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Tempo Social

versão impressa ISSN 0103-2070versão On-line ISSN 1809-4554

Tempo soc. vol.28 no.1 São Paulo jan./abr. 2016

https://doi.org/10.11606/0103-2070.ts.2016.107465 

Review

Jürgen Kaube. Max Weber: Ein Leben zwischen den Epochen . Berlim, Rowohlt, 2014. 494 pp.

Sérgio da Mata1 

1Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Ouro Preto

Kaube, Jürgen. Max Weber: Ein Leben zwischen den Epochen. Berlim: Rowohlt, 2014. 494p.


Max Weber não é o único a reclamar para si, como disse certa vez Wilhelm Hennis, o privilégio de ter uma "indústria" de publicações a seu serviço (Hennis, 2003, p. 160). Os números impressionam, sobretudo se pensarmos neste gênero sempre tão demandado, importante e difícil como é o das biografias. A história das histórias de vida do autor de A ética protestante e o espírito do capitalismo se inicia na Alemanha com Marianne Weber e Eduard Baumgarten, passa às mãos de autores norte-americanos como Reinhard Bendix, Fritz Ringer e Guenther Roth, para então retornar à sua terra natal com os livros de Joachim Radkau, Dirk Käsler e Jürgen Kaube

Depois de uma verdadeira avalanche de publicações, precipitada pelo jubileu dos 150 anos de nascimento de Weber, o leitor tem o direito de se perguntar o que se pode encontrar de novo em mais uma biografia. No que diz respeito ao livro de Kaube, um competente jornalista do diário Frankfurter Allgemeine Zeitung, a resposta, infelizmente, não é das mais animadoras. Formado em sociologia e influenciado pela obra de Niklas Luhmann, Kaube escreveu uma biografia previsível e, sob muitos pontos de vista, monótona. Nele faltam a paixão devota de Marianne Weber (2003), o esforço de documentação de Baumgarten (1964), o gosto pela minúcia e pelas conexões intelectuais de Roth (2001), a elegante sobriedade de Bendix (1986) e os saltos interpretativos de Radkau (cf. Mata, 2010).

Não que a vida pessoal de Weber contenha episódios extraordinários a oferecer. Por que ele haveria de fugir ao padrão médio dos eruditos em geral, tanto os de ontem como os de hoje? O desafio para o autor estaria justamente em encontrar o nexo entre vida e obra, pois - tal como em Immanuel Kant - o que sobra de extraordinário em uma está inteiramente ausente na outra. O biógrafo que assume para si o risco de percorrer caminhos já tão frequentados como os que compõem a trajetória de Weber não deveria dar-se por satisfeito senão quando estivesse em condições de surpreender o leitor.

O timing e os interesses das grandes casas editoriais, evidentemente, conspiram contra tais pretensões. De forma que o livro de Kaube é apenas mais uma vítima de tudo o que se pode esperar de um livro produzido com os olhos postos no calendário. Tal como na biografia de Radkau, apenas de maneira ainda mais tímida, Kaube emprega amplamente os estudos críticos produzidos pelos editores da Max Weber Gesamtausgabe. Que a edição crítica das obras de Weber tenha colocado à nossa disposição uma quantidade de informação sem precedentes - basta pensar na imensa correspondência pessoal de Weber - e que, portanto, seja impossível ao biógrafo ignorar os avanços que se processam na Weberforschung, é ponto pacífico. A questão é saber até que ponto as últimas três biografias publicadas (Radkau, Kaube e Käsler) não se tornaram demasiado dependentes dos "estudos weberianos", a ponto de estabelecerem como seu horizonte último não uma vida, mas uma obra. Em vão o leitor fica à espera de algo que, supostamente, apenas o biógrafo lhe poderia dar.

Outro aspecto que a nosso ver prejudica o livro de Kaube é sua tendência, igualmente presente em Radkau, a superestimar as possibilidades da abordagem sociológica justamente ali - dada a natureza essencialmente idiográfica da démarche biográfica - onde ela menos tem a nos oferecer. Isso porque se algo violenta o gênero biográfico, é menos a "ilusão" de que falava Bourdieu, do que a ilusão holística. Não são poucas as perguntas que Kaube, como seus antecessores, deixa sem resposta. Em que pese o notável trabalho de pesquisa realizado há alguns anos por Roth (2001, pp. 371-445) a respeito de Max Weber senior, o que, na relação entre pai e filho, nos ajuda a entender a personalidade e até mesmo os dilemas do último? O que pensavam os políticos alemães das ambições políticas de Weber? Como entender as posições ambivalentes de Weber diante do esteticismo elevado à condição de visão de mundo, tal como representado pelo círculo do poeta Stefan George? Uma diferença relativamente banal de opiniões durante a Primeira Guerra Mundial seria suficiente para explicar o rompimento entre Weber e Ernst Troeltsch, um dos poucos a quem se referiu como amigo?

Em vez de tentar dar uma resposta a estas e muitas outras questões ainda pendentes, Kaube cumpre um figurino que se poderia chamar, sem o receio de parecermos injustos, de óbvio. As estações da vida de Weber são pacientemente percorridas: a juventude do rapaz pouco sociável mas extraordinariamente talentoso, o contexto familiar no âmbito do "protestantismo culto" e sua veneração ao ideal da Bildung, os excessos alcoólicos nos tempos da graduação em Heidelberg, a história algo artificiosa que envolve seu noivado e casamento com Marianne, as primeiras publicações, a precoce conquista da cátedra em Freiburg, o rompimento com o pai, o advento da misteriosa crise nervosa a partir de 1897, e assim sucessivamente.

Mas como o acento muda de autor para autor, seria injusto dizer que a experiência de ler Kaube se resume a um simples déjà-vu. Ao narrar a primeira parte da vida de Weber, ele dá mais atenção ao papel desempenhado por Marianne, enquanto Radkau parece interessar-se mais pela figura de Hermann Baumgarten, tio de Weber e professor de história em Estrasburgo. A descrição do triângulo Paul Göhre-Weber-Marianne (pp. 92-93) é particularmente interessante e mostra como, no que toca à escolha do cônjuge, Weber nem de longe fez jus à fama de "individualista" com que se costuma brindar seu método sociológico. Outro ponto positivo é que Kaube explora com maior detalhe o importante estudo de Weber de 1892 sobre a situação dos trabalhadores agrícolas alemães.

Uma biografia de Weber não seria uma biografia de Weber caso não acenasse, em algum momento, com alguma hipótese inaudita, e também aqui Kaube se manteve fiel à tradição: a tese central da Ética protestante teria nascido não na capital da Prússia, em Heidelberg ou durante sua viagem à Escócia, mas em meio às suas longas estadias na capital do catolicismo, Roma (pp. 138-141). Tal hipótese, levantada há pouco também por Peter Hersche (2014, pp. 145-158), ampara-se, porém, mais em ilações que em evidências. Uma arqueologia bem-sucedida do surgimento da "tese da Ética protestante", esse elo perdido dos estudos weberianos, ainda espera por seu Cristóvão Colombo.

Capítulos inteiros do livro poderiam ser deixados de lado, como, por exemplo, os de número 11 e 12. Num se exploram mais uma vez os contrapontos Weber × Simmel e Weber × Sombart; noutro, aprendemos uma vez mais o que são o ascetismo intramundano, o puritanismo, os efeitos econômicos da ética religiosa. No afã de tudo abarcar, mas carente da precisão cirúrgica dos tipos ideais, Kaube comete algumas simplificações perigosas. Ele afirma que, na primeira parte de sua trajetória intelectual, Weber tivera por tema central o capitalismo (p. 257). Não nos parece que seus escritos apresentem àquele momento tal grau de homogeneidade temática. O capitalismo não desfruta ali de uma centralidade maior do que a dinâmica das estruturas agrárias, a análise comparada da evolução das formas de trabalho e até mesmo das liberdades políticas, ou ainda a história dos efeitos socioeconômicos das ideias religiosas. Em poucos autores como Weber a pluralidade no campo teórico-metodológico é acompanhada de forma tão impressionante pela pluralidade no plano temático. Nisso, pode-se dizer - e ao contrário de Marx - que Weber continua a ser um autor de nosso tempo. Provavelmente por estar demasiado preso à leitura da famosa monografia de Wolfgang Mommsen (1990), Kaube cede à tentação de incluir Robert Michels, Georg Lukács e Carl Schmitt entre os "discípulos" de Weber (p. 323). Todos os três, como se sabe, evoluíram para posições francamente antidemocráticas no período do entreguerras. Daí se depreende que o próprio Weber supostamente alimentaria convicções antidemocráticas, "decisionistas". A construção desse tipo de filiação, evidentemente seletiva, é bem pouco inocente. Seu interesse é retrospectivo, já que, como reza o Evangelho de Mateus, é pelos frutos que se conhece a árvore. Teria sido importante lembrar, porém, que jovens como Paul Honigsheim e Karl Loewenstein, estes discípulos no sentido mais literal do termo, alimentavam posições diametralmente opostas às da tríade mencionada. De resto, basta a leitura dos escritos publicados por Weber entre 1904 e 1906 para que suas convicções liberais e perfeitamente burguesas se evidenciem com a clareza necessária (cf. Weber, 1982; Weber, 2005).

Como quer que seja, e não obstante a ausência de quaisquer elementos novos, é difícil não se sentir atraído pela narrativa dos impressionantes três últimos anos da vida de Weber. Estes talvez bastassem para justificar uma biografia. É quando têm início os famosos encontros de intelectuais no castelo de Lauenstein, aos quais Weber se referiu como um verdadeiro "supermercado de visões de mundo" (p. 368). É quando ele profere a extraordinária conferência Ciência como vocação (1917) e quando produz os seus mais notáveis textos de intervenção política - culminando com "Parlamento e governo numa Alemanha reconstruída" (1918) e Política como vocação (1919). É quando Weber presencia a derrota alemã, se vê confrontado com a possibilidade de uma revolução socialista em seu país e quando decide retornar à atividade docente. As belas passagens da Zwischenbetrachtung ("Consideração intermediária") sobre a paixão adquirem, aqui, seu sentido mais pleno, pois, como se sabe, um dos motivos para que aceitasse a nomeação para a Universidade de Munique atendia pelo nome de Mina Tobler. O leitor quase enrubesce diante do tom desajeitado e algo patético com que o grande erudito alemão se dirige à amada, valendo-se de um vocabulário que mais parece saído de Tristão e Isolda. Weber se declara um "vassalo" da jovem pianista, a quem declara sua "submissão absoluta"; o que leva Kaube a concluir com propriedade que "Weber, que colocou o desejo de submissão no centro de sua sociologia da dominação, faz um uso intensivo desta semântica em suas cartas de amor" (p. 399). É quando, enfim, ele tem seus encontros pessoais com duas estrelas em franca ascensão: o autodeclarado "apolítico" Thomas Mann (fins de dezembro de 1919) e o profeta da decadência Oswald Spengler (fevereiro de 1920).

Depois de ver frustradas todas as suas pretensões de participação no jogo partidário, assistindo à derrocada de um país em que tudo fora esperança mas que agora parecia cada vez mais enredado no irracionalismo político, na anomia social e na perda de senso de realidade dos intelectuais, é compreensível, ao menos para nós, brasileiros de 2015, que Weber tenha reagido como reagiu: "Da política, estou mais distante do que nunca. Enquanto eu viver, não há nada a se fazer ali - e com isso, basta" (p. 411). Com uma ressalva, ainda no mesmo contexto: "Mas se um dia o que estiver em questão for reconduzir o Reich alemão à sua antiga glória, estou disposto a me aliar a todos os poderes da terra e até com o capeta em pessoa, só com a burrice é que não" (Baumgarten, 1964, p. 555).

Resta saber se ele se manteria fiel a estas palavras caso tivesse vivido três anos mais, o suficiente para assistir à súbita aparição de um ainda obscuro ex-combatente austríaco na arena política daquela mesma Munique que um e outro, Weber e Hitler, haviam elegido como Heimat.

Referências Bibliográficas

Baumgarten, Eduard. (1964), Max Weber. Werk und Person. Tübingen, J. BC. B. Mohr. [ Links ]

Bendix, Reinhard. (1986), Max Weber, um perfil intelectual. Brasília, Editora unb. [ Links ]

Hennis, Wilhelm. (2003), Max Weber und Thukydides. Tübingen, Mohr Siebeck. [ Links ]

Hersche, Peter. (2014), "Der Romaufenthalt (1901-1903) und Max Webers Verhältnis zum Katholizismus". In: Hersche, Peter. Max Weber in der Welt. Rezeption und Wirkung. Herausgegeben von der Max Weber Stiftung.. Tübingen, Mohr Siebeck [ Links ]

Mata, Sérgio da. (2010), "Joachim Radkau tenta escrever a biografia 'definitiva' de Max Weber". História da Historiografia, 4: 358-365. [ Links ]

Mommsen, Wolfgang. (1990), Max Weber and German politics (1890-1920)Chicago, University of Chicago Press. [ Links ]

Roth, Gunther. (2001), Max Webers deutsch-englische Familiengeschichte 1800-1950.. Tübingen, Mohr Siebeck [ Links ]

Weber, Marianne. (2003), Weber: uma biografia. Niterói, Casa Jorge Editorial. [ Links ]

Weber, Max. (1982), "Capitalismo e sociedade rural na Alemanha". In: Gerth, Hans & Mills, Wright (eds.). Max Weber: ensaios de sociologia. Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan. [ Links ]

Weber, Max. (2005), Estudos políticos: Rússia 1905 e 1917. Rio de Janeiro, Azougue. [ Links ]

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