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Tempo Social

Print version ISSN 0103-2070

Tempo soc. vol.24 no.1 São Paulo  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-20702012000100017 

RESENHAS

 

Clovis Carvalho Britto

Professor da Universidade Estadual de Goiás e do Centro de Ciências de Jussara

 

 

Flávio Munhoz Sofiati. Religião e juventude: os novos carismáticos. São Paulo, Ideias e Letras, 2011, 275 pp.

 

O operar do espírito: juventude e pentecostalismo católico no Brasil

A tese elaborada por Flávio Munhoz Sofiati no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo, ora convertida em livro - Religião e juventude - oferece possibilidades analíticas que se expandem para além da sociologia da religião. Contribui, seguramente, para a investigação das relações entre juventude e religiosidades em suas nuanças, inspirando tessituras teórico-metodológicas para outras disciplinas das humanidades. É por essa razão que destacamos aqui o pentecostalismo católico no Brasil. Não apenas por referência ao objeto da obra em análise, a Renovação Carismática Católica (RCC), mas, sobretudo, para ressaltar que o estudo realizado no interior de São Paulo logra dialogar com outras práticas e representações que envolvem os jovens carismáticos no Brasil. Os estudos de caso eleitos pelo autor são representativos das produções simbólicas nesse campo, o que dá consistência a seu arcabouço teórico-metodológico e às relações estabelecidas entre as dimensões macro e micro dos fenômenos observados. Entre o igual e o diverso, a análise da trajetória de grupos de jovens carismáticos contribui de forma relevante para recuperação de parte significativa da história do campo religioso. O foco sobre os "novos carismáticos" permite abordar tanto as relações entre geração e religião (trata-se da juventude carismática), como uma religiosidade relativamente nova no quadro das práticas de religare no Brasil.

A pesquisa apresenta as práticas para conquista de novos fiéis, bem como as formas de adesão por eles, que configuram as disputas no campo religioso. Nessa descrição, a confluência entre as principais referências teóricas do autor e os procedimentos teórico-metodológicos de outros, como Pierre Bourdieu (1998, 2002, 2007), Karl Mannheim (1982) e Zygmunt Bauman (2001, 2007) é perceptível. De Bourdieu, vem a própria noção de campo religioso e o modo como se configuram as relações entre os agentes, em especial os jovens fiéis carismáticos, os padres e as lideranças leigas. A comparação entre estratégias adotadas pelos praticantes, para sua inserção e distinção no campo de produção simbólica, evidencia especificidades e semelhanças entre elas. É possível identificar os capitais herdados, os recursos empregados com ou sem êxito, as relações e os investimentos travados entre agentes, o modo como determinadas escolhas religiosas impactam trajetórias individuais, a recepção e estratégias para a fabricação e perpetuação da crença no pentecostalismo católico. O destaque para as práticas religiosas da juventude carismática, por sua vez, remete a Mannheim. Esse diálogo com o autor alemão é relevante em virtude do uso da categoria geração, por meio da definição de cinco marcadores de mudanças geracionais: irrupção constante de novos portadores de cultura, saída constante de antigos portadores de cultura, limitação temporal da participação de um grupo em determinado contexto histórico, necessidade de transmissão dos bens culturais e caráter contínuo das modificações geracionais (cf. Weller, 2010). No mesmo sentido, Breitner Tavares (2010) afirma que, para Mannheim, o conceito de geração abarca tanto uma noção qualitativa de tempo como a relação entre esse tempo e os processos de mudança social. Daí que as interações inter e intragrupos juvenis sejam tão importantes nos estudos sobre juventude.

Outra aproximação possível que a obra sugere envolve as motivações para a adesão da juventude ao pentecostalismo católico e a ideia de modernidade líquida desenvolvida por Bauman (2001). Segundo ele, a fluidez, propriedade dos líquidos e gases, é a principal metáfora para o estágio presente da era moderna. Os líquidos não mantêm sua forma com facilidade, não fixam o espaço nem prendem o tempo, e se movem facilmente: fluem, escorrem, esvaem-se, transbordam, espraiam, não são contidos, contornam obstáculos, dissolvem outros e invadem o caminho. A "modernidade líquida" teria produzido profundas mudanças na condição humana e em suas narrativas, já que ocasiona a desintegração da rede social e a derrocada das agências efetivas de ação coletiva. A nova leveza e fluidez do poder apresentam-se com contornos cada vez mais móveis, escorregadios, evasivos e fugitivos e, para que o poder tenha liberdade de fluir, "o mundo deve estar livre de cercas, barreiras, fronteiras fortificadas e barricadas. Qualquer rede densa de laços sociais, e em particular uma que esteja territorialmente enraizada, é um obstáculo a ser eliminado" (Idem, p. 22). Nesse aspecto, a pesquisa de Flávio Sofiati suscita uma reflexão sobre em que medida a Igreja reproduz ou se torna um espaço de refúgio para essa liquidez.

Trata-se de considerar a juventude carismática como objeto analítico para a compreensão das relações juvenis no interior do pentecostalismo católico. A pesquisa de Sofiati aprofunda-se nos meandros do movimento, buscando identificar o que mobiliza a internalização das propostas dessa corrente por seus jovens adeptos. Para tanto, o autor escolheu o "Por hoje não vou mais pecar" (PHN), movimento juvenil da RCC - originário da Comunidade de Vida e Aliança Canção Nova - que, além de destinado a esse público específico, contempla, em suas propostas, alguns dos eixos centrais da religiosidade que enfatizam a cura, o uso dos meios de comunicação de massa, o exorcismo, além de regras mais rígidas em relação à sexualidade. Desse modo, a decisão de acompanhar a trajetória desse movimento católico juvenil na cidade de Araraquara, interior de São Paulo, foi estratégica por permitir a visualização de sua inserção em uma cidade de porte médio, envolvendo uma geração específica, na maioria dos casos oriunda de um contexto que pode influenciar a busca por uma religião: ausência de educação formal, restrição de emprego e esvaziamento ideológico da política: "Parte-se da premissa de que, no caso brasileiro, existe uma relação causal entre as dificuldades impostas pela sociedade atual e a capacidade de atração das igrejas e correntes pentecostais" (p. 19).

A etnografia realizada junto a jovens identificados com a espiritualidade do carismatismo desvela, assim, as formas pelas quais a religiosidade vem sendo ressignificada por grupos juvenis. Nesse empreendimento, embora os autores anteriormente citados sejam referências subjacentes ao trabalho, o pesquisador baseou-se nas orientações teórico-metodológicas de Max Weber e de Antônio Gramsci, além de incorporar também os estudos de Marialice Foracchi (1972), conformadores de uma sociologia da juventude no Brasil. Concebida como fase (e estilo) da vida e força de renovação, a juventude foi trabalhada pelo pesquisador como categoria que acompanha mudanças sociais, sendo seu foco os fiéis entre 15 e 30 anos de idade que participam de atividades direcionadas para a juventude na Renovação Carismática.

Os resultados da investigação foram organizados em três partes. A primeira empreende uma espécie de sociologia da juventude católica, com destaque para os jovens brasileiros e para os conceitos de juventude e religião. Trata-se, assim, de efetuar uma espécie de arqueologia-genealogia dos movimentos de juventude organizados no Brasil e das instituições religiosas como principais organizações juvenis na contemporaneidade, enfatizando a relação entre situação social e adesão religiosa. A segunda parte analisa o cenário religioso brasileiro a partir das relações entre secularização e desencantamento do mundo e das tendências de dessecularização ou contrassecularização, demonstrando como ocorrem as rejeições ou as adaptações nos modos de instituição das religiosidades e as formas de configuração dos pluralismos no interior do catolicismo. Merece destaque o esforço metodológico promovido no intuito de apresentar as tendências do catolicismo brasileiro, os cenários apontados por João Libâneo e os modelos tecidos por Leonardo Boff marcados pela Igreja da Instituição, da Pregação, da Práxis, Libertadora e Carismática. Esta última sob o triunfo do carisma, da individualidade e da emoção. Em suas avaliações, Sofiati prefere a expressão "tendências orgânicas", definida por Michel Löwy, já que muitas vezes os grupos possuem características de dois ou mais cenários ou modelos de catolicismo. Tendências reconhecidas por atitudes tradicionalistas (Opus Dei, Tradição Família e Propriedade, Arautos do Evangelho); reformistas (congregações como os maristas, redentoristas, salesianos e lassalistas, que trabalham diretamente com educação); radicais (ligados à Teologia da Libertação, como as CEBs e Pastorais Sociais); e modernizadoras-conservadoras (na qual está inserida a Renovação Carismática). Os resultados da pesquisa etnográfica contribuem para essa tipologia ao apresentarem, por exemplo, diferenças de perspectivas entre jovens católicos identificados com a espiritualidade da Teologia da Libertação e do carismatismo (cf. Sofiati, 2012).

A última parte da pesquisa centra-se nas análises sobre a juventude carismática católica, tendo o movimento Por Hoje Não como objeto de um estudo de caso que explicita fundamentos teológicos e morais, vertentes e disputas internas. Em outras palavras, explicita as relações entre juventude e carismatismo. O PHN é liderado por um leigo e dirigido para leigos, respaldando-se em preceitos morais rígidos relacionados com a vivência da fé, da afetividade e da sexualidade e interpretando o sentido do pecado na vida do jovem carismático. Desenvolvendo discussão já abordada em publicação anterior, Sofiati analisa as dificuldades enfrentadas pelo movimento para manter o jovem obediente à proposta de castidade e perscruta as formas do processo de passagem - entrada e saída - pela juventude na RCC (cf. Sofiati, 2010). Assim, guia o leitor pelos palcos e bastidores do grupo de oração Novo Pentecostes, na cidade de Araraquara, e da Comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista, também no interior de São Paulo. Demonstra, nesse aspecto, o lugar ocupado pelos jovens carismáticos na economia de bens simbólicos a partir do consumo de experiências religiosas que prometem uma "nova vida". É por isso que o autor, após tecer interessantes questionamentos e associações entre juventude e religiosidade, encerra a obra com uma questão provocativa: quem são os jovens carismáticos? A leitura desse trabalho acurado leva não só a algumas respostas, mas também a problematizar questões até então pouco suscitadas por outros pesquisadores dessa temática. Encoraja sobretudo a formulação de novas questões neste profícuo campo de pesquisa. Funciona, por fim, como um convite para a realização de trabalhos que tematizem o modo como jovens (e os "jovens de espírito") vivenciam a fé e como esta, de foz a nascente, contribui para o estabelecimento de sociabilidades neste "operar do Espírito".

 

Referências Bibliográficas

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