariamente nas ruas aos olhos de qualquer um: "lindas equipagens, os cavalos imponentes, o asseio impressionante dos cavalariços, a destreza dos pajens, o meneio do andar das mulheres, as belas crianças, felizes para a vida e pelas boas roupas; em uma palavra, com a vida universal [...]". Essa nova memória, ou melhor, memória mais conveniente, é denominada por Baudelaire de "modernidade": "A modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente, a metade da arte, cuja outra metade é o eterno e o imutável", diz o autor, sempre propondo que para cada pintor antigo houve "uma modernidade". O autor faz o Sr. G. ser guiado pela natureza como observador da vida antes que este inventasse os meios para expressá-la, o que resultou, depois, em "barbárie" como efeito de uma arte genuína avessa aos academicismos, imediatamente verossímil em relação à impressão das exterioridades que visou representar, "lisonja à verdade', como diz Baudelaire em lisonja a essa arte. A "barbárie" opera como conceito duplo, pois implica, de um lado, a acepção de um artista não disciplinado, não moldado ou educado previamente, o seu olhar não tendo sido domesticado, é selvagem ou ingênuo, não importa, mas não foi arrefecido ou terminado segundo modelos. De outro lado, mas numa relação de subordinação em relação a esse olhar "bárbaro", "sintético", "infantil", há uma execução que lhe é concernente, pois a mão marca rapidamente com o lápis e o pincel as linhas principais da representação ou cena, "os pontos culminantes ou luminosos de um objeto" como impressões que serão completadas mnemonicamente pelos espectadores. Depois de convertidos para gravuras que ilustram notícias em jornal, os desenhos ou esboços do artista vão se acumulando às centenas, aos milhares, sendo vendidos a preço irrisório, por vezes, em lotes, para poucos interessados ou para revenda por marchands. Não provindo, como a fotografia, de uma visão instantânea que pode ou não ser recomposta, esses desenhos são forçosamente trabalhados e retrabalhados de acordo com a visão moral consentida para o gênero crônica pela redação londrina que os edita, portanto, oferecendo-se em disposição para uma elocução que os seleciona inscrevendo-os segundo a justa medida quanto ao tipo de leitura demandada pelos leitores do jornal inglês, o contratante do Sr. G. A abundância de desenhos do Sr. G. deixados para trás referida por Baudelaire, portanto, não deve ser lida, como uma primeira opinião poderia sugerir, como algo que o desabone como artista, mas, ao contrário, como condição que encarece a eleição da visão mais sintética segundo os critérios estabelecidos e compartilhados pela audiência, e que minimiza a ação do "eu", pois indissociável dessa mesma audiência, não veria o artista sentido em se apresentar de outro modo que não fosse pela posição de um quase incógnito, ou por Sr. G., como Baudelaire o apresenta.